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Capítulo 5 A imagem performativa 5.1 A passagem do objeto ao outro

5.2 O regime de sentido fundado na performatividade

5.2.1 A obra como encontro

É no horizonte desta integração que, enfim, aparece aquela que talvez seja a atualização mais profunda da proposta de Velásquez de se pensar a imagem como dispositivo. Isso porque a imagem passa a nos olhar e a se deixar ver por meio de um processo dialógico que extrapola o campo da visualidade e, de fato, integra definitivamente o corpo ao processo de agenciamento de sentido. Esta integração amplia exponencialmente a condição de encontro, uma vez que torna mais intensa a condição de presença da imagem e do sujeito.

! A integração entre visibilidade e presença da imagem por meio da relação entre a imagem e aquele que se posiciona a sua frente aparece como o catalisador do encontro também em obras que trabalham entre o vídeo e as interfaces interativas, tal como acontece em Tall Ships (1992). Esta instalação de Gary Hill foi composta originalmente por doze monitores modificados com lentes que projetam imagens em preto e branco em telas dispostas em um corredor escuro39. As imagens foram armazenadas e reproduzidas

separadamente em aparelhos de laserdisc controlados por um computador que recebe informações de sensores espalhados pelo espaço. Ao entrarem neste longo corredor escuro, os visitantes encontram uma série de doze figuras espectrais à deriva. Estas figuras fantasmagóricas aguardam imóveis, silenciosas até que a entrada do visitante cause um distúrbio na frágil serenidade do ambiente.

! Conforme o visitante avança na jornada, sua passagem pelo espaço é percebida por sensores que disparam o movimento da imagem mais próxima, fazendo com que a figura se aproxime dele. As figuras são inicialmente vistas à distância; somente quando o visitante avança é que elas começam a caminhar para frente, em um movimento semelhante ao de uma pessoa, até tomarem as dimensões de um corpo humano e

39 Outras montagens desta obra substituíram as imagens originais em preto e branco por coloridas e

anularem qualquer distância que as separem de quem estiver presente. Essas aparições sejam elas de crianças sejam de mulheres ou homens se oferecem ao visitante como que a interpelá-lo, estabelecendo uma comunicação silenciosa, como se houvesse algo a ser dito. Hill estabelece como ponto fundamental desta comunicação o olhar, que, nesse encontro silencioso, torna-se ainda mais íntimo e intrigante, pois as figuras, como quem esconde algum segredo por detrás dos olhos, permanecem caladas. Hill se coloca a seguinte questão: “Será que nós sempre nos conectamos realmente uns aos outros, ou nós somente estamos de passagem nos navios da noite?”40

Tall Ships, Gary Hill

! As imagens reagem à presença dos corpos em deslocamento e, como visitantes da instalação, a sensação que temos é a de que estamos sendo vistos, e sabemos que há algum tipo de percepção voltada para nós. As personas de Tall Ships ganham comportamento e sua atuação é construída em resposta à presença do visitante. Aparece então um efeito reflexivo do dispositivo que não é motivado pela imagem do visitante projetada à sua frente, tal como uma ilusão especular, mas sim instaurado pelo jogo entre o seu corpo e a imagem. O encontro experienciado nos faz questionar sobre nosso comportamento frente a alguém totalmente estranho que intencionalmente se apresenta a nós e estabelece um contato extremamente íntimo, por meio do olhar e da presença. Assim o encontro aparece como questão e como forma nesta obra de Hill, de modo que não há como o visitante se negar ao desafio imposto pela obra.

! Dessa maneira, obras como Tall Ships ampliam a condição de presença a um grau sem precedentes até então. Isso acontece justamente porque um corpo só se faz presente quando se torna corpo percebido41 e porque tanto nós quanto a imagem

40 Tall Ships, website, disponível em http://www.acmi.net.au/deepspace/ar_gh2.php

passamos a nos perceber um ao outro. Nesse sentido, é possível concordar que a presença em si é mesmo um fenômeno e não um estado e que um corpo e a percepção desse corpo são duas facetas de um mesmo fenômeno (ISAACSSON, 2010). Assim Tall Ships compartilha a simulação de encontros proporcionada por determinada vertente da

arte cibernética dentro do que pode ser concebido como um regime de sentido fundado na performatividade.

Na situação performacional, a presença corporal do ouvinte e do intérprete é presença plena carregada de poderes sensoriais, simultaneamente em vigília. Na leitura [textual], essa presença é, por assim dizer, colocada entre parênteses; mas subsiste [nela] uma presença invisível que é a manifestação de um outro muito forte para que minha adesão a essa voz, a mim assim dirigida por intermédio do escrito, comprometa o conjunto de

minhas energias corporais (ZUMTHOR, 2007:68).

! É preciso considerar, é verdade, que não se trata de uma presença de mesma intensidade que aquela da arte da performance. Como Zumthor afirma, a presença é a manifestação de um outro, de modo que no encontro entre performer e público se estabelece uma presença plena (ou o mais próximo disso). Mas existem outras situações nas quais, ainda que não exista a fisicalidade do corpo, tal como acontece com a imagem que se projeta do dispositivo, é possível que exista uma manifestação forte o suficiente de um outro para despertar a adesão a ela, instituindo assim uma condição de presença. A ausência do corpo em cujo lugar está uma imagem modifica a situação de encontro. No entanto, a resposta da obra à presença do sujeito catalisa a força necessária para provocar a adesão à alteridade da imagem.

! Esta força encontra suas origens justamente na maneira em como o participante é percebido pela obra, ou seja, pelo modo como é organizada a dimensão de visibilidade do seu dispositivo. Uma vez na instalação, o sujeito é desafiado a entender a sua própria presença como elemento simbólico de uma relação em que o deslocamento do seu corpo é o agenciador da experiência. Mas não se trata, porém, de um olhar que se lança à exploração de um ambiente por meio de um agenciamento corporal, como no caso dos

the floating of art (DINKLA, 2002); aqui, o corpo é tomado pelo valor simbólico de sua presença e se confronta com a imagem como quem se encontra mesmo com um outro. O corpo é assimilado como agenciador de uma relação mais íntima com a imagem, o que se torna ainda mais intenso pelo uso estratégico do silêncio. E é desse encontro que emerge a tensão entre o visitante e a imagem, entre o estranhamento da figura que se apresenta e a identificação com nosso repertório de experiências vividas. Mas esta estranheza é

reduzida gradualmente em um movimento que surge de ambas as partes, até que ela se anule completamente fazendo o visitante misturar-se integralmente às figuras. O espaço construído por Tall Ships ocupa uma zona intermediária entre o sonho e mundo da experiência, torna-se sonho em um mundo concreto. Tall Ships concilia novamente o olhar que o dispositivo lança rumo ao visitante e o estatuto de presença da imagem. Tanto as figuras da imagem quanto os visitantes são mergulhados em um jogo dado por ações carregadas de intenção e sentido, como em uma performance baseada na presença de nossos corpos e pelos gestos que emergem durante o processo.