5. ANÁLISE DOS DADOS
5.2. A imagem do centro da cidade
3. Falando agora só daqui, do centro da cidade, o que se destaca?
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prédios/ monumentos históricos falta de infra-estrutura/ aspecto negativo praças igrejas comércio/ serviços bares/restaurantes/ eventos outros nada interessante/ importante
Se o item anterior abordou os símbolos associados à cidade como um todo, nesta seção tratar-se-á apenas do centro de Mossoró. A terceira questão do roteiro de entrevista (figura 57) teve como finalidade identificar, na fala dos entrevistados, os elementos de destaque localizados na área central da cidade, a fim de saber qual sua imagem e o critério de seleção adotado: afetividade e apropriação, destaque visual do elemento na forma urbana, religiosidade, uso, etc.
Questão com múltiplas respostas
Fig. 57 – Gráfico com categorias da questão nº 3 da entrevista. Fonte: COSTA, 2007.
Buscou-se ainda investigar se o centro era classificado em função do patrimônio edificado e identificado como centro histórico pela população, depositário de memórias e mantenedor de sua identidade.
Fig. 58 – Edifício sede da Rádio Rural, localizado na Praça Vigário Antônio Joaquim (da Catedral). Fonte: COSTA, 2006.
Fig. 59 – Imagem da subida da ponte Jerônimo Rosado sobre o Rio Mossoró, no centro da cidade. Fonte: COSTA, 2006.
Verificou-se dois padrões de resposta: um, em que ganham relevo as
construções de importância histórico-arquitetônica e os espaços urbanos e
outro em que o centro é destacado como local de comércio, caótico e desprovido de significado afetivo e histórico (figuras 58 e 59). Não houve distinção entre as respostas de comerciantes, usuários, moradores e sujeitos-chave.
A maioria dos entrevistados fez menção aos prédios históricos, muitas vezes enaltecendo fatos históricos como justificativas para sua citação, referindo-se na mesma resposta às igrejas e às praças. Dentro dessa categoria, das treze construções mencionadas, cinco referiam-se à Estação das Artes.
O que chama a atenção de qualquer pessoa é a Catedral, não é? O antigo cinema Cid, que hoje é um teatro e o cinema Pax, então são aqueles pontos referenciais, a Reitoria, que era a antiga casa do prefeito, a Igreja São Vicente, então esses são os pontos mais conhecidos do centro da cidade, chama a atenção (sujeito-chave, homem, 40-49 anos, nível superior).
O Teatro Dix-Huit Rosado e a Estação das Artes, a Catedral de Santa Luzia, tem uma parte histórica muito significativa a Igreja São Vicente, que tem todo aquele aspecto histórico da resistência de Lampião (usuária, mulher, 60-69 anos, nível superior).
[...] penso em tudo que está em volta das praças, são duas referências muito fortes pra mim: a Praça da Catedral, a Praça da Loja do Papai é uma referência pra mim (sujeito-chave, mulher, 20-29 anos, nível superior).
As praças de Mossoró (figuras 60 e 61), que sofreram grandes reformas nos últimos anos, foram citadas por 11 dos 40 entrevistados, sendo mais associadas à beleza do que à função de local de troca e convivência da cidade. Essas reformas consistiram na transformação completa das praças, culminando em uma nova disposição do espaço urbano, com o plantio e a retirada de árvores e jardins, instalação de novos bancos, postes de iluminação e outros elementos urbanos, como monumentos, fontes e uma cúpula. O objetivo parece combinar o ideal de embelezamento e aformoseamento, vigente nas cidades brasileiras no fim do século XIX, e os princípios do planejamento estratégico, que tratam da criação de uma imagem favorável de cidade. As praças deixaram de ser vistas como espaços de convivência para se transformar em cenários e até em pontos turísticos.
Bom, hoje tem as praças de Mossoró. São cartões-postais, então são belas, a gente vê, vai ao centro [...], eu acho que aquela, foi intencional, aquela cúpula que fizeram ali, transparente para ser o cartão-postal da cidade e é comum você chegar ali de tarde e ter gente de fora tirando fotografia ali, então é uma coisa que destaca (sujeito-chave, homem, 50-59 anos, nível superior).
Assim, é porque eu viajo muito para Fortaleza, meus filhos estudam lá e quando passam por Mossoró o que eles vêem mais são as praças, “ai, suas praças são tão bonitas”. Então eu acho que ia levar pras praças, não é? (moradora, mulher, 40-49 anos, nível superior).
O centro da cidade de Mossoró ainda é bastante dinâmico, sendo o pólo comercial e de serviços, ao contrário dos núcleos centrais de algumas cidades. Assim, a visão do centro como local de atividades comerciais e de prestação de
serviços é freqüente, muitas vezes com conotação positiva.
Uma coisa que eu lembro logo é do comércio, dos serviços, de resolver coisas. Falar do centro pra mim é estar naquela Rua da Loja do Papai, a Coronel Gurgel, falou do centro, lembro daquele trecho. É estar no meio do centro, e tem muitos serviços, é onde você resolve tudo (comerciante, mulher, 30-39 anos, ensino médio completo).
Acho que se destaca mais o comércio do que os prédios, a exceção é quando tem assim, os eventos, não é? (moradora, mulher, 20-29 anos, nível superior).
Fig. 60 – Praça Rodolfo Fernandes (do Pax). Fonte: COSTA, 2006.
Fig. 63 – Esquina das ruas Coronel Gurgel e Alfredo Fernandes. Fonte: SKYSCRAPERS, 2007. Fig. 61 – Praça
Vigário Antônio Joaquim (da Catedral). Fonte: COSTA, 2006.
Fig. 62 – Entorno do Mercado Público. Fonte: COSTA, 2006.
Em virtude da função de pólo comercial e de serviços, o centro também é visto como espaço caótico, sem referenciais de identidade, sem significado afetivo ou relacionado à memória, em que a malha urbana e os carros se sobrepõem à massa edificada (figuras 62 e 63). Foi bastante freqüente a associação à falta de estacionamento e de infra-estrutura, com referência à violência, esgotos a céu aberto e ausência de arborização.
As lojas, o comércio, mas tem que melhorar em relação à segurança (usuário, homem, 30-39 anos, ensino médio completo).
A falta de arborização, eu acho em Mossoró muito precária, o comércio, os comerciantes destroem as árvores de Mossoró, sabia? (usuária, mulher, 60-69 anos, nível superior).
Do centro da cidade? Importante também eu não vejo não, só vejo que não tem onde estacionar, tem que estacionar muito distante, porque é muito difícil, muito difícil, não vejo nada de interessante no centro da cidade, não (usuária, mulher, 30-39 anos, nível superior).
Em oposição a isso, para alguns dos sujeitos, o centro é carregado de valores afetivos, pois, em vez de significarem apenas um local de comércio, foi apropriado pelos indivíduos, ligando-se às suas histórias de vida (figuras 64 e 65).
Atualmente eu penso nisso, no Teatro, na Estação, as pontes, eu tenho muito vivo na minha cabeça as pontes, por eu ter sempre morado ali, por passar por lá (sujeito-chave, mulher, 20-29 anos, nível superior).
A Catedral, aquela praça e a Praça da União Caixeral, também, parece que a Praça da União Caixeral conservou mais a cara do centro e também porque minha infância foi ali (sujeito-chave, homem, 40-49 anos, ensino médio completo).
Fig. 64 – Praça da Redenção. Fonte: COSTA, 2006. Fig. 65 – Ponte sobre Rio Mossoró. Fonte: COSTA, 2006. Por meio da fala dos entrevistados, percebe-se que, por um lado, a associação do centro de Mossoró ao patrimônio cultural edificado é bastante forte, pois ao pensar nesse espaço urbano foi recorrente a menção a edifícios e monumentos históricos. Entretanto, considera-se que essa imagem não é bem definida, pois a citação ao patrimônio construído era feita muitas vezes combinada com a referência ao centro como lugar de comércio, sem estacionamento e infra- estrutura. A imagem do centro é, portanto, uma mescla de um lugar de memória com um lugar contemporâneo, em que os sujeitos experienciam, ao mesmo tempo, o passado e o presente. Tal fato é possível, em função do centro de Mossoró não ter sofrido o processo de esvaziamento e abandono que caracteriza a grande maioria das maiores cidades na atualidade.
5.3. TRANSFORMAÇÕES DA CIDADE, ENUNCIAÇÃO DAS PERDAS E