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A função da metáfora na significação dos elementos sintáticos

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CAPÍTULO 03 – A REPRESENTAÇÃO DO CORPO/FIGURA HUMANA E A CONVERGÊNCIA DAS INFORMAÇÕES VISUAIS

3.2. Sobre a significação sintática

3.2.2. A função da metáfora na significação dos elementos sintáticos

Peirce não chegou a elaborar uma teoria acabada sobre a metáfora e nos poucos escritos que deixou a esse respeito, apenas concebeu a distinção entre os ícones puros e os hipoícones e descreveu o papel que a iconicidade exerce para a consolidação de cada um dos diferentes tipos de signos icônicos. Nesse sentido, o estudo sobre a metáfora peirceana ganha grande repercussão no trabalho de seus comentadores, uma vez que estes, mais do que o próprio Peirce, tem se debruçado sobre as implicações deste conceito, tanto no âmbito da epistemologia semiótica em si (REIS, 2006; HALEY, 1988; RANSDELL, 1966; SANTAELLA 2012b), quanto de sua aplicação em outros campos, por exemplo: na literatura e linguagem (HIRAGA, 1994, 2005; NÖTH, 2001), nas ciências cognitivas (SØRENSEN, THELLEFSEN & MOTH, 2007; SØRENSEN, THELLEFSEN, 2011; SØRENSEN, 2008) e na comunicação visual (JAPPY 2001, 2013).

Segundo Jappy (2001), para Peirce, a metáfora não está restrita ao campo verbal ou às figuras de linguagem, uma vez que é “forma”, tem “natureza qualitativa”34, e, portanto, “não há limite teórico para os tipos de signos que a metáfora pode ser inerente”35

. Romanini (2006) define a metáfora como uma “terceiridade duplamente degenerada”, ou seja, um símbolo que se manifesta por meio de qualidades. Segundo o autor, “a metáfora compartilha sua natureza com o símbolo e com o ícone, de um lado, depende de um hábito, familiaridade ou convencionalidade (trazidos pelo símbolo) e, por outro, de uma representação qualitativa do objeto (trazida pelo ícone)” (ROMANINI, 2006, p. 101). Assim, entendemos a metáfora como um tipo de símbolo no qual a iconicidade é predominante na relação entre o objeto e o referente, ou ainda, sendo a metáfora, como já foi dito, a terceiridade do hipoícone a compreendemos como um signo icônico que evoca aspectos simbólicos.

Do ponto de vista dos processos de significação a metáfora possui, segundo os comentaristas peirceanos, uma posição fundamental e distinta dos demais signos icônicos, isto é, da imagem e do diagrama. Como já foi dito, de acordo com Peirce, as metáforas representam o caráter representativo do signo por meio de um paralelismo com algo distinto.

34 Texto original: “being qualitative in nature”.

Este paralelismo promove a associação entre dois diferentes universos de experiência, permitindo a produção de novos significados, isto é, por recurso da justaposição de propriedades de um primeiro sobre um segundo constitui-se um campo de ampliação do sentido, indicando o crescimento semiótico (HALEY, 1988). Menos preocupado com as relações entre metáfora e semiose e mais interessado nas implicações da metáfora sobre a consciência e para as relações sígnicas do phaneron, Bent Sørensen (2008, p. 19-20) observa as implicações das conexões entre as metáforas e os símbolos especificamente e afirma que “parece ser apenas em virtude da metáfora que o símbolo pode ser dotado de um novo sentido”36

e mais adiante complementa sua proposição dizendo que as metáforas, por meio de seu paralelismo, “criam novos símbolos e novos conceitos”37

. Para Sørensen, o importante papel que as metáforas exercem como “mecanismo cognitivo” e para a própria ampliação de sentido, em grande parte, deve-se às suas relações com os símbolos, mais do que com quaisquer outros tipos de signos. Romanini (2006, p. 101) destaca a função das metáforas para a percepção, “pois permitem a síntese da multiplicidade de estímulos em uma ideia” e afirma que “a metáfora entrega ao Interprete uma informação possível na forma de

conotação”. É esse aspecto conotativo da informação que emerge da metáfora que nos

interessa no momento, sobretudo, nas representações visuais.

Por meio do paralelismo, a metáfora opera um mecanismo de projeção de sentido semiótico, transformando sensações e qualidades de sentimento, presentes nas representações pictóricas e fotográficas, na forma de conotações visuais, em símbolos impregnados de iconicidade. Tais símbolos permitem que as qualidades de sentimento sejam, do ponto de vista abstrato e verbal, se não plenamente descritas, ao menos, conceitualmente referenciadas, na forma de substantivos (categorias de fenômenos) e adjetivos (propriedades dos objetos). Assim, certa conotação visual na condição de qualidade de sentimento em primeiridade, isto é, por exemplo, a vermelhidão do vermelho, pode conformar-se ao âmbito das regularidades e convencionalidades como um aspecto simbólico, relacionado ao calor, à paixão ou ao perigo. Ou ainda, a circularidade enquanto qualidade de uma linha ou forma arredondada pode conformar-se convencionalmente como uma expressão da sensualidade, do feminino, do singelo ou da simplicidade. Dessa maneira, é a propriedade da metáfora de associar qualidades icônicas à aspectos simbólicos que permite que qualidades de sensação, que

36 Texto original: “It seems only to be by virtue of the metaphor that the symbol can be endowed with new

existem apenas como conotações, tornem-se regularidades conceitualmente constituídas, isto é, signos simbólicos dotados de alto grau de iconicidade.

No caso específico das representações visuais pictóricas e fotográficas, é essa natureza híbrida de ícone e símbolo da metáfora que permite que as conotações visuais, na condição de elementos sintáticos dessas linguagens, sejam simbolicamente compreendidas estabelecendo relações entre qualidades visuais e conceitos. Essa elaboração conceitual das qualidades visuais evidencia a emergência de relações abstratas concebidas como regularidades ou normas estéticas de construção dos objetos artísticos e artefatos comunicacionais. Portanto, na semiose visual, tais símbolos podem ser dotados de novos sentidos, ou ainda, tais relações abstratas podem apontar para o surgimento de “novos símbolos e novos conceitos”.

Essa semiose visual que suporta a ampliação semiótica destes símbolos e conceitos pode ser denominada significação visual. Nesse sentido, corroboramos a perspectiva dos autores integrados ao Grupo µ (1993, p. 170) que concebem que o significado visual encontra-se estruturado por um sistema de relações, mais do que por um conjunto de códigos, uma vez que o significado emerge de relações morfológicas, cromáticas e topológicas e não por formas e cores em si mesmas. No entanto, a respeito da terminologia, é preciso salientar que a afirmação de que o “significado [visual] se manifesta como relacional e topológico”38

(GRUPO µ, 1993, p. 170), demanda um esclarecimento sobre seu sentido. Na verdade, a noção de “relacional” refere-se à associação de sentido que ocorre como consequência do paralelismo operado pela metáfora, porém, do ponto de vista estritamente peirceano, o sentido visual não é efetivamente relacional, visto que a ampliação dos símbolos e conceitos ocorre por meio da metáfora e não do diagrama. Mas de maneira geral, tal afirmação pode ser encarada como correta, visto que o significado visual não é determinado por regras ou convenções, o que evidenciaria um sistema de códigos, mas por “relações” de paralelismo entre elementos visuais e conceitos simbólicos.

Por fim, devemos destacar duas funções primordiais da metáfora para os processos sintáticos de significação visual. É importante lembrar que anteriormente dividimos os elementos sintáticos em duas categorias: os conceituais e as variáveis visuais. Em ambos os casos, por meio do paralelismo metafórico, ocorrem processos de produção de sentido. No caso da relação entre a metáfora e os elementos conceituais, a significação visual produz impacto sobre os elementos visuais e, quando associada à metonímia, gera denotação estabelecendo significado semântico, como veremos. No caso da relação entre a metáfora e as

variáveis visuais a produção de sentido emerge do paralelismo entre qualidades visuais produzindo significação sintática, ou melhor, conotações simbólicas. Vamos a seguir compreender separadamente cada um destes processos, começando pela significação sintática, ou seja, a partir da relação entre a metáfora e as variáveis visuais.

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