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3.5 A H ETEROGENEIDADE DO S UJEITO NO D ISCURSO

3.5.2 O Dizer e o Dito

uma verdadeira mistificação na qual ele se aliena em pleno registro imaginário”.72

Nesse processo, o “eu” do enunciado, corporificado nas formas do

discurso, tende a ocultar o sujeito, que subsume por detrás de uma construção que constitui uma objetivação imaginária do sujeito.73

De outro lado, o sujeito da enunciação, impossível de ser representado no

enunciado, é aquele que advém, de forma “pontual e evanescente”, como diz

Lacan74, no próprio ato da articulação significante, isto é, na enunciação. É, portanto, na escansão dessa articulação significante que algo da ordem do sujeito da enunciação deve ser buscado: não como representação, está claro, e, se muitas vezes “isso” aí aparece sob a forma de marcas, diria que, talvez, seja antes como vestígio que se poderá, às vezes, capturar essa presença (como se pretende que a categoria de enunciação vacilante funcione).

Se, na perspectiva do discurso de si, levarmos adiante tais considerações, deveremos então considerar que, no fio do discurso, é necessário distinguir dois registros: um, em que “eu” ⎯ o sujeito do enunciado ⎯ fala e outro em que

“isso” fala do sujeito, enquanto sentidos que se produzem ⎯ a mais, a menos, ou

diferentemente ⎯ para além do horizonte de significação que “eu” tenta

circunscrever.

Para levar em conta tal dimensão (ou dimensões)*, é preciso recorrer ao modo como Lacan faz funcionar a distinção entre o dizer e o dito.

3.5.2 O Dizer e o Dito 72 Dor, J. (1985:121). 73 Dor, J. (1985:121).

74 “O sujeito não é jamais senão pontual e evanescente, pois ele só é sujeito por um significante, e para outro significante”. Lacan, J. (1975:195).

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Se, como diz Todorov, a enunciação só se realiza enquanto enunciado75, é no fluxo dos enunciados que algo da ordem da enunciação ⎯ e, portanto, do sujeito ⎯ pode aparecer. É aí que a distinção entre o dizer e o dito permite cingir o que é da ordem do querer dizer, da significação enquanto intentada pelo sujeito que fala, nível em que o sujeito ⎯ enquanto ego consciente ⎯ se reconhece, imaginariamente, como origem do sentido, e aquilo que, da ordem da linguagem, escapa ao manejo instrumental do falante, produzindo sentidos outros, para além (ou aquém) do intentado. Assim é que, diz Dor

“A linguagem aparece, pois, como esta atividade subjetiva pela qual se diz algo totalmente diferente do que se crê dizer no que se diz”.76

“Que se diga fica esquecido por trás do que se diz no que se ouve”, diz

Lacan77. Nesta fórmula, o que se marca é o circuito das trocas linguageiras, em que o dito de um sujeito afeta o outro (seu interlocutor) naquilo que ele ouve do dito ⎯ e, da mesma forma, afeta o próprio sujeito, pois aquele que fala ocupa, simultaneamente, o lugar do ouvinte78. E, na medida em que o que é da ordem do dito admite a paráfrase, operação que, em seu estatuto semântico, é suposta garantir a coincidência no plano da significação, a conseqüência aí implicada é que

“(...) o mal-entendido é a essência da comunicação”79

pois o falante 75 Todorov, T. (1970:3). 76 Dor, J. (1985:103).

77 “Qu’on dise reste oublié derrière ce qui se dit dans ce qui s’entend”. Lacan, J. (1973:5).

78 “O fenômeno da palavra, em suas formas patológicas como em sua forma normal, pode ser dissociada do fato, que no entanto é sensível, de que quando o sujeito fala, ele ouve a si mesmo? (...) na fala humana (...) o emissor é sempre ao mesmo tempo um receptor (...)” Lacan, J. (1981:33-4).

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“(...) diz sempre algo diferente do que quer dizer; solicita ser entendido, ao mesmo tempo, além do que diz”.80

Quanto ao “que se diga”, assim formulado enquanto uma sentença modal que demanda a completiva, visa marcar o dizer na sua natureza puramente existencial, e, portanto, inessencial, por oposição à suposta espessura de ser da significação81. E é porque tal descontinuidade entre o dizer e o dito se dá que é impossível para o sujeito, enquanto fala-ser, realizar a sempre visada captura do ser no discurso, pois, como diz Miller

“Quanto à referência, todo o problema da linguagem é este: nunca se consegue designá-la; na medida em que se quer designar uma referência, fica-se capturado entre metáfora e metonímia, as referências se deslocam”.82

Ainda nos limites de tal descontinuidade, o que a sentença modal expressa é que o dito, inseparável que é de sua enunciação, permanece sempre a ela suspenso:

“(...) c’est que son énonciation est moment d’existence, c’est que, située du discours, elle ex-siste à la verité”.

Ao mesmo tempo,

“(...) pour qu’un dit soit vrai, encore faut-il qu’on le dise, que dire il y en ait”.83

80

Miller, J.A. (1984:36).

81 “Pois o próprio do dito é o ser (...) Mas o próprio do dizer é de ex-sistir em relação a qualquer dito que seja”.

Lacan, J. (1975:139).

82

Miller, J.A. (1984:37). Esta temática é particularmente elaborada, na teoria da heterogeneidade de J. Authier- Revuz, sob a figura da não-coindicência palavra/coisa; é também dessa perspectiva que a categoria da enunciação vacilante, objeto deste trabalho, se constitui.

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Nesse sentido, portanto, o dizer escapa ao dito que, por sua vez, fica suspenso no dizer84. Assim, se o enunciado tenta “dizer” um real ao nível do que é dito, esse dito, cuja universalidade é visada, subsume sob a contingência do ato (enquanto acontecimento singular e subjetivo) de enunciação que seu dizer denuncia:

“Le signifié du dire n’est, comme je pense l’avoir de mes phrases d’entrée fait sentir, rien qu’ex-sistence au dit (...)” 85

Assim, se o dito do enunciado circunscreve uma estrutura, o dizer a exorbita, aí inscrevendo o excesso ou a falta de sentido que extravazam a significação; e é nesses pontos que uma presença faz presença ⎯ a do sujeito, na sua contingência:

“La structure, c’est l’asphérique recelé dans l’articulation langagière en tant qu’un effet de sujet s’en saisit”.86

É assim que o sujeito aparece, na escansão de seu dizer, como pontual e evanescente, pois é nos desdobramentos da articulação significante do dizer que algo que escapa à unidade de uma totalização estrutural vai aparecer.87

É em conseqüência dessas distinções que a noção de escuta vai se caracterizar. Não há escuta do dito (o dito é da ordem do que se ouve), mas somente do dizer:

“A acuidade da escuta será (...) dirigida ao registro do dizer (...) trata-se sobretudo de estar receptivo aos significantes que

84 “Ceci remarqué, le dire se démontre, et d’échapper au dit”. Lacan, J. (1973:9). 85 Lacan, J. (1973:29). 86 Lacan, J. (1973:40). 87 Lacan, J. (1975:195).

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advêm, através do dizer, para além dos significados que se organizam no dito”.88

E, o que se escuta, como diz Lacan, não tem a ver com o que se ouve do dito, mas com o que se lê no plano dos significantes do dizer:

“Se há alguma coisa que possa nos introduzir à dimensão da escrita como tal, é nos apercebemos de que o significado não tem nada a ver com os ouvidos, mas somente com a leitura, com a leitura do que se ouve de significante. O significado não é aquilo que se ouve. O que se ouve é significante. O significado é efeito de significante”.89

Neste ponto, vê-se como a não coincidência entre dizer e dito se funda na descontinuidade entre significante e significado.