4.2 O Banco Mundial: constituindo-se "amigo" dos pobres
4.2.4 A função intelectual na produção do fetiche
O Fetiche é a expressão em Marx (1994) do caráter estranho, misterioso, sutil em que se transformam os produtos do trabalho humano dada a inversão operada nas relações sociais de classe aparecendo como mercadoria. “Uma relação social, definida, estabelecida entre os homens, assume a forma fantasmagórica de uma relação entre coisas [...] Aí os produtos do cérebro humano parecem dotados de vida própria” (Marx, 1994 p. 81) Quanto mais avançada a sociedade capitalista mais fetichizada se torna devido aos avanços na capacidade de concentrar trabalho humano em forma de tecnologia, aparecedo no produto humano cada vez mais estranhado de suas relações de origem. Os meios de comunicação de massa colaboram para essa produção invertida. Observamos esse processo no que tange ao problema da pobreza que, em razão dos processos tendenciais de exclusão do capitalismo, emerge como fruto de responsabilidades individuais, administrações incapazes, subdesenvolvimento e outros. A inversão é apresentada nas formulações do Banco e seu presidente ao querer fazer crer que o problema dos desequilíbrios sociais se situam na pobreza e na corrupção106. Wolfensohn
105 Quando citamos a noção de rede de Castells a compreendemos no sentido de rede de comunicação, o que invalida a
hipótese de uma relação horizontalizada que suprima a relação de classes. Ao contrário, as redes de comunicação e fluxos são instrumentos atuais de exercício de consenso e coerção do embate de classes, com bases hierárquicas nas economias centrais. Portanto, discordamos também da idéia de que entrar na rede será o futuro dos países fora do eixo central para resolver suas economias. A posição de subalternidade dos países periféricos e semiperiféricos é uma necessidade para a manutenção dos interesses das classes dominantes nacionais e internacionais.
106 Cf. Wolfensohn (1998) Estratégia de princípios básicos contra a corrupção, Instituto Banco Mundial (2004) El precio de
(1998), em Washington, enfatiza que a cooperação dos países clientes deveria assumir o compromisso de abrir suas economias e atacar a corrupção. A mensagem do documento é de que haveria uma grave crise humana, dado o aumento de pobres no planeta e que o Banco estaria fazendo sua parte. Atribui responsabilidade pela pobreza à corrupção:
há muito que fazer, mas todas as estratégias têm que começar com o compromisso de criar economias e sociedades que sejam abertas e transparentes e, por último, responsáveis. Isto significa comprometer-nos de combater o câncer da corrupção (WOLFENSOHN, 1998, p. 1).
É importante observar que o Banco fortalece a produção do fetiche na medida em que reforça o caráter da pobreza e corrupção como algo estranho às relações históricas de domínio entre países centrais, periféricos e semiperiféricos. Com esses argumentos justifica o processo de abertura de mercado e a suposta contribuição dos países clientes para a democracia. A estratégia fetichista é elaborada na medida que o Banco entra em cena como “Dom Quixote” da democracia contra a corrupção e protetor dos pobres, porém, tendo como razão final a barganha nas negociações comerciais.
A pauta dos valores da democracia liberal no Banco Mundial (2000a) surge coroando uma série de manifestações do Presidente James Wolfensohn sobre o risco de instabilidade política, decorrente do aumento da pobreza no planeta, pressionado pelas reações da sociedade civil contra a globalização e o capitalismo, manifestadas em intensos questionamentos aos projetos do grupo dos oito países mais ricos, o G8107.
A compreensão de democracia do Banco Mundial (2000a, p. 23) articula a educação superior ao espaço de desenvolvimento e propagação de valores embasados na revolução do conhecimento:
A democracia, por exemplo, se tem difundido pelo mundo ao mesmo tempo em que a revolução do conhecimento cobra maior velocidade. A democracia está baseada em preceitos claramente estabelecidos e amplamente praticados de virtude cívica, como também no conhecimento, que permite a participação do conjunto da comunidade na condução da sociedade. Valores
107 O G8 foi criado em meados da década de 1970 com seis países: França, EUA, Grã-Bretanha, Alemanha, Japão e Itália.
Em 1976 junta-se o Canadá, em 1994 a Rússia se aproxima do grupo e é assumida como membro em 1998. O objetivo é fazer política diplomática para garantir os interesses monetários, políticos (segurança e terrorismo). Esse grupo, que se caracteriza como uma espécie “clube de amigos” tem sido objeto de críticas de parte da sociedade civil pelo elitismo diplomático de cúpula sem dar respostas às questões sociais emergentes no mundo. Os Fóruns Sociais de Porto Alegre (1999- 2004) e as manifestações antiglobalização, a criação do “G6B” (Grupo dos 6 bilhões representando os habitantes do planeta, criado em 2002 em Calgary no Canadá ) são alguns dos movimentos mundiais que procuram fazer resistência e pensar saídas para os desequilíbrios mundiais.
que podem ser analisados e propagados nas instituições de educação superior mais eficazmente do que tem sido até agora, na sociedade em geral.
Essa construção conceitual subsidia a argumentação sobre a necessidade das reformas na educação superior. As reformas, ao mesmo tempo que atendem às pressões da reprodução do capital, justificam-se como medidas para aliviar a pobreza. O discurso sobre a democracia é um importante componente da coesão social, cada vez mais fragmentada pelos efeitos desagregadores das relações sociais. O risco de convulsões e revoltas dos pobres questionam a possibilidade de estabilidade do statu quo.
A exclusão social, configurando um quadro trágico, é testemunhada pelo próprio presidente do Banco, James Wolfensohn (1997, p. 5), quando diz que “devemos reconhecer que vivemos com uma bomba de tempo e que se não adotarmos medidas agora, poderá explodir nas mãos de nossos filhos”. Seu discurso quer mostrar aos países centrais que não considerar esse problema significa comprometer o futuro dos filhos nos próximos trinta anos. Isso porque o crescimento da população mundial aumenta em oitenta milhões ao ano. Se existem três milhões (sic) vivendo hoje com um dólar ao dia, daqui a trinta anos, serão cinco milhões (sic)108 (Wolfensohn, 1997).
Wolfensohn (1997) entende o combate à pobreza como uma questão de combinação entre o mercado e o social, faces de uma mesma moeda, e que o crescimento é importante para a redução da pobreza, mas não é suficiente. Então, a figura paternalista do Banco, em sua agenda fragmentária surge como a alternativa:
se quisermos combater a desigualdade, devemos ajudar os pobres a acumular ativos, inclusive, educação, saúde e terras. Devemos levar infra-estrutura e conhecimento às áreas pobres, rurais e urbanas. Devemos combater as desigualdades arraigadas, superando divisões baseadas em gênero, etnia, raça ou condição social. Devemos proteger os pobres contra perdas de colheitas e desastres naturais, crime e conflito, doença e desemprego (Wolfensohn , 1997, p. 5).
Wolfensohn (2000, p. 1), no discurso Construindo um mundo eqüitativo, faz uma chamada dramática sobre a segurança e a pobreza: “a luta contra a pobreza é a luta pela paz e a segurança mundial”. Em discurso em Washington 2002, enfatiza também a necessidade de diminuir a pobreza como condição para melhorar a segurança mundial. A violência é atacada como resultante da pobreza.
Em 2002, no discurso na Conferência Internacional sobre Estratégias para a
Redução da Pobreza, Wolfensohn (2003) explicita o medo das classes dominantes em
reconhecer que a paz mundial está em risco devido a pobreza. Caracteriza essa frente como uma força estratégica fundamental dos países desenvolvidos. Reduzir a pobreza é um imperativo moral, mas também econômico e social. O aumento do número de pobres é sempre citado como um dos quadros de desequilíbrio global, no sentido de ameaça aos países ricos, pois, segundo o autor,
nos próximos 25 anos, 50 milhões serão acrescentados à população dos países ricos. Cerca de um e meio bilhão serão acrescentados aos países de baixa renda [...] Um número crescente deixará seu país natal em busca de trabalho. A migração se tornará uma questão crítica (WOLFENSOHN, 2003, p. 3).
Porém, o drama que se expressa nos discursos do Presidente encontraria sua resolução no âmbito dos acordos estabelecidos entre os países ricos e estes seriam os protagonistas da diminuição da pobreza mundial. Conforme o autor (2003, p. 4), “há três anos, os líderes mundiais reuniram-se na cúpula do milênio para avaliar o futuro. Comprometeram-se em reduzir a pobreza até 2015”109. Os compromissos, do lado dos países ricos, articularam-se em
um pacote com indicações de ajuda para saúde, educação, meio ambiente. Do lado dos países periféricos e semiperiféricos, traduziu-se em compromissos políticos que deram origem à agenda neoliberal da década de 1990. De acordo com as palavras do mesmo:
os países em desenvolvimento se comprometeram em fortalecer a governança; criar um clima positivo de investimento; construir sistemas jurídicos e financeiros transparentes; e combater a corrupção. Os países desenvolvidos concordaram em esforços, aumentando o reforço institucional, prestando mais assistência e abrindo seus mercados ao comércio (WOLFENSOHN, 2003, p. 4).
Portanto, a questão da democracia é abordada via estratégia de flexibilização comercial e do alívio à pobreza. Wolfensohn (2003) usa, também, a expressão “cooperação”, cujo peso simbólico faz crer em relações democráticas. Na verdade, tem o sentido de um duplo condicionamento: o primeiro de fazer os países periféricos e semiperiféricos buscarem mais financiamentos como alternativa orçamentária, o que implica em vínculo político e
109 As estratégias de Wolfensohn não pareciam convencer os países centrais, aumentando o coro dos conservadores a se
somarem ao discurso do Presidente como Jeffrey Sachs (2005), Diretor do Instituto de Desenvolvimento Internacional da Universidade de Harvard.
econômico, não em condições de igualdade, mas numa condição de subalternidade. E, o segundo, refere-se às reformas sugeridas nos acordos que são agilizadas na medida em que são feitas promessas de empréstimos.
Como parte desta estratégia está a educação superior cumprindo um papel fundamental no tocante à produção de uma cultura democrática, de cidadania, de respeito aos valores culturais, religiosos, de raça e de cor, fortalecendo a sociedade civil e a meritocracia. Constituir-se-ia como espaço privilegiado da liberdade, podendo contribuir eficazmente com a tarefa da investigação e interpretação das questões éticas, morais, políticas, e com a cidadania ilustrada, traços determinantes de qualquer democracia liberal110.
A educação contribuiria com a estrutura de afirmação dos valores da convivência, do
viver na incerteza, do saber ser e saber compreender. Delors (1998) e Edgar Morin (2000a e
2000b) são conhecidos pela defesa de uma sociedade democrática dentro do marco de valores liberais, à medida que separam a esfera da convivência e do ser das dimensões econômicas e sociais, podendo ser consideradas teorias para a adaptação às condições dadas.
É para desenvolver estes valores que se mantém a democracia e que se torna necessário reformar a educação superior. A reforma, por sua vez, dependeria do conjunto de parcerias que viriam se somar aos processos de aproximação entre democracia, ciência, tecnologia e conhecimentos. Segundo o próprio Banco Mundial (2003, p. 113) :
por meio de alianças eficazes com outras instituições multilateriais, governos nacionais, ONG’s e o setor privado, o Banco Mundial aspira aplicar seus financiamentos e ampliação da base de conhecimento, em um empenho cada vez maior, nos setores da educação terciária 111.
Os projetos de alívio à pobreza percorrem toda a década de 1990, até os dias atuais, e são considerados como estratégia de segurança. Incluem-se nesses projetos a educação como componente central de operação nas contradições da exclusão. Ao contribuir com a coesão social, respeito às diferenças étnicas, de religião e de classe a educação estaria construindo
110 O BM toma cuidado para criar um clima de envolvimento dos parceiros nas suas decisões, buscando estratégias de
consenso. A advertência de que as reformas da educação, por exemplo, devem ser fruto de acordos entre governos, estudantes, indústrias e futuros estudantes, está alinhavada desde o documento La enseñanza superior: lecciones derivadas de la experiencia (1995a). O projeto deve desenhar-se dentro das condições políticas, históricas, culturais e sociais de cada país. Convenciona-se a construção de uma visão comum, capaz de gerar um guia de referências para a reforma e gerir e organizar o sistema de acordo com os interesses da sociedade, o que objetivamente é falso consenso, porque as decisões fundamentais sobre quais projetos e para quem serão direcionadas, estão definidas nas linhas estratégicas do Banco, e em acordo com as políticas dos países centrais.
111 O BM utiliza o termo terciário para se referir ao conjunto de formação pós-secundária, portanto não diz respeito
uma nação melhor e mais eqüitativa. Trata-se da receita sustentável de Wolfensohn propondo a união de políticas sociais e de mercado, incapaz de consenso até mesmo no BM.
4.3 A estrutura do Banco Mundial: tecnologia organizacional para produção do consenso