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A Infância como conceito e objecto de estudo

No documento O protagonismo das crianças (páginas 66-71)

Um aspecto frequentemente destacado e comum a muitos dos interessados em delimitar conceptualmente a infância é a localização temporal desta categoria de estudo no percurso de vida dos agentes sociais (Pascual, 2000), factor que deriva do forte significado de que estão investidos os grupos etários, simbolicamente em termos sociais, operativamente em termos sociológicos. Neste sentido afirma Qvortrup (1994:4): “Para vários objectivos práticos, por exemplo a selecção de uma população para estudo, a idade é de facto um instrumento conveniente a ser considerado”.

No âmbito dos estudos mais recentes desenvolvidos acerca das crianças, o aspecto da localização cronológica da infância no percurso de vida dos agentes, surge como uma questão para qual diferentes investigadores encontram soluções diversas, conforme se verifica nas citações seguintes: “Para os objectivos desta obra, a infância vai incluir a pré-adolescência, que é geralmente definida como o período dos sete aos treze anos de idade” (Corsaro, 1997:163); “Gostava de dizer que a infância não tem cronologia. É um processo possível de se fixar entre o nascimento e a puberdade” (Iturra, 1997:19); “As minhas observações centraram-se nas idades entre os 2 e os 4 anos” (Mandel,1991:39); “O

material aqui discutido provém de um projecto levado a cabo com crianças de 8 e 9 anos de idade.” (Halldén, 1994:64); “A recolha de dados foi feita com crianças entre os 11 e 12 anos.” (Montandon, 1997:24). Referindo-se a um conjunto de pesquisas no domínio da sociologia da infância desenvolvidas por diversas universidades belgas, Jan Van Gils nomeia os objectos de estudo e os respectivos grupos alvo de tais investigações: desportos – 10 anos de idade; infantários – 5, 8 e 10 anos de idade; escola – dos 6 aos 11 anos de idade; família – dos 8 aos 11 anos; percepção do tempo – 8 e 11 anos de idade; percepção da televisão – 10 anos de idade; (Van Gils, 2000:140). Observando a amplitude etária do conjunto dos grupos alvo das pesquisas aqui mencionadas, encontramos a montante os dois anos de idade e a jusante os 13 anos de idade.28 Há também ainda a considerar que frequentemente não se encontram ajustamentos precisos entre a definição do conceito sociológico e a sua delimitação operativa, ou seja, a sua construção enquanto objecto de estudo; porque se o conceito tem ao seu alcance um horizonte mais vasto e abstracto, o objecto de estudo encontra-se sujeito aos parâmetros da instrumentalização operativa e aos constrangimentos empíricos de vária ordem com os quais se depara a investigação sociológica.

Desde o início deste capítulo que me tenho ocupado dos aspectos relativos à questão da delimitação etária de uma das fases do percurso de vida dos agentes sociais. De onde deriva então a importância social e sociológica da variável idade? Que factores legitimam a sua relevância no corpo da ciência? Entendo que são fruto do significado da experiência social, uma vez que esta detém um lugar de destaque nos lobbies sociais e sociológicos do poder simbólico. E é também a cumulatividade da experiência social, que atinge o seu auge na fase adulta da vida e não na velhice (mas este último constitui um assunto para reflectir em outro

28 Estas referências etárias pretendem ser meramente ilustrativas da questão em debate

e não possuem quaisquer aspirações de representatividade estatística relativamente ao universo dos estudos no domínio da sociologia da infância.

momento e lugar), o factor decisivo que legitima socialmente a supremacia dos adultos sobre as crianças e tem influenciado a análise sociológica do lugar da infância e das crianças nas sociedades ocidentais da actualidade. Com efeito, não é difícil admitir, como, de certa forma e durante muito tempo, (quase) tudo se orientou em torno da lógica da fase adulta da vida: a criança e o jovem eram entendidos como um adulto em formação; o idoso pensado como um adulto em declínio.

Podemos dizer que o novo paradigma dos estudos sobre as crianças e a infância se inscreve numa tendência actual mais generalizada para dar voz aos grupos etários que até então permaneciam sob a sombra da idade adulta: a infância, a juventude e a velhice, sendo que, também estes dois últimos domínios referidos têm assistido a desenvolvimentos importantes no campo da sociologia. De uma era de sociologia ‘adulcêntrica’ estamos progressivamente a deslocar-nos para uma tendência sociológica etáriocentrica, em que os grupos definidos por critérios de proximidade etária adquirem um lugar autónomo enquanto objectos de estudo. Isto significa que não podemos pensar no novo paradigma da sociologia da infância como um fenómeno isolado relativamente aos progressos deste domínio do saber enquanto ciência – trata-se de uma mudança conjuntural de postura face à variável idade enquanto objecto de estudo, onde a ‘adulcentricidade’ tem vindo a perder a sua omnipresença e a adquirir uma sensata relatividade científica. E esta omnipresença prevaleceu durante tanto tempo porquê? Porque o investigador é um adulto. Já aqui foi notado que o investigador nunca poderá ser uma criança; se for um jovem é considerado um investigador júnior, quando se trata de alguém de idade mais avançada é considerado investigador sénior, com toda a carga simbólica de prestígio que tal denominação acarreta. O investigador nunca envelhece, torna-se antes mais apto, sábio e válido enquanto cientista social. Esta linha de pensamento conduz-nos então a falar de uma lógica de legitimação das produções científicas assente nos preconceitos hegemónicos dos investigadores, enquanto indivíduos na fase adulta da vida. Sobre isto

escreve Bourdieu: “Procurar não cair na armadilha do objecto pré- construído não é fácil, na medida em que se trata, por definição, de um objecto que me interessa, sem que eu conheça claramente o princípio verdadeiro desse “interesse” (1994:30, aspas como na fonte).

Na minha opinião, a ‘nova vaga de estudos sociológicos’, no contexto da qual se inscreve o paradigma actual dos estudos sobre a infância e as crianças, significa o início de um processo de ruptura progressivo e definitivo com a anterior lógica de legitimação científica. É, no entanto, fundamental não escamotear a importância e o lugar da experiência social no contexto da existência quotidiana dos actores, assim como os cambiantes que a sua subjectividade faz operar no percurso social dos agentes.

A subjectividade que existe em torno da questão da experiência social dos actores é talvez feita da mesma matéria que produz a ambiguidade do conceito sociológico de infância. Mas o facto de se reconhecer a existência de ambiguidade num conceito não poderá servir de argumento que iniba o mapeamento do terreno em que se pisa.

Enquanto ciência, a sociologia é um domínio relativamente recente, se comparado com outros ramos do saber como a teologia ou a química, por exemplo. Fez parte da sua constituição um percurso de amadurecimento que possibilitou a construção de determinadas ferramentas teóricas, conceptuais e empíricas que se mostrassem suficientemente permeáveis ao reconhecimento das crianças e da infância enquanto objectos de estudo autónomos, tal como de outros domínios de estudo ‘recém chegados’ ao seio da sociologia. Trata-se pois de um caminho de construção de uma postura de análise, de uma nova atitude e de um olhar novo para a realidade social envolvente. Atentemos nas seguintes palavras das seguintes autoras:

“Trazer a infância para o campo das ciências sociais é pois construí-la e desafiá-la com problemas, é ser capaz de a enfrentar com perguntas. A meu ver, tudo se joga no olhar, e não na coisa em si”

“Olhei para as crianças como actores em mundos sociais, de muitas formas enfrentando o mesmo tipo de assuntos e preocupações que os actores adultos enfrentam (...) as crianças emergem como actores plenos no mundo social, utilizando os recursos que possuem para retirar sentido e agir nos mundos com que são confrontadas, criando mundos sociais próprios” (Waksler, 1991:236).

É precisamente esta nova postura face ao objecto de estudo em causa que tem vindo a construir a permeabilidade necessária no seio da ciência sociológica para acolher o paradigma actual da sociologia da infância.

Enquanto conceito, e no seguimento do anteriormente notado, a infância define-se como o mundo social próprio e construído pelas crianças. A infância constitui, como foi já referido, um segmento específico da trajectória social dos agentes. Em termos gerais, parece coerente com os princípios orientadores da sociologia considerar que cada segmento do trajecto social dos agentes tende a desenvolver um conjunto de relações, representações, sentidos sociais, práticas e construtos culturais materiais e simbólicos, capazes de produzir e assegurar a manutenção de determinados núcleos substantivos e linhas de continuidade entre membros partilhando determinado segmento do trajecto social. Tais membros, que têm em comum a qualidade de incumbentes (Sarmento, 2000) de determinado percurso de vida partilhado, agem no sentido de produzir e reforçar socialmente o património cultural e social a estes especificamente associado, de acordo com as características e o alcance das suas capacidades de intervenção enquanto protagonistas sociais. Considera-se accionado, deste modo, o processo de produção social de grupos, reunidos em torno de determinados conjuntos de atributos, relações e práticas socialmente reconhecidas e mais ou menos duráveis que actuam no sentido de produzir núcleos de continuidade identitária, que aproximam os agentes situados no mesmo segmento do trajecto social e que de certo modo, e

simultaneamente, os diferenciam dos agentes posicionados em segmentos distintos da trajectória social de vida.

No âmbito dos objectivos deste estudo, define-se a infância como grupo social específico, detentor de um conjunto complexo de interacções, sentidos, representações e práticas, ou seja, entendem-se as crianças como incumbentes (Sarmento, 2000) de um património cultural simbólico e material (Corsaro,1997) próprio e característico. As crianças são deste modo, agentes activos e construtores não apenas das suas culturas de pares, mas também participantes na produção e definição dos mundos dos adultos (Corsaro, 1997). A infância é assim um segmento do trajecto social dos actores protagonizado por agentes aptos e capazes de produzir intervenções plenas, sistemáticas e coerentes em determinados aspectos do domínio social, por meio da autonomia que lhes é conferida pela própria experiência social adquirida.

No documento O protagonismo das crianças (páginas 66-71)