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3 O COMPLEXO DA SOJA ARGENTINA E ESTADUNIDENSE E SEUS

3.3 Impostos Incidentes no Complexo de Soja Argentino

Para se analisar os tributos incidentes na cadeia produtiva da soja, deve-se, inicialmente, distinguir alguns fatores como características dos produtores: se micro, pequeno, médio, ou grande. Ainda, quanto a questão de quem é o responsável pela venda da produção, o próprio produtor rural uma trading company. Nesse sentido, também deve-se averiguar quem é o responsável pelo processamento da commodity e, por fim, a constituição da soja em seu momento de exportação, se feita a exportação da oleaginosa in natura, farelo ou óleo.

Como o presente trabalho não se propõe a desenvolver um modelo tributário prático, e sim a discutir o impacto do sistema tributário sobre a indústria da soja; somente se analisará neste item, os tributos de maior incidência e destaque na cadeia produtiva da soja argentina.

65 ADRIÁN GONZÁLEZ (Argentina). Argentina: La situación del complejo sojero. 2014. Disponível em:

<https://eurodad.org/files/pdf/574d59c856a7b.pdf>. Acesso em: 25 out. 2019.

Dessa forma, os principais tributos incidentes no complexo da soja são: a) Impuesto Inmobiliario (Imposto Imobiliário) - Imposto disciplinado pela lei 13010, é similar ao ITR ou IPTU brasileiros. A exação incide sobre a propriedade e é arrecadado pelo município que reparte 50% da arrecadação com a província. As alíquotas são fixas e previstas em uma tabela anexa a lei - variando 0,7% à 5%, conforme o tamanho da propriedade. Por fim, de acordo com o discutido no primeiro capítulo, essa exação trata-se de um custo de produção;

b) IVA (Imposto sobre valor agregado) - O referido imposto está previsto no segundo capítulo, artigos 87 à 92 da lei 27.430/2017 e expõe um rol de atividades nas quais o imposto incidirá. O Brasil, no momento, não possui este tributo, sendo que a exação mais parecida com o IVA que o CTN prevê, é o ICMS. Todavia, conforme se analisará adiante, o IVA apresenta- se como um tributo mais eficiente e justo. Na cadeia de produção da soja, ele incide diversas vezes, como por exemplo: na compra local, ou importação de insumos. É um imposto de competência da União, fiscalizado e recolhido pelo ministério da fazenda. Deve ser considerado como um custo de transação;

c) Impuesto sobre los Ingresos Brutos (Impostos sobre renda bruta) - É um tributo que incide sobre as atividades autônomas e operações e consiste em gravar uma porcentagem do faturamento de uma empresa. As alíquotas variam conforme cada província. Ainda que as alíquotas não sejam desproporcionais, a incidência deste tributo sobre insumos da produção do agricultor acabam onerando o complexo da soja. Por fim, a exação deve ser considerada custo de transação;

d) impuesto a las Ganancias (Imposto de Renda) - Este tributo é o espelho do IR aplicado no Brasil, o qual incide sobre os proveitos dos contribuintes e acréscimos patrimoniais. As alíquotas variam entre 5% à 35% para aqueles que perfazem mais de 44 mil pesos. Este tributo também deve ser considerado custo de transação;

e) Impuesto a los débitos y créditos bancarios (IDCB) (Imposto sobre os débitos e créditos bancários - Esta exação é similar a extinta CPMF no Brasil, e incide sobre cada operação financeira de débito ou crédito com alíquota de 0.6%. Ainda que a partir da lei 27264, de 2016, as pequenas e microempresas podem compensar esse tributo com o Impuesto a las Ganancias, o imposto acaba por onerar toda a produção rural, desde a compra de insumos à venda de óleo de soja; f) Impuesto de Sellos (imposto de Selos) - É possível comparar este tributo com os emolumentos cartorários, uma vez que este tributo incide no complexo da soja sobre o valor dos contratos de compra e venda da commodity com alíquota de 0,00025%;

g) Impuesto a los bienes personales (Imposto sobre os Bens Pessoais): Este tributo incide sobre os bens do contribuinte e, por bens, entenda-se praticamente tudo do qual valor monetário

possa se exprimir: Casas, investimentos, carros, objetos pessoais. Uma vez ultrapassado a monta de 2 milhões de Pesos Argentinos (cerca de 33 mil Dólares americanos) em bens, o contribuinte deverá arcar com alíquotas que vão de 0,25% sobre o patrimônio à 0.75%. Dessa forma, quando se fala em produção agroindustrial, é evidente que uma simples máquina agrícola já ultrapassa o piso não tributável. Dessa forma, somando-se a esse imposto as exações de imposto sobre a renda bruta, imposto de renda, imposto imobiliário, é evidente que o impacto no setor produtivo é imensurável;

h) Aportes Patronales y Cargas Sociales (Contribuições Patronais e Sociais): Sem dúvida alguma o produtor rural ou a indústria processadora de soja possuem empregados. Dessa forma, devem arcar com os encargos trabalhistas e sociais que, conforme discutido no item anterior, totalizam cerca de 27% do total arrecadado pela União. Caracteriza-se como custo de transação; i) Derechos de Exportación (Imposto de exportação) - Apesar de na argentina o Imposto de exportação ter o nome técnico de “retenciones”, nada mais é do que o conhecido Imposto de Exportação. Assim como no Brasil, este tributo na Argentina também tem caráter extrafiscal e, talvez, foi o mais importante tributo estabelecido no sentido de processar/industrializar a produção de soja argentina. Tendo em vista que as alíquotas eram seletivas para a exportação da soja in natura e seus subprodutos processados, o imposto acabou por incentivar o processamento da commodity no país argentino. Este tributo possui suas alíquotas previstas em lei e incide sobre o valor da exportação do bem. Sendo assim, também deve ser considerado custo de transação67.

3.3.1 Discussão sobre o Impuesto Al Valor Agregado (IVA)

Dentre todos os tributos supracitados, o IVA e o Derechos de Exportación (abordado no item seguinte) tem papel protagonista no complexo da soja. O imposto sobre Valor Agregado é um tributo comum e aplicado em inúmeros países. A exação, como mencionado anteriormente, incide sobre a venda de bens e serviços nas diferentes etapas de produção/comercialização. Todavia, o imposto não é cumulativo, compensando-se nas etapas seguintes. Sendo assim, a teoria tributária recomenda uma alíquota geral, facilitando, pois, a compensação dos créditos tributários.

67 BOLSA DE COMERCIO DE ROSARIO (Argentina). Informes Técnicos. 2019. Disponível em:

<https://bcr.com.ar/es/mercados/mercado-de-granos/comentario-del-mercado/comentario-del-mercado-local>. Acesso em: 19 nov. 2019.

No caso da Argentina a alíquota geral do IVA é de 21%, entretanto, sobre a commodity da soja incide uma alíquota de 10,5% para a soja produzida e comercializada internamente. Isso, porque segundo o pensamento clássico de que impostos não se exportam, as operações de exportação de soja estão isentas de recolher esse tributo. Dessa forma, as crushers e diferentes processadoras da Argentina, devem compensar o valor recolhido à título de IVA com outras operações internas.

Sendo assim, diferentemente dos impostos em cascata como o Imposto sobre Receitas Totais (tradução do autor) e o IDCB (similar a CPMF) que oneram cada etapa de transação comercial, o IVA permite a compensação dos créditos tributários nas etapas seguintes. Dessa forma, o IVA não limita nem verticaliza a produção de bens com maior valor agregado - como no caso da soja e suas etapas seguintes de processamento. Nesse sentido, o IVA se apresenta como uma melhor opção do que o tributo brasileiro ICMS. Pois, conforme debatido, as diferentes alíquotas somadas aos regulamentos de cada Estado, bem como dificuldade de compensação de créditos tributários e a influência que o imposto exerce na cadeia agroindustrial; faz com que o ICMS seja um tributo atrasado frente ao IVA.

A simples elaboração de um exemplo permite a percepção de que o IVA é uma proposta melhor do que o ICMS, vejamos: o caso de um produto em que sobre as três etapas de produção incide uma alíquota equivalente à 21% sobre o valor agregado. Inicialmente a empresa I compra insumos por 100$. A empresa I, então deve pagar 121$, e o vendedor de insumos deve recolher os 21$. Para a empresa I é gerado então um crédito tributário de 21$, que na etapa seguinte, quando esta empresa agregar valor de mais 100$, esta também recolherá 21$. Ou seja por mais que a cadeia produtiva agregue valor ao bem, como a alíquota é fixa, o imposto não cumulativo, e de competência da União; esta, sempre arrecada os exatos 21% sobre o valor agregado. Não limitando assim, as decisões empresariais.

Todavia, o IVA na argentina se apresenta como um problema para o produtor de soja devido a 2 fatores, sendo o primeiro, a diferença entre alíquotas incidentes na compra de insumos como sementes ( alíquota de 21%) e sobre a venda de grãos (10,5%). O segundo fator deve-se ao regulamento de compensação de crédito tributário que, para venda da soja, está sujeito a um regime de retenção.

Antes da portaria de dezembro de 2018 do Sistema de Informação Simplificada Agrícola (SISA - tradução do autor) sobre o crédito de 10,5% do IVA, se possibilitava a compensação imediata de 2.5% e o restante se retinha pela AFIP. Na prática, após muitos meses, a AFIP permitia a compensação de 7% e o 1% faltante era de retenção permanente. Após a portaria, o procedimento baseia-se em uma tabela de risco para possibilitar o crédito tributário. Para

aqueles produtores classificados na tabela como baixo risco, o procedimento ficou relativamente mais fácil. após o pagamento do IVA, permite-se ao produtor creditar imediatamente 5%, sendo o restante lhe facilitado após 45/60 dias68.

Por fim, a presente obra ainda discutirá a proposta da PEC 45/2019 e da PEC 110/2019, que justamente versa sobre a adoção de um imposto espelho ao IVA, denominado no Brasil de Imposto sobre Bens e Serviços.

3.3.2 Derechos de Exportación (Imposto de Exportação)

Conforme mencionado, os derechos de exportación incidem sobre o valor da operação de exportação e tem como base, normalmente, o valor do FOB (free on board)69 e alíquota prevista

na tabela anexo da lei 21.453.

Há muito tempo que o referido tributo incide sobre a exportação de soja in natura e seus derivados processados na Argentina e foi somente com a vitória presidencial de Macri, que as alíquotas pujantes incidentes sobre todo complexo da soja começaram a ser reduzidas. Em 2018, frente a grave crise econômica que a Argentina se encontra, o governo promulgou o decreto 793/2018, que estabeleceu um adicional aos Derechos de exportación, determinando um tributo transitório emergencial para incidir nas exportações de bens e serviços até o ano de 2020.

Conforme estabelece o decreto, o tributo incidirá em 12% sobre o valor dos bens destinados à exportação, todavia, há um teto de incidência: o tributo não pode ultrapassar 4 Pesos Argentinos por Dólar Americano na base de cálculo. Ainda, o decreto determinou a unificação da alíquota do Imposto de Exportação (tradução do autor) incidente sobre o complexo de soja argentino. Dessa forma, o desestímulo, ou melhor, o estímulo para que a soja fosse processada nacionalmente deixa de existir, passando a incidir uma alíquota comum de 18% sobre a exportação de soja in natura, farelo ou óleo. Sabendo que as alíquotas anteriores para esse produtos eram respectivamente 26% e 23%, atualmente sobre a exportação da commodity da soja incide uma alíquota comum de 28%. Isto é, 18% dos Derechos de Exportación e 10% do tributo transitório emergencial70

Por fim, conforme estudo da Bolsa de Cereais argentina, hoje há diversos fatores que incidem negativamente sobre o complexo da soja Argentino. Como exemplo, cita-se a seca que marcou a safra 2018/2019, a guerra fiscal entre China e EUA, o aumento do preço do FOB,

68 BOLSA DE COMERCIO DE ROSARIO (Argentina). Informes Técnicos. 2019. Disponível em:

<https://bcr.com.ar/es/mercados/mercado-de-granos/comentario-del-mercado/comentario-del-mercado-local>. Acesso em: 19 nov. 2019.

69 Lei 21.453/1976 70

bem como o decreto 793/2018. As simulações pós decreto, demonstram que houve uma diminuição de 0,3% na área semeada, bem como a queda de 6% (aproximadamente 5.000 milhões de dólares) sobre o faturamento bruto das indústrias de grãos argentinos 71 e um

resultado 3% inferior caso o antigo sistema tributário estivesse em vigor.

Sobre o tema, conforme mencionado no capítulo anterior, a Argentina adotou um desenho de sistema tributário voltado à industrialização e ao processo de agregar valor às commodities agrícolas. Em muitos pontos essa estratégia demonstrou-se vencedora, como evidenciado nos números de exportação de farelo e óleo de soja. Todavia, outras decisões macroeconômicas prejudicam o avanço do complexo da soja no país. Entende-se que o regime tributário seletivo foi um acerto dos argentinos, todavia, as alíquotas exacerbadas atuais, bem como a alíquota uma, incidente sobre a soja, muito provavelmente promoverá o fenômeno visto no Brasil com a lei Kandir. Isto porque o maior comprador de soja do mundo, China, busca especificamente a aquisição da soja in natura para que o próprio país desenvolva o processamento e agregação de valor72.

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