QUALIDADE DA DIETA E SÍNDROME RESPIRATÓRIA AGUDA GRAVE: UMA REVISÃO COM FOCO NA COVID-
2.3 RELAÇÃO DA QUALIDADE DA DIETA COM A COVID-
A alimentação saudável tem se mostrado eficaz na prevenção da COVID-19, não apenas porque fornece os nutrientes e compostos bioativos indispensáveis para a integridade da barreira imunológica, como também por preservar a manutenção do peso ideal para o indivíduo. Esse enfoque, em particular, é relevante, pois tanto a desnutrição como a obesidade são fatores de risco para pacientes com COVID-19, com maior preponderância para hospitalização, maior tempo de internação e mortalidade (MISUMI et al., 2019).
Contudo, deve-se levar em consideração que, até o presente momento, não existem terapias apoiadas em evidências e recursos de tratamento disponíveis para prevenção da ocorrência ou gravidade da infecção por COVID-19. Nesse sentido, não há um único alimento ou remédio natural com comprovações científicas para prevenção de infecções por COVID-19 (WHO, 2020).
Existem evidências de qualidade moderada, as quais indicam que padrões alimentares e nutrientes individuais podem induzir a produção de marcadores sistêmicos do sistema imunológico. Alguns alimentos em associação à dieta mediterrânea e outros padrões alimentares saudáveis incluem compostos bioativos, além de vitaminas e minerais, compostos fenólicos, gorduras boas e peptídeos com fortes propriedades anti- inflamatórias, antitrombóticas e antioxidantes. Essas moléculas podem atuar de maneira sinérgica para prevenir e proteger o organismo contra manifestações inflamatórias e complicações trombóticas e relativas às espécies reativas de oxigênio (TSOUPRAS; LORDAN; ZABETAKIS, 2018; ESTRUCH et al., 2018; BONACCIO et al., 2017; CHENG et al., 2019).
De acordo com De Lorenzo et al. (2017), uma ingestão inapropriada de alimentos que constituem o padrão alimentar mediterrâneo submete toda sociedade a danos oxidativos específicos e, neste caso, a um frágil sistema imunológico e à suscetibilidade ao COVID-19.
Tureck et al. (2017) afirmam que várias alterações fisiológicas são oriundas de uma alimentação desequilibrada, e a ingestão alta de ultraprocessados, interfere no
estresse oxidativo, podendo resultar em uma desarmonia na elaboração de radicais livres, ocasionando danos celulares, pois esses radicais afetam membranas, ácidos nucleicos, proteínas e polissacarídeos. Desse modo, ocorrem alterações nas funções celulares e na promoção de doenças, como as do sistema respiratório.
Di Renzoet al. (2020) ressaltam que a inflamação e os danos oxidativos, resultantes da ingestão de bebidas e alimentos ultraprocessados, no período pós-prandial da quarentena na pandemia de COVID-19, colabora consideravelmente para aumentar a vulnerabilidade ao desenvolvimento de doenças crônicas, contudo, o consumo de alimentos sazonais e alimentos ricos em antioxidantes protege contra o desenvolvimento de doenças.
No que diz respeito ao padrão alimentar ocidental, o qual é descrito pelo consumo excessivo de alimentos processados, carne vermelha, açúcares e frituras, determinado estudo indica uma ligação forte com quadros de hiperglicemia e produtos finais da glicação avançada (AGEs). Esse quadro está relacionado com o aparecimento de inflamação, complicações metabólicas e doenças crônicas (SERGI et al. 2020). Consideravelmente, a hiperglicemia é um fator agravante associado à alta mortalidade em pacientes infectados e em estado grave por COVID-19 (LI et al., 2020).
Esse padrão de ingestão também tem sido relacionado a um risco maior de casos de asma em crianças (CAREY et al., 1996). Em adultos, uma dieta ocidental provou estar diretamente relacionada a uma exacerbação da frequência de episódios de asma (WICKENS et al., 2005). Esse perfil alimentar mostrou-se, também, associado a outros distúrbios inflamatórios devido à falta de componentes nutricionais benéficos presentes na dieta mediterrânea e a outros modelos de alimentação saudáveis (ALENCAR, 2018). Portanto, o que está, realmente, evidenciado é a importância da alimentação saudável, a qual traz muitos benefícios à saúde, de modo que seja adequada à cultura e, também, respeitosa com as preferências alimentares, tendo ainda quantidade suficiente para provimento das necessidades nutricionais e uma combinação harmoniosa com a abordagem simbólica das refeições. Em contrapartida, a dieta ocidental (produtos processados e ultraprocessados), além de contribuir para o surgimento de DCNT, prejudica o funcionamento do sistema imune dos indivíduos.
Essas duas situações supramencionadas, por se inter-relacionarem com o sistema imunológico, promovem condições diferenciais no enfrentamento ao novo Coronavírus, ou seja, o bom estado nutricional pode favorecer melhores prognósticos dos pacientes
com COVID-19 e, possivelmente, influenciar nas proporções de morbidade e mortalidade conforme apresenta a Figura 2.
Figura 2 - Qualidade da dieta e sua influência no sistema imunológico
Fonte: autoria própria (2020).
Ressalta-se ainda que as vitaminas e os minerais presentes nos alimentos desempenham um papel fundamental no combate às infecções, uma vez que possuem influência no sistema imunológico (LIMA et al., 2020).
3 CONCLUSÃO
Neste artigo, foi abordada uma revisão bibliográfica referente à influência da qualidade da dieta no quadro de Síndrome Respiratória Aguda Grave, como a COVID- 19, podendo-se perceber que a nutrição é determinante na modulação da saúde imunológica. Portanto, embora não haja evidências demonstrando que um nutriente ou um alimento específico possuam efeitos na saúde dos acometidos por COVID-19, ressaltamos que seguir um padrão alimentar saudável, com o consumo de frutas, verduras, legumes, leguminosas, grãos integrais, peixes e óleos de peixe, é necessário para um melhor suporte à função imunológica.
Nesse sentido, o desenvolvimento deste estudo revela-se importante para alertar a população que a adesão a um padrão alimentar saudável no dia a dia é imprescindível para se ter uma boa saúde, tendo em vista os efeitos protetores acima mencionados, bem como para estimular o aumento do consumo de alimentos mais naturais. No entanto, mais estudos devem ser desenvolvidos para melhor esclarecer a temática abordada.
REFERÊNCIAS
ADHIRAKI, S. P. et al. Epidemiology, causes, clinical manifestation and diagnosis, prevention and control of coronavirus disease (COVID-19) during the early outbreak period: a scoping review. Infectious Diseases of Poverty, v. 9, n. 29, p. 1-12, 2020.
AHLUWALIA, N. et al. Dietary patterns, inflammation and the metabolic syndrome. Diabetes
& Metabolism Journal, v. 39, n.2, p. 99-110, 2013.
ALENCAR, L. The role of Western diet on low-grade inflammation. Journal of Clinical
Immunology and Allergy. 2018. Disponível em: https://www.imedpub.com/proceedings/the-
role-of-western-diet-on-lowgrade-inflammation-3221.html. Acesso em: 07 jul. 2020.
AZEVEDO, E. C. C. et al. Padrão alimentar de risco para as doenças crônicas não transmissíveis e sua associação com a gordura corporal – uma revisão sistemática. Ciência &
Saúde Coletiva, v. 19, n. 5, p. 1447-1458, 2014.
BONACCIO, M. et al. Mediterranean diet, dietary polyphenols and low grade inflammation: Results from the MOLI-SANI study. British Journal of Clinical Pharmacology, v. 83, n. 1, p. 107-113, 2017.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Guia alimentar para a população brasileira. Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. 2. ed., 1. reimpressão – Brasília: Ministério da Saúde, 2014.
BRASIL. Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa Nacional de Saúde. Percepção do estado de saúde, estilos de vida e
doenças crônicas: 2013. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística; 2014.
BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo de Manejo Clínico de Síndrome Respiratória
Aguda Grave - SRAG. Brasília: DF, 2015.
BRASIL. Ministério da Saúde. Coronavírus (COVID-19). 2020. Disponível em: https://coronavirus.saude.gov.br/sobre-a-doenca#o-que-e-covid. Acesso em: 04 jul. 2020. BURLINGAME, B.; DERNINI, S. Sustainable diets and biodiversity: directions and
solutions for policy, research and action. Biodiversity and sustainable diets united against
hunger. FAO Headquarters: Roma, 2012. Disponível em: http://www.fao.org/3/a-i3004e.pdf. Acesso em: 08 jul. 2020.
CAREY, O. J. et al. The efect of lifestyle on wheeze, atopy, and bronchial hyperreactivity in asian and white children. American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine, v. 154, n. 2, p. 537-540, 1996.
CASTRO, M. A. et al. Examining associations between dietary patterns and metabolic CVD risk factors: a novel use of structural equation modelling. British Journal of Nutrition, v. 115, n. 9, p. 1586-1597, 2016.
CESPEDES, E. M.; HU, F. B. Dietary patterns: from nutritional epidemiologic analysis to national guidelines. The American Journal of Clinical Nutrition, v. 101, n. 5, p. 899-900, 2015.
CHENG, S. et al. Food-derived antithrombotic peptides: Preparation, identification, and interactions with thrombin. Critical Reviews in Food Science and Nutrition, v. 59, n. 1, p. 81- 95, 2019.
DE LORENZO, A. et al. Mediterranean meal versus Western meal effects on postprandial ox- LDL, oxidative and inflammatory gene expression in healthy subjects: a randomized controlled trial for nutrigenomic approach in cardiometabolic risk. Acta Diabetologica, v. 54, n. 2, p. 141- 149, 2017.
DI RENZO, L. et al. Post-prandial efects of hazelnut-enriched high fat meal on LDL oxidative status, oxidative and infammatory gene expression of healthy subjects: a randomized trial.
European Review for Medical and Pharmacological Sciences, v. 21, n. 7, p. 1610-1626,
2017.
DISHCHEKENIAN, V. R. M. et al. Padrões alimentares de adolescentes obesos e diferentes repercussões metabólicas. Revista de Nutrição, v. 24, n. 1, p. 17-29, 2011.
DUTRA, J. M. et al. Suplementação alimentar da vitamina D na prevenção contra o vírus COVID-19. Research, Society and Development, v. 9, n. 7, p. 1-11, 2020.
ESTRUCH, R. et al. Primary prevention of cardiovascular disease with a Mediterranean diet supplemented with extra-virgin olive oil or nuts. The New England Journal of Medicine, v. 378, n. 25, p. 34-48, 2018.
FALSEY, A. R. et al. Respiratory syncytial virus and other respiratory viral infections in older adults with moderate to severe influenza-like illness. The Journal Infectious Disease, v. 209, n. 1, p.1873-1881, 2014.
FIGUEIREDO, M. C. F. et al. The impact of overweight on clinical complications caused by COVID-19: A systematic review. Research, Society and Development, v. 9, n. 7, p. 1-24, 2020.
GUO, Y. R. et al. The origin, transmission and clinical therapies on coronavirus disease 2019 (COVID-19) outbreak – an update on the status. Military Medical Research, v. 7, n. 11, p. 1- 10, 2020.
HIZA, H. A. B.; KOEGEL, K. G.; PANNUCCI, T. Diet quality: the key to healthy eating.
Journal of the Academy of Nutrition and Dietetics, v. 118, n. 9, p. 1583-85, 2018.
LI, H. et al. Coronavirus disease 2019 (COVID-19): current status and future perspective.
International Journal of Antimicrobial Agents, v. 20, n. 1, p. 1-8, 2020.
LI, X. et al. Risk factors for severity and mortality in adult COVID-19 inpatients in Wuhan.
Journal of Allergy and Clinical Immunology, v. 146, n. 1, p. 110-118, 2020,
LIMA, C. M. A. O. Informações sobre o novo Coronavírus (COVID-19). Radiologia
Brasileira, v. 53, n. 2, p. 5-6, 2020.
LIMA, W. L. et al. Importância nutricional das vitaminas e minerais na infecção da COVID-19.
Research, Society and Development, v. 9, n. 8, p. 1-25, 2020.
MAGUIRE, E. R.; MONSIVAIS, P. Socio-economic dietary inequalities in UK adults: an updated picture of key food groups and nutrients from national surveillance data. British
MARTINEZ-GONZALEZ, M. A.; BES-RASTROLLO, M. Dietary patterns, Mediterranean diet, and cardiovascular disease. Current Opinion in Lipidology, v. 25, n. 1, p. 20-26, 2014. MELLO, A. V. et al. Determinants of inequalities in the quality of Brazilian diet: trends in 12 year population-based study (2003–2015). International Journal for Equity in Health, v. 17, n. 72, p. 1-11, 2018.
MISUMI, I. et al. Obesity expands a distinct population of T cells in adipose tissue and increases vulnerability to infection. Cell Reports, v. 27, n. 2, p. 514-24, 2019.
MONTEIRO, C. A. et al. Creasing consumption of ultra-processed foods and likely impact on human health: evidence from Brazil. Public Health Nutrition, v. 14, n. 1, p. 5-13, 2011.
NEELAKANTAN, N. et al. Diet-Quality Indexes Are Associated with a Lower Risk of Cardiovascular, Respiratory, and All-Cause Mortality among Chinese Adults. The Journal of
Nutrition, v. 1448, n. 8, p. 1323-1332, 2018.
ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE. Folha informativa - COVID-19 (doença
causada pelo novo Coronavírus). 2020. Disponível em:
https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=6101:covid19&Ite mid=875. Acesso em: 04 jul. 2020.
PAUDEL, S. et al. The Coronavirus Pandemic: What Does the Evidence Show? Journal of
Nepal Health Research Council, v. 18, n. 46, p. 1-9, 2020.
RIDDER, D. et al. Healthy diet: Health impact, prevalence, correlates, and interventions.
Psychology & Health, v. 32, n. 8, p. 907-941, 2017.
SATTAMINI, I. F. Instrumentos de avaliação da qualidade de dietas: desenvolvimento, adaptação e validação no Brasil. Orientador: Carlos Augusto Monteiro. 2019. Tese (Doutorado em Nutrição e Saúde Pública) - Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2019.
SERGI, D. et al. The role of dietary advanced glycation end products in metabolic dysfunction.
Molecular Nutrition & Food Research, v. 4, n. 1, p. 1-11, 2020.
SHAH, R. et al. Mediterranean diet components are linked to greater endothelial function and lower inflammation in a pilot study of ethnically diverse women. Nutrition Research, v. 75, n. 1, p. 77-84, 2020.
SILVA, D. F. O.; LYRA, C. O.; LIMA, S. C. V. C. Padrões alimentares de adolescentes e associação com fatores de risco cardiovascular: uma revisão sistemática. Ciência & Saúde
Coletiva, v. 21, n. 4, p. 1181-1195, 2016.
SUGIYAMA, T.; SHAPIRO, M. F. The growing socioeconomic disparity in dietary quality: mind the gap. JAMA Internal Medicine, v. 174, n. 1, p. 1595–6, 2014.
TSOUPRAS, A.; LORDAN, R.; ZABETAKIS, I. Inflammation, not cholesterol, is a cause of chronic disease. Nutrients, v. 10, n. 5, p. 604-642, 2018
TURECK, C. et al. Avaliação da ingestão de nutrientes antioxidantes pela população brasileira e sua relação com o estado nutricional. Revista Brasileira de Epidemiologia, v. 20, n. 1, p. 30- 42, 2017.
VOLP, A. C. P. et al. Índices dietéticos para avaliação da qualidade de dietas. Revista de
Nutrição, v. 23, n. 2, p. 281-295, 2010.
WENDAP, L. L. et al. Qualidade da dieta de adolescentes e fatores associados. Cadernos de
Saúde Pública, v. 30, n. 1, p. 97-106, 2014.
WICKENS, K. et al. Fast foods - Are they a risk factor for asthma? Allergy, v. 60, n. 12, p. 1537-1541, 2005.
WILLETT, W.C. et al. Mediterranean diet pyramid: A cultural model for healthy eating. The
American Journal of Clinical Nutrition, v. 61, n. 6, p. 1402-1406, 1995.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Diet, nutrition and prevention of chronic diseases. Report FAO/WHO Expert Consulation. Geneva: WHO; 2003.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Off-label Use of Medicines for COVID-19.2020. Disponível em: https://www.who.int/news-room/commentaries/detail/off-label-use-of- medicines-for-covid-19. Acesso em: 06 jul. 2020.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Q&A on Coronaviruses (COVID-19). 2020. Disponível em: https://www.who.int/emergencies/diseases/novel-coronavirus-2019/question- and-answers-hub/q-a-detail/q-a-coronaviruses#:~:text=symptoms. Acesso em: 04 jul. 2020.