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3. O PRIMEIRO PNE

3.1. A ideia de plano no Plano de 1962

3.1.1. A ideia de plano e o clima em torno do PNE1962:

Como visto até aqui, o PNE1962 não escapou ao seu contexto político-intelectual. Ele foi elaborado e recebido como uma peça do grande quebra-cabeça do planejamento, que visava o desenvolvimento nacional. Os discursos que acompanharam a entrega solene do Plano ao Ministério da Educação e Cultura, no dia 12 de setembro de 1962, mostram exatamente isso.

Na ocasião discursaram: em nome do Conselho Federal de Educação - órgão responsável pela elaboração do Plano - o seu Presidente e portador do documento, Professor Deolindo Couto (1902-1992); em nome do Ministério da Educação e Cultura, o responsável pela pasta, Ministro Darcy Ribeiro (1922-1997); e como representante do ensino privado, Dom Helder Câmara (1909-1999), à época, membro do Conselho. Esses três discursos mostram que o clima em torno do qual o PNE1962 foi elaborado e recebido se constituía de dois sentimentos antagônicos, embora relacionados, que confirmam sua influência desenvolvimentista.

De um lado, os discursos revelam uma espécie de vergonha, acompanhada por um senso de necessidade urgente, derivados da percepção do atraso do país em matéria de educação e planejamento educacional. É o que mostram, por exemplo, as palavras do Ministro Darcy Ribeiro:

A verdade que envergonha a todos os educadores brasileiros e deve envergonhar a todos os brasileiros, é que temos fracassado até agora da forma mais completa no cumprimento de um dever mínimo que todas as outras nações cumpriram antes de alcançar estado de desenvolvimento dos deveres elementares do Estado em matéria de educação. Na América Latina, somos o país que tem maior proporção de analfabetos adultos e de crianças fora da escola. Vejam bem que não se trata da maior proporção em relação à Europa ou à América do

Norte. É em relação à América Latina, onde se encontram áreas das

mais atrasadas do mundo.249

Daí, Dom Helder Câmara definir as metas estabelecidas pelo Plano como “modestas,

mais inadiáveis”250.

De outro lado, os discursos mostram uma espécie de otimismo redentivo. Ao mesmo tempo em que acusa o atraso do país, Darcy Ribeiro descreve o momento presente como uma situação nova:

“...de plena autonomia e responsabilidade dos educadores, devolvendo-lhes aquilo que o médico e o engenheiro já tinham como profissionais, isto é, a responsabilidade para uma tarefa escolar, humana, filosófica e moral, pela qual eles devem responder, até

mesmo de modo individual”251.

Se esse discurso do Ministro da Educação e Cultura revela um otimismo particular, relacionado mais diretamente ao protagonismo exercido pelos educadores na elaboração do PNE1962, o do Presidente do CFE expressa um otimismo bem mais geral, baseado em uma espécie de confiança irrestrita nos efeitos práticos do documento que ele agora entregava. Apelando para o conhecimento pedagógico do Ministro, ele assevera:

“V. Exa., como educador provecto, daqueles a quem tanto deve a educação nacional, conhece muito bem o problema e sabe que ele poderá ser resolvido em grande parte com o Plano que acaba de ser

elaborado pelo Conselho Federal de Educação”252.

E ao final do discurso, depois de solicitar encarecidamente que o Ministro envidasse esforços para efetivar uma modificação na proposta de orçamento da União para

249 RIBEIRO, Darcy. Discurso pronunciado pelo Ministro da Educação e Cultura, Professor Darcy Ribeiro. In: ALVES, João Roberto Moreira. Plano Nacional de Educação: Guia Prático. 3.ed.Rio de Janeiro: IPAE (Instituto de Pesquisas e Administração da Educação), 2016, p.7.

250 CÂMARA, Helder. Discurso pronunciado pelo Conselheiro, Dom Helder Câmara. In: ALVES, João Roberto Moreira. Plano Nacional de Educação: Guia Prático. p.8.

251 RIBEIRO, Darcy. op.cit., p.7.

252 COUTO, Deolindo. Discurso pronunciado pelo Presidente do Conselho Federal de Educação, Professor Deolindo Couto, no ato da entrega do plano, In: ALVES, José Roberto Moreira. Plano Nacional de Educação: Guia Prático. p.6.

exercício seguinte (1963), com o objetivo de contemplar nele o Plano que estava sendo entregue, encerrou com as seguintes palavras de tom profético-religioso:

Se o Governo da República, imbuído como está do desejo de colaborar na sua execução, e se os nobres Congressistas, delegados do povo, estiverem de acordo em fazer esta modificação, ter-se-á dado um grande passo no caminho da redenção cultural do povo brasileiro.253

Como podemos perceber, os envolvidos na elaboração e recebimento do Plano Nacional de Educação de 1962 nutriam, de um lado, uma forte convicção a respeito do estado lastimável da educação brasileira na ocasião, e de outro, a sensação de que estavam participando de um momento histórico singular. De acordo com Darcy Ribeiro, o segundo momento, visto que o primeiro havia sido a promulgação da LDB,

no ano anterior (1961).254

Esse clima mostra bem como ele, não apenas se originou em um contexto político-intelectual de matriz desenvolvimentista, mas reverberou, ele próprio, esse contexto. O otimismo redentivo que acabamos de mencionar não resulta senão, do entendimento de que o atraso do país em matéria de educação seria expressão de seu subdesenvolvimento, e teria sido gerado, primordialmente, da falta de planejamento na aplicação de recursos. Foi essa mentalidade desenvolvimentista, que Deolindo Couto expressou claramente ao explicar o motivo de sentir-se honrado por passar às mãos do Ministro Darcy Ribeiro o texto do Plano:

“...é que, se indagarmos de um grupo de educadores brasileiros quais as razões fundamentais das deficiências do processo educacional em nosso país, responderão que se trata, essencialmente, de falta de

planejamento”255.

253 COUTO, Deolindo. Discurso pronunciado pelo Presidente do Conselho Federal de Educação, Professor Deolindo Couto, no ato da entrega do plano, In: ALVES, José Roberto Moreira. Plano Nacional de Educação: Guia Prático. p.6.

254 RIBEIRO, Darcy. Discurso pronunciado pelo Ministro da Educação e Cultura, Professor Darcy Ribeiro. In: ALVES, José Roberto Moreira. Plano Nacional de Educação: Guia Prático. p.7.