Doutrinariamente, os direitos fundamentais não apresentam uma unidade terminológica, podendo ser chamados de “direitos humanos”, “direitos humanos fundamentais”, “direitos do Homem”, “direitos dos cidadãos” etc. Porém, convencionou-se o termo “direitos fundamentais” em referência aos direitos humanos já positivados em textos constitucionais. Consequentemente, sua conceituação é diversificada entre os autores. Contudo, por meio do estudo da sua natureza jurídica, é
perceptível um consenso sobre sua dupla dimensão, o que demonstra que é preciso considerar os traços tanto do direito subjetivo quanto do direito objetivo. Logo, tratam- se não apenas de garantias individuais e coletivas: esses direitos dispõem e compõem todo o ordenamento jurídico, assegurando a legitimação do Estado de Direito em sua forma constitucional. Por conseguinte, conforme alega Dirley da Cunha Júnior (2008), percebe-se que os direitos fundamentais são todos aqueles instrumentos normativos que, favoráveis aos direitos da pessoa e à dignidade da pessoa humana, se encontram formalmente descritos na Constituição (fundamentalidade formal) ou são integrados nela por possuírem igual conteúdo e valor, tendo, assim, sua formalidade indiretamente reconhecida (fundamentalidade material).
Alvo de muitos estudos, as características que versam sobre os direitos fundamentais também se apresentam em pluralidade. Elas, dessa forma, dispõem de um rol variante entre os constitucionalistas que tentam, em meio a tanta multiplicidade, definir um maior número possível de atributos. Entre eles, se faz relevante destacar: a universalidade, que, baseando-se no princípio da liberdade, alude à dignidade da pessoa humana e ao seu consequente caráter universal; a indivisibilidade, que trata sobre a importância do estudo do ordenamento como um todo, não sendo possível uma análise isolada de um único direito; a inalienabilidade, que, mediante a ausência de um caráter patrimonial nos direitos fundamentais, afirma que eles são inegociáveis e intransferíveis; a historicidade, que discorre sobre esses direitos como frutos de um desenvolvimento histórico; a limitabilidade, que afirma a preponderância do fato concreto sobre a análise seca da lei, já que os supracitados direitos fundamentais não são absolutos; e, por fim, a constitucionalização, que aborda a previsão desses direitos na Constituição do país.
Os direitos fundamentais percorreram um grande caminho até se tornarem uma preocupação do Estado de Direito. Sua primeira forma positivada surge na Carta Maior de Liberdade (Magna Charta Libertatum), transmitindo em seu decorrer histórico a herança de uma positivação em meios constitucionais. E, de fato, conforme afirmam Mendes e Branco (2012), a Constituição se mostrou o local mais adequado para a positivação de suas normas, uma vez que ela possibilita a garantia das pretensões propostas pelos direitos fundamentais. Sobre a positivação e da constitucionalização desses direitos, Canotilho (2012, p. 377) pondera: “a positivação de direitos fundamentais significa a incorporação na ordem jurídica positiva dos direitos considerados naturais e inalienáveis do indivíduo. Não basta qualquer positivação”.
Concordante aos ideais do teórico mencionado, o constitucionalista moderno Ferdinand Lassalle defende em sua obra A essência da Constituição (1985) a ideia que de nada servirá o que se escreve numa folha de papel se aquilo que é escrito não for justificado pelos fatores reais e efetivos do poder – sendo essas denominações dadas pelo autor para representar os aspectos constitutivos de uma sociedade. Assim, não sendo válida uma reles positivação, Lassalle proporciona harmonia na relação Indivíduo-Estado, assegurando, assim, a efetividade dos direitos fundamentais no Estado de Direito.
No contexto brasileiro, a Constituição vigente de 1988 positiva em seu título II sobre os direitos e as garantias fundamentais, dividindo-os em cinco capítulos: Direitos individuais e coletivos; Direitos sociais; Direitos de nacionalidade; Direitos políticos; Direitos relacionados à existência, organização e a participação em partidos políticos. Bobbio (2004), referente a essas divisões, defende que elas se dão por meio de dimensões:
[...] o desenvolvimento dos direitos do homem passou por três fases: num primeiro momento, afirmaram-se os direitos de liberdade, isto é, todos aqueles direitos que tendem a limitar o poder do Estado e a reservar para o indivíduo, ou para os grupos particulares, uma esfera de liberdade em relação ao Estado; num segundo momento, foram propugnados os direitos políticos, os quais – concebendo a liberdade não apenas negativamente, como não impedimento, mas positivamente, como autonomia – tiveram como consequência a participação cada vez ampla, generalizada e frequente dos membros de uma comunidade no poder político (ou liberdade no Estado); finalmente, foram proclamados os direitos sociais, que expressam o amadurecimento de novas exigências– podemos mesmo dizer, de novos valores –, como os de bem-estar e da liberdade através ou por meio do Estado (BOBBIO, 2004, p. 76).
No nosso ordenamento é um consenso: diante da limitabilidade dos direitos fundamentais (tanto para a doutrina como para a jurisprudência), nenhum desses direitos podem ser considerados absolutos, sendo interpretados e aplicados apenas quando os limites fáticos e jurídicos de um fato concreto são considerados. Quanto a essas limitações, conforme lista o autor André Ramos Tavares (2010, p. 528): “3º) não podem anular os demais direitos igualmente consagrados pela Constituição; 4º) não podem anular igual direito das demais pessoas, devendo ser aplicados harmonicamente no âmbito material”.
A definição desses limites se faz necessária. Como já defendia Karl Larenz (2009), se os direitos fundamentais não possuem limites claramente fixados, eles se tornam, em determinada medida, maleáveis. Sendo esse o caso, a área de atuação desses direitos (bem como a de proteção) se transfigura em uma completa indefinição, resultando uma suscetibilidade à conflitos ainda maiores no ordenamento jurídico. Nota-se, então, que essa controvérsia abala os ideais de justiça e de segurança jurídica almejados pelo Estado de Direito, devendo ser ao máximo evitada – a fim de preservar o equilíbrio normativo.
Entretanto, observa-se que apesar de ser imperioso, em princípio, que o ordenamento jurídico apresente uma harmonia (desde a criação de suas normas, incluindo as que versam sobre os direitos fundamentais, até a sua aplicação), é perceptível, na prática, a existência de conflitos – que se dão não apenas pela a ausência do estado absoluto nos direitos, como também pelas suas consequentes limitações.