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3 SINALIZAÇÕES TEÓRICAS: ENTRE O CARRILAR, O DESCARRILAR E

3.1 COTIDIANO DO ENSINO MÉDIO: DECIFRANDO ENIGMAS

A etapa do Ensino Médio está envolta por diferentes sujeitos sociais, dentre eles os/as jovens estudantes. A perspectiva teórica que ancora a intenção de decifrar alguns enigmas do cotidiano do Ensino Médio tem inspiração na sociologia da vida cotidiana a partir das reflexões provocadas por José Machado Pais. Desse modo, seus pressupostos terão centralidade na sistematização e compreensão do que o cotidiano dará a ver, daquilo que ele mostrará.

A juventude está inserida no cotidiano, na realidade e na rotina social, mas, para a sociologia do cotidiano, não há como ter posse do real. Esse, para Pais (2003, p. 108), “é uma verdadeira impossibilidade e a consciência epistemológica desta impossibilidade é uma condição necessária para entendermos alguma coisa do que se passa no quotidiano”, pois, muitas vezes, o que se passa no cotidiano “não deixa grandes marcas de visibilidade”. Nesse contexto, a descoberta pode acontecer na atenção para as pequenas marcas visíveis presentes no cotidiano.

O cotidiano é definido, de acordo com Pais (2003, p. 111-112), “como uma rota de conhecimento”, como algo que se passa todos os dias quando nada parece passar. Essa rota do cotidiano “carrila através de conceitos, os quais constituem, por assim dizer, os vagões ou carruagens do conhecimento. Mas o investigador é o maquinista do carrilamento do conhecimento”. Sendo assim, assumo o lugar de

maquinista e atento para os possíveis descarrilamentos, para os afastamentos, para os recarrilamentos que se fizeram necessários nessa trajetória pelos caminhos teórico metodológicos, não necessariamente sabendo, de antemão, em que estação se chegará. Sei que é preciso tomar alguns cuidados com os fragmentos das experiências que acontecem no cotidiano, mesmo que eles sejam minúsculos, pois “é nessa fina malha de tempos, espaços, gestos e relações que acontece quase tudo o que é importante para a vida social. É onde assume sentido tudo aquilo que fazemos e onde brotam as energias para todos os eventos, até os mais grandiosos” (MELUCCI, 2004, p. 13).

Dessa forma, ao adentrar no cotidiano dos/das jovens estudantes, entre carrilar e descarrilar, entre “rotina e ruptura” é que a sociologia do cotidiano passa um pente-fino na paisagem social, em busca dos significantes mais do que dos significados. Em seu percurso, mantém-se aberta a tudo que acontece, mesmo quando, aparentemente, nada ocorre (PAIS, 2003a, p. 29). Na perspectiva de Pais (2003a, p. 67), é como se o cotidiano se assemelhasse a uma espécie de “sonda para captar camadas inacessíveis aos instrumentos mais usuais do conhecimento sociológico”. Algumas ‘sondas’ podem nos ajudar a encontrar detalhes ou vestígios, os quais, à luz de Pais, “são indiciantes de descobertas científicas” (2003a, p. 69).

Os detalhes, os vestígios encontrados no cotidiano dos/das jovens estudantes, mostrados pelas provocações dos trilhos metodológicos escolhidos e anunciados na sequência, “adquirem um significado de conotação que ajuda à revelação, à decifração do real” (PAIS, 2003a, p. 70).

Ao tomar o cotidiano como trilho condutor do conhecimento, é fundamental estar ciente dos descarrilamentos, dos recarrilamentos e afastamento dos trilhos, visto que o carril não tem um ponto de chegada pré-definido, mas há que estar situado, de acordo com Pais (2003a, p. 74), em um contexto “histórico-original- significativo” e não no “banal-insignificante”. O cotidiano dos/das jovens estudantes, envoltos na rotina do Ensino Médio e nos espaços do Seminário Integrado, permite uma visão de menor escala, uma dimensão microssociológica, como uma ‘brecha’ em meio à vida cotidiana, possibilitando alcançar, como afirma Lefebvre (1980) apud Pais (2003a, p. 78), “o extraordinário do ordinário”.

No cotidiano do Ensino Médio, dentre outros sujeitos, estão os/as jovens estudantes. Cada jovem vive a juventude como um momento de sua vida, de seu processo educativo e de formação, de forma particular. Concordo com Stecanela

(2010) ao afirmar que compreender a ideia de juventudes significa tratar essa etapa da vida em sua totalidade, ou seja, considerar seus sujeitos, sua condição e situação juvenil. Ancorada em Pais (2009), é necessário considerar a juventude como uma categoria homogênea e heterogênea ao mesmo tempo. Há elementos que se identificam e outros que se diferenciam em uma mesma condição, a de ser jovem.

A juventude requer ser entendida, percebida, respeitada, experienciada e vivida. Os/as jovens carecem ser considerados integrantes, com suas ideias, motivações, interesses, histórias, percursos, descobertas, intenções, erros e acertos. Para Pais (2003, p. 45), “a juventude constitui-se como um laboratório ou cenário de mudança das estruturas sociais”. Esse modo de olhar a juventude nem sempre foi assim. Por muito tempo, essa etapa da vida foi “associada à metáfora da passagem, da transição, do tempo de preparação para a vida adulta” (STECANELA, 2010, p. 70), sendo considerada apenas uma fase, um “rito de passagem” para a vida adulta (PAIS, 2009).

Em seus estudos sobre juventude, Pais (2003, 2005) comunica uma demarcação atenuada entre as gerações, ou seja, as fronteiras entre os ciclos de vida que espaçam as diferentes gerações mostram que “já há referências a gerações de fronteira ou gerações sanduíche, como é o caso da que é constituída por jovens adultos” (PAIS, 2009, p.372).

O estudo de Stecanela (2010, p.83), pautado em uma considerável revisão de literatura sobre o conceito de juventude, indica que “a noção de juventude é socialmente variável, determinada por fatores históricos e culturais”. Considerando essa construção e as variações históricas e culturais, os/as jovens estudantes que participaram desta investigação tiveram um espaço para registrar suas narrativas provocadas pelas paradas metodológicas definidas. Quem são esses/essas jovens estudantes, quais suas perspectivas, a que tempo histórico e culturas pertencem, que histórias estão construindo, que relações estabelecem com o tempo e com a vida, com a escola, com os professores, com o conhecimento, com a curiosidade? Os/as jovens vivem a juventude ou ela é percebida e experienciada como uma passagem, como um período de transição, como apenas mais uma etapa da vida?

Ainda com base em Stecanela, a juventude pode ser concebida como “categoria social”, sendo “ao mesmo tempo um período de preparação e experimentação e um período de espera e de risco” (2010, p. 92). Para os/as jovens, é um período confuso, de muitas dúvidas, escolhas, desafios, inseguranças,

novidades, mas, ao mesmo tempo, em muitos casos, uma fase com foco no trabalho, nas responsabilidades e necessidades econômicas, nas questões profissionais e de futuro. Muitas dessas situações de vida acabam por não considerar o indivíduo, a pessoa que habita o jovem estudante. Dayrell (2003) afirma que, para situar o que significa ser jovem, faz-se necessário articular a noção de juventude e “sujeito social”, contextualizando-o historicamente no tempo e no espaço, além de considerá-lo sujeito portador de uma identidade.

Com relação à condição juvenil na contemporaneidade, Sposito (2009) afirma que há “imprecisões” sobre quando começa e quando termina a juventude. Presenciamos o “caráter contingente destas categorias” (SIROTA 2006 apud SPOSITO 2009, p. 18). Para Tomazetti et al (2014, p. 27), “a idade entre 15 e 24 anos orienta os estudos demográficos da população considerada jovem; essa faixa etária vem sendo alargada para 29 anos”.

Pais (2003, p. 40) esclarece que a noção de juventude existe desde há muito tempo, porém ganha consciência social a partir do momento em que se verifica o prolongamento dos tempos de passagem e a sua constituição como grupo social. Por sua vez, Dayrell e Carrano (2014, p. 110-111) também atentam ao entendimento da juventude como “uma categoria socialmente construída”, a qual é “parte de um processo de crescimento totalizante, que ganha contornos específicos no conjunto das experiências vivenciadas pelos indivíduos no seu contexto social”.

Em termos dessa investigação, a juventude é compreendida não apenas como um momento da vida, como um ritual de passagem para a vida adulta, mas entendida na sua dinamicidade e transformações ao longo da história. Dessa forma, não há como adentrar no cotidiano escolar dos/das jovens estudantes sem atentar para a dimensão e o contexto social onde estão inseridos. A juventude é vivida por “jovens enquanto sujeitos que a experimentam e a sentem segundo determinado contexto sociocultural onde se inserem e, assim, elaboram determinados modos de ser jovem” (DAYRELL, CARRANO, 2014, p. 112).

De acordo com Sposito (2009, p.17), “instituições tradicionalmente encarregadas da socialização das novas gerações”, incluindo também a escola, “sofrem os efeitos dos processos de mudança que alteraram as relações entre adultos e jovens nos últimos 50 anos. Os impactos sobre o ciclo de vida, em especial sobre os jovens, têm sido analisados de modos diferentes pelos

pesquisadores”. Nessa via, é importante atentar às questões geracionais, tendo o cotidiano como fonte de investigação.

Embora na contemporaneidade sejam observados deslocamentos nas relações sociais e nas concepções sobre as diferentes gerações, é oportuno considerar os/as jovens de modo integral, em todas as dimensões da experiência, tanto escolar como social, com suas ideias, motivações, interesses, histórias, percursos, descobertas, intenções, erros e acertos. Cabe, então, uma atenção, um cuidado, um olhar com relação ao/a jovem estudante e seus anseios nas interconexões entre a experiência juvenil e a experiência escolar, entre o cotidiano juvenil e o cotidiano da escola.

Assumo os dizeres de Pais (2003a, p.31) ao afirmar que “os conceitos e teorias devem entender-se como instrumentos metodológicos de investigação a serviço da capacidade criadora de quem pesquisa”. É nessa direção que acredito ser fundamental definir os sujeitos desta pesquisa como “jovens estudantes”. Alguns autores classificam a juventude como uma etapa da vida caracterizada por modificações físicas e psicológicas, antecedendo a entrada para a vida adulta, não sendo possível determinar uma faixa etária de início e término dessa fase. No entanto, um conjunto de outros autores abordam a juventude em suas características socioculturais, considerando essa estação da vida no plural – juventudes – pois não há uma única forma de ser jovem.

É possível que a realidade apenas tenha se insinuado nas narrativas dos/das jovens e que não se entregue de modo claro, conforme observa Pais (2003) sobre os enigmas que acompanham os estudos ancorados na sociologia do cotidiano. Dessa forma, tendo em mãos as peças encontradas entre as rotinas e as rupturas da vida cotidiana dos/das jovens estudantes do Ensino Médio do Estado do Rio Grande do Sul, sigo na tentativa de decifrar os enigmas que envolvem experiência escolar e experiência juvenil.

3.2 EXPERIÊNCIA ESCOLAR E EXPERIÊNCIA JUVENIL: EM BUSCA DE