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As perspectivas de Bell (1976) e de Castells (1999a) convergem na crença sobre a potência da tecnologia na inovação e no desenvolvimento possibilitando saídas para as contradições da sociedade capitalista na previsão de uma “sociedade do conhecimento”.

A nossa análise dessas perspectivas pressupõe a compreensão de Marx (1994) sobre o conceito de classe social que permite conhecer esta sociedade entrecortada por transformações tecnológicas e científicas, cindida em homens proprietários dos meios de produção, de um lado, e homens proprietários da sua força de trabalho, de outro. Cada homem é parte desse nexo social organizado pelo capital. Nesse marco, a cooperação entre os homens, o trabalho social, (Marx, 1994)56 é o fator central do desenvolvimento da produtividade do trabalho, o que faz o homem ultrapassar, na produção, o seu limite individual e construir o social. A superação da produção individual pela social pode ser visualizada na sua externalidade, no produto social: a máquina, a tecnologia, enfim, em todas as forças produtivas. Esta forma de produção cooperativa engendra o homem social, o ser social, embora ainda sob o modo de produção capitalista. As revoluções contínuas advindas das mudanças na base técnica, no modo de fazer as coisas, impõem também novos modelos educacionais que funcionam como mediações para tornar orgânica a hegemonia dominante.

Dentro desse raciocínio não é possível entender a “sociedade do conhecimento” como um novo modo de produção. O processo de criação e inovação de novos produtos resulta do mesmo ritual das revoluções tecnológicas anteriores, ou seja, das formas mais avançadas de efetivar o modo de produção capitalista. Processo esse que continua cindindo os homens em duas classes essenciais distintas. Afirma Marx (1994, p. 673) sobre essa cisão: “a produção capitalista, encarada em seu conjunto, ou como processo de reprodução, produz não só mercadoria, não só mais valia; produz e reproduz a relação capitalista: de um lado, o capitalista e de outro o assalariado”. Ambas forças coincidem e se reproduzem reciprocamente. Assim, a “sociedade do conhecimento” aparece como uma forma avançada de perpetuação da cisão capitalista entre os homens.

Por outro lado, as estruturas políticas, jurídicas, os aparelhos privados de hegemonia, na acepção gramsciana, assumem essas lógicas de modo fetichizado, compreendendo-as de modo invertido e interpretando as mudanças produzidas pela revolução tecnológica como possibilidades de resolução das contradições do capitalismo. A “sociedade do conhecimento”, como expressão ideológica, apresenta o conhecimento e a informação como desenvolvimento e lucratividade. A história, no entanto, diz mais ao mostrar que o trabalho passado, realizado pela máquina, é cada vez mais incorporado no processo produtivo, ao lado da dispensa cada vez maior de homens do trabalho e da concentração derenda57.

56 Capital, livro I, vol I, cap. XI, sobre a Cooperação.

57 Como ilustração da condição brasileira conferimos em Pochmann et al. (2004), na obra Atlas da exclusão social, Vol 3,

A tecnologia, segundo Marx (1994)58, na sociedade burguesa só é revolucionária no sentido de dinamizar o movimento do capital e não no sentido de modificar o modo de produção. É inerente ao capital a constante revolução de si mesmo, por meio das forças produtivas. Sua condição de existência está no movimento ininterrupto de si mesmo, de tal forma que a tecnologia compõe essa dinâmica, não no sentido de suplantar a condição do capital, mas para reforçar a sua manutenção. Daí as contradições entre o que de fato constitui avanço, em todo o movimento da sociedade capitalista, e a união entre os homens para a superação de seu estágio biológico e individual. Nessa direção, é possível entender que o ideário “sociedade do conhecimento” atribui à ciência e à tecnologia o que interessa para a reprodução do capital. Na lógica de dinamização das formas de produção cria a sensação de uma revolução permanente da sociedade, mas objetivamente promove a reacomodação das estruturas de poderes políticos e de acumulação mantendo-as nos marcos do modo de produção capitalista. Sendo assim, as mudanças da sociedade capitalista na base técnica de produção contribuem para a modificação das noções de tempo e espaço que passam a adquirir caráter natural, quando o seu verdadeiro sentido está na lei que promove a concentração, expansão do capital, revolucionando-se a si mesmo e às condições dadas para seu avanço. Portanto, o caráter de inovação e desenvolvimento carece da análise sobre a temporalidade do capital, dimensão essencial para a conservação da acumulação e concentração. Não basta considerar que a tecnologia, o conhecimento ou a ciência são fatores que se entrecruzam produzindo revoluções constantes sem dizer como ocorre tal movimento e que conseqüências eles produzem.

Bell e Castells argumentam que o novo ideário social é resultado das novas tecnologias como um novo paradigma que revoluciona a sociedade. E ao revolucioná-la, cria uma nova divisão do trabalho produzindo maiores condições de reprodução da existência humana, isto é, possibilita aumento do trabalho, maiores salários, especializações técnicas e um conjunto de vantagens que comporiam uma nova relação social. O novo paradigma procura induzir à aceitação do fim da sociedade do trabalho e do capital, por meio do “Fim da Ideologia” (Bell, 1980) ou do fim da sociedade de classes e a emergência de relações em rede (Castells, 1999a)59.

(0,01% das famílias brasileiras) que controlam 46% do Produto Interno Bruto - PIB. Nesse mesmo período, o crescimento das famílias pobres foi de 18% e a classe média perdeu em renda mais de 17%. Em termos regionais, esse mesmo processo se repete. No sudeste, entre 1980 e 2000, a concentração das famílias ricas passou de 67,2% para 73,5% do PIB. No sul, o número de famílias ricas caiu de 13,7% para 10%, no nordeste de 9,4 % para 7,2 %.

58 Capital, livro I, Vol I, cap XIII, sobre A Maquinaria e a Indústria Moderna.

59 Salientamos que no período em que Bell escreve o comunismo da antiga União Soviética ainda se constituía pólo de

Se, porém, propusermos como ponto de partida para a análise as relações entre capital e trabalho, isto é, as relações entre as classes sociais e seus desdobramentos chegaremos a outras conclusões.

O modo de produção capitalista é marcado por condições de produção e, portanto, de acumulação, constituídas por leis históricas tendenciais60, cuja constância rege-se pelas suas formas sociais. As proporções entre o capital constante (CC), o capital variável (CV) e o trabalho excedente (MV) são definidas na relação entre capitalista e trabalhador, isto é, quanto fica para o trabalhador e quanto é apropriado pelo capitalista. O capitalista, de posse de dinheiro, riqueza na forma abstrata, compra meios de produção e força de trabalho, disponíveis no mercado como mercadorias para, na produção, extrair mais trabalho excedente dos trabalhadores. Uma parcela do produto do trabalho do trabalhador é devolvido a ele sob a forma de salário, condição necessária à reposição de sua energia física e mental conservando a sua existência enquanto trabalhador. Outra parcela é apropriada pelo capitalista na forma de mais-valia, sem nada dar em contrapartida. Compreende-se que no modo de produção capitalista o trabalhador só encontrará espaço para sua reprodução como trabalhador assalariado se efetivar as condições: a) conservar o valor dos meios de produção; b) reproduzir-se a si mesmo enquanto trabalhador, ou seja, produzir seu próprio salário e c) produzir o próprio capitalista como tal. Portanto o trabalhador será contratado pelo capitalista somente se ele efetivar essas condições (MARX, 1994).

Essas relações são dialéticas e, portanto, acompanham o processo de valorização do capital, sem ameaçá-lo. O Modo de Produção Capitalista reproduz essas condições para manter-se. Por isso, segundo Marx (1994, p. 719),

o objetivo do comprador é aumentar seu capital, produzir mercadorias que contêm mais trabalho do que ele paga e cuja venda realiza também a parte do valor obtido gratuitamente. Produzir mais valia é a lei absoluta desse modo de produção. A força de trabalho só é vendável quando conserva os meios de produção como capital, reproduz seu próprio valor como capital e proporciona, com o trabalho não pago, uma fonte de capital adicional.

marxismo como inimigo imediato. Castells escreve no final da década de 1990, momento em que as condições da queda do muro de Berlin (1989) indicavam o caminho único do liberalismo econômico. Sendo assim, os períodos são diversos mas as questões sobre um ideário diferente em que a análise marxista não daria mais conta são levantadas por ambos.

60 Sobre as leis de acumulação capitalista, cf. o Cap. XXIII de Marx (1994). A primeira lei é a Taxa de Mais-Valia, que é

igual à Mais Valia dividada pelo Capital Variável (Tx MV = MV/CV). A segunda é formada pela Composição Orgânica do Capital, que é igual ao Capital Constante, dividido pelo Capital Variável (COC = CC/CV). A terceira é composta pela Taxa de Lucro, que é igual à Mais Valia, dividida pelo Capital Constante, mais o Capital Variável (Tx L = MV/ CC+CV).

No modo de produção capitalista a produtividade do trabalho interfere nas magnitudes entre o quanto o capitalista se apropria na forma de lucro e o quanto o trabalhador recebe na forma de salário, alterando as relações entre as classes sociais, capitalistas e trabalhadores. Isso ocorre quando: 1) há um aumento da produtividade especificamente nos setores produtores de bens de consumo dos trabalhadores, os bens de subsistência, fazendo baixar o valor da força de trabalho dos trabalhadores, porque reduz a quantidade de trabalho necessária para a reposição da sua energia física e mental. Esse fator altera as proporções entre o capital variável e a mais-valia. 2) há um aumento da produtividade do trabalho, que também altera as relações entre as classes sociais, quando aumenta a eficiência do trabalho, eliminam seus poros, significando seu adensamento; seu efeito é o mesmo da ampliação da jornada de trabalho, somente que intensifica o trabalho sem lhe acrescer mais horas necessárias a sua execução. Nesse sentido, a tecnologia, no modo de produção capitalista, que é a aplicação consciente da ciência, o controle da natureza pelo homem, transforma-se em um mecanismo de alterar as proporções entre o capital variável e a mais-valia, entre a proporção que fica para o trabalhador repor suas energias e a proporção que vai para o capitalista, a mais-valia. Conforme Marx ( 1994, p. 374):

A economia dos meios de produção tem de ser considerada sob dois aspectos. Primeiro barateia as mercadorias, reduzindo desse modo o valor da força de trabalho. Segundo, altera a relação entre mais valia e capital total adiantado, isto é, a soma de suas partes constante e variável.

Nessa perspectiva não é possível pensar a sociedade sem classes, dinamizada pelas elites administradoras e proprietários (Bell) ou ordenada em redes (Castells). As mudanças na base técnica se imprimem como formas de afirmação do capital. A sociedade informacional de Castells e a sociedade baseada no conhecimento de Bell se tornam, portanto, uma forma de efetivação do capital, ou seja, esta afirma-se constantemente, produzindo trabalhadores assalariados de um lado e capitalistas de outro.

O processo de acumulação desenvolve uma série de novos fatores sociais: novos mercados, novas esferas de aplicação do capital que, por sua vez, podem elevar a necessidade de trabalho e de trabalhadores. Marx (1994), porém, adverte sobre as contradições existentes no desenvolvimento capitalista, que constantemente revolucionam os meios de produção

(CC), para manterem-se numa condição superior àquela da força de trabalho (CV)61. Esse movimento é dinamizado pelas novas tecnologias, que incorporam novas técnicas produtivas e aumentam a produtividade do trabalho, exigindo um novo tipo de trabalhador, mais especializado e em menor número, dispensando outros tantos trabalhadores, desnecessários a essa lógica. Segundo Marx (1994, p. 723),

essa mudança na composição técnica do capital, o aumento da massa nos meios de produção, comparada com a massa da força de trabalho que os vivifica, reflete-se na composição do valor do capital, com o aumento da parte constante às custas da parte variável.

O aumento da riqueza e da acumulação numa determinada sociedade chega a um ponto em que a produtividade do trabalho social é a alavanca mais poderosa de acumulação62. Para esse processo sobreviver, o capital dispensa proletários. Marx (1994, p.714) diz: “por ‘proletário’ deve-se entender, economicamente, o trabalhador assalariado que produz e expande o capital, e é lançado à rua, logo que se torna supérfluo para as necessidades de expansão do ‘monsieur capital’[...]”.

Ora, ao serem implementadas inovações tecnológicas agregando maior conhecimento aos processos produtivos, são destruídas as formas de trabalho antigas e surgem outras formas de trabalho mais flexíveis, acompanhadas de maior acumulação de riqueza e da precarização dos contratos de trabalho. Este resultado se contrapõe à perspectiva da sociedade informacional e a baseada no conhecimento de que as relações constituídas entre os homens na sociedade capitalista tendem ao progresso e Bem Estar Social. É coerente assinalarmos que em condições favoráveis de acumulação criam-se situações cômodas, como no pós-II Guerra com o Estado do Bem-Estar Social, e as relações de dependência do trabalho ao capital tornam-se mais suportáveis. Porém, há um limite para tal condição que se extingue logo que o capital não se sinta mais ameaçado por forças políticas adversas. Mesmo nestes períodos suportáveis, também vividos por Marx (1994, p. 217), não se elimina a submissão do trabalho ao capital, pois

essa submissão, em vez de mais intensa, se torna mais extensa, ao crescer o capital, que amplia seu campo de exploração e de domínio com as próprias dimensões e com o número de seus vassalos. Estes recebem, sob a forma de

61 Segundo Marx (1994, p. 723), “o grau de produtividade do trabalho, numa determinada sociedade, se expressa pelo volume

relativo dos meios de produção que um trabalhador, num tempo dado, transforma em produto, com o mesmo dispêndio de força de trabalho”.

meios de pagamento, uma porção importante do seu próprio produto excedente que se expande e se transforma em quantidade cada vez maior de capital adicional.

Portanto, a força de trabalho, ao estar submissa e organicamente vinculada ao capital, estabelece com ele uma relação de dependência e a sua manutenção, ou não, depende da composição orgânica do capital. Para Marx (1994, p. 730),

o modo de produção especificamente capitalista, o correspondente desenvolvimento da força produtiva do trabalho e a mudança conseqüente na composição orgânica do capital não acompanham apenas o progresso da acumulação ou o crescimento da riqueza social. Avançam com rapidez muito maior, porque a acumulação simples do capital ou o aumento absoluto do capital total é acompanhado pela centralização de seus elementos individuais, e a transformação técnica do capital adicional é seguida pela transformação técnica do capital primitivo. Com o progresso de acumulação varia a relação entre capital constante e capital variável de 1:1[...]7:1. Desse modo, ao crescer o capital, emprega-se em força de trabalho, em vez de ½ de seu valor global, progressivamente apenas 1/3 [...] 1/8, e, por outro lado aplica-se em meios de produção 2/3 [...] 7/8 desse mesmo valor. Sendo a procura de trabalho determinada não pela magnitude do capital global, mas pela magnitude de sua parte variável, ela caiu progressivamente com o aumento do capital global, ao invés de crescer proporcionalmente com ele.

Ora, a lei geral de acumulação capitalista constitui-se a base do processo de produção da sociedade capitalista. Enquanto o modo de produção capitalista produzir capitalistas de um lado e trabalhadores de outro, essa lei se manterá, assegurando com ela, um processo maior de socialização da produção e apropriação privada dos meios de produção. Conforme explicita Marx (1994, p. 722),

a elevação do preço do trabalho fica, portanto, confinada em limites que mantêm intactos os fundamentos do sistema capitalista e asseguram sua reprodução em escala crescente [...] E tem de ser assim num modo de produção em que o trabalhador existe para as necessidades de expansão dos valores existentes, ao invés de a riqueza material existir para as necessidades de desenvolvimento do trabalhador.

Logo, a evolução na base técnica do capital, tomada por Castells e Bell como uma espécie de caminho único, precisa ser entendida dentro do fundamento histórico da produção especificamente capitalista, pois, para Marx (1994, p. 725), “todos os métodos para elevar a força produtiva social do trabalho, surgidos sobre esse fundamento, são ao mesmo tempo

métodos para elevar a produção da mais valia ou do produto excedente, que por sua vez é fator constitutivo da acumulação”. De outro modo, podemos dizer como Marx (1994, p. 726) que “[os métodos] são, portanto, ao mesmo tempo métodos para produzir capital com capital ou métodos para acelerar sua acumulação”. A tecnologia, sendo método mais avançado, intensifica o trabalho, alterando as relações entre capital constante, capital variável e mais- valia, permitindo maior expropriação desta última.

A força produtiva do trabalho social desenvolvida pelo modo de produção capitalista e materializada em instrumentos de trabalho e tecnologia cresce constantemente. Essa dimensão temporal posta por esse modo de produção, é ponto chave para o processo de expropriação de mais trabalho excedente do trabalhador. Há uma busca ininterrupta do capital, nesta sociedade, para transformar dinheiro em mercadoria e esta em mais dinheiro. Ao mesmo tempo em que ocorre este processo, objetiva-se a chamada concentração e centralização do capital63. Marx (s/d, p. 317 vol I) explica que “todo novo desenvolvimento das forças produtivas do trabalho têm forçosamente que tender a aprofundar os contrastes sociais e aguçar os antagonismos sociais”. Portanto, mais rapidamente se destroem as possibilidades de avanços no bem estar social, ao mesmo tempo em que são abertas novas frentes de mercado de inovação tecnológica.

A tecnologia é um fator intrinsecamente positivo porque expressa o avanço no desenvolvimento das forças produtivas e a criatividade do trabalho humano tornado técnica. A nossa crítica é dirigida às elaborações teóricas de Castells e Bell que procuram ver nela a substituição do trabalho e das classes sociais. A tecnologia como o modo de desenvolvimento das forças produtivas, ao dinamizar a produção em forma de mercadorias, também impacta as outras dimensões sociais, como educação, transporte e saúde. Não questionamos esse impacto, mas a análise que se faz dele, sobretudo quando nas tecnologias se justificam mudanças profundas no caráter, por exemplo, da educação, de modo acrítico, confundindo a sociedade com proposições de reformas que não possuem caráter de desenvolvimento dos valores do público e cultural64.

Nesta perspectiva, também é possível compreender os processos de reformas ocorridas no Brasil, na década de 1990, em que o Estado e demais instituições são desregulamentadas para poderem cumprir o movimento da mercadoria para dinheiro. Logo, o conhecimento

63 MARX, Karl. O Capital, Livro I, Vol. II, sobre A Lei Geral da Acumulação Capitalista.

64 Estamos nos referindo às propostas de reforma para a educação superior do BM, também baseadas no ideário da

como força produtiva, cumpre agora o papel de também comprimir o tempo de produção no processo da inovação e, ao mesmo tempo, se tornando ele mesmo mercadoria.

Isto confirma a tese central desse capítulo que versa sobre a recomposição hegemônica das forças capitalistas. Estas, no afã de se livrarem da referência de classe, produzem as teorias da sociedade informacional e do conhecimento. Porém, se estamos no caminho certo, tais elaborações expressam-se invertidamente, criando a perspectiva de que as idéias sobre tecnologia, conhecimento, informação, determinam as relações sociais. Marx (1974, p. 25-26) assinala que o real determina a consciência:

A consciência nunca pode ser mais do que o Ser consciente; e o Ser dos homens é o seu processo da vida real. E se em toda a ideologia os homens e as suas relações nos surgem invertidos, tal como acontece numa câmara obscura, isto é apenas o resultado do seu processo de vida histórico, do mesmo modo que a imagem invertida dos objetos que se forma na retina é uma conseqüência do seu processo de vida diretamente físico.

Entendemos que a crise de acumulação, da qual a década de 1970 é referência, implicou avanço de tecnologias e flexibilização das formas de produção e de trabalho. Com o avanço tecnológico o conhecimento adquire maior importância, pois ele incorpora à produção a ciência mais avançada como produto do trabalho humano. O próprio conhecimento se torna um produto necessário como elemento catalizador e concentrador do capital. Os fenômenos do avanço tecnológico e do avanço do conhecimento são interpretados por Bell e Castells como algo naturalizado, ou mais exatamente, reificado como se fossem independentes das relações de cooperação do trabalho humano e das contradições inerentes às relações de classes

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