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6 ESCOLA É ASSIM! É ISSO E PONTO É ISSO E PRONTO

6.2 ROTINA CANSA É SEMPRE AQUELA MESMA COISA NUNCA MUDA!

6.2.1 A forma da escola presente no jeito de ensinar

A repetitividade/ritualidade do que acontece na escola tende a impedir a presença da vivacidade, da sociabilidade, dos encontros, das novidades, características das juventudes. A narrativa de Sofia comunica que a escola é um espaço ‘chato’ porque é sempre a mesma coisa e isso se torna cansativo e, nas palavras de Camila, até maçante.

Eu acredito que acaba sendo muito repetitivo e chato. Digo chato porque é sempre a mesma coisa e não dá vontade. Eu não tenho tanta vontade de fazer porque é muito repetitivo sabe? É que nem aqui... por exemplo, a gente dá ideia pros professores fazerem, trabalharem algo diferente, de uma forma diferente, pra que a gente tenha mais vontade, tenha mais interesse. E a gente fala: Profe, por que tu não faz o trabalho dessa forma, em vez de ser apresentação com slides, por exemplo? Aí, não... É sempre a mesma coisa. Sempre igual, e daí, acaba se tornando chato, uma rotina chata. Por exemplo, eu dei uma ideia para a professora de artes. Ela pediu pra gente fazer um trabalho de slides, que é o que a gente faz em todas as outras aulas. Daí eu falei: Profe, em vez de a gente fazer um trabalho de artes, porque que tu não pede pra gente pintar, trabalhar com telas, com tinta, com música, alguma coisa? Faz desde o ano passado que eu venho dizendo esse tipo de coisa pra ela. Porque a única coisa que a gente faz em artes é só desenho em folha. Só isso! E já não é a primeira vez que eu falo pra ela: Ah! Vamos fazer tipo, uma coisa com tinta, outros materiais. Sabe? Mas, é sempre a mesma coisa. E acaba se tornando cansativo (Sofia).

Essa narrativa revela a rotina na escola. Segundo Pais, “o quotidiano – costuma dizer-se – é o que se passa todos os dias: no quotidiano nada se passa que fuja à ordem da rotina e da monotonia” (2003a, p, 28). Dito de outra maneira, “o que se passa no quotidiano é ‘rotina’”. A ideia de rotina, de acordo com o referido autor, aproxima-se de cotidianeidade ao expressar “o hábito de fazer as coisas sempre da mesma maneira, por recurso e práticas constantemente adversas à inovação” (PAIS, 2003a, p. 28). Esse é o entendimento habitualmente empregado para rotina também na concepção dos/das jovens estudantes que participaram dos Grupos Focais.

Para a sociologia da vida cotidiana, é na interrogação dos modos através dos quais se passa o cotidiano, ou seja, nas formas que representam ou caracterizam que se encontra “a vida passante do quotidiano – nos damos conta de que é nos aspectos frívolos e anódinos da vida social, no “nada de novo” do quotidiano, que encontramos condições e possibilidades de resistência que alimenta a sua própria rotura”. (PAIS, 2003a, p. 28). O cotidiano escolar que os/as jovens estudantes narram em suas percepções aponta, ao mesmo tempo, resistências e possibilidades de ruptura, de abertura, de alargamento das frestas entre o que a escola apresenta e o que os/as jovens gostariam de encontrar nela.

Além da rotina, os/as jovens estudantes expressam a presença de um padrão. No contexto da discussão evocadora da narrativa de Sofia, está a forma escolar padronizada em um modelo transmissivo e excludente de espaços de criatividade e de criticidade. A uniformidade e a homogeneização estão presentes nas palavras de Carolina ao rememorar uma professora, comunicando que a gente tem que ser igual a ela (Carolina). Laura complementa afirmando que é verdade. E quando a gente expõe a nossa opinião ela fica brava e faz de tudo para gente mudar a opinião. A discussão referente à expressão de opinião dos/das jovens suscitou muitas narrativas sobre questões de relação, de diálogo, de uniformidade de ações, de reações e de pensamentos.

A diversidade de opiniões encontra pouco espaço no cotidiano escolar de alguns/algumas jovens estudantes. Eles/elas mostram que o professor ainda ocupa o lugar de centralizador de opinião e de respostas. Tatiana mostra em sua narrativa a presença da hierarquia e da autoridade de alguns docentes, os quais fazem questão de colocar a gente lá embaixo para ela se sentir lá em cima. É o que Freire identifica como total desconsideração pela “formação integral do ser humano e a sua redução a puro treino”, fortalecendo a maneira autoritária de “falar de cima baixo” (1996, p. 115) e não de falar com em uma intenção de democratização.

Os/as jovens também se referem à padronização, no sentido de uniformidade, de repetição, de seguir algo previamente estipulado. Nesse engessamento, os espaços para a diversidade, a curiosidade e a linguagem juvenil são bastante restritos.

É como se quisesse um padrão. Eu tenho que pensar igual tu, igual tu, igual tu. Tu tem que aprender igual eles. Tu não pode pensar diferente. Tu não pode aprender diferente. Tu tem que saber isso, isso e aquilo. E é isso que tu tem que saber. Isso tu não precisa saber o

porquê, mas tu tem que saber esse outro. Tu tem que entender e tu tem que aprender. Só que não é o que acontece. (Mirela)

Em Português, por exemplo, numa prova de interpretação de texto com uma resposta pessoal. A minha resposta estava errada porque não era aquele padrão. Porque tu não sabe. Tu não aprendeu. Tu é criticado porque tu não aprendeu. Tu tem que aprender a fazer isso. Tu tem que fazer isso. Os alunos são muito criticados. (Alex)

Até uma professora nossa chegou a dizer uma vez. Ela estava explicando e falou que a gente nunca ia usar o que ela estava explicando (outros concordam), mas ela precisava dar. Exigência. Então dá pra ver como elas também são mantidas nesse padrão né? (Sabrina) Impondo aquela metodologia, aquele jeito de ensinar, que a gente tem que aprender daquela forma, não tem outra! (Joana)

Mirela, Alex, Sabrina e Joana narram o reconhecimento de uma forma escolar com alguns contornos rígidos que envolvem modos de pensar e de aprender, considerando o docente o centro do processo e o/a jovem estudante o/a figurante. Pensar diferente, sair do padrão e aprender não acontece na rotina da escola conforme afirma Mirela. Sair do padrão, fazer ou pensar de forma diferente gera prejuízo ao estudante, no que se refere a sua avaliação, além de receber críticas por algum distanciamento na resposta apresentada à questão proposta. Essa situação, analisada sob a ótica dos estudos de Freire, mostra a padronização com que a liberdade e a criatividade vem sendo asfixiadas, nos moldes nos quais vêm sendo submetidas, o que dificulta mover e arriscar, devido ao “poder invisível da domesticação alienante que alcança a eficiência extraordinária no que venho chamando de ‘burocratização da mente’” (1996, p. 14). Os/as jovens não estão deixando se asfixiar: demonstram estar resistindo à padronização.

Além disso, a narrativa de Sabrina sublinha a exigência da transmissão de determinado conteúdo pela sua professora e a padronização da proposta curricular a ser seguida e cumprida pela escola, indicando a presença do que é comum a todos. Ambos jovens mostram desagrados com as formatações exigidas, anunciando a presença de conflitos diante da forma escolar.

A recorrência dessas narrativas demonstra a presença de uma configuração escolar88, a qual de acordo com Stecanela (2016, p. 355), pode estar em conflito

pois, “se são as relações estabelecidas entre as pessoas que ‘formam’89 a escola

88 Conceito inspirado e desenvolvido por Stecanela a partir da concepção de ‘configuração social’ de Norbert Elias.

que determinam sua configuração, e se essas relações encontram-se extremadas, a configuração escolar por elas formada pode ser conflituosa”.

Lara verbaliza a posição cabisbaixa do estudante: se está na escola, é para baixar a cabeça e aprender. Será? De que forma o/a jovem recebe essa orientação? É essa a postura esperada do/da jovem que frequenta o Ensino Médio no século XXI? Essa percepção pode estar rodeada por questões culturais e muitas vezes presentes nos contextos familiares. Conforme dados do estudo exploratório apresentados anteriormente, a grande maioria dos pais e/ou responsáveis dos 400 jovens têm Ensino Fundamental incompleto, somando 316 pessoas, sendo que outros 53 pais e/ou responsáveis têm Ensino Superior.

Isso significa que a oportunidade de frequentara escola até o final da Educação Básica não foi vivida pela grande maioria dos pais dos/das jovens estudantes, cujas palavras me foram emprestadas neste estudo. Agora, com a garantia de frequentar a escola, é bastante possível que os/as jovens sejam encaminhados pelos seus familiares a ‘aproveitar’ a oportunidade, sendo que essa orientação vem carregada de submissão.

As formas de agir na escola, a padronização para além do conteúdo, ou seja, a padronização dos corpos é problematizada por Paula.

É que querendo ou não tudo o que a gente faz, o modo como a gente age na escola, sentar em filas, um atrás do outro, corretinho. Respeitar essa autoridade que está na nossa frente. Sei lá. A gente está sendo preparado para trabalhar numa empresa, onde tu tem que fazer aquele trabalho, naquele lugar, corretinho, bonitinho sabe? Respeitando uma autoridade. (Paula)

A padronização que os estudantes percebem com relação ao trabalho de alguns professores e a hierarquização do sistema escolar reverbera a relação conflituosa e situações de submissão presentes na experiência escolar, como pode ser visto na narrativa de Otavio.

Muitas vezes a disciplina, a didática que eles passam para os professores restringe os professores de conseguir ampliar muitas vezes. Tem alguns professores que são uma exceção, bem exceção mesmo. Mas tem vezes que eles não conseguem ampliar porque a matéria exige uma questão e tu vai ter que aprender isso e deu, que é o que eles tão mandando. (Otavio)

Os/as jovens expressam em suas narrativas a relação com os professores, com os saberes formais e impositivos a serem aprendidos, com o comportamento,

informando projeções para a vida futura, sublinhando a passagem pela escola como momento intenso de fortalecer o “valor atribuído à relação pedagógica”, conforme Stecanela (2016, p. 355).