As variáveis visuais referem-se às qualidades conotativas dos elementos visuais. Como já foi dito, os elementos visuais em uma imagem ao serem relacionados à objetos reais tornam-se objetos denotados, isto é, objetivamente referenciados. No entanto, quando não denotativamente identificados ou até mesmo antes de serem discernidos, apresentam-se à percepção como impressões de sentido ou qualidades, isto é, conotações visuais. Quando um conjunto de qualidades é reconhecido como um objeto determinado, tais formas instituem um sentido semântico. No entanto, no âmbito sintático, são pertinentes as qualidades enquanto subjetividades ou conotações visuais, sendo o sentido denotativo pertencente à outra esfera de significação. No âmbito das qualidades e conotações visuais a significação não advém das qualidades em si mesmas, o que exigiria a vigência de uma estrutura simbólica na forma de códigos visuais. Nesse âmbito a significação visual parece emergir a partir de estruturas relacionais por meio de uma associação metafórica de sentido, como veremos mais adiante (quando abordarmos a questão da metáfora na semiótica peirceana). Assim, torna-se necessário classificar as qualidades visuais a partir de sua fenomenologia, para estabelecer classes dos significantes e sua suas possiblidades de relacionamento, ou seja, as variáveis visuais. A partir de um amplo inventário de estudos visuais, já comentados, consideramos quatro variáveis, como veremos nos tópicos a seguir.
1.6.1. Variáveis morfológicas
Diversos autores (KANDINSKY, 2012; DONDIS, 2007; OSTROWER, 2015) ao tratar da questão das formas visuais, partem da definição dos elementos de comunicação visual mais simples, isto é, o ponto, a linha, a forma, entre outros componentes associados. Nossa perspectiva diverge em parte desse ponto de vista e procura estabelecer as estruturas mínimas que fazem parte de toda e qualquer forma visual representada, ou seja, procura determinar as estruturas visuais mínimas que se fazem presentes nos mais diferentes
elementos visuais, sejam estes complexos ou simples como é o caso do ponto, da linha, da forma e etc.
Wucius Wong trata dos fundamentos da linguagem visual a partir de categorias elementares, sua interpretação da linguagem visual nos oferece a base conceitual para refletir sobre as estruturas morfológicas mínimas. Segundo Wong (2010, p. 42-43) os elementos visuais antes de se tornarem visíveis são elementos conceituais, por sua vez tais componentes conceituais ao se tornarem visíveis apresentam quatro propriedades: formato, tamanho, cor e textura. Visto que a cor é um componente cromático, iremos subtrair a cor das categorias morfológicas e trataremos dela adiante como uma categoria cromática. Além disso, adicionaremos uma nova categoria referente ao “volume” e prevista por Wong mais adiante em sua obra (2010, p. 138-139). Assim, definimos as variantes morfológicas a partir de quatro propriedades mínimas:
Formato: todo objeto visível possui um formato que permite seu reconhecimento. O formato pode estabelecer diversos tipos de categorias, por exemplo, regular e irregular ou vertical e horizontal.
Tamanho: todo formato apresenta um tamanho, sendo o tamanho uma variante relativa. O tamanho pode ser determinado por comparação em termos de grande ou pequeno e maior ou menor.
Textura: refere-se à superfície dos objetos visíveis. É uma qualidade que pode ser tátil ou visual, isto é, pode ser percebida pelo tato ou pela visual, no entanto, nos limitamos a observar suas decorrências visuais. Assim, uma textura pode ser determinada por sua tendência a ser percebida ou não ser percebida, como uma forma de gradação de sua intensidade.
Volume: refere-se à forma tridimensional dos objetos visíveis. Pode ser plaino ou volumoso.
1.6.2. Variáveis cromáticas
A cor é um fenômeno relativo à percepção visual que ocorre como resultante da inter- relação de três fatores: o arranjo visual, proporcionado pelo objeto ou pelo ambiente; a luz e seus aspectos físicos relativos às formas de reflexão, absorção, polarização, entre outros, e; o observador e suas características fisiológicas, ou seja, sua condição perceptiva.
Qualquer objeto concebido como uma forma de “linguagem visual se manifesta essencialmente por meio da organização de cores, como a realidade visível é em si mesma”9
(SAINT-MARTIN, 1994, p. 23). Nesse sentido, a cor apresenta “três características principais que correspondem aos parâmetros básicos da cor” (PEDROSA, 2014, p. 21), isto é, a cor apresenta três variáveis cromáticas, são elas (DONDIS, 2007, p. 65-66):
Matiz: também chamada de croma é o resultado dos comprimentos de onda de luz visível. O matiz é a qualidade mais elementar da cor que estabelece a distinção entre os tipos de cor. É a propriedade que define sua condição na forma como são denominadas, ou seja, “a cor em si”, como por exemplo, o amarelo, o vermelho, o azul e assim por diante.
Saturação: corresponde ao seu grau de pureza ou grau de vivacidade. Quanto maior a saturação de uma cor, mais viva e mais chamativa é sua aparência. Por outro lado, uma cor sem saturação alguma torna-se cinza.
Luminosidade: também chamada de valor tonal ou tonalidade. Corresponde a variação de claridade (ou brilho) de uma cor. Determinada por sua aparência em termos de claro ou escuro, por exemplo, um azul claro ou um azul escuro.
1.6.3. Variáveis topológicas
O posicionamento de um objeto no campo visual, ou a disposição de diferentes objetos neste mesmo campo, constitui um dos aspectos da manifestação material do signo visual. Portanto, a configuração espacial de um arranjo visual corresponde a uma característica do plano de expressão, assim, as variáveis topológicas são compreendidas como um aspecto próprio dos significantes visuais.
As categorias topológicas são definidas pelas três dimensões do espaço (altura, largura e profundidade) ou ainda por outras categorias estéticas, psicológicas ou abstratas:
Altura: relativo à primeira dimensão do espaço, o objeto pode estar posicionado em um ponto alto ou baixo do arranjo visual.
Largura: relativo à segunda dimensão do espaço, o objeto pode estar posicionado em um ponto à direita ou a esquerda no arranjo visual.
Profundidade: relativo à terceira dimensão do espaço, o objeto pode estar sobreposto a outro e produzir a sensação de estar em primeiro plano ou em
plano de posterior (ou em plano de fundo). Mesmo no caso de objetos que não estão sobrepostos existe a relação entre os diferentes planos da imagem.
Categorias abstratas: outras categorias de posicionamento podem ser estabelecidas por meio de relações estéticas ou abstratas próprias das representações visuais, por exemplo, um objeto pode ocupar um posicionamento central ou periférico em um arranjo visual.
Categorias da Gestalt visual: outras categorias topológicas podem ser homologadas a partir de sensações visuais, sensações estas que são estudadas pela psicologia da Gestalt visual. Neste caso as mais simples são as relações de proximidade ou distanciamento (separação). No entanto, outras categorias podem ser observadas a partir de regras visuais a nossa percepção dos arranjos visuais, como por exemplo, a sessão áurea, a regra dos terços ou as relações de configuração e o equilíbrio ponderados por Arnheim (2011). Nestes casos, um objeto pode ser posicionado de maneira a produzir a sensação de equilíbrio ou desequilíbrio, de estabilidade ou instabilidade, de regularidade ou irregularidade, e assim por diante.
1.6.4. Variáveis ópticas
A linguagem visual, a partir do Renascimento, desenvolveu uma plena tendência ao figurativismo por meio do uso de técnicas ópticas e de perspectiva que foram utilizadas no
Quattrocento e tiveram os artistas italianos como pioneiros. A representação visual se
desenvolveu gradualmente e de forma consistente com as descobertas e estudos científicos sobre o corpo e sua anatomia, a luz e seu comportamento, a percepção à cor e da perspectiva. Esta tendência figurativa fez com que as qualidades ópticas das obras visuais se tornassem cada vez mais um espelho da forma como enxergamos. Essas técnicas de representação foram incorporadas plenamente e se tornaram um padrão constante das imagens pictóricas a ponto de as relações ópticas, de perspectiva, dimensão e escala se tornarem fatores inconscientes que apenas são percebidos quando não correspondem ao padrão.
Com o advento da fotografia a busca pela representação objetiva torna-se mediada por novas relações tecnológicas relacionadas às possibilidades técnicas das construções de lentes e objetivas entre tantos outros recursos tecnológicos. Desta forma, distorções ópticas, deformações de escala, relações entre planos e alterações na profundidade de campo passam a ser elementos variáveis nas representações fotográficas e distantes de um único padrão estético determinado.
As principais variáveis ópticas são:
Perspectiva e escala: a perspectiva é uma técnica de representação que proporciona a sensação de profundidade e a ilusão de tridimensionalidade em uma imagem bidimensional. A perspectiva estabelece relações de escala entre objetos e planos da imagem, no entanto, alguns enquadramentos e posicionamentos de objetos podem criar relações de escala distorcidas ou irreais.
Distorções ópticas: objetivas com distancias focais de grande-angular e teleobjetivas podem apresentar distorções ópticas como características próprias resultantes de sua construção. Distorção circular, valorização da escala dos objetos em primeiro plano e achatamento de planos, são as principais distorções ópticas. Esses fatores não faziam parte das representações visuais antes do advento da fotografia, mas após seu surgimento passaram a vigorar tanto no âmbito das imagens fotográficas quanto no âmbito das imagens pictóricas visto que alguns pintores passaram a incorporar esses elementos em suas obras, sobretudo, na corrente do hiper-realismo.
Profundidade de campo: é a relação de nitidez e desfoque entre diferentes planos da imagem. As imagens em que os diferentes planos apresentam tendência à nitidez possuem alta profundidade de campo; por outro lado, as imagens em que os diferentes planos revelam a tendência ao desfoque em um destes planos é constatada a tendência a baixa profundidade de campo.