• Nenhum resultado encontrado

A principal mudança legislativa que alterou completamente o cenário do complexo da soja brasileiro, foi a edição da LC 87/1996 - conhecida como Lei Kandir. A mencionada lei afetou diretamente o setor agroindustrial produtor e processador de soja, bem como reorientou o espaçamento geográfico das crushers e o cenário macroeconômico nacional.

O objetivo da edição da Lei Kandir era de minorar os efeitos negativos da política de estabilização econômica provocados pelas âncoras cambiais (apreciação do real) e monetária (elevação da taxa de juros) que influenciavam os resultados da balança comercial e o volume dos investimentos produtivos da economia36. Ainda, da promulgação da Lei Kandir esperava-

se um efeito econômico positivo, capaz de contribuir com receita tributária interna adicional

35 Disponível em: https://www.cnt.org.br/pesquisas acesso em: 18/10/2019

36 BRASIL. Mario Luiz Freitas Lemos. Bndes. AGREGAÇÃO DE VALOR NA CADEIA DA SOJA. Brasília:

BNDES, 2017. 52 p. Disponível em: <http://www.federativo.bndes.gov.br/bf_bancos/estudos>. Acesso em: 14 set. 2019

para compensar a não incidência do ICMS e o consequente não recolhimento de receita pelos Estados 37.

Por fim, Silva comenta que a lei tinha o claro objetivo de fortalecer o superávit na balança comercial e equilibrar os seus déficits estruturais nas balanças de serviços, renda, e, dessa forma, equilibrar as transações correntes38. Sendo assim, valendo-se do argumento de que imposto não

se exporta, o legislador entendeu por conferir imunidade a soja in natura e a produtos semielaborados. Segundo esse raciocínio, haveria um incentivo para produção interna e, consequentemente, aumento no recolhimento de receitas.

Sobre esse tema, a imunidade conferida pela Constituição, através da Lei Kandir, desonerou o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) nas exportações de soja in natura, todavia manteve o ônus tributário sobre os produtos industrializados. Dessa forma, a Lei Kandir permitiu, por um lado, o aproveitamento do crédito do ICMS (conforme os regulamentos estaduais), bem como um aumento na competitividade das exportações da commodity. Por outro lado, houve uma redução na viabilidade do processamento de soja destinada ao mercado externo.

Antes de se examinar os reflexos da mencionada Lei no complexo da soja, vale destacar que antes da edição da Lei Kandir, o ICMS tinha sua incidência com alíquotas seletivas para o óleo de soja (8,5%); farelo (11%) e soja in natura (13%)39.

Conforme mencionado, a Lei Kandir produziu intensos reflexos sobre o complexo agroindustrial da soja, isto porque incentivou a exportação dos produtos primários, interferindo na sistemática do mercado interno agroindustrial, que não goza da imunidade do ICMS. Dessa forma, no caso dos produtos processados, a consequência foi o aumento em 3% a 4% sobre o custo de produção do setor40.

Diante desse cenário, aumentou-se a competitividade do setor processador da soja e, assim, a Lei Kandir contribuiu para o redimensionamento do setor agroindustrial, que passa a ser, então, focado na exportação da soja in natura, uma vez que proporciona maiores margens de lucro frente ao risco de operação. Nesse sentido, o cenário atual desestimula investimentos

37LEITAO, A. M. L.; LINHARES, F. C.; IRFFI, G. Avaliação dos Efeitos da Lei Kandir sobre a

Arrecadação de ICMS no Estado do Ceará. In: XIV Encontro Regional de Economia, 2009, Fortaleza. XIV Encontro Regional de Economia, 2009.

38 SILVA, M. A. M. Análise dos impactos da política tributária brasileira na formação da receita fiscal do

estado do Pará – o caso da Lei Kandir. 2006. Dissertação (Mestrado) – Universidade da Amazônia, Belém, 2006.

39 BELIK, W; VIAN, C.E. F. (2005) Agricultura, comércio internacional e consumo de alimentos no Brasil

XLIII in Congresso Brasileiro de Economia e Sociologia Rural. Ribeirão Preto, 2005.

40 WESZ JUNIOR, Valdemar João. Dinâmicas e estratégias das agroindústrias de soja no Brasil. Rio de Janeiro:

por parte das grandes trading companies no beneficiamento da soja. Sendo que estas passam a buscar países que possuem sistemas tributários que estimulam a agregação de valor ao produto por meio da industrialização - como a Argentina41.

Dessa forma, se somente feita uma análise superficial dos impactos da Lei Kandir sobre a indústria da soja, seria inegável a reprimarização desse setor na economia brasileira. Ainda, a referida lei tornou as receitas provenientes do complexo da soja muito vulneráveis a fatores exógenos, uma vez que a maioria das operações com a commodity tem seu valor fixado pela Bolsa de Chicago.

Conforme se extrai do infográfico abaixo, a exportação da soja in natura representou 61% do destino final da safra de 2018. Por sua vez, o processamento da soja atingiu a monta de 39% do total da safra, sendo que apenas 15% da commodity processada foi exportada. Ou seja, o mercado interno absorveu 34% da soja processada no Brasil.

Fonte: ABIOVE42 2018 | gráfico em milhões de toneladas

Ainda, dentre os principais produtores de soja na safra de 2018, destacam-se o Mato Grosso com 31 milhões de toneladas de soja; o Paraná perfazendo a monta de 19,3 mm/t; Rio grande do sul com 17,4 mm/t; Goiás com 11,4 mm/t de soja produzidas; Mato Grosso do Sul com 9,9 mm/t. Estes 5 estados foram os responsáveis por mais de 75% de toda produção nacional.

41 WESZ JUNIOR, Valdemar João. Dinâmicas e estratégias das agroindústrias de soja no Brasil. Rio de Janeiro:

e Papers, 2011. 141 p. Disponível em: <http://www.e-papers.com.br>. Acesso em: 22 set. 2019.

Fonte IBGE43 | 2018 | gráfico em mm/t

Por fim, uma análise comparada da evolução da produção de grãos desde a edição da lei Kandir, reforça o argumento de reprimarização do setor agroindustrial da soja. Conforme será abordado no segundo capítulo desta obra, a Argentina, durante o mesmo período, adotou estratégia diferente para o complexo da soja, optando por estimular o processamento da commodity.

A tabela abaixo demonstra a evolução da exportação da soja in natura brasileira, comparando-a com a evolução argentina:

Fonte: ABIOVE44 |2017

Ainda, expondo-se a tabela acima no formato de gráficos em barra, resta mais claro o impacto da Lei Kandir na exploração da exportação da soja em grãos:

43 Disponível em: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/economicas/agricultura-e-pecuaria/9201-levantamento-

sistematico-da-producao-agricola.html Acesso em: 25/10/2019

Fonte: ABIOVE45 | 2017

As diferenças entre a evolução da exportação em grãos do Brasil e Argentina se inverte quando analisados sob a ótica de processamento da soja. A exemplo, a indústria argentina teve uma evolução de 315% na transformação da soja em farelo, enquanto o brasil teve desempenho fraco, apenas um aumento de 39% em 21 anos.

FONTE: ABIOVE46 | 2017

45 Disponível em: http://abiove.org.br/estatisticas/ Acesso em: 22/09/2019 4646 Disponível em: http://abiove.org.br/estatisticas/ Acesso em: 22/09/2019

Fonte: ABIOVE47 | 2017

Sendo assim, os dados transmitidos acima, traçam um breve comparativo entre os caminhos adotados pela indústria da soja brasileira e argentina. Enquanto no Brasil, a Lei Kandir reorientou o complexo da soja para exportação da commodity in natura, na Argentina se optou por desenvolver a indústria nacional e a agregar valor à oleaginosa.

É evidente que a imunidade conferida a exportação da soja in natura incentivou a indústria a focar nesse segmento produtivo. Assim, os grandes Estados exportadores da oleaginosa deixaram de recolher imensas quantias referentes ao ICMS. Pensando nisso, a União publicou a MP 193/2004 (posteriormente convertida na lei n. 10.966/2004) que instituiu uma nova modalidade de repasse de recursos denominada Auxílio Financeiro para Fomento das Exportações – FEX. O FEX foi instituído como transferência fiscal desvinculada da União aos

Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios, tendo como base os coeficientes de repartição, definidos anualmente pelo CONFAZ e posteriormente inseridos na LOA.

Todavia, ainda com a previsão do FEX, os repasses não tem se mostrado suficientes para perfazer o total do abonado pela Lei Kandir. O gráfico abaixo demonstra o total das receitas não recolhidas devido a imunidade tributária, frente ao repasse realizado ao Estado do Mato Grosso pelo FEX:

Fonte: SEFAZ48 - MT | Em milhões de reais

Ultimamente, os noticiários vêm noticiando com certa frequência a possibilidade do governo de Jair Bolsonaro possibilitar uma reforma tributária com o objetivo de simplificar o sistema tributário nacional. Nesse sentido, ressurge a discussão acerca do FEX e da Lei Kandir. É claro que a lei Kandir teve forte impacto sobre a produtividade e economia da soja brasileira, tanto no sentido de reprimarização do setor, como também no resgate da balança comercial para se alcançar o superávit. Todavia, diante do fato de que o FEX se mostra incapaz de restituir os Estados da exação não recolhida, bem como o fato de que o Brasil enfrenta uma crise no setor empregatício e que não demonstra sinais de industrialização do complexo da soja; acredita-se que é chegado o momento de debater sobre possibilidades que incentivem o brasil a aumentar os lucros provenientes desse setor, como também aumentar a renda recolhida pelos Estados.

3 O COMPLEXO DA SOJA ARGENTINA E ESTADUNIDENSE E SEUS

Documentos relacionados