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1.5 F ORMAS DO D ISCURSO DE S I

1.5.1 As Modalizações do Dizer

A estrutura enunciativa no discurso de si se entretece a partir de uma escansão básica, em que dois movimentos enunciativos se encontram.

De um lado, segmentos enunciativos em que um certo estado subjetivo se representa, ou se descreve, como, por exemplo:

(nada mais me interessa) 37 Lacan, J. (1981:23). 38 Olgivie, B. (1987:37). 39 Pommier, G. (1987:17).

De outro, segmentos enunciativos que, como uma espécie de comentário, incidem sobre os primeiros, modalizando o dizer dos estados subjetivos no momento mesmo em que esse dizer se realiza, como, por exemplo:

(parece que) (no fundo) (é estranho)

(não sei, acho que) (tenho a impressão) (num certo sentido) (de certo modo)

Chamaremos R os primeiros segmentos — os que visam representar um certo estado psíquico que se experimenta — e M os que aparecem como uma espécie de comentário e que incidem sobre os anteriores, modalizando-os. No discurso de si a seqüência discursiva se mostra como uma rede onde os segmentos de tipo R são incessantemente atravessados, no fio do discurso, pelos segmentos de tipo M.

Parece, à primeira vista, que se está diante de dois planos enunciativos distintos: o que é da ordem da declaração (pois expressa um estado de coisas, representa algo40) e o que é da ordem do comentário que incide sobre o dito enunciado. De fato, os segmentos do tipo M apresentam algumas propriedades

que coincidem com aquelas que, segundo Danon-Boileau & Buscaren41,

determinam os enunciados comentativos: a presença de uma modalização de natureza epistêmica; o aspecto não aorístico. Como dizem os autores, a presença de uma modalização de natureza epistêmica produz:

“(...) la suspension de la validation de la relation prédicative. Et du coup elles entrâinent aussi la suspension de la référence temporalle autrement instituée par le procès”.

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No sentido proposto, por exemplo, por Récanati, F. (1979).

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Ao mesmo tempo, o aspecto não-aorístico que a modalização envolve

“(...) suspend la compatibilité avec une dénotation temporelle de type instant ponctuel (même si le repère-origine peut être couplé, lui, à une référence temporelle de type instant ponctuel”.42

De fato, o efeito de sentido dos segmentos de tipo M, que atravessam os de tipo R, é a suspensão do poder de nominação (a relação predicativa, para Danon-Boileau & Buscaren) que os segmentos de tipo R realizariam não fosse o atravessamento das modalizações que fazem tombar a nominação visada na precariedade e/ou na incompletude. Desse ponto de vista, o que se mostra nessa nominação visada (mas fracassada) em que um movimento enunciativo tenta capturar — e fazer coincidir — o ser do estado subjetivo experimentado e seu dizer no discurso que busca enunciá-lo, é a impossibilidade de fazer coincidir a temporalidade dessas duas dimensões, como uma das formas pelas quais se manifesta a impossibilidade da coincidência entre a vivência e sua representação.

No entanto, a abordagem teórica que está em jogo no trabalho de Danon- Boileau & Buscaren é insuficiente para dar conta do que ocorre no discurso de si. Pois a descontinuidade que se manifesta no contraponto entre os segmentos de tipo R e de tipo M não é da ordem daquilo que pode ser aproximado ao conceito de planos de enunciação, por exemplo. Os segmentos de tipo M não funcionam como segmentos de meta-discurso43 ou como segmentos meta-enunciativos44 que circunscreveriam um dizer que, de qualquer forma, se diz, num comentário que retorna, reflexivamente, sobre esse dizer, para aí inscrever uma apreciação, que a ele se acrescenta como um mais-dizer.

Ao invés do retorno reflexivo que, de um lugar de mestria, tornaria possível, ao sujeito enunciante, controlar seus enunciados, é da impossibilidade

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Danon-Boileau, L. & Buscaren, J. (1984:62).

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Maingueneau, D. (1987:93-4).

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desse controle que se trata no discurso de si. Pois, paradoxalmente, quanto mais retorna, reflexivamente, sobre o próprio dizer, mais esse dizer se esgarça no seu poder de nominação, mais a referência visada, que se pretendia nomear, se rarefaz, escapa, mais se mostra a precariedade desse sujeito na enunciação.

Já mencionei anteriormente a fórmula sujeito na enunciação, que pretendo contrapor ao escopo do conceito sujeito da enunciação, moeda corrente nas chamadas teorias da enunciação. Nestas, a própria materialidade significante em que se nomeia o conceito “sujeito da enunciação” mostra, no seu caráter de nominalização, a posição agentiva e unificadora atribuída ao sujeito — o sujeito enuncia; na fórmula que proponho, tal conversão é impossível: o sujeito

na enunciação se manifesta no seu assujeitamento, na ausência de controle que aí

possa ter e que o faz aí emergir não como unicidade, mas como dispersão45. Conseqüentemente, os segmentos de tipo M não podem ser considerados como comentários, pelo que o conceito de comentário (meta-discursivo ou meta- enunciativo) envolve enquanto emergência de uma posição de sujeito que, mesmo que se admita que se trata de um imaginário constitutivo do falante, aí aparece, para si mesmo, como ocupando um lugar de mestria, de controle de seu próprio discurso. Pois o efeito de sentido que tais funcionamentos produzem, no discurso de si, e que são constitutivos da dicção que lhe é própria, interditam que a posição enunciativa implicada nos segmentos de tipo M possa funcionar como denegação de uma não-coincidência encontrada: ao invés de representarem uma não-coincidência encontrada, são eles próprios que mostram, in praesentia, a não-coincidência.

Por essa mesma ordem de razões, a abordagem da teoria polifônica da enunciação, proposta por Ducrot, também não permite dar conta do que está em jogo nesse funcionamento do discurso de si.

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Considerar que em R o sujeito se representa como λ, como ser do mundo — portanto, como personagem de si mesmo — e em M o sujeito emerge como ser de linguagem46, supõe um sujeito que possa se desdobrar nesses dois lugares — o que, dada a natureza do sujeito que está em jogo no discurso de si como efeito de suas condições de produção, seria supor, aqui, uma forma insidiosa de atuação.

Não por acaso Ducrot, na constituição dessa teoria, retomou algumas figuras da reflexão da retórica clássica. Nas formas públicas de discurso, esse desdobramento, enquanto mise-en-scène do enunciador, é favorecido.

No discurso de si, ao contrário, o contraponto R/M não permite territorializar a incompletude, circunscrevendo-a, por exemplo, em R, a fim de salvaguardar o lugar virtual da completude na voz presente em M. Tal afirmação se justifica a partir de duas considerações.

Em primeiro lugar, pela consideração, no discurso de si, de seu processo de desenvolvimento. Ao longo de seu desenvolvimento — sua expansão — esse dizer marcado de incompletude retorna incessantemente. Não se trata de uma vacilação que, conduzindo a um retorno reflexivo, leve a uma enunciação capaz de aparecer como minimamente estável. Ao contrário, a impossibilidade de estabilizar, na enunciação, os sentidos que se nomeiam em R conduz não só à sua suspensão em M, mas a um eterno retorno do movimento de contraponto R/M, movimento que proponho chamar de o giro parafrásico no discurso de si.

Em segundo lugar, pela consideração de outras formas que, no discurso de si, manifestam os mesmos efeitos de sentido de não coincidência do dizer consigo mesmo, mas sob modalizações que não poderiam, formalmente, ser aproximadas a algo da ordem do comentário:

(É como se) nada fizesse sentido para mim (É uma espécie de) estado de recusa

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Me sinto / (assim) / (um tanto) / perdido / (meio) /

/ (tipo) /

Nessas ocorrências, o segmento de tipo M aparece de tal modo entranhado no segmento de tipo R que não se pode vislumbrar uma distinção de movimentos sintáticos entre eles: ou porque M modaliza um R não dito, não realizado, ou porque R não se diz a não ser entretecido diretamente por M.

É claro que qualquer que seja o tipo de realização que caracterize o segmento enunciativo de tipo M, é para uma posição de sujeito que se crê fonte e origem de seus sentidos e de seu dizer que esse lugar enunciativo aponta. Mas é verdade também que, do contraponto R/M, o que se manifesta é o caráter derrisório desse lugar.

Isso, no entanto, exige que se ponha em jogo uma concepção de sujeito que é radicalmente distinta daquela que povoa o campo teórico das teorias da enunciação.