Sempre nos acusam de estarmos vendo fantasmas.
Völkischer Beobachter 24 de março de 1920
APÓS A GRANDE GUERRA, nada parecia mais indiscutível do que a vitória do ideal democrático. Sem contestação aparente ele triunfava além das novas fronteiras, impondo-se à agitação e às disputas incessantes entre as nações, como o princípio sobre o qual, fossem quais fossem suas deficiências, a opinião geral na época estava de acordo. Porque a guerra tinha dado o veredicto não apenas sobre uma certa forma de poder, mas também acerca de um conceito de soberania:
após o aniquilamento de quase toda a organização política da Europa central e oriental, a revolução e o tumulto originaram numerosos governos novos sob a égide das ideias democráticas. Enquanto em 1914 a Europa só contava com três repúblicas para 17 monarquias, quatro anos depois contavam-se tantos estados republicanos quanto monarquias. O espírito da época parecia favorecer, sem dúvida, a criação de novas formas de soberania popular.1
Só a Alemanha parecia resistir a essa corrente da época, após ter-se deixado levar provisoriamente por ela: a recusa da realidade gerada pela guerra manifestava-se na ampla proliferação de partidos racistas e de clubes, de grupos e corporações independentes. Para todos esses agrupamentos a revolução era um ato de traição, a democracia parlamentar uma forma de governo imposta pelo estrangeiro, uma expressão destinada a designar “tudo que se opunha à vontade do estado alemão”, quando não era simplesmente denunciada como uma
“instituição a serviço da tentativa de pilhagem organizada pelas capitais da Entente”.2
Os antigos adversários da Alemanha tinham visto nas numerosas manifestações de protesto nacionalista a reação característica de um povo impenitente, sempre enamorado da autoridade, hostil à democracia e ao direito
de autodeterminação dos povos. Certamente que, na Alemanha, não se esquecia naquela ocasião de levar em conta o acúmulo sem precedentes dos obstáculos políticos e psicológicos impostos à nova república. Era viva ainda a lembrança do impacto provocado pelo Tratado de Versalhes e suas proscrições, pelas amputações territoriais e as reparações; em suma, pelo empobrecimento ou a ruína moral de numerosas camadas da população. Mas por trás de todas essas constatações encontrava-se sempre a noção de uma fissura moral importante entre os alemães e a maioria de seus vizinhos.
Impregnado de rancor, recusando retratar-se, o enigmático país se enclausurava em seu espírito retardatário e extraía disso um orgulho peculiar.
Renunciava não só à razão e ao humanitarismo do Ocidente, como também se opunha à tendência geral do mundo de então. Durante dezenas de anos, essa noção dominou a controvérsia relativa às razões que foram a origem da escalada do nacional-socialismo.
Contudo, a imagem da democracia vitoriosa que confirmava tantas esperanças era ilusória; o momento em que parecia se efetivar historicamente assinalou também para ela o começo da crise. Poucos anos depois, a ideia democrática foi questionada em seus princípios, como nunca lhe ocorrera até então. Vitoriosa havia tão pouco tempo, viu-se eclipsada ou mesmo mortalmente ameaçada pelos triunfos infinitamente mais espetaculares de um movimento de um gênero novo, nascido em condições similares no seio da maior parte dos estados europeus.
Esses movimentos alcançaram êxito mais durável nos países em que a guerra fora acompanhada de insurreições revolucionárias de esquerda, ou naqueles onde o conflito mundial suscitara ou revelara ondas complexas de descontentamento.
Alguns desses movimentos eram conservadores e pranteavam os bons tempos de outrora, em que os homens eram mais honestos, as campanhas mais pacíficas, e quando o dinheiro tinha mais valor; outros eram revolucionários e se entregavam a uma concorrência brutal, com menosprezo pelo estado de coisas vigente.
Alguns atraíam sobretudo a maioria da pequena burguesia, outros chamavam para si os camponeses ou parte do operariado. E, qualquer que fosse a maneira particular como misturavam as classes, os interesses e os sintomas, pareciam todos despender energias atuando nas camadas profundas da sociedade, camadas que eram a uma só vez as mais limitadas e as fundamentais. O nacional-socialismo não foi senão uma variedade daquele movimento europeu de protesto e de resistência que se propunha a modificar a situação do mundo.
Esse movimento teve traços provincianos em seu início: formaram-se associações de pequeno-burgueses, transpirando tédio, segundo ironizava Hitler,
que se reuniam nas tabernas de Munique, onde em meio a rodadas de cerveja queixavam-se da situação vigente e discutiam as agruras do país e da família.
Ninguém poderia conceber que pudessem ter sucesso ou mesmo fazer concorrência aos grupos maciços e poderosamente organizados dos partidos de filiação marxista. No entanto, o correr dos anos veio provar que tais associações de bebedores de cerveja racistas — aos quais se juntaram logo grupos de ex-combatentes desiludidos e burgueses ameaçados pela proletarização — possuíam em estado latente um dinamismo poderoso, que parecia aguardar apenas o momento de ser despertado, concentrado e posto em ação.
Os fatores que animavam tais associações eram tão diferenciados quanto os grupos de que elas se compunham no início. Só em Munique havia, em 1919, perto de cinquenta associações mais ou menos políticas, cujos membros provinham essencialmente dos restos dos partidos de antes da guerra, desagregados por ela e pela revolução. Tinham denominações como Pátria Nova, Conselho do Trabalho Espiritual, Círculo Siegfried, Liga Universal, Nova Vaconia, Liga Social Feminina, Associação Livre dos Estudantes Sociais, Liga Ostara. O Partido dos Trabalhadores Alemães figurava igualmente entre as associações ali representadas. Aquilo que as ligava, além de suas preocupações, o que todas tinham em comum realmente tanto no plano intelectual como no da realidade era uma grande angústia.
Tratava-se de início, e de maneira imediatista, do medo da revolução, esse
“grande medo” que, depois da Revolução Francesa, assombrara por todo o século XIX os sonhos da burguesia europeia. A consciência pública alimentava a impressão inextirpável de que, como as forças da natureza, as revoluções, indiferentes ao arbítrio de seus promotores e participantes, perseguiam seus objetivos segundo um mecanismo elementar e terminavam de modo inexorável num regime de terror, na destruição, no crime e no caos. Em contraste com a proposição de Kant de que a revolução pode atestar também a vontade de progredir da natureza humana, essa concepção se impôs irremediavelmente. Na Alemanha, muito particularmente, ela entravou durante várias gerações toda e qualquer disposição revolucionária no plano prático e originou esse “fanatismo da autoridade” que, até 1918, reagiu a quase todas as proclamações revolucionárias com um apelo padronizado em favor da ordem pública e da paz.
Essa angústia já antiga tornou-se atual não apenas pelas manifestações revolucionárias na Alemanha, mas sobretudo em consequência da Revolução Russa de outubro e da ameaça que ela constituía. Descritas sob uma luz muitas
vezes demoníaca e exageradas pelas narrativas de refugiados e emigrantes chegados em massa a Munique, que falavam em orgias de bárbaros sedentos de sangue, os horrores do terror vermelho tinham excitado a imaginação nacional.
Um dos jornais racistas de Munique publicou, em outubro de 1919, o seguinte tópico, característico do delírio de angústia manifestado na época:
Tempo lamentável este no qual asiáticos circuncisados, inimigos do Cristianismo, erguem em toda parte suas mãos asquerosas e sangrentas para nos estrangular em massa! Os massacres de cristãos cometidos pelo judeu Issaschar Zederblum, aliás Lênin, surpreenderiam até a Gengis Khan. Na Hungria, o seu discípulo Cohn, aliás Bela Kun, tem percorrido o infortunado país à frente de um bando de terroristas, dispostos a matar e a roubar, prontos a enforcar burgueses e camponeses em sinistros patíbulos transportados num caminhão. Um faustoso harém conduzido em carros principescos lhe permitiu violar e conspurcar respeitáveis donzelas cristãs. Só seu lugar-tenente, Samuely, fez degolar sessenta sacerdotes num abrigo subterrâneo. Os ventres das vítimas eram abertos, seus cadáveres mutilados ainda sangrando após ter sido feita a pilhagem. Foi confirmado que oito padres foram crucificados à porta de suas igrejas antes de serem assassinados! Agora se diz que essas cenas de horror se reproduzem exatamente da mesma forma até em Munique.3
O horror que se apoderou de todos à notícia das atrocidades cometidas no Leste não era injustificado, pois se baseava também em depoimentos dignos de crédito. Um dos chefes da Cheka, o letoniano M. Latsis, declarara no fim de 1918 que era a condição social, e não a culpabilidade ou a inocência, que devia impor a pena de prisão ou mesmo a execução do acusado: “Estamos a ponto”, disse ele, “de eliminar a burguesia em sua qualidade de classe. Vocês não têm nenhuma necessidade de provar que esse ou aquele tem agido contra os interesses do poder soviético. A primeira pergunta a ser feita em relação a um detido é sobre a classe a que pertence, de onde vem, qual o seu grau de instrução e sua profissão. As respostas fornecidas deverão selar a sorte do acusado. Tal é a quintessência do terror vermelho.”4 Uma proclamação do Partido parece fazer coro a essa instrução de Latsis, quando acentua: “Pretendem esperar mais para agir quando em cada cidade milhares de seres humanos já estejam pendurados na forca à luz de refletores? E quando, exatamente como na Rússia, um soviete criminal bolchevique já tenha sido instalado em cada aldeia? Vão esperar que pisem sobre os cadáveres de vossas mulheres e de vossos filhos?” A partir daí, a ameaça da revolução não provinha mais de alguns poucos conspiradores isolados e procurados em toda a Europa, mas sim da grande e inquietante Rússia, que Hitler chamava “o gigante do poder brutal”.5 A agitação que o novo regime promovia com a certeza de vencer fazia parte dessa síndrome que Filippo Turati definiu como “bebedeira bolchevique”. Com essa agitação se propunha demonstrar que a conquista da Alemanha pelas forças conjugadas do
proletariado internacional não só era uma etapa decisiva da revolução mundial, mas era iminente. As atividades ultrassecretas dos emissários soviéticos, as perturbações organizadas em caráter permanente, a república dos conselhos operários da Baviera, o movimento subversivo de 1920 no vale do Ruhr, as rebeliões do ano seguinte no centro da Alemanha, os levantes em Hamburgo e, em seguida, na Saxônia e na Turíngia, tinham dado argumentos sólidos aos que, nos bastidores, temiam a ameaça de uma revolução extensiva do regime soviético e desejavam defender-se dela.
Essa ameaça pesou igualmente sobre os discursos de Hitler, principalmente durante os primeiros anos, quando evocava num quadro de cores berrantes a atividade dos “comandos de matadores vermelhos”, o “comunismo assassino”, o
“pantanal de sangue do bolchevismo.” Mais de trinta milhões de seres humanos, assegurou ele certo dia, têm sido torturados lentamente até a morte na Rússia,
“uns foram mandados ao cadafalso, outros executados com uma descarga de metralhadora ou por meios similares, outros ainda foram mortos em verdadeiros matadouros, e ainda milhões e milhões deles morrem de fome. E nós todos sabemos que essa onda de fome prossegue (…) como uma epidemia nós a vemos se aproximar e ameaçar igualmente a Alemanha. A intelligentsia da União Soviética tem sido eliminada por meio de um assassinato em massa, a economia destruída de alto a baixo, milhares de prisioneiros de guerra alemães têm sido afogados no Neva ou vendidos como escravos; nesse meio-tempo foram criadas na Alemanha as condições necessárias à destruição revolucionária por meio de um trabalho de sapa, constante e sempre idêntico”. O mesmo destino da Rússia nos aguarda, frisava uma declaração constantemente repetida.6 E anos mais tarde, quando já se achava no poder, Hitler amaldiçoou “o horror da ditadura odiosa da Internacional Comunista” que o tinha preocupado no início de sua carreira. “Eu estremeço só em pensar”, dizia ele, “no que seria de nosso velho continente superpovoado se o caos da revolução bolchevique triunfasse.”
Essa atitude de defesa em relação à ameaça revolucionária marxista forneceu ao nacional-socialismo uma boa parte de seu páthos, de sua agressividade e coesão internas. O objetivo do Partido, repetia Hitler sempre, reside mui simplesmente no repúdio e na eliminação da concepção marxista do mundo. Isso seria feito com o auxílio de uma “organização ímpar da propaganda e da educação, montada com grande talento. Para tanto, devia ser criado igualmente um movimento que poria em ação a força mais fanática e o espírito de decisão mais brutal, que estaria assim apto em qualquer momento a opor um terrorismo dez vezes superior ao manipulado pelo marxismo”.7 Quase na mesma época, Mussolini, motivado por considerações análogas, fundava os fasci di
combattimento, o que deu a esses novos movimentos a denominação de fascistas.
Entretanto, por si só, o temor à revolução não teria sido certamente capaz de gerar aquela energia viva e excessiva que conseguiu até mesmo pôr em risco a orientação mundial. Podemos afirmar, além do mais, que a revolução representava para muita gente uma esperança. Bastaria o toque de um estímulo mais vigoroso e mais elementar para a sua ação. E, de fato, temia-se que o marxismo fosse a vanguarda de um ataque infinitamente mais amplo, englobando todas as noções tradicionais. O temor era maior ainda quando se via nele a manifestação sobre o plano político de um conceito metafísico de subversão, uma “declaração de guerra fundamental… contra a ideia de civilização europeia”.8 Isso era, verdadeiramente, a imagem dramática através da qual se manifestou a angústia característica daquela época.
Além da ideia de uma simples agitação política, a angústia representava a tendência essencial daquele tempo. Correspondia ao pressentimento de que o fim da guerra não assinalava só o fim da Europa de antes de 1914, com sua grandeza, com a intimidade de suas formas vitais e de seu espírito de conquista, com suas monarquias e suas disposições paternalistas. A mais de 1918, dizia-se então, lá se vai toda uma época; com o desaparecimento das antigas formas de domínio, também um certo modo de vida se extingue. A inquietude, o extremismo das massas politizadas, a agitação revolucionária não foram encarados, em geral, como simples consequências da guerra, mas sim como os sinais indicadores de um tempo novo e caótico do qual seriam banidos todos os valores que tinham promovido a grandeza da Europa e tornado familiar sua imagem: “Eis por que parece que o chão cede sob nossos pés.”9
Na verdade, raras vezes uma época se apercebeu com tanta nitidez que estava no fim. A guerra não só tinha precipitado e intensificado tal processo evolutivo, mas fizera a opinião pública conscientizar-se dessa mudança. Pela primeira vez, a Europa adquiriu uma noção da forma de vida que o futuro lhe imporia. O pessimismo, que durante tanto tempo fora o apanágio de uma reduzida elite, tornou-se bruscamente a atmosfera da época. A qual se definiu no título de um livro famoso, Im Schatten von morgen [À sombra do amanhã].
E essa sombra tingia tudo. A guerra tinha acarretado, no plano econômico, novas formas colossais de organização, que contribuíam para revelar a fisionomia típica da ordem capitalista. Racionalização e produção em série, trustes e magnatas punham a nu mais do que nunca a fraqueza estrutural de todas as existências humildes. A tendência a se integrar em amplas formas de organização traduzia-se igualmente no crescimento extraordinário dos cartéis
que de algumas centenas passaram a totalizar cerca de 2.500, de maneira que na indústria não havia mais “que uma pequena minoria de empresas” sem ligações com um monopólio. Já nos trinta anos que haviam precedido a Grande Guerra o número das firmas independentes nas grandes cidades tinha diminuído em cerca da metade. Após 1918, essa proporção baixou ainda mais depressa, pois a guerra e a inflação tinham solapado suas bases materiais. Os temores de uma sociedade competitiva e anônima, que sugava o indivíduo, usava-o e depois o abandonava à sua própria sorte, foram sentidos mais vivamente do que antes, e numerosas análises críticas feitas por autores contemporâneos mostram que tais receios resultavam numa angústia diante do desaparecimento da possibilidade da existência individual. Segundo a nota dominante de uma vasta literatura de protesto, o indivíduo se dissolvia no plano funcional, o ser humano era inserido qual “uma máquina sem consciência” num mecanismo impenetrável: “A existência parece resumir-se em angústia.”10
Essa ansiedade provocada por uma vida de formigas, submetida a normas estritas, foi expressa igualmente por uma corrente de opinião hostil à urbanização crescente, aos grandes edifícios e aos “muros cinzentos das cidades”; manifestou-se também na tomada de posição contrária à indústria que erguia as suas fábricas de altas chaminés nos vales antes tranquilos. Diante dos esforços empregados sem pausa “para transformar o planeta Terra em uma imensa fábrica encarregada de consumir seus recursos e suas energias”, a crença no progresso cedeu lugar pela primeira vez à ideia de que a civilização destruía o mundo. A Terra, queixavam-se então, tende a se transformar inevitavelmente
“numa Chicago com infiltrações de agricultura”.11 E os exemplares dos primeiros anos do jornal Völkischer Beobachter nos oferecem precisamente uma gritante justificação dessa angústia inspirada pela desaparição do cenário familiar.
“Quais as dimensões que nossas cidades deverão, então, alcançar para provocar um movimento de resistência?”, indagava o jornal. “Quando destruiremos os imóveis-casernas, quando faremos ruir os amontoados de pedras, e quando ainda arejaremos as cavernas e plantaremos jardins entre os muros da cidade para permitir aos homens respirarem de novo?” Os prédios compostos de elementos pré-fabricados industrialmente, os grandes conjuntos de Le Corbusier, o estilo industrial, os móveis metálicos com sua “técnica funcional”, conforme anunciava um slogan publicitário, mobilizaram contra si a oposição de uma consciência tradicionalista que só via naquilo tudo uma espécie de “estilo carcerário”.12 A paixão romântica contra o mundo moderno se manifestou também no transcurso da década de 1920 através de um movimento
favorável à criação de colônias habitacionais. A iniciativa coube sobretudo às associações Artaman, que opunham à “civilização do asfalto” a felicidade de uma vida simples, no campo, em contato com a terra, e preferiam os vínculos naturais ao isolamento do homem no seio do mundo massificado da grande cidade. Todos se ressentiam em especial da brusca e provocante ruptura com as normas em vigor no domínio da moral. O casamento, enunciava uma “ética social do comunismo”, outra coisa não era que um nefasto produto do capitalismo, a revolução o eliminaria, exatamente como as penas previstas para o aborto, a homossexualidade, a bigamia ou o incesto.13 No entanto, a classe média, em sua grande maioria, sempre tinha se considerado “representante e guardiã da moral comum” e encarava toda crítica feita a esta como uma ameaça pessoal. Também considerava intolerável o fato de só se ver no casamento uma simples formalidade administrativa, como fazia a União Soviética em seus primórdios. Condenava com a mesma veemência a “teoria do copo d’água”, segundo a qual o desejo sexual não era diferente da sede, isto é, uma necessidade elementar que era preciso satisfazer sem mais rodeios. O foxtrot e os vestidos curtos, a corrida em busca do prazer “na cloaca do Reich que era Berlim”, as
“imagens porcinas” do patologista sexual Magnus Hirschfeld ou o tipo de homem da época (“o dançarino de capote impermeável, calçando sapatos de sola de borracha laminada e vestindo calças Charleston, os cabelos alisados com gomalina e bem esticados para trás”) chocavam a maior parte da opinião pública com uma intensidade que se um cronista contemporâneo se desse ao trabalho de analisar retrospectivamente custaria muito a entender hoje em dia. As peças teatrais dos anos 1920 abordavam o tema do parricídio, do incesto ou do crime comum e se arriscavam a provocações que eram muito aplaudidas pelos espectadores. A moda era satirizar a época que estava sendo vivida. Na cena final da ópera de Bertolt Brecht e Kurt Weill, Mahagonny, os atores desfilavam
“imagens porcinas” do patologista sexual Magnus Hirschfeld ou o tipo de homem da época (“o dançarino de capote impermeável, calçando sapatos de sola de borracha laminada e vestindo calças Charleston, os cabelos alisados com gomalina e bem esticados para trás”) chocavam a maior parte da opinião pública com uma intensidade que se um cronista contemporâneo se desse ao trabalho de analisar retrospectivamente custaria muito a entender hoje em dia. As peças teatrais dos anos 1920 abordavam o tema do parricídio, do incesto ou do crime comum e se arriscavam a provocações que eram muito aplaudidas pelos espectadores. A moda era satirizar a época que estava sendo vivida. Na cena final da ópera de Bertolt Brecht e Kurt Weill, Mahagonny, os atores desfilavam