Authier-Revuz parte da constatação de que o campo da enunciação se põe como necessariamente heterogêneo, na medida em que é aquele em que a língua encontra a fala, o discurso, o sujeito54. Desse encontro resulta que os fenômenos enunciativos manifestam a inscrição de traços do sujeito enunciante nas formas da língua55, o que impõe, como conseqüência, que a observação de tais formas e a análise de seu funcionamento não se possa realizar de modo satisfatório senão mediante uma construção teórica que faça apelo a regiões exteriores à própria língua. 50 Orlandi, E. (1996:31). 51 Orlandi, E. (1996:83). 52 Orlandi, E. (1996:87). 53 Orlandi, E. (1996:85). 54
Authier-Revuz, J. (1992:61 - Parte I).
55
Tal proposição se constrói a partir de algumas premissas teóricas formuladas por Milner56 e que podem ser assim sintetizadas:
a) o fato da enunciação é um heterogêneo em relação à língua como
sistema autônomo; portanto
b) os fatos de linguagem que relevam da enunciação inscrevem na
própria língua o heterogêneo; portanto
c) o real da língua implica o heterogêneo da língua (a enunciação): o real da língua é que ela é não toda.
É desse ponto de vista que Authier-Revuz observa:
“Désignant (...) ‘l’exorbitant’ qu’est au regard de la linguistique, comme écriture de la langue, le sujet d’énonciation, ‘instance en elle-même non formalisable et
non-représentable’, J.C. Milner fait apparaître la limite, la
défaillance que ‘le réel de la langue lui-même’ vient inscrire dans la linguistique, de ce que certains des lieux de ce réel ne saurait être décrits sans qu’intervienne précisement le sujet”.57
Se o campo da enunciação é aquele em que vêm se inscrever, nas formas da língua, traços do sujeito enunciante, é também aquele em que se dá a produção do sentido. É assim que tal campo mostra a atividade
“(...) largement inconsciente, du sujet aux prises avec les conditions réeles de la production du sens”.58
Na medida em que as condições reais da produção do sentido extravasam
os limites do sistema da língua59, seu estudo também exige a abertura à
56
Milner, J.C. (1978).
57
Authier-Revuz, J. (1992:63 - Parte I).
58
exterioridade de tal sistema: a produção do sentido, enquanto momento da semantização, também deve ser vista como o fenômeno que vem inscrever, na língua, traços do que lhe é exterior, de modo que, para além das formas lingüisticamente descritíveis, em termos de léxico e sintaxe, é necessário considerar aí funcionamentos
“(...) ne relevant plus de la langue comme système de formes, et donc plus de la linguistique au sens strict, mais d’approches du
‘discours’ (...) engageant dans la definition même de ce terme
des choix théoriques, extérieures au linguistique concernant le sens, le sujet et en particulier le statut de l’intentionalité du second relativement au premier”.60
Estatuto este que se expressa de modo particularmente sintético na seguinte formulação de Henry:
“A categoria de discurso implica uma des-individualização do sentido e da significação. Os fatos de sentido da ordem do discurso não são remissíveis ao discurso de um sujeito, nem mesmo aos de vários conjuntos para fazer uma espécie de
‘sujeito médio’, mas a ‘formações discursivas’ que não têm
realidade no nível do indivíduo, senão pelo fato de que elas determinam as posições que pode e deve ocupar todo indivíduo, para ser o sujeito de uma enunciação provida de sentido”.61
Assim, é da constatação da exterioridade do campo da enunciação e do sentido, enquanto, respectivamente processo e produto da atividade do sujeito, que se impõe, segundo Authier-Revuz, considerar tal campo como constituído, de modo solidário porém heterogêneo ⎯ pelas instâncias da língua, do sujeito e
59
Henry, P. (1988:151).
60
Authier-Revuz, J. (1992:63 - Parte I).
61
do discurso. Disso resulta, portanto, pensar a enunciação como objeto complexo, heterogêneo e, desse ponto de vista, portanto, as instâncias que aí configuram os
“exteriores teóricos” ao campo estrito da lingüística vão funcionar como constitutivos de tal objeto heterogêneo, que só pode se formular teoricamente no
entrecruzamento dessas diferentes regiões teóricas. Em conseqüência disso, diz Authier-Revuz:
“Poser le champ de l’énonciation comme marqué d’une hétérogénéité théorique, en reconnaissant comme inévitable l’intervention dans la description de faits de langue, au sens saussurien du terme, de choix extérieures à la linguistique concernant le sujet et le sens, et qu’il est donc nécessaire d’expliciter de façon autonome (...)” 62
O que Authier-Revuz busca, aqui, pontuar, é o fato de que o campo
enunciativo ⎯ na sua condição de lugar da produção do sentido implicando
necessariamente a presença do sujeito enunciante ⎯ confronta seu analista com um “além” do sistema lingüístico. Mas tal confronto tem produzido, em geral, ao invés do reconhecimento da heterogeneidade própria de tal objeto, um gesto teórico que busca dissolver tal heterogeneidade numa assimilação. De um lado, por exemplo, pela recusa da língua como um campo próprio, que vai figurar como um dos aspectos (e não dos mais importantes) no processo de produção do sentido: tal posição, segundo Authier-Revuz, que é exemplarmente representada por Bourdieu, consiste em
“(...) ne reconnaître à la langue (...) auncun autre statut que celui de secteur particulier où s’exèrcent des causes sociales”.63
62
Authier-Revuz, J. (1992:64 - Parte I).
63
Tal “dissolução da língua no social”, diz Authier-Revuz, é a que também figura em inúmeras abordagens sócio-lingüísticas, bem como em Voloshinov:
“(...) dont l’ouverture sur la parole ‘vivante et concrète’ passe par une ‘sociologisation’ intégrale de celle-ci, associée à une méconnaissance offensive de la dimension de système de différences de la langue saussurienne, travestie en ‘parole monologique’ finie, isolée, séparée de son contexte verbal en acte”.64
De outro lado, pelas abordagens teóricas que visam um “ultrapassamento” da lingüística: pouco importa, segundo Authier-Revuz, que se vise aqui a construção de um novo objeto, ampliado, ao qual se guarda a denominação
“lingüística”.
“(...) en un sens démesurément élargie (...)” 65
ou que tal ultrapassamento se proponha em favor de um objeto que, apagando a língua como ordem própria, desloca-a para a dimensão de um exterior psicológico ou social.
Trata-se, aqui, do que se observa em inúmeras abordagens ligadas ao comunicacional, ao interacional, ao conversacional. Nessas abordagens, ocorre uma tentativa de reconstruir o próprio objeto da lingüística, segundo Authier- Revuz, aí incluindo um conjunto de fenômenos ligados ao jogo de imagens, papéis, territórios, negociações, em que a construção do sentido vai ser função da necessidade de agir sobre o outro, se distinguir socialmente, defender a própria face etc.66, num movimento que, diz Authier-Revuz, vai na contramão daquilo que constitui o gesto fundador de Saussure:
64
Authier-Revuz, J. (1992:67 - Parte I).
65
Authier-Revuz, J. (1992:68 - Parte I).
66
“(...) dont tout l’effort avait été, à rebours des évidences du sens et de la communication, de dégager, d’extraire le réel, non évidant, de la langue comme forme”.67
e no qual se apaga, segundo Henry, esse esforço de encontrar
“ce quelque chose du langage en deçà de l’évidence du sens”.68
É nesse grupo que Authier-Revuz inscreve certos trabalhos, como o de
Charaudeau ou o de Orecchione que, de um alargamento da “língua” para aí
incluir, dadas as regularidades que se observam, os fenômenos comunicativos,
implicam numa substituição daquela pela “linguagem”, com todas as
implicações de construto imaginário que aí intervêm. É também nesse domínio que Authier-Revuz inscreve os trabalhos de Ducrot, na sua tentativa de “deslocar
a barra” a fim de incluir, no campo da língua, aquilo que, da perspectiva clássica,
seria da ordem da fala.
Na reflexão de Authier-Revuz, o que se mostra, ao longo dessas diferentes concepções teóricas, é o fato de que o real da enunciação, enquanto heterogênea ao sistema da língua, se impõe enquanto tal. Mas as respostas teóricas, digamos, que se produzem em relação a essa constatação, conduzem à construção de uma teorização em que tal heterogeneidade é re-investida num esforço homogeneizante. Na raiz desse movimento, é algo da ordem do estatuto do sujeito que está em questão.
Sujeito origem x sujeito efeito: o primeiro, diz Authier-Revuz, corresponde ao sujeito psicológico, com suas variantes “neuronais” ou sociais; o segundo, aquele
67
Authier-Revuz, J. (1992:68 - Parte I).
68
“(...) assujetti à l’inconscient, de la psychanalyse ou celui des théories du discours postulant la determination historique d’un sens non individuel (...)” 69
No primeiro caso a atividade enunciativa é vista como ato de um sujeito fonte intencional do sentido, que se expressa através da língua vista como um instrumento de comunicação: nesse caso, tal sujeito não aparece como heterogêneo ao sistema da língua, já que é capaz de manipulá-la a fim de expressar/mascarar/jogar em função de suas intenções comunicativo-interativas, em que os “seus” sentidos que, portanto, lhe seriam transparentes, se confrontam com os dos “outros”; no segundo caso, ao contrário:
“(...) le dire ne saurait être transparent à l’énonciateur, auquel il échappe, irrépresentable, dans sa double détermination par l’inconscient et l’interdiscours (...)” 70
Para Authier-Revuz, as teorias enunciativas que operam ⎯ explícita ou implicitamente ⎯ com a noção de sujeito origem não fazem senão reproduzir as ilusões imaginárias do sujeito falante, atribuindo, assim, a tais construções imaginárias o estatuto de mecanismo real do funcionamento enunciativo.
Trata-se, ao contrário, na proposta de Authier-Revuz, de conceber o campo enunciativo como implicando um sujeito não-um, na sua condição de despossuído da mestria em relação a seu dizer, porque assujeitado ao real processo de constituição do sentido (interdiscurso) que escapa à sua intencionalidade e porque estruturalmente produzido pela própria linguagem na sua condição de sujeito clivado pelo inconsciente.
É a categoria de heterogeneidade constitutiva que vai demarcar o estatuto do sujeito como heterogêneo ao sistema da linguagem que o constitui e ao
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Authier-Revuz, J. (1992:85 - Parte I).
70
interdiscurso que o atravessa. E é a partir dessa mesma heterogeneidade constitutiva, impossível de ser representada pelo próprio sujeito, que se produzirá, por um efeito imaginário ligado ao mecanismo de denegação71, para tal sujeito, a impressão de ser fonte e origem de seus sentidos e de seu dizer. Mas é essa mesma heterogeneidade constitutiva que, real da condição do sujeito enunciante, não cessa de se fazer presente sob a forma dos fenômenos de não- coincidência que, manifestando os processos reais de construção do sentido, escapam àquilo que, para o sujeito enunciante, possa ser figurável.72
Authier-Revuz abre, assim, a possibilidade de que o campo enunciativo como um todo possa ser pensado a partir dessa dimensão: é desse ponto que vista que, no próximo capítulo, os fenômenos do que denominei enunciação vacilante serão apresentados.
71
Authier-Revuz, J. (1992:94 - Parte I).
72
“O termo ‘Real’ não qualifica simplesmente o que as palavras não conseguem nomear, mas também o que as palavras produzem, quando sua ambição de dizer fracassa”.
Pommier, G. (1987:25)