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6 ESCOLA É ASSIM! É ISSO E PONTO É ISSO E PRONTO

6.1 É ESSA A SENSAÇÃO SE SENTIR TIPO COM DUAS VISEIRAS,

6.1.1 A gente vê um pontinho ali na parede e a gente vai olhar só para ele

Tipo a gente vê um pontinho ali na parede e a gente vai olhar só para ele. A gente não vai olhar para os outros. Só que não. Só fica naquilo ali. Só um negocinho aqui. O resto a gente esquece (Fabiana).

A leitura da narrativa de outros/outras jovens, proposta na primeira temática do roteiro do Grupo Focal87 - Percepção sobre a experiência escolar no Ensino

Médio – (Figura 5) provocou em Fabiana o anúncio e a denúncia de que, na trajetória escolar, ainda não está presente a ampliação do entendimento, a valorização da criatividade e da ousadia, permitindo enxergar além, pensar além, perceber e analisar o mundo, os fenômenos e as situações de diferentes ângulos, de outras formas. A fragmentação do ensino, as ‘caixinhas’ em que as disciplinas são guardadas, abertas e fechadas, normalmente apontam para o ‘ponto’. Fabiana percebe a necessidade de um olhar ampliado, para além do pontinho na parede, um olhar para todo o ‘resto’ que não pode ser esquecido. Que movimentos são necessários para a exploração do entorno, para aquilo que acontece em outras direções, para aquele estudante que pensa de outra forma, que quer aprender e enxergar para além do pontinho? Que movimentos vão ao encontro daquele que quer explorar tudo o que está em volta do pontinho nas diferentes direções?

Nesse viés, considerar a pesquisa na escola como estratégia metodológica é um princípio que permite viabilizar atitudes de exploração, de busca, de investigação de descobertas de outras possibilidades, de outros resultados que não apenas o ‘pontinho’, naquele lugar, daquela forma, a partir de determinado foco. Além do pontinho há muito a ser explorado, há tudo o que está em volta. Grande parte dos/das jovens estudantes têm esta percepção, bem como se sentem desconfortáveis quando o olhar é simplificado e reduzido. Talvez, muitos professores tenham a percepção de sua disciplina, de sua área de conhecimento. Alguns têm segurança nesse lugar e, em suas trajetórias, não foram desafiados a olhar o entorno ou ainda para “além do pontinho”. O que pode ser encontrado além desse ponto? Essa curiosidade move os/as jovens que querem descobrir, e o que menos

87 As narrativas da temática um, assim como as tirinhas, foram impressas, plastificadas e entregues aos jovens participantes de cada um dos Grupos Focais.

os atrai é o pontinho, é aquilo que está posto. Ao contrário, o que mais instiga grande parte dos/das jovens é o que não está explícito, é aquilo que está “além do pontinho” e que poucos veem. Nesse sentido, a parcela de contribuição da pesquisa na escola se faz importante para ampliar as condições de conhecer mais, de valorizar a curiosidade ingênua como sábia curiosidade e não focar tanto numa coisa só, como afirma Fabiana. Nesse contexto, o que instiga os professores? De que forma a curiosidade os move?

O excesso de foco também pode obscurecer a imagem, desencadeando uma visão desfocada, embaralhada. Desse modo, ampliar o olhar, ampliar as condições de conhecer mais e as ações para além do quadro e do quadrado pode contribuir para eliminar as molduras que rondam a escola. Seguindo nesta análise, Isis e Raissa destacam que na escola seria bastante importante se outros espaços fossem abertos.

Abrir espaço para debates também. Eu acho que é muito pouco. Em algumas aulas a gente só foca, como Fabiana falou, numa coisa ali e fica ali (Isis).

Teria que ter mais contato aluno professor. Não só o professor falar, passar e a gente escrever. Mais debate (Raissa).

O/a jovem está cansado de ficar ali, nesse lugar, parado, passivo. Que espaço é oportunizado na escola para o/a jovem estudante além da sala de aula, além do mínimo e do padronizado? Que ações são propostas além da cópia?

Diante do que se passa no cotidiano escolar, alguns/algumas jovens estudantes se conformam, enquanto outros comunicam a necessidade de ajustes, de mudança, de mutação, de enfrentamento da crise de sentido anunciada nos capítulos iniciais. As palavras de Karina, estudante do 1º ano do Ensino Médio, mostram a presença da criticidade, ou seja, a superação da ingenuidade, o olhar além do pontinho na parede, negando a passividade diante do que acontece no cotidiano escolar. Essa narrativa da Karina emergiu diante da preocupação dos/das jovens com a possível falta de água no futuro, assunto que, para esse grupo de jovens, deveria ser mais discutido na escola. Na sequência da discussão, Karina contrapõe o conformismo que percebe em alguns colegas com a necessidade de transformações, no intuito de sair da forma escolar e superar alguns contornos.

Tem pessoas que pensam: ah! Se é assim, vai ser assim e deu. Ficam quietas no seu canto, e, tipo, se uma pessoa der qualquer coisa pra ela, vai aceitar e não vai debater

contra. Eu acho que todo mundo tem que ter uma opinião sobre, mas é igual eu falei, se a gente chegar agora na sala de aula, ninguém vai querer falar sobre, ninguém vai ligar sendo que é uma coisa que afeta eles também. Não é só a gente que tá aqui, mas todas as pessoas. Todo mundo precisa estar preocupado, falar sobre isso, ou fazer alguma coisa que mudasse isso, mesmo que seja difícil, se muita gente se juntar dá um bom resultado (Karina).

Karina, como outros/outras jovens estudantes, “estão mostrando-se sujeitos ativos de seu processo, (re)clamando por uma escola que atenda às suas expectativas, nem que para isso tenham de ter atitudes desencantadas, resistentes ou distanciadas” (STECANELA, 2016, p. 353). Como sujeito ativo, Karina tem consciência da necessidade de mutação, porém evocando Stecanela, ainda não encontrou “pontos de conexão”.

A presença de grande parte dos/das jovens na escola ainda está vinculada à obrigatoriedade, desconectada do exterior, ocupando parte da rotina caracterizada como monótona e repetitiva.