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3 O COMPLEXO DA SOJA ARGENTINA E ESTADUNIDENSE E SEUS

3.1 A importância do complexo da soja argentina

As primeiras plantações de soja na Argentina datam de 186249, todavia, a produção da

commodity acabou por não se propagar pelo território argentino naquele período. Foi somente por volta da década de 70 que se percebeu uma forte expansão da produção da oleaginosa no país e, consequentemente, uma profunda modificação em seu setor agroindustrial.

Atualmente, o complexo da soja argentina se demonstra maduro, tecnológico e como um dos setores mais dinâmicos e pujantes da economia do país50. Conforme mencionado, a partir

da da década de 70, a produção, processamento e comercialização da commodity da soja cresceu constantemente, fazendo com que a Argentina ocupe, hoje, o posto de maior exportador de óleo de soja e maior exportador de farelo de soja do mundo51.

Nos anos 1968, de todas as oleaginosas processadas, o grão da soja correspondia a apenas 1% do total. Ainda, em 1970, as indústrias processadoras de grãos tinham capacidade produtiva ociosa na monta de 50% e não se aumentava a produção devido a falta de grãos de soja52.

49 ALVAREZ, Diego Martínez. Historia de la soja en la Argentina: Introducción y adopción del cultivo. 2012.

Disponível em:

<https://www.researchgate.net/publication/320170391_Historia_de_la_soja_en_la_Argentina_Introduccion_y_a dopcion_del_cultivo>. Acesso em: 4 nov. 2019.

50 GIANCOLA, Silvana Inés et al. ANÁLISIS DE LA CADENA DE SOJA EN LA ARGENTINA. Estudios

Socioeconómicos de Los Sistemas Agroalimentarios y Agroindustriales, Buenos Aires, n. 3, p.102-204, dez. 2009.

51 BSERVATORY OF ECONOMIC COMPLEXITY (Reino Unido). ECI. 2017. Disponível em:

<https://oec.world/en/>. Acesso em: 10 out. 2019.

52 DARGENTINA. Lic. Nicolás Dujovne. Ministerio de Hacienda. La Reforma Tributaria Argentina de 2017.

Buenos Aires: Secretaría de Política Económica, 2017. 241 p. Disponível em: <https://www.argentina.gob.ar>. Acesso em: 21 out. 2019

Todavia, ao final da década de 70, houve um grande aumento na área semeada e na colheita, resultado em um grande incentivo para a expansão do setor industrial da soja. A exemplo, a exportação da soja em óleo teve um aumento de 39 vezes, bem como a exportação do farelo aumentou 45 vezes nos períodos de 1971-199653.

Conforme se discutirá neste item, a política na Argentina exerceu e exerce um grande papel em seu complexo agroindustrial. Nas décadas passadas, o governo argentino por entender que 90% da produção de soja estava destinada à exportação, resolveu por facilitar a atividade portuária extinguindo uma série de entidades burocráticas; eliminou as “retenções”; dragou o rio Paraná para possibilitar aporte de navios de maior calado.

Sendo assim, é evidente que a commodity desempenha um enorme papel na economia da Argentina, haja vista que, entre os produtos exportados, a soja é a responsável pela maior arrecadação de divisas54. Ainda, conforme dados da OEC, a Argentina exportou o equivalente

a 9.2 Bilhões de Dólares americanos em farelo de soja, e 9.3 Bilhões (USD) em óleo de soja. Totalizando 40% e 43%, respectivamente, do total exportado mundialmente em 2017. Números, estes, bem similares ao desempenho do país em 2016, em que a comercialização da soja representou aproximadamente 32% das vendas argentinas ao exterior, enquanto que cerca de 60% das áreas cultivadas na Argentina foram ocupadas por esta oleaginosa55.

Na Argentina, cerca de 20% do total da produção da soja in natura se exporta, e o restante passa pelo processo de industrialização, seja para transformação em óleo ou farelo. Do total da soja processada, 90% se destina a exportação, demonstrando assim o pequeno mercado interno para este produto na Argentina56 . Os números do consumo do país são ínfimos, à exemplo do

consumo do óleo de soja, que se estima em 6% do total processado, e cerca 2-3% dos demais subprodutos. Dessa forma, é evidente que o complexo da soja é extremamente dependente de suas exportação e, portanto, muito sensível a fatores exógenos.

A mais importante zona de produção de soja na argentina, intitulada de zona núcleo, corresponde às províncias de Buenos Aires, Santa Fe e Córdoba, que juntas são responsáveis por quase 70% da produção argentina. A zona núcleo, não só concentra a produção da soja, 53 JULIA STRADA (Argentina). La producción de soja en Argentina: causas e impactos de su expansión.

Disponível em: <https://www.centrocultural.coop/revista/23/la-produccion-de-soja-en-argentina-causas-e- impactos-de-su-expansion>. Acesso em: 15 nov. 2019.

54 CIARA (Argentina). Consumo Aparente de Harina De Soja. 2016. Disponível em:

http://www.ciaracec.com.ar/ciara/Estad%C3%ADsticas/Evoluci%C3%B3n,%20producci%C3%B3n%20y%20c onsumo. Acesso em: 23 set. 2019.

55 CIARA (Argentina). Consumo Aparente de Harina De Soja. 2016. Disponível em:

http://www.ciaracec.com.ar/ciara/Estad%C3%ADsticas/Evoluci%C3%B3n,%20producci%C3%B3n%20y%20c onsumo. Acesso em: 23 set. 2019.

como também o parque industrial. Sendo este muito próximo ao rio Paraná, que, por sua, concentra inúmeros portos por onde se exportam cerca de 97-99% da soja industrializada no país. Mais de 80% do processamento da soja é realizado na província de Santa Fe, seguido por Córdoba com 10% e Buenos Aires com processamento próximo aos 6% do total processado.

Dessa forma, a proximidade dos centros produtivos, com o parque industrial e portos, faz com a Argentina possua um alto índice de competitividade no setor da soja. Como exemplo tem-se que, as distâncias percorridas pelos caminhões e trens transportadores de grãos para as indústrias processadoras em geral não ultrapassam 400 Km, o que no caso do Brasil, a distância entre Sorriso - MT (grande município produtor) e Santos - SP é de 2.000 Km.

A zona núcleo possui a maior concentração de indústrias processadoras de soja do mundo57, tendo a capacidade de processamento de 217.000 toneladas diárias e 80% dessa

produção é repartida em 20 plantas localizadas em Rosário. Traçando um comparativo com o Brasil, o País possui uma capacidade de esmagamento de soja de 160.000 toneladas/dia espalhadas por 116 parques fabris. Ou seja, a Argentina, no período compreendido entre a década de 70 e os dias atuais, investiu fortemente em sua indústria processadora de soja e, hoje, é líder no mercado global na exportação da commodity com alto valor agregado.

Entretanto, assim como o Brasil, a economia e produtividade do setor também sofre impactos com os tributos incidentes em sua cadeia produtiva, bem como com decisões políticas econômicas.

Durante os governos de Néstor Kirchner e Cristina Fernández Kirchner, o imposto incidente nas exportações agrícolas, intitulados de "retenções", possuíam alíquota de 35% sobre o valor da exportação de soja in natura, 32% para óleos e farelo e 20% para biodiesel. Nesse sentido, o imposto sobre exportação na Argentina, foi considerado o maior tributo aplicado por um Estado às exportações em todo o mundo58 .

É claro que, assim como no Brasil, o Imposto de Exportação tem caráter extrafiscal, e na Argentina as “retenções” visavam incentivar a industrialização do país, a medida que a alíquota era menor conforme o grau de processamento da commodity. Todavia, esse imposto foi motivo

57 MELO, Marcus André. O LEVIATÃ BRASILEIRO E A ESFINGE ARGENTINA: os determinantes

institucionais da política tributária. Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, v. 20, n. 58, p.91-128, jun. 2005. Disponível em: <https://www.redalyc.org/pdf/107/10705805.pdf>. Acesso em: 23 set. 2019

58 ARGENTINA. Lic. Nicolás Dujovne. Ministerio de Hacienda. La Reforma Tributaria Argentina de 2017.

Buenos Aires: Secretaría de Política Económica, 2017. 241 p. Disponível em: <https://www.argentina.gob.ar>. Acesso em: 21 out. 2019

de forte conflito entre o governo e produtores, sendo o estopim da crise em 2008, com a greve patronal de comercialização agropecuária que teve duração de 129 dias59.

Em 2015, com a eleição do presidente Mauricio Macri, as “retenções” tiveram sua alíquota minorada para 30% para exportação da soja in natura, 27% para óleo e farelo e uma promessa de redução gradual sobre estes produtos até chegar a alíquota 0. Não obstante, o presidente também impôs alíquota 0 no Imposto de Exportação sobre outros produtos agroindustriais como carnes, bem como produtos provenientes da mineração. Estima-se que essa redução nas “retenções” configuraram uma transferência de uma quantia próxima aos 3% do PIB argentino para o setor do agronegócio60.

No presente ano, com a vitória de Fernandez e a grave crise econômica que Argentina se encontra, muitos traders especulam o aumento nas alíquotas do imposto de exportação sobre a soja, que hoje encontra-se em 25%.

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