2.2 Daniel Bell e a sociedade “pós-industrial”: os fundamentos da “sociedade do
2.2.1 Classe, elite e poder
O teórico Daniel Bell (1976, 1980)20 é uma das principais referências no campo da reflexão sobre a sociedade “pós-industrial”, anunciada na década de 1960. Os pressupostos sugeridos por ele concorreram para fortalecer a ideologia da “sociedade do conhecimento”. A sua tese afirma a passagem da sociedade industrial para a sociedade dos serviços pós- industriais, na qual haveria uma nova base de produção, circulação e poder, cujo ideário otimista de uma outra sociedade confluia para a “sociedade do conhecimento”.
Um dos primeiros rompimentos, sugeridos por Bell (1976), em relação às teorias precedentes que explicavam as relações sociais e econômicas, é feito com o marxismo21. Conforme Bell (1980, p. 33),
o capitalismo não é apenas, como entendia Marx, um sistema econômico com determinadas relações entre empregadores e empregados, e com classes divididas por limites estritamente econômicos; é um sistema social no qual o poder se transmite através da família, e onde a satisfação da propriedade reside, em parte, no nome da família pelo qual a empresa se torna conhecida.
Segundo Bell, a categoria classe social é considerada obsoleta, tem sido contestada e ressignificada para explicar as novas condições sociais, nas quais o motor da dinâmica social seria dado pelos consensos políticos e não pelas classes. Na sociedade “pós-industrial”, a base do acesso ao poder é a educação, a qual é transmitida pela família. Portanto, afirma Bell (1976, p. 538), o processo de mudanças, “em termos sociológicos, é a ascensão de novas
20 Para compreender melhor a problemática “pós-industrial” em Bell utilizamos também sua obra O fim da ideologia, escrita
na década de 1950, anunciadora da derrota das concepções utópicas do marxismo.
21 Ao comentar Edward Shils, no que diz respeito à sociologia do século XX ser dependente dos grandes mestres modernos,
Bell (1976, p. 70) destaca: “a única figura que o professor Shils deixa de fora, muito estranhamente, é Marx, talvez pelo fato de nos termos tornado pós-marxistas”. Porém, Bell reconhece que não será possível uma análise das mudanças sociais sem partir de Marx. Contra todos os idealismos, Marx continua sendo a referência para os que compreendem que as mudanças não ocorrem pelas idéias. O próprio Bell assim entende o seu trabalho: “teremos mais uma vez de nos entender com o fantasma de Marx” (p.70).
elites técnicas e o advento de um novo princípio de estratificação social”. A nova ordem social, para o autor, implica revisão do conceito de classe, pois “a palavra classe não indica um grupo específico de indivíduos, mas sim, um sistema de institucionalização ou de regras básicas para adquirir, conservar e transferir o poder diferencial e os privilégios que o acompanham” (BELL, 1976, p. 399). Ou seja, para o autor, a mais contundente reviravolta social da segunda metade do século XX é a subordinação da economia à política, em que essa última se constitui em nova ordem de controle da sociedade. Os consensos seriam produzidos pelos grupos sociais hegemônicos, resultantes da ascensão das formas pós-industriais, isto é, “se as figuras dominantes do último século foram as do empresário, do homem de negócios e do executivo industrial, os ‘novos homens’ são os cientistas, matemáticos e engenheiros da nova tecnologia intelectual” (BELL, 1976, p. 380).
Mas o que, efetivamente, permite concluir a passagem do período industrial para o “pós-industrial”? Para Bell (1976, p. 199), “o ritmo da mudança, a mudança de escala são as idéias em torno das quais deve girar a discussão dos componentes centrais e estruturais da sociedade “pós-industrial”, as dimensões do conhecimento e tecnologia”. A tecnologia seria a principal responsável pela abertura de novas formas de trabalho e emprego e pelo redimensionamento das relações entre o planejamento, representado pelos setores administrativos e gerenciais, e os setores produtivos, subalternos às esferas administrativas. Isto é, haveria um novo cenário de relações no trabalho nos quais os trabalhadores da base produtiva não teriam hegemonia, que associado à fragmentação do trabalho, exigido pelos novos padrões tecnológicos em áreas de decisão e planejamento, resultaria em menor unidade dos trabalhadores como classe social. Haveria, ademais, corporações administrativas que cuidariam do pensamento/planejamento, ou seja, engenheiros e técnicos que operariam na produção, caracterizando, assim, uma espécie de subgrupo articulado, não ao redor da classe, mas identificado pelo fazer, ação e execução.
A negação do caráter de classe, nessa abordagem, firma-se sobre a confiança no fator conhecimento como novo propulsor da dinâmica social ou, mais exatamente, na incorporação das tecnologias de conhecimento e informação como fatores de produção, retirando o caráter do trabalho humano como a principal força produtiva e substituindo a categoria trabalho pela de conhecimento teórico. Também convenciona-se que na esfera da circulação da mercadoria, estaca de segurança da análise de Bell, se resolveriam as questões de trabalho e consumo, como se a mercadoria andasse separadamente da produção. Isto é, o caráter desse argumento
ideológico possui a propriedade de dar ao aparente (circulação) identidade universal e, a rigor, nega as relações de produção.
Para Bell (1976) o ano de 1956, seria o marco referencial da sociedade “pós- industrial”. Neste momento, os trabalhadores dos setores administrativos já compunham maior número em relação aos trabalhadores da base produtiva (semiqualificados) nos EUA, permitindo caracterizar, a partir de então, o período “pós-industrial”, no qual os setores de planejamento e pensamento superam o setor produtivo. Bell (1976) argumenta que o maior desenvolvimento do setor dos serviços não necessariamente seria a produção industrial; ao contrário, ela se manteria como atividade essencial e modificariam as relações com o conhecimento e a tecnologia que assumiriam um papel estratégico na dinâmica produtiva. Conforme Bell (1976, p. 134), “o conceito de sociedade ‘pós-industrial’ enfatiza a importância central do conhecimento teórico como eixo, em cujo redor se organizará o desenvolvimento econômico e a estratificação da sociedade”. Portanto, a partir desse entroncamento, podemos entender onde os defensores da “sociedade do conhecimento” (Bell (1976), Castells (1999a, 1999b, 1999c), Drucker (1964, 1970), Touraine (1973), Tofller (1995), buscam a argumentação de que os processos de mudanças implementadas pelas tecnologias permitiriam o remanejamento dos trabalhadores dos setores produtivos, em baixa, para os setores de serviços.
A análise de Bell (1976) é feita sobre os países centrais, que compõem a organização social com as seguintes características: no setor econômico, operariam a passagem de uma economia produtora de bens para uma economia de serviços; no âmbito da distribuição da
ocupação, estabeleceriam a proeminência da classe de profissionais qualificados e técnicos; na questão do princípio axial, exaltariam o caráter central do conhecimento teórico como
fonte de inovações e de formulação de políticas para a sociedade; na perspectiva temporal, promoveriam o controle da tecnologia e a valorização tecnológica; nos processos decisórios, incentivariam a criação de uma nova tecnologia intelectual. Teríamos assim os elementos de um quadro da futura sociedade “pós-industrial”.