2 PELAS SINUOSIDADES DA TEMÁTICA DE ESTUDO
2.3 DELIMITANDO O OBJETO DE ESTUDO NO CENÁRIO ESTADUAL
2.3.3 O Seminário Integrado
O Seminário Integrado é o componente curricular que compõe o bloco da Parte Diversificada, composta pelos eixos temáticos: Acompanhamento Pedagógico, Meio Ambiente, Esporte e Lazer, Direitos Humanos, Cultura e Artes, Cultura Digital, Prevenção e Promoção da Saúde, Comunicação e Uso de Mídias, Investigação no Campo das Ciências da Natureza, Educação Econômica e Áreas da Produção.
O principal objetivo do Seminário Integrado está voltado para o enfoque investigativo, visando à interdisciplinaridade e à contextualização dos processos de ensino e de aprendizagem, ou seja, propondo uma articulação entre as áreas do conhecimento “a partir de experiências e vivências, com o mundo do trabalho, a qual apresente opções e possibilidades para posterior formação profissional nos diversos setores da economia e do mundo do trabalho” (RIO GRANDE DO SUL, 2011, p. 25). Convém situar que o Seminário Integrado tem articulação com o mundo do trabalho e a formação profissional.
A postura investigativa envolve uma formação voltada para o desenvolvimento da competência problematizadora, que pode perpassar de forma transversal as demais disciplinas e processos educativos. Para Perrenoud (2002, p. 180), “uma competência não é um saber procedimental codificado que pode ser aplicado literalmente”; ela é mobilizadora de saberes declarativos, procedimentais e condicionais, os quais, respectivamente, descrevem o real, prescrevem o caminho a ser seguido e dizem em que momento deve se realizar determinada ação.
Na proposta do Ensino Médio Politécnico, a pesquisa como princípio pedagógico integrada ao currículo, visa garantir a apropriação da realidade como sublinha José Clovis.
O Seminário Integrado foi criado exatamente para isso, para que pudesse ser um espaço privilegiado de articulação entre ensino e pesquisa, para a pesquisa não ser uma coisa paralela ao ensino, mas ser integrada ao currículo. E, ao mesmo tempo, a concepção de politecnia coloca a necessidade da não separação entre o pensar e o fazer, entre a teoria e a prática. Então como é que se faz isso? Sem pesquisa é impossível. Teoricamente, é impossível fazer, então, o Seminário; ele foi lido de diversas formas, desde mais uma disciplina até um espaço de fato de pesquisa. Bom, dentro da nossa concepção e dentro da
secretaria, nós tínhamos entendimento muitas vezes diferente, mas o entendimento inicial como proposta conceitual é que o Seminário deveria ser basicamente duas coisas: o espaço de aprendizado da metodologia de pesquisa e o espaço de socialização das pesquisas desenvolvidas. [...] Então, o Seminário Integrado tinha a função de socialização e de aprendizagem da metodologia e, ao mesmo tempo, de contribuir para que a investigação saísse da escola para a comunidade. (José Clovis – 19/10/17)
À luz de José Clovis, as pretensões estavam bastante claras, mas a proposta repercutiu de formas diferentes nas regiões do estado. Algumas razões apontadas por José Clovis estão relacionadas à articulação, ou a falta dela, com Instituições de Ensino Superior que atuaram na formação dos professores, algumas com uma tradição de trabalho coletivo junto às escolas públicas da região e outras não.
A Fronteira Sul entrou muito bem. Lá tem um movimento social muito grande em que assumiram os pequenos proprietários rurais, que são articulados; então, isso se refletiu no trabalho das escolas. Tanto é que as prefeituras entraram num trabalho de formação conjunta, não só para ensino médio, para o fundamental também. (José Clovis – 19/10/17)
Instituições privadas, sindicato de professores, mídia, movimento de estudantes entre outros grupos foram resistentes à implantação da proposta. José Clovis comentou que não foi possível superar essas divergências. Para ele, não houve tempo suficiente, então a gente foi indo para onde as coisas avançavam mais. Pouca coisa avançou. Na região da 4° CRE, locus desta investigação, muitos foram os problemas enfrentados em 2012, inclusive com movimentos de estudantes contra a proposta e destituição da primeira Coordenadora Regional, designada para tal função.
Na 4ª CRE, conversei com a professora do Setor Pedagógico responsável pelo Ensino Médio, Sandra Lucia Macedo de Abreu37. Ela relatou que, no início da
implantação da proposta do Ensino Médio Politécnico, os estudantes organizaram uma comissão que mensalmente se reunia com representantes da 4ª CRE. Segundo Sandra, esse foi um espaço de escuta e de protesto;
Na época, eles estavam revoltados com o Politécnico, que, na realidade, levava muitas culpas, mas ele não era o culpado. Havia falta de professores, problemas com a estrutura das escolas. O Politécnico não era isso; ele tinha uma filosofia voltada para a questão da pesquisa e do protagonismo do jovem. Era isso! Mas ele levou muitas culpas que não eram dele. Tinha a dificuldade do aumento da carga horária também, que era uma das propostas que dificultava um pouco. (Sandra – 04/12/17)
37 Entrevista realizada na 4ª CRE, na sala de reuniões do Setor Pedagógico no dia 04 de dezembro de 2017.
O aumento da carga horária foi um dificultador devido à falta de estrutura de algumas escolas, as quais tinham seus espaços ocupados em ambos os turnos. O entendimento da proposta foi um grande desafio. Sandra destaca que algumas escolas conseguiram ter um bom avanço e permanecem até hoje com a pesquisa, mesmo sem uma carga horária destinada ao Seminário Integrado. Por outro lado, ela afirma que algumas outras escolas não conseguiram entender a proposta mesmo com o Seminário, e os outros, sem o Seminário seguiram caminhando. Continuam trabalhando com essa proposta da pesquisa. (Sandra - 04/12/2017)
Percebe-se uma diversidade de situações. Vários fatores podem ter influência na implantação da proposta. A particularidade de cada gestão, a forma como foi realizada a formação dos professores, a apresentação aos estudantes e à comunidade escolar, a concepção de juventude e de Ensino Médio presente nas instituições, a estrutura física de cada escola, o grupo de professores, o envolvimento com a própria profissão, a postura investigativa docente, a busca por novas metodologias, o desgaste da profissão, enfim, muitos fatores endógenos e exógenos interferiram positiva ou negativamente na concretização da proposta.
Conforme já anunciado, a implantação da reestruturação curricular foi gradativa, mas sua sequência foi interrompida quando a gestão de José Ivo Sartori (2015 – 2018) assumiu o governo do Estado do Rio Grande do Sul. O Seminário Integrado, até o final de 2016, mesmo em gestão posterior, compreendia três períodos semanais e compunha o bloco da Parte Diversificada, conforme previsto na proposta inicial.
A partir de 201738, o Seminário Integrado passou a integrar uma das áreas do
conhecimento, escolhida de acordo com o planejamento curricular de cada escola e com a disponibilidade do professor. Essa reorganização, ou seja, o fato de o Seminário Integrado não ter um tempo/espaço destinado para sua organização pode ser considerado positivo por permitir sua diluição nas disciplinas pertencentes à área que o adotaria. Por outro lado, poderá se “perder” e/ou ser experienciado pelos/pelas jovens como mais uma tarefa a ser realizada. Essa transversalidade do Seminário Integrado implica em limites e potências, pois na medida em que ele é responsabilidade de todas as disciplinas, pode também não ser de nenhuma delas.
38 Registro em caderno pessoal da pesquisadora. Informações obtidas em encontro de Coordenadores Pedagógicos organizado pelo setor pedagógico da 4ª CRE em outubro de 2016.
A educação no Brasil apresenta muitas rupturas. São vividos momentos de euforia sem continuidade das propostas. Há o tempo da política pública e o tempo do cotidiano das instituições para a implantação das propostas educacionais e, muitas vezes, esse tempo é interrompido por uma nova política ou pela anulação da anterior.
Para melhor entender como esse processo de diluição do Seminário Integrado aconteceu, conversei com a professora Adriana Schineider39, assessora
pedagógica do Departamento Pedagógico da Secretaria Estadual de Educação, responsável pelo Novo Ensino Médio no Rio Grande do Sul. Quando questionada sobre a percepção da situação atual do Ensino Médio do estado, Adriana comentou que a Rede Estadual já vem tentando há algum tempo trabalhar com esse/essa jovem do Ensino Médio. Desde 2012, com a implantação do Politécnico e ampliação da carga horária, houve tentativas de criar espaço para o protagonismo juvenil e o incentivo à iniciação científica. Para Adriana:
Não se chegou num senso comum ainda porque nós temos que trabalhar com a formação continuada dos professores. Temos que preparar os professores para como trabalhar com esses jovens. Então, ainda temos esse caminho para percorrer, mas a gente está no meio do caminho. Ainda tem muito a construir. (Adriana - 19/10/2017)
A percepção de meio de caminho configurou um continuar a trajetória, mas, nesse seguir, aconteceram algumas mudanças nos trilhos. Uma delas foi a partir de 2016, com a liberação da formalidade do politécnico, que envolveu a retirada do Seminário Integrado. De acordo com Adriana, essa ação teve como um dos objetivos ampliar o trabalho desenvolvido no Seminário para todas as áreas do conhecimento, ou seja, não deixar todo esse trabalho, que é um trabalho considerável, muito satisfatório, onde nós tivemos muitas demonstrações de autonomia dos jovens ali dentro, ficar só no Seminário Integrado, mas para todas as áreas do conhecimento (Adriana – 17/10/2017).
As palavras de Adriana mostram consideração ao Seminário Integrado e a intenção de que, com sua ‘retirada’, ele pudesse ser ampliado para as demais áreas do conhecimento. Diante dessa comunicação, como foi o entendimento sobre essa questão na grande maioria das escolas? Possivelmente, para algumas, essa
39 Entrevista realizada na Secretaria Estadual de Educação do RS, na tarde de 19 de outubro de 2017.
liberação significou autorizar a saída, a retirada, e não apenas alterar sua formalidade. A formalidade do Seminário Integrado pode ter gerado incômodo pelo seu movimento de desacomodar, de tentar articular a pesquisa e a escola. Se o intuito era expandir, abrir para que as outras áreas do conhecimento se envolvessem, essa liberação sugere marcas de intenções políticas de oposição, movimentos contrários e não continuados. Adriana ainda comentou que a principal função da secretaria é instrumentalizar, é dar as ferramentas para que os professores possam fazer. Isso é importante. Formação continuada, orientações, esse acompanhamento das CREs. Elas estão mais próximas, elas têm que fazer esse assessoramento.
Para Adriana, o papel da SEDUC é instrumentalizar aqueles que estão lá na ponta, ou seja, os professores, os gestores, os/as jovens estudantes. Destaco que essa ponta pode ter caráter reducionista, como pode ser a ponta principal de início ou de fim, ponta inicial para desencadear, através do Seminário Integrado, o interesse do/da jovem em estar na escola, o interesse do professor pela investigação, a valorização pela curiosidade, pela busca, pela dúvida, pela problematização.
Passados alguns anos da reestruturação curricular do Ensino Médio Politécnico, iniciada em 2011, talvez, estejamos em melhores condições para nos questionar se, na realidade, a crise foi superada, mitigada, ou se ela segue em bom caminho na busca de sentidos.
As políticas educacionais continuarão existindo, e o ciclo de políticas segue envolvendo a todos de forma direta ou não, por isso há a necessidade de escutar os/as jovens para compreender os sentidos atribuídos às suas experiências escolares e juvenis. Sposito (2005, p. 90) afirma que a escola ao se expandir, tornou-se um espaço de “intensificação e abertura das interações com o outro e, portanto, caminho privilegiado para a ampliação da experiência de vida dos jovens”. Esse espaço de interação, de encontro, de vivências e experiências diversas oportuniza, no Ensino Médio, a construção de uma identidade, exigindo que essa etapa seja revista, revisitada, reinventada, repensada, reconfigurada a fim de se aproximar das expectativas dos/das jovens estudantes que vêm para a escola “encharcados” de saberes, de dúvidas, de curiosidades, mas sem a clareza do que procuram, do que esperam, do que desejam vivenciar nesse espaço de
aprendizagem e de socialização. Essas e outras problematizações geram estudos vinculados ao Ensino Médio.
Nesse sentido, considero importante apresentar um levantamento das pesquisas em educação referentes a esta etapa da Educação Básica, as quais vêm se constituindo em campo específico de estudos, com foco nas juventudes, na experiência escolar e juvenil e no Ensino Médio.
2.4 MAPEANDO O OBJETO DE ESTUDO NO CENÁRIO DAS PESQUISAS EM