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O sonho desfeito

No documento DADOS DE COPYRIGHT (páginas 44-58)

Imbecis! Não tivera eu sido um visionário em minha vida, onde estariam vocês, onde estaríamos nós todos hoje?

Adolf Hitler

NO COMEÇO DO SÉCULO, Viena era a metrópole de um império europeu, a brilhante capital que conservava renome e herança seculares. Radiosa, segura de si, próspera, dominava um imperium que englobava uma parte da Rússia atual e se estendia longe nos Balcãs. Governava e congregava 50 milhões de habitantes pertencentes a mais de dez nacionalidades e raças diferentes: alemães, húngaros, poloneses, judeus, eslovacos, croatas, sérvios, italianos, tchecos, romenos e rutenos. O “dom dessa cidade” era atenuar todas as oposições, harmonizar as tensões internas do estado multinacional e, assim, torná-las fecundas.

Tudo isso parecia destinado a durar. Em 1908, o imperador Franz Joseph tinha comemorado o jubileu de seus sessenta anos de reinado e parecia ser o próprio símbolo do estado, de sua dignidade, de sua continuidade e de seus atrasos. A alta nobreza, que dominava política e socialmente o país, parecia, ela também, inabalável, já que, embora enriquecida, a burguesia aparentemente não chegaria a exercer uma influência digna de nota. Não existia ainda sufrágio universal, igual para todos, mas naquele centro comercial e industrial que se desenvolvia a passo de gigante, a pequena burguesia e a mão de obra da indústria em rápida expansão e dos centros comerciais eram alvo de campanhas cada vez mais insistentes dos partidos e dos demagogos.

Entretanto, apesar de toda a sua eficiência e de sua expansão, a capital austríaca já era um “mundo de ontem”, internamente corroída por escrúpulos e abalada pela dúvida acerca de si mesma. O brilho do prestígio que, no início do século XX, iluminou pela derradeira vez os teatros, os palácios e os bulevares

verdes de Viena estava impregnado de uma atmosfera de decadência.

Mesmo nas festas suntuosas de que romances e novelas nos transmitiram o eco, já se sentia que a vitalidade orgânica da época dourada se gastara e não sobreviveria senão naquelas manifestações de arte e beleza. As fadigas, as fraquezas e as angústias, as discussões cada vez mais ferrenhas travadas pelas diferentes nações do estado e a visão limitada dos grupos dirigentes provocaram pouco a pouco o desabamento de um edifício repleto de magníficas lembranças.

E ainda imponente. Por isso em nenhuma outra parte se sentiu tanto como ali uma atmosfera de agonia e esgotamento. O fim da civilização nobre foi mais brilhante e mais nostálgico em Viena do que em qualquer outro lugar do mundo.

Desde o fim do século XIX as oposições e as contradições do estado multinacional manifestavam-se com força crescente, sobretudo depois que, em 1867, os húngaros obtiveram direitos especiais graças à célebre Ausgleich, a

“equiparação”. Tinha-se o costume de dizer que a monarquia dual não era senão um vaso cheio de rachaduras, mantido em pé por um pedaço de arame velho.

Isso porque, nesse meio-tempo, os tchecos tinham requerido o direito de igualdade para sua língua com a alemã; conflitos irrompiam na Croácia e na Eslovênia; no ano do nascimento de Hitler, em Mayerling, o príncipe-herdeiro Rodolfo escapava a uma teia de intrigas políticas e pessoais suicidando-se; em Lemberg, no início do século, o governador da Galizia era assassinado em plena rua; o número de desertores aumentava de ano para ano; na Universidade de Viena havia demonstrações ruidosas de estudantes pertencentes às minorias nacionais; ao longo do Ring, operários reunidos atrás de bandeiras de um vermelho desbotado formavam gigantescos cortejos.

Esses sintomas de agitação e de enfraquecimento em todas as partes do império eram interpretados como indício de que a Áustria estava em vias de desagregar-se, e que seu fim podia ser calculado com certeza para logo que o velho imperador falecesse. Em 1905, os jornais alemães e russos chegaram a divulgar rumores de que os governos de Berlim e de São Petersburgo teriam mudado de ponto de vista acerca do destino da monarquia dual. Nessa ocasião, veio à discussão se não seria mais oportuno concluir de maneira preventiva certos acordos a respeito de encargos suplementares a que os vizinhos da Áustria e os países interessados teriam de fazer face por ocasião da queda do império.

Tais rumores tomaram tal consistência que em Berlim o ministro do Exterior se viu obrigado, em 29 de novembro, a tranquilizar o embaixador da Áustria durante um encontro por este solicitado.28

Naturalmente, as tensões vigentes na época, nacionalismo e consciência étnica, socialismo e parlamentarismo, manifestavam-se com particular virulência

no seio daquela federação de estados em equilíbrio precário. No parlamento nacional, havia muito tempo nenhuma lei podia ser votada sem que o governo tivesse de intervir fazendo concessões injustificadas aos diferentes grupos nacionais. Os alemães, que representavam ao todo um quarto da população, tinham alcançado um nível de desenvolvimento superior ao das outras populações do império, do ponto de vista da instrução, da prosperidade e do padrão de vida. No entanto, sua influência, conquanto forte, estava longe de corresponder a essa situação.

Em razão da própria lealdade que deles se esperava, a política de paliativos administrados com espírito igualitário os desfavorecia, na medida em que tentava satisfazer as nacionalidades menos confiáveis.

A isso acrescentava-se o fato de que o nacionalismo apaixonado das diferentes minorias não enfrentava mais a moderação imperturbável tradicional de uma classe dirigente alemã segura de si mesma. Pelo contrário, o nacionalismo, que se alastrava como uma epidemia, atacara com grande intensidade os próprios alemães, depois que a Áustria fora excluída da política alemã, em 1866. A batalha de Königgrätz ou de Sadowa, com efeito, constrangera a Áustria a se afastar da Alemanha e voltar-se para os Balcãs, e dessa forma os alemães viram-se forçados ao papel de minoria no seio de seu

“próprio” estado. Sua ferrenha vontade de se afirmar exprimia-se de duas maneiras: de um lado recriminavam a monarquia por subestimar o perigo da alienação racial ao praticar uma política favorável aos eslavos e, por outro, entregavam-se a uma idealização da própria raça: a palavra “alemão” tornava-se para eles, na verdade, uma noção ética, que opunham de modo taxativo a tudo que lhes era estranho.

Para entender bem a angústia denotada por esse tipo de reação, é necessário situá-la na perspectiva de uma crise geral de adaptação. A velha Europa, cosmopolita, feudal e camponesa, que tinha sobrevivido por singular anacronismo no âmbito da monarquia dual, desfazia-se no decorrer de uma revolução silenciosa, e as agitações, os conflitos que a acompanhavam não poupavam ninguém. Os meios burgueses e pequeno-burgueses, em particular, sentiam-se ameaçados de todos os lados pelo progresso, pela expansão crescente das cidades, da técnica, da produção em massa e da concentração das empresas.

O futuro, que fora durante longo tempo o domínio da esperança e da utopia sorridente no plano privado ou social, tornava-se agora uma causa de preocupação e ansiedade para grupos cada vez mais numerosos. Após a revogação, em 1859, da lei sobre as corporações, perto de 40 mil oficinas de artesanato tinham fechado no espaço de apenas trinta anos, só em Viena.

Esse clima de inquietação ocasionou, naturalmente, numerosos movimentos que refletiam a necessidade crescente de fugir à realidade. Constituíram-se sobretudo de ideologias defensivistas na base do nacionalismo-popular e do racismo, que se apresentavam como doutrinas salvadoras de um mundo em perigo; elas permitiram a cada um concretizar, sob a forma de imagens acessíveis a todos, sentimentos difusos e vagos de angústia.

Essa atitude defensivista se manifestou particularmente através do antissemitismo, denominador comum de numerosos partidos e ligas concorrentes, dos pangermanistas de Georg Ritter von Schönerer aos cristãos-sociais de Karl Lueger. No decurso da crise econômica havida no começo da década de 1870 já se presenciara a eclosão de sentimentos antijudeus, novamente manifestados assim que o afluxo de imigrantes provenientes da Galizia, da Hungria e de Bukovina se tornou maior. Na verdade, a emancipação dos judeus, inspirada pela influência moderadora e pelo espírito equilibrado da metrópole dos Habsburgos, fizera progressos sensíveis. Exatamente por essa razão, os judeus constituíam o grupo mais numeroso a deixar as regiões de leste para se fixar nas zonas mais liberais.

Em 1857 eles representavam 2% da população vienense, e em cerca de cinquenta anos, ou seja, em 1910, atingiam o índice quatro vezes maior de 8,5%, superior ao de qualquer outra cidade da Europa central. Em alguns distritos, como, por exemplo, em Leopoldstadt, somavam cerca de um terço da população.

Tinham conservado seu modo de vida típico, assim como seu aspecto exterior.

Com os longos caftãs negros, os chapéus altos sobre a testa, figuras de ar estranho imprimiam sua marca no cenário urbano, e quem os olhava estremecia ao pensar no mundo obscuro e misterioso a que pertenciam.

Circunstâncias históricas não tinham reduzido os judeus somente a papéis e atividades econômicas específicas, haviam igualmente desenvolvido neles uma singular ausência de preconceitos, uma extraordinária facilidade de adaptação e de mobilidade social. Se inspiravam um sentimento de temor, isso não resultava apenas do fato de invadirem o setor das profissões liberais em grande número, pois exerciam influência preponderante tanto na imprensa como em quase todos os grandes bancos de Viena e em parte da indústria,29 mas sobretudo porque seu tipo característico estava mais de acordo com o estilo racionalista e urbano da época, coisa que não ocorria com os representantes da velha Europa burguesa, que, com suas tradições, seus sentimentos particulares e suas dúvidas, enfrentavam de maneira menos desenvolta o futuro.

A consciência do perigo se expressava principalmente na censura feita aos judeus por serem desenraizados, serem um fator de insatisfação, serem

revolucionários natos para os quais nada era sagrado; à sua “fria” inteligência opunham-se, em polêmicas acirradas, a vida interior dos alemães e sua sensibilidade. Essa concepção foi ainda reforçada pelo fato de que inúmeros intelectuais judeus, mais inclinados à revolta e à utopia, pois tinham constituído durante gerações uma minoria aviltada, entraram no movimento operário e se tornaram seus líderes. Assim nasceu bem depressa a suspeita fatal da grande conspiração, fosse do capitalismo, fosse da revolução, que surgia no horizonte, e que despertou no pequeno comércio, mais propenso à ansiedade, o receio de que os negócios e a própria condição burguesa fossem ameaçados por um duplo ataque dos judeus, que poria igualmente em perigo sua identidade racial. O livro de Hermann Ahlwardt, sintomaticamente intitulado Os povos arianos em sua luta desesperada com o judaísmo, tirou, é certo, parte de sua “documentação”

das fontes alemãs e dos acontecimentos que se desenrolavam nesse país. Mas isso, que na Berlim dos anos 1890, a despeito do antissemitismo em moda, passava como sendo a emanação febricitante do espírito de um solitário doente, tomou conta da imaginação de um setor importante da população vienense àquela mesma época.

Foi nessa cidade, com esse pano de fundo, que Hitler passou os anos seguintes.

Ele fora a Viena movido por anseios ambiciosos, esperando reter impressões inesquecíveis da grande cidade e resolvido a manter, graças aos recursos financeiros de sua mãe, o mesmo modo de vida privilegiado dos anos anteriores, agora num ambiente mais colorido, mais brilhante. Já não tinha dúvidas acerca de sua vocação artística e, como escreveu, sentia-se tomado “de orgulhosa confiança”.30 Em outubro de 1907, requereu inscrição no concurso de desenho da Escola de Belas-Artes da Schillerplatz sem ter consciência exata das dificuldades das provas. Se conseguiu passar na seleção inicial, na qual 33 dos 112 candidatos foram reprovados, o anúncio dos resultados do conjunto da manhã seguinte assim se expressaram: “Não tendo sido satisfatória a prova de desenho, os senhores… Adolf Hitler, Braunau sobre o Inn, nascido a 20 de abril de 1889, alemão, católico, pai funcionário público, 4ª série da escola profissional, não foi admitido nesta Escola. Pouca inventiva, não aprovado.”

Foi um golpe inesperado e brutal. Profundamente desiludido, Hitler procurou o diretor da Escola de Belas-Artes, que o aconselhou a estudar arquitetura. Mas salientou igualmente que seus desenhos indicavam “sem contestação que ele não possuía as qualidades necessárias para se tornar um pintor”. Posteriormente, Hitler se referiria ao fato como um “golpe inesperado”, de “terrível impacto”31 e,

de fato, na sua vida, o sonho e a realidade nunca foram tão violentamente atingidos como naquela ocasião. Teve que arcar também com as consequências negativas de sua saída da escola profissional de Linz, porque para fazer o curso de arquitetura era necessário um diploma escolar. Mas sua aversão pelos estabelecimentos de ensino, com regulamentos precisos, era tal que a ideia de fazer o exame só depois de conseguir o diploma nem entrou em suas cogitações.

Mesmo tendo chegado à maioridade, continuava a considerar “incrivelmente penosa” a condição imposta para completar sua formação, e achava que obter o diploma de conclusão de seus estudos preparatórios era um obstáculo insuperável. “Humanamente falando”, declara, “era assim impossível para mim realizar meu sonho de artista.”32

No entanto, é mais plausível que após esse penoso insucesso lhe repugnasse retomar o humilhante caminho de regresso a Linz, e sobretudo reencontrar o colégio que testemunhara seu primeiro fracasso. Confuso, pensou de saída em permanecer em Viena e se absteve aparentemente de fazer qualquer alusão ao exame em que fora reprovado. Mas não fez, por outro lado, nenhum esforço para renunciar à existência de jovem “em férias”, a passeios, às idas à ópera e aos milhares de projetos de diletante, que costumava considerar pretensiosamente como “estudos”, para se dedicar a uma atividade séria. Mesmo quando a mãe, gravemente enferma, entrou em coma, não se decidiu a voltar. Só retornou a Linz pouco depois da morte da mãe, a 21 de dezembro de 1907. O médico da família que a tinha assistido afirmou “que jamais vira um rapaz mergulhar em tal pesar”. Se dermos crédito às suas próprias lembranças, ele chorou.33

Na realidade percebera não apenas que malograra irremediavelmente, mas também que dali em diante estava entregue a si mesmo, sem nenhuma possibilidade de escapar ao destino. A provação, em todo caso, veio acentuar nele uma tendência já muito clara a se isolar e a ter pena de si mesmo. É preciso levar em conta que seu único desgosto pessoal, detalhe surpreendente, era novamente provocado por um membro da família. E se pode afirmar que se alguma vez experimentara qualquer afeição pelo próximo, a morte da mãe pôs um ponto final nesse sentimento.

É possível que esse duplo choque não viesse senão a fortalecer sua intenção de voltar a Viena. Há razões para supor que tenha sido movido também pelo desejo de se refugiar num anonimato que o livrasse dos olhares inquisidores de seus parentes de Linz, que se punham em guarda quanto a ele. Para obter os benefícios de sua pensão de órfão era preciso também que desse a impressão de estar fazendo um curso regular. Eis por quê, logo que a questão do testamento ficou resolvida, com todas as formalidades legais satisfeitas, apresentou-se ao

seu tutor, o burgomestre Mayerhofer. Mal este o informou do fim de todos os trâmites, o jovem Hitler declarou num tom “quase arrogante” e taxativo: “Senhor meu tutor, eu vou para Viena!” E alguns dias depois, em meados de fevereiro de 1908, deixava Linz em definitivo.

Uma carta de recomendação dera-lhe novas esperanças. Madalena Hanisch, proprietária da casa onde sua mãe morara até morrer, conhecia Alfred Roller, um dos mais famosos cenógrafos da época, diretor de mise en scène da ópera imperial e professor na Escola de Artes e Ofícios de Viena. Em carta datada de 4 de fevereiro de 1908, Frau Hanisch pedia à mãe, residente na capital austríaca, para conseguir uma entrevista do jovem Hitler com Roller. “Trata-se de um moço sério e diligente”, escreve ela. “Com 19 anos, parece mais amadurecido que outros de sua idade, é simpático e sensato, pertence a uma família muito conceituada e está firmemente decidido a fazer estudos sérios! Pelo que sei dele posso afirmar que não se entregará a uma vida irregular, já que tem um objetivo sério em vista. Espero que esse moço se mostre digno de sua ajuda. Pode ser mesmo que você cumpra assim uma boa ação.” Alguns dias depois, Roller disse estar pronto a receber o jovem Hitler, e a proprietária da casa de Linz agradeceu à mãe numa segunda carta: “Você se sentiria plenamente recompensada pelo seu empenho se pudesse ter visto a fisionomia radiante do rapaz assim que o informei… Enviei-lhe sua carta, mãe, e o fiz ler a do diretor Roller. Ele tomou conhecimento de tudo em silêncio, palavra por palavra, como se quisesse decorar o texto, com uma espécie de recolhimento, um largo sorriso iluminando o rosto. Devolveu-me a carta externando seu profundo agradecimento e me pediu que o autorizasse a escrever à senhora para exprimir-lhe sua gratidão.”

Conservou-se a carta escrita por Hitler dois dias mais tarde. Seu estilo imita o maneirismo observado nas chancelarias da monarquia austro-húngara. “Pela presente”, escreveu ele, “eu vos exprimo mui respeitosamente, Madame, meu profundo agradecimento pelo trabalho que tivestes com o objetivo de me proporcionar acesso junto ao grande mestre da cenografia teatral, o professor Roller. Sem dúvida, abusei um pouco da vossa boa vontade, tanto mais, Madame, que mal me conheceis. Eu vos sou por demais agradecido e vos peço aceitar minha profunda gratidão por essas gestões que foram coroadas de tanto êxito, e pela carta que tão amavelmente se dignou colocar à minha disposição.

Saberei fazer jus a essa feliz providência e vos peço novamente que aceiteis a expressão de meu sincero agradecimento. Beijo respeitosamente vossa mão e assino — Adolf Hitler.”34

De fato, essa recomendação parecia proporcionar-lhe o meio de realizar seu sonho: levar a vida livre de um artista que se consagraria à pintura e à música no

ambiente feérico da ópera. Não se tem, no entanto, qualquer indicação sobre a maneira como se processou o encontro com Roller, e as fontes de informação nada dizem sobre esse fato. O próprio Hitler jamais se referiu a essa entrevista, e não nos enganaríamos em supor que aquele homem tão respeitável o aconselhara a trabalhar, aprender mais e se apresentar novamente, no outono, na Escola de Belas-Artes.

Os cinco anos seguintes foram, segundo o próprio Hitler, “o período mais triste” de sua vida,35 mas também, sob certos aspectos, o mais importante. Isso porque a crise sofrida por ele marcou seu caráter de maneira indelével e lhe permitiu elaborar em definitivo as fórmulas de subjugar que conferem à sua existência ávida de movimento a máscara de uma total inflexibilidade.

Após ter apagado cuidadosamente os vestígios de seu passado, Hitler por si mesmo contribuiu para criar a lenda segundo a qual “a angústia e a dura realidade” teriam constituído a grande e inolvidável experiência daqueles anos em Viena: “A lembrança de cinco anos de miséria e infortúnios”, escreve ele,

“permanece associada para mim à recordação da vila de Phaakenstadt. Cinco anos durante os quais tive que ganhar meu sustento de início como operário assalariado e depois como pequeno pintor. Era na verdade um dinheiro suado, insuficiente para saciar uma fome constante que era então minha fiel companheira, e que não me abandonava nunca.”36 Ora, uma avaliação meticulosa de seus rendimentos de então revelou que, na realidade, durante toda a primeira fase de sua permanência em Viena, graças à herança do pai, ao que herdou da mãe e à sua pensão de órfão, ele dispunha de oitenta a cem coroas por mês, sem levar em conta seus próprios ganhos.37 Isso era mais do que o ordenado de um assessor jurídico.

Durante a segunda quinzena de fevereiro, por insistência de Hitler, August

Durante a segunda quinzena de fevereiro, por insistência de Hitler, August

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