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O Recôncavo baiano foi uma região basicamente formada por atividades agroexportadoras como, cana-de-açúcar, fumo, além das de subsistência. Existem várias divisões regionais para o Recôncavo Baiano, mas neste trabalho, adotamos a divisão do Recôncavo Baiano em seis zonas de atividades, as quais são: Salvador seu entorno, do petróleo, veraneio, litoral Oeste, cana-de-açúcar e policultura. Ao todo, essas seis zonas englobam, atualmente, 35 municípios.

81 O crescimento populacional de Salvador do final do século XIX até década de 1940 é um reflexo contumaz da estagnação econômica do Estado. Em 1872, sua população era de, aproximadamente, 129 mil habitantes, em 1920, de 283.422 habitantes; e, em 1940, de 290.443 habitantes; ou seja, durante cinquenta anos Salvador foi a capital que menos viu sua população crescer dentre as “grandes cidades” do país. Assim, em 1900, ela é superada por São Paulo e, em 1940, por Recife. (IBGE, Censos Demográficos, 1872-1940). Sobre este período de estagnação econômica, Santos avalia assim suas causas

Essa perda de influência regional, esse retraimento da área metropolitana deve-se, principalmente ao fato de que Salvador foi incapaz de organizar convenientemente seu espaço regional e à ausência de dinamismo próprio à cidade. Enquanto o Brasil viveu uma fase simplesmente comercial, a Capital do Estado da Bahia podia continuar, através de uma larga parte do país, a distribuição dos produtos recebidos pelo seu porto. Mas quando São Paulo, Rio de Janeiro e outras cidades se orientaram para a indústria (...) o papel de redistribuição tornou-se insuficiente para guardar a Salvador a possibilidade de manter com sucesso as antigas correntes comerciais (...) (1959, p. 51).

A morfologia espacial de Salvador deste período é função das atividades comerciais da cidade com a sua hinterlândia, demais praças no Brasil e exterior, mas também da estrutura social ainda “pesadamente” escravista. Segundo Sampaio (1998), o Porto de Salvador ditava os ritmos econômicos e sociais de Salvador, por isso, a sua extrema importância no conjunto espacial, fato que conduziu a várias obras de requalificação urbana da Cidade Baixa durante o século XIX e início do XX. Desde o século XIX, sobretudo, em suas últimas décadas, ações “cirúrgicas” na morfologia da cidade vinham sendo feitas, pautadas no tripé higienização-circulação- embelezamento. Destaques para o projeto de saneamento e abastecimento de água de 1905, um problema crônico da cidade naquela época, sob responsabilidade do Engenheiro Theodoro Sampaio, mas que efetivamente nunca saiu do papel e para as reformas de circulação, realizadas pelo interventor J.J. Seabra, entre 1912 e 1916, como a abertura da Avenida Sete de Setembro e a ampliação do Porto de Salvador. (MENEZES, 2002).

82 Por volta de 1920, a mancha urbana de Salvador tinha 800 hectares (LAERT NEVES, 1985) e circunscrevia a morfologia denominada de tradicional por Gordilho- Souza (2008), isto é, muitos casarões, igrejas e conventos, ruas estreitas e sinuosas porque concebidas para o tráfego de pedestres e veículos de tração animal. Fazem parte desta morfologia o centro da Cidade Alta (incluindo o Pelourinho, hoje Centro histórico) e os bairros do entorno, Nazaré, Barris, Mercês, Dois de Julho, Corredor da Vitória e um núcleo habitacional na Barra; já na Cidade Baixa, temos a área do Comércio até alcançar as localidades da Ribeira e do Bonfim, essas últimas situadas na Península Itapagipana.

Até 1920, aproximadamente, a morfologia espacial congregava “densamente” as classes sociais, ou seja, o processo de segregação socioespacial ainda era incipiente. Segundo Sampaio (1998), a elite dessa Salvador tinha um séquito de ex- escravos sob sua tutela ou, no mais longe, próximas ao centro nos interstícios das cumeadas, em “choupanas construídas com varas, barro e folhas de palmeiras com roças de subsistência” (HABSBURGO apud ANA COSTA, 1989, p. 197). Isso fez suscitar amplas discussões de cunho higienista nos meios acadêmico e político, pois, era preciso “sanear” a cidade, debelar a insidiosa pobreza, mas como isto estava apenas ao nível do discurso, a prática foi para o caminho mais pragmático possível – a da segregação socioespacial.

Ainda neste período códigos de regulação da ocupação (Códigos de Posturas Municipaes) também foram criados, no sentido da higiene e restrição de habitações populares tipo “cortiços” no centro de Salvador, destaque para a Postura 1146/1926. Esta, em específico, estabeleceu uma divisão do município em quatro zonas – central, urbana, suburbana e rural, o que até então não existia, para fins de ordenamento de uso e ocupação do solo. Também esta lei já fazia referências quanto ao parcelamento do solo para a venda sob a forma de loteamentos, além da proibição de habitações insalubres na zona central. No cerne da referida lei está o que Araújo identificou - “a superposição/proximidade espacial entre o local de moradia e local de trabalho (...) é rompida. Com a separação das funções do habitar e do trabalho, separam-se também as classes sociais (...)”. (1992, p. 278).

83 Na Cidade Alta, os primeiros movimentos de segregação urbana se iniciam ainda no final do século XIX, mas se intensificam a partir da década de 1920, quando as classes altas começam sua “marcha para o Sul”, em direção à Graça e Barra, deixando os grandes casarões do centro e entorno. Jorge Amado, em seu antológico livro sobre Salvador, descreve muito bem como se deu a migração da população grã-fina em direção aos bairros do Sul.

Os grã-finos há muito tempo que abandonaram os sobrados da Avenida Sete, no trecho compreendido entre São Pedro e o Palácio da Aclamação. Antigamente era chique morar ali, hoje os casarões têm os seus andares térreos invadidos pelo comércio e nos andares superiores formigam hóspedes de pensões mais ou menos habitáveis. Já não é com orgulho que os elegantes dizem residir na Avenida Sete, no Rosário ou nas Mercês, nomes que sugeriam antes grã-finismo ou dinheiro (...). Os granfas foram para adiante do Campo Grande. A Vitória – o Corredor e a Ladeira – Graça, Barra, certos trechos da Barra-Avenida, Avenida Oceânica, eis onde estão os homens de dinheiro. (1955, p.71)

Quem eram esses “homens de dinheiro” que Jorge Amado se referia? No Corredor da Vitória e na Ladeira da Barra moravam os ricos fazendeiros, dos engenhos de cana-de-açúcar do Recôncavo Baiano, das grandes fazendas de gado do sertão e também das fazendas de cacau de Ilhéus e Itabuna. Na Barra estavam os ricos banqueiros, comerciantes e administradores do alto escalão do governo, enquanto que na Graça e, no Canela, moravam os profissionais liberais como renomados médicos e advogados.

Já na década de 1930, o fato mais marcante foi a Semana de Urbanismo de 1935 que precipitou tanto a implantação do Escritório de Planejamento e Urbanismo da Cidade do Salvador (EPUCS) em 1943, quanto à criação do primeiro plano diretor do município – o Código de Urbanismo, Lei nº 701/1948, sob a coordenação do Engenheiro urbanista Mário Leal Ferreira 11. Como Sampaio (1998) sublinha este código não mais se atrela a uma visão “higienista”, mas sim “desenvolvimentista”, ao pensar o planejamento urbano sob bases modernas, ou seja, este código não trata

11 Na realidade este código era, ao mesmo tempo, de urbanismo e de obras. Somente na década de

84 mais da cidade colonial, mas da cidade explodida pela constituição das periferias ao Norte do centro e das áreas de população rica situadas ao Sul. Portanto, ele já trabalhava com “cenários” urbanos frutos da modernização, onde a reestruturação espacial da cidade, sobretudo, do sistema de circulação (grandes avenidas de vale) se constituía em um dos seus pilares.

De fato, o sistema de transporte já tinha passado por muitas reformulações, talvez a mais importante tenha sido a substituição da tração animal por elétrica em bondes ainda em 1897 (HILTON COSTA, 2006). Daí em diante, a expansão das linhas de bonde seguiu a expansão da cidade para além da morfologia tradicional, alcançando o Norte até a Liberdade pela Rua Lima e Silva e, na Península Itapagipana, o distante bairro da Ribeira. Enquanto que em direção ao Sul, as linhas de bonde elétrico alcançavam os bairros do Rio Vermelho e Amaralina, ainda nesta época, pouco povoados e com a função de locais de veraneio para as classes abastadas.

Em 1940, a mancha urbana alcançou, aproximadamente, 3000 hectares (LAERT NEVES, 1985) e se estendia da Barra até a Pituba, pela orla atlântica, e pela orla interna à Baía até a Península de Itapagipe. No seu interior, a mancha se estendia ao Norte até a Lapinha e, em direção ao Leste, até Brotas (VASCONCELOS, 2003). Se o movimento das elites era para o Sul da península soteropolitana, o movimento dos pobres ia justamente ao sentido oposto, em direção ao Norte, para depois da Lapinha, e começava a ocupar as áreas periurbanas da Liberdade, Península Itapagipana e São Caetano. Mas o que estava acontecendo com Salvador na década de 1940?

Para Santos e Souza (1959; 1978), a década de 1940 corresponde a um momento de inflexão no crescimento populacional de Salvador por dois motivos:

1 – O agravamento da crise social no Sertão Nordestino e também no Recôncavo Baiano, provocado, por um lado, pelas secas sistemáticas e, por outro, pela estrutura agrária ligada à produção da cana-de-açúcar que, ao entrar em

85 decadência, expulsou grandes parcelas de população. Tal agravamento da crise social originou duas correntes migratórias principais: uma para o Centro-sul do país e outra para a região de Itabuna e Ilhéus (Sul da Bahia) por conta da lavoura do cacau; e,

2 – A estabilização do crescimento da cultura do cacau por volta de 1920-1930 fez com que o excedente de mão-de-obra vinda, sobretudo, do Recôncavo Baiano, reorienta-se a corrente migratória em grande parte para Salvador.

A estas observações, sobre as causas da inflexão do crescimento populacional de Salvador, relacionamos mais uma – o processo de modernização brasileiro. Na década em tela, as migrações interregionais já eram um fato e os fluxos migratórios já tinham como destino o núcleo São Paulo-Rio de Janeiro. Logo, se Salvador começou a apresentar um crescimento populacional em taxas bem acima do esperado, isso já era um reflexo do espaço de catástrofe capitalista nacional. Entre 1940 e 1950, a cidade de Salvador saltou dos 290.000 habitantes para, aproximadamente, 417.000, ou seja, uma taxa de crescimento médio da ordem de 2,98 ao ano, contra 0,12 entre 1920 e 1940 (IBGE, Censos Demográficos, 1940- 1950). Isto por si só gerou uma enorme pressão habitacional na cidade, principalmente, entre as camadas mais pobres da população, consequentemente, a morfologia tradicional da cidade é rompida e, um tipo de evento, em particular, marca este momento de produção espacial de Salvador na década de 1940 – as “invasões”. 12

Efetivamente o ano que marca o início das invasões de terras para fins de moradia

12 É de suma importância apresentar aqui o porquê de usarmos nesta pesquisa o termo “invasão”. A

semântica deste termo, de uso corrente nos movimentos sociais em Salvador, é muito mais complexa do que aparenta ser, tanto que todos os pesquisadores que se debruçaram sobre o tema da moradia acabaram por acatar o seu emprego, e não daquele que seria “politicamente correto”, isto é, ocupação. Neste aspecto, o pesquisador Milton Moura (1990) observa que invadir “além de oportuno, é conveniente e necessário, é justo e desejável”, isto nas palavras dos “invasores” que ainda salientam “é normal invadir” porque “é a maneira de prover a habitação”. Ainda ao nível semântico, “invadir” não tem qualquer significação criminal, apesar de assumir uma conotação de conflitividade. Interessa ainda salientar que foi, na década de 1940, quando a Prefeitura começou a decompor a forma enfiteuse de posse da terra, é que o termo “invasão” ganhou significação entre as camadas populares.

86 em Salvador é 1946, mas onde estavam instalados os pobres na cidade do Salvador no início da década de 40? Há um importante estudo realizado pelo sociólogo americano Donald Pierson (1971), no qual é feito um levantamento dos locais de moradia dos pobres da cidade fora do centro. Pierson identificou os seguintes locais: Matta Escura, Engenho Velho de Brotas, Federação, Garcia, Quintas da Barra, Retiro, Alto do Abacaxi, Alto das Pombas, Estrada da Liberdade, Estrada da Rodagem, Cabrito, Cruz do Cosme, Matatu Pequeno. Todas essas localidades habitadas por negros e mestiços escuros, sob condições insalubres, mas não eram propriamente “invasões”. Somente em 1946 é que irrompe uma série de “invasões” de terras, primeiramente, na localidade da Liberdade (Norte da Península) – onde são criadas “invasões” como a do Corta-braço (Nova Pero Vaz), do Gengibirra, da Baixa da Mangueira, dentre outras. Dois anos após, inicia-se a maior “invasão” desse período, a Rui Barbosa (Jardim Cruzeiro) ou, como ficou mais conhecida, dos Alagados na Enseada dos Tainheiros, Península de Itapagipe.

O que essas invasões estão nos indicando? Que a ruptura na reprodução da morfologia espacial da cidade se tornaria irreversível, ou seja, o fenômeno da segregação socioespacial, que se iniciou com a “marcha dos brancos” em direção ao Sul, agora realizava seu par dialético, com a constituição de uma efetiva área periférica no Norte da cidade. Os reflexos dessa ruptura seriam observados em diversas dimensões correlacionadas à produção do espaço, como no urbanismo e na estrutura jurídica do uso do solo de Salvador.

Um dos estudos mais importantes a respeito da estrutura jurídica do uso do solo da cidade foi feito Brandão (1981). Neste estudo, a pesquisadora afirma existir uma correlação da estrutura fundiária da cidade com o processo espacial de explosão da morfologia tradicional. Ela identifica, a partir dessa correlação, três períodos de legislação do uso do solo em Salvador: o primeiro que se refere à cidade colonial e vai até o início da década de 1940; um segundo período, iniciado com as grandes “invasões” em 1946; e, um último período, iniciado com a “Reforma Urbana de 1968”. Para não fugirmos da sequência expositiva deste item, apresentamos as características dos dois primeiros períodos, deixando o terceiro para mais adiante,

87 quando discutirmos as consequências, na estrutura fundiária de Salvador, do processo de industrialização-modernização.

O primeiro “consiste no período de grandes pressões demográficas sobre os „bairros pobres‟ tradicionais, além dos enclaves de população de baixa renda e nas áreas centrais da cidade e na ocupação ainda consentida de pontos de periferia.” (1981, p. 133). As formas que regem a estrutura fundiária são basicamente pautadas nas figuras da enfiteuse (terras públicas) e do aforamento (terras privadas), isto é, o proprietário transferia a outrem a posse ou domínio útil de parte ou de todo o imóvel mediante pagamento, sendo ad perpetua para o regime enfitêutico, ou seja, a política econômica do espaço era rentista. Foi por conta dessas formas jurídicas que os grandes proprietários de terras dessa época - a igreja, a própria municipalidade e algumas famílias ricas, arrefeciam as pressões sociais por moradia popular.

O segundo período é marcado pela expansão do tecido urbano e pela “rachadura da velha estrutura de controle do solo” (BRANDÃO, 1981, p. 134). Com o crescimento populacional positivo, desde a década de 1940, as pressões por moradia, sobretudo, pelas camadas de renda mais baixas, geraram o fenômeno social das “invasões” de terras em fins dessa década. Como Brandão (1981) aponta, essa expansão do tecido urbano serviu aos interesses de grupos de alta renda, dispostos a explorar os mercados recém constituídos para serviços de transporte e de energia elétrica, dentre outros. No tocante ao aspecto legal, este segundo período se caracteriza também pela restrição da construção de moradias “impróprias” no centro e do uso da enfiteuse, através de duas leis municipais: o Decreto-lei n.º 347 de 1944, que estabeleceu normas a extinção de mocambos, cortiços ou casebres no perímetro urbano; e a outra foi o já citado Decreto-lei n.º 701 de 1948, Código de Urbanismo de Salvador, que dispôs sobre a divisão e utilização do solo urbano através de zoneamento e regulou o loteamento de terrenos enfiteutas (PLANEJAMENTO, 1978).

Na prática, as leis supracitadas iniciam um movimento no sentido da instauração de um mercado imobiliário nos termos da reprodução capitalista típica, ao iniciar a

88 conversão dos terrenos públicos urbanos em mercadorias com a fluidez necessária à reprodução do capital. A enfiteuse e o aforamento, neste aspecto, eram formas jurídicas anacrônicas frente às novas possibilidades entreabertas para o mercado de terras em Salvador, mas elas ainda continuariam a existir, e isso seria uma característica desse segundo período - a coexistência de formas e práticas jurídicas de temporalidades diferentes da produção espacial.

Estas considerações sobre a produção e o planejamento urbano, além das remodelações do arcabouço jurídico, servem-nos de base para refletir sobre este momento de passagem ou transição morfológica de Salvador. Se como aponta, por exemplo, Gordilho-Souza (2008), a morfologia tradicional da cidade permaneceu estável até a década de 1920, mas as décadas seguintes e, sem dúvida, a década de 1940, vão se caracterizar como esse momento de descontinuidade na reprodução espacial, ou seja, a catástrofe capitalista atinge seu ponto de dobra, significando, ao nível da materialidade da cidade, o fim da cidade histórica. Um processo irreversível.

Consideramos morfologia de transição aquela produzida extra-área de predomínio da morfologia tradicional. Na prática a morfologia de transição, significou um processo de modernização morfológica da cidade em direção ao sul da península, para os bairros de ricos – Corredor da Vitória, Graça, Barra. Por outro lado, ao norte da mancha urbana tradicional, a morfologia de transição não foi portadora desse sentido de modernização, porque para lá afluíram grandes parte dos pobres afrodescendentes da cidade, alijados de qualquer cobertura social por parte das instituições públicas. Na realidade, enquanto casarões suntuosíssimos eram construídos na parte Sul da península, diametralmente, na parte Norte, sobretudo na Liberdade, São Caetano, no Uruguai e Massaranduba (Península Itapagipana) eram construídos pequenos casebres feitos de taipa (casas de sopapo), latas ou papelão reciclados etc. No entremeio, nos bairros de Nazaré, Brotas, Barris, Federação, ficaram as residências dos pequenos comerciantes, profissionais liberais, agricultores médios e funcionários públicos, conforme observou Santos (1959).

89 Ainda de acordo com Santos (1959), entre 1940 e 1950, a população de Salvador aumentou em 126.792 pessoas, sendo que o contingente de migrantes foi da ordem de 89.671, o que representa cerca de 70% do total, provenientes de áreas rurais, tanto do Recôncavo baiano quanto do Sertão. Nas décadas subsequentes, o percentual de migrantes, no conjunto da população de Salvador, foi o seguinte: de 1950 a 1960, cerca de 60 %, de 1960 a 1970, aproximadamente 53 %. (SOUZA, 1978). Mesmo com o declínio relativo da migração, por volta da década de 1970, esta variável é um componente de peso no conjunto da população de Salvador.

Em 1971, o CEBRAP e o Centro de Recursos Humanos (CRH) da UFBA realizaram uma ampla pesquisa sobre “força de trabalho e desenvolvimento em Salvador” e, um dos aspectos estudados, foi justamente a origem dos fluxos migratórios para Salvador e suas principais características. Concluiu a pesquisa que o Recôncavo baiano ainda era a região de onde mais emigravam pessoas com destino a Salvador, por volta de 31% do total, principalmente, oriundos de municípios como Santo Amaro, Santo Antônio de Jesus, Maragojipe, Nazaré, Cruz das Almas e Cachoeira (zonas da cana-de-açúcar e fumo). Também é fundamental salientar algumas características dessa população que emigrou para Salvador – primeiramente, uma população cuja classe modal de idade estava na faixa dos 25 aos 34 anos, portanto adultos jovens; segundo, o nível de escolarização desta população migrante era muito baixo ou nulo, 21% era analfabeta, e outros aproximados 27% apenas com o primário incompleto (nomenclatura do sistema antigo de educação), isto se completava com a terceira característica do migrante, sua baixa qualificação para o trabalho, o que acabava tendo reflexo na expansão de atividades ocupacionais tidas como informais ou precárias. (SOUZA, 1978).

Mesmo assim, à medida que os espaços catastróficos capitalistas, nacional e regional, iam se ajustando (convergindo), mais nítido se tornava o sentido da produção espacial de Salvador, mas até quando este período de transição se estende, ou melhor, quando efetivamente a modernização capitalista instaura a descontinuidade do tipo catástrofe na cidade?

90 Nas décadas de 1960 e 1970, a integração da AMS/RMS, ao cenário econômico nacional, consolida-se com sua especialização em bens intermediários - petroquímicos e metal-mecânico. A sequência da industrialização baiana é denominada por Sylvio Silva (2003) pelo trinômio “Petrobrás-Centro Industrial de Aratu-Pólo Petroquímico”, porque foi nessa sequência mesmo que ocorreu, então, o crescimento populacional se acelera nas seguintes proporções: em 1950, Salvador