A discussão de uma política de uma renda básica não é recente, e por isso teve seus fundamentos elaborados ao longo do processo de formação da humanidade como conhecemos hoje. Assim, para se entender a viabilidade, a necessidade desse tipo de programa, é importante analisar o processo histórico que findou no atual contexto de extrema desigualdade social, bem como na recente política de Auxílio Emergencial do Governo Federal brasileiro, utilizada como meio de enfrentamento à crise provocada pela COVID-19.
Pode-se dizer que o caso mais notório de um programa de distribuição de renda já executado no mundo foi o adotado no Estado do Alasca, nos EUA. O projeto foi pensado e executado por Jay Hammond, governador do Estado no ano de 1976, que
conseguiu resultados até então inimagináveis na redução dos índices de desigualdade entre ricos e pobres (SILVA, 2009).
Antes de se tornar governador, Jay desenvolveu um projeto com as mesmas diretrizes da Renda Básica de Cidadania, mas com um impacto apenas local, na cidade em que era prefeito. No caso, ao notar que grande parte das riquezas ali produzidas advinham da pesca, ele levou à população uma proposta de taxar essa produção para a criação de um fundo monetário que pertenceria a todos. Mesmo com a resistência de alguns moradores, o projeto foi um sucesso (SILVA, 2009).
Ao assumir o governo do Alasca, ele encontrou nas reservas de petróleo recém- descobertas um meio para pôr em prática o seu plano da criação de um fundo que pudesse garantir determinada renda mínima a todos os cidadãos daquele Estado. Assim, a Lei que instituiu o programa destinou 25% do faturamento da exploração do minério para os investimentos em títulos de renda fixa, empresas e em empreendimentos imobiliários. Desse modo, já no início dos anos 1980, o fundo contava com 1 bilhão de dólares. Com essas aplicações a longo prazo, mesmo com as crises financeiras, o projeto se manteve e garantiu resultados excelentes, os quais Eduardo Suplicy destaca:
Por ter distribuído cerca de 6% do Produto Interno Bruto ao longo dos últimos 26 anos a todos os seus habitantes ali residentes há um ano ou mais – são cerca de 700 mil atualmente, dos quais 611 mil cumpriram aquele requisito em 2008 –, o Alasca se tornou o mais igualitário dos 50 Estados norte-americanos. Ao longo do período 1989-99, enquanto as famílias 20% mais ricas nos EUA tiveram um crescimento da sua renda familiar per capita de 26%, as famílias 20% mais pobres tiveram um crescimento de 12%. Já no Alasca, graças aos dividendos proporcionados igualmente a todos os habitantes, o crescimento da renda familiar per capita das famílias 20% mais ricas foi de 7%; portanto, cresceram. Já o das famílias 20% mais pobres foi de 28%, portanto 4 vezes mais. O que significa que, para o objetivo de se alcançar uma sociedade mais equitativa, a experiência foi altamente bem-sucedida (SILVA, 2009, p. 236).
No Brasil, a discussão também não é recente. Dentre os idealizadores de um projeto de distribuição de renda, destacam-se Caio Prado Júnior, Milton Santos, Josué de Castro e Celso Furtado que, já na década de 1950, levantavam essa pauta. Desde então, as discussões se tornaram cada vez mais frequentes até que, no ano de 1990, o então Senador Eduardo Suplicy (PT), em conjunto com o Professor Antônio Maria da Silveira, construiu o projeto do Programa de Garantia de Renda Mínima (PGRM) que promoveu uma ampla discussão sobre o tema tanto nas casas legislativas quanto pela
sociedade (SILVA, 2009).
Em decorrência desses debates, inicialmente surgiram projetos, como o notório Bolsa Escola, em várias cidades do Brasil. Eles tiveram amplo apoio do Congresso Nacional, ensejando em vários projetos de Lei que incentivavam a União a fornecer apoio para que então fosse garantida a efetividade das políticas públicas de distribuição de renda. Assim, em 1997, com o apoio do então Presidente Fernando Henrique Cardoso, foi aprovada a Lei n° 9.733, que autorizou o Poder Executivo a fornecer apoio financeiro aos municípios em programas de renda mínima associados a ações socioeducativas (SILVA, 2009).
Outros projetos, como o Bolsa Alimentação e o Auxílio Gás, também foram criados nesse período, até que, no ano de 2003, o então Presidente Luiz Inácio Lula da Silva criou o programa Bolsa Família, que visava unificar e racionalizar todos os outros programas já existentes em um só. A Lei no10.836, de 2004, que instituiu o Bolsa Família, foi sancionada um dia após a Lei n° 10.835, que criou a Renda Básica de Cidadania. Essa, por questões políticas, foi esvaziada e nunca executada durante os governos que seguiram, pois sempre se teve o programa Bolsa Família como principal meio de enfrentamento à extrema pobreza (SILVA, 2009).
Desde então, observa-se que o debate sobre a RBC foi deixado de lado, uma vez que já havia a previsão legal de criação do projeto. Esse processo também foi incentivado pela própria existência do Bolsa Família, que desempenhou uma função semelhante, mas que possui diferenças – principalmente no alcance e nas condicionantes, que inexistem na Renda Básica de Cidadania. Todavia, com o passar dos anos, mesmo com bons resultados, especialmente motivada pelas crises econômicas, houve uma redução dos investimentos no programa que teve a efetividade drasticamente reduzida.
Assim, a Renda Básica de Cidadania ganhou destaque novamente com o avanço da crise provocada pela COVID-19 no ano de 2020, devido à urgência de um programa que pudesse de fato garantir a subsistência das pessoas nesse momento de recessão e não apenas complementar as suas rendas, como propunha o Bolsa Família – mesmo que, para várias famílias, essa fosse a única fonte renda. A partir disso, surgiu o programa de Renda Básica Emergencial, voltado exclusivamente para o enfrentamento da pandemia. Entretanto, ele gerou impactos sociais que servem de parâmetro para a defesa de uma política de efetivação da RBC. Assim, compreendido o contexto em que se deu a criação da Renda Básica de Cidadania, partiremos para análise da experiência
popularmente conhecida como Auxílio Emergencial.