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CRIANÇAS, CONSUMOS E TELEVISÃO

No documento O protagonismo das crianças (páginas 197-200)

As representações e práticas quotidianas das crianças relativamente à esfera do consumo constituem uma vertente significativa do aspecto material das suas culturas de pares (Corsaro, 1997). Parte considerável dos estudos acerca da cultura material das crianças tende a interessar-se pelos objectos lúdicos, destacando-se a profusão de pesquisas que relacionam os brinquedos com os estereótipos de género e as influências dos brinquedos associados à temática da guerra nos comportamentos agressivos das crianças (Carlsson-Paige & Levin, 1987; Goldstein, 1994, referidos por Corsaro, 1997:109). São os significados simbólicos e os investimentos práticos que as crianças constróem em torno dos objectos lúdicos e de outros bens materiais pertencentes às suas culturas de pares que permitem compreender e caracterizar os elementos da infância enquanto consumidores activos.

Kline (1993, referido por Corsaro, 1997:112 e 113) analisando algumas das estratégias utilizadas pelos estudos de mercado ao serviço das indústrias de consumo, conclui que a incidência sobre os aspectos da vida quotidiana das crianças se faz de forma selectiva e direccionada para os seus momentos de actividades lúdicas, tempos de audiência televisiva e períodos de interacções em grupo desenvolvidas nas ruas ou em estabelecimentos comerciais, utilizando os conhecimentos daqui derivados para investir nas campanhas de promoção de produtos e bens especialmente dirigidos ao grupo da infância, deste modo considerado como um público consumidor devidamente informado e influente.

Seiter (1993, referida por Corsaro, 1997:122 e 113) no seu estudo acerca da cultura de consumo material e simbólico das crianças, destaca a natureza partilhada dos aspectos da cultura da crianças com os seus pares, apontando aspectos comuns entre as culturas de consumo mais directamente relacionadas com as crianças e as culturas de consumo

associadas aos adultos, argumentando que uma parte significativa dos adultos tende a fazer investimentos de valor estimativo e emotivo em determinados objectos e símbolos provenientes dos mercados de produção massiva, tal como acontece com os processos de identificação que as crianças desenvolvem com aspectos concretos dos conteúdos das suas culturas de consumo. Seiter refere-se também a alguns atributos negativos da cultura de consumo das crianças, argumentando que determinados aspectos dos media e brinquedos são promotores de imagens negativas no que respeita à classe social, etnia de pertença e género sexual na sociedade americana (Corsaro, 1997:113).

Contudo, uma análise de conteúdo comparativa entre episódios televisivos de duas séries de desenhos animados que adquiriram popularidade significativa entre as crianças em meados da década de 1980, na América – O Meu Pequeno Pónei (My Little Pony) e Caça Fantasmas (Ghostbusters) – , revelou mais aspectos positivos que negativos. Por um lado, a autora encontrou nestes desenhos animados diversos aspectos conotados com géneros televisivos associados aos adultos tais como as telenovelas, os romances, a ficção científica e o terror. Por outro lado, verificou que as crianças têm oportunidade de tomar contacto com informações significativas derivadas da cultura popular e das ideologias socialmente dominantes, possibilitando-lhes oportunidades de apropriações específicas de tais informações no âmbito das suas culturas de pares.

Estudos como os anteriormente referidos analisam as cultura de consumo das crianças tendo em conta as perspectivas, preferências e os aspectos partilhados dos modos de consumo do grupo social da infância, considerando as actividades de consumo das crianças enquanto sistemas de interacção complexos que desenvolvem oportunidades concretas de relacionamentos localizados no âmbito dos seus grupos de pares e com os adultos, nomeadamente os pais, que desempenham neste domínio um papel de mediação. Corsaro (1997:114) equacionando a relação de dependência económica das crianças relativamente aos pais no que diz

respeito à aquisição de objectos lúdicos e ao acesso aos media através da televisão e do cinema, por exemplo, nota que as crianças exercem capacidades activas de negociação de decisões neste domínio, actuando de forma a influenciar as opções de consumo de bens materiais e simbólicos dos agregados familiares. Trata-se assim de um processo de negociação colectiva em contexto familiar das formas de acesso à cultura material e modos de apropriação e uso dos referentes da cultura simbólica na vida quotidiana dos agregados familiares. O papel activo desempenhado pelas crianças neste domínio estende-se também aos processos de apropriação e recontextualização dos aspectos da cultura material e simbólica socialmente vigente no âmbito das culturas dos seus grupos de pares.

A enunciação do título deste ponto da análise (Crianças, Consumos e Televisão) permite verificar-se que, em termos operativos, se optou por destacar as relações das crianças com a televisão do conjunto dos relacionamentos do grupo da infância com a esfera do consumo de uma forma geral. Tal opção deve-se ao facto, já anteriormente discutido neste texto57, da televisão se ter vindo a constituir ao longo do percurso de investigação que deu origem a este trabalho como um referente constantemente presente na vida social quotidiana das crianças. Pode-se assim dizer que a expressividade e representatividade com que a televisão surgiu nos testemunhos das crianças acerca das suas experiências sociais quotidianas tornou incontornável a atribuição de uma atenção analítica particular a esta temática. No mesmo sentido Ponte (1998) e na linha de Dorr (1986, referido por Ponte, 1998), fazendo uma retrospectiva acerca das investigações existentes sobre crianças e televisão, mostra de que forma o reconhecimento de efeitos diferenciais de acordo com distintos conteúdos televisivos face a diferentes níveis etários em contextos de consumo televisivo assimétricos, conduziram ao sublinhar da importância das análises acerca das crianças e da televisão como área de estudo específica.

No domínio das produções nacionais, Manuel Pinto (1995; 2000) procurou caracterizar a natureza das relações das crianças com a televisão, utilizando uma amostra de residentes no Distrito de Braga. Os dados estatísticos revelaram a expressão quantitativa diária dos tempos que as crianças dedicam aos conteúdos televisivos, sendo que 23% vêem menos de duas horas e que 30% assistem a mais de 3 horas e meia de televisão por dia (Pinto, 2000:299). Três em cada quatro famílias das crianças inquiridas assinalaram a sala de estar como o espaço doméstico de consumo televisivo mais frequente, sendo que a cozinha ocupa um lugar de destaque como espaço doméstico alternativo. O autor refere que o número e a localização dos aparelhos receptores nos espaços domésticos das crianças constituem factores significativos no volume e características do consumo televisivo, sendo que os membros dos agregados familiares que têm ao seu dispor maior número de aparelhos televisivos, satisfazem mais facilmente a diversidade de interesses e preferências existentes, abreviando ou mesmo evitando possíveis situações de conflito ou disputa relacionados com a opção por determinados conteúdos televisivos em detrimento de outros, assinalando-se a presença significativa dos receptores de televisão nos quartos de dormir.

No sentido de proceder à caracterizando dos aspectos multifacetados e polissémicos da relação das crianças com a televisão, o autor recorre a uma profusão de perspectivas de análise que aqui apenas se poderá dar conta de forma bastante breve e resumida. Assinalam-se significativas assimetrias de género sexual nas preferências televisivas e também distinções relacionadas com a idade, embora não tão vincadas como as primeiras. Relativamente aos géneros televisivos as crianças afirmaram preferir a ficção à informação e a acção ao documentário. São descritos os atributos dos heróis televisivos na perspectiva das crianças, assim como as características das figuras televisivas que as crianças menos apreciam. Através de uma análise das actividades quotidianas das crianças, o autor verificou que a organização de parte dos ritmos diários

No documento O protagonismo das crianças (páginas 197-200)