Capítulo 5 A imagem performativa 5.1 A passagem do objeto ao outro
5.3 Programando subjetividades
5.3.1 A imagem performativa
Renato Cohen afirma que a performance é antes “uma expressão cênica: um quadro sendo exibido para uma platéia não caracteriza uma performance; alguém pintando esse quadro, ao vivo, já poderia caracterizá-la” (2007:28). Esta proposição de Cohen leva a entender a performance como uma arte da presença, um acontecimento que se dá no aqui e agora da ação e por meio de um corpo consciente de si e do outro. Um vídeo pré- gravado ou uma instalação, continua Cohen, somente podem ser considerados uma performance sendo exibidos concomitantemente com alguma atuação ao vivo.
! O exemplo de Cohen pode dar a entender que a performance necessariamente exige a presença de um corpo biológico ou humano; mas, se tomarmos os diversos exemplos de algoritmos generativos46 esta questão pode ganhar outra dimensão. O
próprio Cohen oferece uma resposta precisa a esta pergunta a partir de decomposição do que se entende por encenação em uma tríade formada entre atuante-texto-público, conforme concebida por Jacob Guinsburg. Ao transferir os conceitos teatrais para a performance, Cohen afirma que o atuante não precisa necessariamente ser um humano, pode ser também um boneco, um animal, um objeto ou uma forma abstrata. No caso dos
regimes performativos é a imagem que se converte neste boneco, ou mais bem dizendo,
em um robot ou um agente. Sendo ela mais ou menos figurativa, o importante é que a imagem se apresente como um equivalente sensível de quem está à sua frente, isto é, que seja capaz de se impor como presença, como outro, fazendo com que o sujeito reconheça nela a sua própria Gestalt.
! Do ponto de vista técnico, há muito já se notou que na base técnica digital, como sendo o resultado dos processos complexos que são operados no interior dos dispositivos, a imagem passa a ser programável no sentido dado ao termo por Manovich (2001). Isso é, a imagem passa a ser resultado de um software, tendo suas virtualidades atualizadas a cada instante. Ela se torna “fluxos de microimpulsões eletrônicas” que a habilitam a assumir comportamentos (COUCHOT, 2003). A imagem é assim fruto da lógica procedimental inscrita no interior dos algoritmos computacionais e na relação destes com as redes de informação (MURRAY, 2003). Mas esta característica técnica não faz a imagem assumir uma condição performativa per se; como discutido, a imagem pode se projetar como fenômenos objetivados do dispositivo.
! A condição performativa da imagem, embora seja habilitada pela sua condição técnica, não é determinada por esta, mas sim pela concepção geral da obra como dispositivo. O que passa a importar é como o artista programa sua obra, de acordo com a concepção flusseriana de programa. Isso se dá por meio da organização do conjunto de processos das diferentes dimensões abstratas do dispositivo para que a imagem se projete como um outro e, assim, desperte a identificação do sujeito por meio da Gestalt nela representada. O artista passa assim a programar subjetividades por ele imaginadas em dispositivos que visam proporcionar ao sujeito experiências sensíveis. Trata-se aqui de uma imagem intencional que provoca, instiga, aguça a curiosidade, o desejo, o espanto, que surpreende o sujeito ao demandar seu gesto. É através da presença que estas obras produzem sentido. Sem a presença do visitante elas pouco significam, seu valor simbólico e conceitual se faz quando uma imagem passa a gerar uma presença da performance. E isso é feito não por um realismo formalista, mas por uma relação que se estabelece por um processo fundado na ação simbólica da audiência participante.
! Assim, passa a ser possível conceber a imagem performativa como a representação de um equivalente sensível do sujeito. A imagem pode ser assumida então como por seu valor simbólico, ou seja, como um signo que visa representar conceitos abstratos que permeiam nossas relações intersubjetivas. Mas, ao empregar o termo performance para analisar obras-dispositivos, vale notar, não se quer sugerir a superação do corpo ou do humano pela máquina.
! Como outros essas imagens não visam iludir, fazendo-se passar por pessoas. Sabe-se que elas resultam de um dispositivo técnico e, por isso, elas jamais poderiam ser confundidas com pessoas reais. Do contrário, se instauraria novamente o pensamento mágico da Antiguidade, tal como Flusser o definiu ao falar da imagem pré-histórica. No
entanto, são elas, sim, manifestação de um outro, o artista, de acordo com a subjetividade por ele programada na obra. Dizendo de outro modo, este outro que está representado na imagem é um híbrido entre intenção e sujeito e as determinações do aparato. O dispositivo esconde assim um modelo de codificação e é este, em última instância, que detém os conceitos que regem as relações com a imagem.
! Trata-se de uma categorização estética, que visa iniciar uma abordagem de certa corrente de práticas artísticas que nada dizem respeito às teorias apocalípticas da relação homem máquina. As pesquisas criativas destes artistas parecem manter como ideal a simulação das relações sensíveis intersubjetivas, de acordo com um modelo estético inaugurado pela performance. A imagem simula este outro sem, no entanto, pretender substituí-lo, ou seja, ela o simula e não o emula47. Assim dá-se preferência para o termo
imagem performativa em detrimento de imagem-performance. Com isso, é importante
perceber, há um deslocamento significativo do fazer artístico. De maneira diferente de grande parte da arte cibernética, estas obras não visam simular comportamentos, raciocínio lógico, procedimentos decisórios, organismos vivos; a simulação de processos cognitivos é colocada a favor da projeção de subjetividades por meio da criação de relações sensíveis entre o sujeito e a imagem, ambos tomados por sua presença e por seus gestos.
! De fato, é preciso reconhecer que ainda se trata de um momento inicial de tais explorações. Mas este mapa já foi esboçado e o percurso já se iniciou rumo às obras- dispositivos que se apresentem elas mesmas como outros. O que de mais interessante pode surgir destes trabalhos não é, no entanto, o efeito de ilusão de estar de frente de um
outro. Isso pode até mesmo se mostrar perigoso e alienante. Mais importante, porém, é
criar relações dialógicas capazes de fazer desdobrar processos cognitivos capazes de elaborar conhecimento, percepções, sensibilidades que reflitam os modos de existência no mundo contemporâneo. E, de fato, isso parece ser possível na medida em que se explore mais profundamente a imagem e a relação que ela estabelece com o público de maneira a fazê-la se voltar à sua própria transformação e à transformação do próprio sujeito. Se formos, mesmo, resultado do que experienciamos, estas imagens performativas buscam criar experiências que levem o sujeito a se voltar a ele próprio, a questionar sobre o valor de sua presença e de suas ações, o tornando mais consciente de sua responsabilidade em construir o mundo. Tomado simultaneamente sujeito e objeto
de si, este participante performer não mais se contantará em “ver a banda passar” ele poderá passar a se entender também como um criador do que o cerca.