3 TEORIA HISTÓRICO-CULTURAL E DIVERSIDADE
3.2 Bakhtin e a diversidade
3.2.1 A identidade e as concepções acerca da diferença
As sociedades contemporâneas caracterizam-se por um acentuado processo de transformações e reformulações em suas estruturas e na sua organização social, econômica e política. A difusão das Tecnologias da Informação e da Comunicação – TICs e a reorganização do mundo do trabalho apresentam-se como alguns dos fatores que alteram as maneiras como os sujeitos se relacionam na sociedade.
Identidades e posições de sujeito, que até o Iluminismo se estabeleciam com base em normas e convenções sociais, permanecendo relativamente estáveis ao longo de toda a vida dos indivíduos e no interior de cada grupo social, instalados em limites normativos estreitos,
“deslocam-se”22 e os sujeitos passam a apresentar identidades contraditórias que os empurram em diferentes direções, adaptadas aos diferentes espaços que ocupam e que podem permanecer temporariamente estáveis ou alterar-se ao longo do tempo.
Neste contexto, é elemento reincidente o incômodo e os vários questionamentos referentes à maneira como se dá a constituição da identidade dos seres humanos: como se constroem os princípios, as percepções e os valores que nos impulsionam? Por que nos inter- relacionamos da forma como o fazemos? Na fala de Nietzsche citada por Larossa (2005): como nos tornamos o que somos? Como esse processo de constituição favorece ou dificulta a convivência com identidades diversas das nossas?
Os movimentos sociais que impactaram as sociedades ocidentais na segunda metade do século XX, trouxeram à tona uma série de discussões que tem desdobramentos ainda imprevisíveis na forma como as relações humanas se configuram e virão a se configurar na grande temporalidade23. O movimento feminista, precursor dos demais movimentos sociais, ao discutir as relações de gênero e os papéis sociais de homens e mulheres no mundo do trabalho, no interior das famílias e nos demais espaços sociais, viu-se pressionado por nuances mais amplas e multifacetadas do que se poderia prever.
Constatou-se nas lutas internas e externas que vieram a ser travadas no interior desse movimento, que as relações de dominação passam por questões mais complexas do que simplesmente pelas questões de gênero. Nas práticas de dominação e exclusão estão envolvidas variantes como: etnia, cor da pele, orientação sexual, situação sócio-econômica, afiliação religiosa e outras marcas que fazem parte da constituição das identidades dos indivíduos e que têm intervenção direta na forma como se dão suas relações sociais.
Mas o que é e como se constitui a Identidade? Hall (2005, p. 16) indica que este termo significa “o ponto de sutura entre os discursos e as práticas que tentam nos interpelar, nos falar ou nos convocar para que assumamos nossos lugares como os sujeitos sociais de discursos particulares e os processos que produzem subjetividades que nos constroem como sujeitos dos quais se pode falar”.
Woodward (2005) em posição bastante semelhante à de Hall, indica que “as identidades adquirem sentido por meio da linguagem e dos sistemas simbólicos nas quais elas
22 Laclau (apud HALL, 2005, p. 16) conceitua deslocamento como “uma estrutura em que o centro é deslocado, não sendo substituído por outro, mas por uma pluralidade de centros de poder”. Para ele, ao mesmo tempo em que o deslocamento desarticula as identidades estáveis do passado, abre a perspectiva de criação de novas identidades e de produção de novos sujeitos.
23 Freitas, em atividade docente, na disciplina Processos de Pensamento e Linguagem, do Curso de Mestrado em Educação do PPGE/UFJF, no primeiro semestre de 2006, nos ensina que Bakhtin define a grande temporalidade como o entrecruzamento de passado, presente e futuro, transcendendo o presente.
são representadas”. Citando Rutherfor, vai indicar que “a identidade é a intersecção de nossas vidas cotidianas com as relações econômicas e políticas de subordinação e dominação”.
Destas falas podemos inferir que a constituição das identidades, marcada pelos sistemas simbólicos, dá-se no tempo e no espaço, embebida pelas relações sociais, culturais e econômicas de cada sociedade em diferentes momentos históricos. É decorrente dessa vinculação sócio-histórica e cultural que temos hoje a chamada “crise de identidade” que, segundo Hall é “parte de um processo de mudança nas estruturas e processos centrais das sociedades modernas que abala os quadros de referência que davam aos indivíduos uma ancoragem estável no mundo social”.
Os sujeitos, não mais definidos por determinação ‘divina’, libertos das amarras da racionalidade cartesiana e das perspectivas sociologizantes que o pensavam apenas como um ser que passivamente internalizava, a partir do exterior, os determinantes de seu grupo social, vê-se, na Modernidade Tardia, sem um “centro fixo” onde apoiar-se na definição de sua própria identidade.
Neste mundo globalizado, em que a velocidade das transformações nas relações profissionais e pessoais se dá com maior intensidade, vamos encontrar o indivíduo transitando entre identidades contraditórias, que o empurram em diferentes direções, fazendo com que este sujeito se apresente fragmentado, com identidades variáveis e provisórias que poderão, em função das exigências sociais, ser reformuladas e re-arrumadas na medida em que as práticas sociais se alterem.
É exemplar a situação da mulher adulta ocidental, pressionada entre as obrigações de filha, mãe, esposa, amante, profissional, intelectual, esportista, em oscilação constante quanto a qual desses papéis sociais – que constituem seu perfil identitário – estará evidenciado a cada momento, chegando, no limite, a uma perspectiva saudosista dos destinos de sua avó que, ao nascer, sabia exatamente o que dela se esperava como esposa e mãe e que encontrava uma estrutura social integralmente montada para que desse conta desses papéis. Se agregarmos a esta personagem uma pertença étnica de menor valor social ou uma deficiência de origem biológica teremos o quadro caótico onde se encontra o sujeito na atualidade.
No âmbito profissional, tido por Dubar (apud LÜDKE e BOING, 2004, p. 1166) como “um dos principais componentes da identidade dos indivíduos” ao lado de outras dimensões como, por exemplo, a psicológica e a antropológica, registramos também transformações no mundo das relações de trabalho que contribuem para o agravamento da crise de identidade. No magistério, essa crise de identidade é atribuída, entre outras variáveis, à precarização das condições do trabalho docente.