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Técnicas de pesquisa empírica interventiva

No documento O protagonismo das crianças (páginas 144-163)

O método sócio-etnográfico de investigação interventiva faz recurso a três técnicas de pesquisa empírica: as entrevistas-conversa; os

textos com ilustrações legendadas e os relatos das interacções contextuais. Nas páginas seguintes vou proceder à caracterização

detalhada de cada uma destas técnicas.

As entrevistas-conversa

A técnica das entrevistas–conversa, modo intensivo de recolha de informações empíricas, demarca-se do procedimento metodológico utilizado na entrevista não estruturada pelo facto de ser conduzida por blocos de assuntos intercomunicáveis que permitem uma deambulação temática lógica, já que os temas em agenda têm pontos de comunicabilidade entre si.

Na construção dos guiões das entrevista-conversa utilizadas nesta pesquisa empírica, o procedimento fundamental foi a definição clara dos objectivos orientadores do conjunto das questões. Atribuí grande importância a que os guiões contivessem uma definição clara do bloco temático inicial, do tema central, dos temas adjacentes, tal como do seu encadeamento interno, definindo as possíveis vias de convergência entre os diversos blocos, de forma a tornar viável a intercomunicabilidade dos assuntos. Estive particularmente atenta em assegurar uma orientação coerente do processo, estimulando sucessivas passagens de núcleo temático para núcleo temático e sem perder de vista o fio condutor da(s) conversa(s).

As diversas situações concretas de entrevistas com crianças, permitiram-me verificar que o modo como são feitas as primeiras

46 Este assunto foi alvo de publicação com a referência – Saramago, Sílvia (2001),

“Metodologias de pesquisa empírica com crianças”, Sociologia, Problemas e Práticas, nº35, pp. 9-29 – encontrando-se aqui revisto e alargado.

abordagens e o conteúdo do bloco temático inicial desempenham lugares importantes no modo como decorre todo o processo das entrevistas- conversa. Tive oportunidade de constatar que, mesmo nos casos onde se pretendam abordar assuntos de natureza mais pessoal e/ou delicada, é importante que o primeiro bloco temático estabeleça uma plataforma inicial de conversa num tom descontraído. Os amigos, as brincadeiras, ou os animais de estimação, por exemplo, sendo assuntos significativos para as crianças, constituíram temas adequados para o início das entrevista- conversa realizadas.

A entrevista-conversa constituiu um momento de interacção por excelência. As crianças são, geralmente, interessantes interlocutores de conversa, se o entrevistador for hábil nas propostas temáticas que faz. Quando as crianças consideram os assuntos pouco interessantes, desenvolvidos com insistência e/ou por um período de tempo excessivo, tendem a mostrar sinais de impaciência e desmotivação.

Na esmagadora maioria das entrevistas que realizei, pude verificar que as crianças apreciam que lhes seja dada oportunidade para abordar detalhes acerca das suas vidas quotidianas. Se numa primeira análise estes assuntos podiam parecer desinteressantes para os objectivos da investigação, tornou-se frequentemente possível e eficaz fazer um reencaminhamento para os temas definidos no guião da entrevista- conversa, a partir dos temas que as crianças desenvolveram espontaneamente. Tais assuntos permitiram ainda, em muitos casos, explorar núcleos temáticos não previstos no guião de entrevista, mas que se manifestaram como aspectos significativos das perspectivas das crianças acerca das suas existências sociais.

No papel de entrevistadas, a grande maioria das crianças revelou- se extremamente astuta na captação de todos os sinais verbais e expressões faciais e/ou físicas transmitidos, por mim, enquanto condutora das entrevistas. Por este motivo, considerei importante apostar numa atitude de serenidade, mesmo nas situações em que a entrevista decorria de modo particularmente difícil e na monitorização constante da minha

própria linguagem verbal, gestual, corporal e facial, para que os moldes da interacção que estabelecia com os entrevistados evitassem possíveis enviesamentos de resultados. Neste sentido, assumiu significado crescente a importância que as crianças me entendessem como uma interlocutora de conversa. Apostando nesta estratégia, desenvolvi oportunidades para que me colocassem algumas questões naquilo a que chamei processo de inversão de papéis. Este processo consiste simplesmente em assumir o papel de respondente, atendendo às perguntas das crianças. Estes momentos de interacção tinham por objectivo fazer diluir a eventual rigidez presente na unidireccionalidade da fonte das perguntas e da origem das respostas. Muito frequentemente, as próprias questões que as crianças me colocaram puderam ser utilizadas em proveito dos assuntos previstos no guião de entrevista.

Verifiquei que as crianças tendem a fatigar-se relativamente depressa de uma situação de entrevista. Raramente consegui que uma entrevista-conversa durasse mais que 10 a 15 minutos consecutivos sem que as crianças começassem a mostrar sinais de cansaço, aos quais procurei sempre estar atenta. Assim, tornou-se fundamental criar a permeabilidade suficiente para que as crianças pudessem fazer determinadas pausas durante as entrevistas-conversa, conforme se ilustra através do excerto seguinte.

“As conversas com a Margarida, o Francisco e o Bernardo foram totalmente registadas no quarto que foi o espaço da casa onde as crianças quiseram estar a maior parte do tempo. No entanto, as gravações foram interrompidas várias vezes, visto que estas crianças permaneceram pouco tempo seguido em conjunto de modo a que as suas vozes pudessem ser registadas. Com frequência abandonavam a roda que fizéramos sentados no chão, para ir pular para cima da cama, buscar um outro objecto lúdico para brincar enquanto conversávamos ou simplesmente criando situações de non sense caracterizadas pelo tom caótico das três crianças a falar ao mesmo tempo, brincado com as

palavras e produzindo sons variados. Estes momentos exprimiam a necessidade sentida pelas crianças de fazer uma pausa na ordem criada pelas conversas, para se puderem manifestar mais livremente, ou seja, menos ordeiramente” (Saramago, 1999b:43).

No seguimento das ideias anteriores, foi verificando que assumia todo o interesse para o sucesso dos resultados que o momento da entrevista fosse considerado pelas crianças como descontraído, agradável e até mesmo divertido. Cabia-me pois, tornar, ou não, as entrevistas-conversa situações cativantes para as crianças. Na sequência destas verificações fui constatando que os ambientes físicos escolhidos para palco das entrevistas-conversa constituíam um factor extremamente importante. Nos critérios da sua selecção estavam a familiaridade do local para as crianças e a existência do mínimo possível de factores que as deixassem menos à vontade.

A casa das crianças revelou-se um excelente espaço físico para a realização de entrevistas-conversa. Contudo, tornou-se importante salvaguardar um conjunto de requisitos. As entrevistas foram marcadas com alguma antecedência, permitindo um período de tempo razoável, de modo a que as famílias pudessem optar pelo dia e pelo horário que melhor se enquadrava nas suas rotinas familiares quotidianas.

Uma vez em casa das crianças, considerei importante que fossem as próprias a escolher o lugar concreto onde se iria realizar a entrevista, ou seja, em que divisão da casa e em que local da divisão. Deparei-me com uma multiplicidade de situações, em contextos onde se tornou importante conceder às crianças uma margem de actuação suficientemente grande para que os seus comportamentos fossem o mais espontâneos e o menos direccionados possível. Vejamos o exemplo seguinte. “A conversa decorreu no quarto do Tiago, irmão mais velho. A princípio o irmão mais novo, Rodrigo, participou na conversa, ainda que de modo tímido, mas depressa se envolveu com outras actividades que o distraíram da conversa e o levaram a desinteressar-se por colaborar. Durante toda a conversa estivemos sentados no chão e fomos várias

vezes visitados pelo animal de estimação da casa, uma coker preta chamada Blakie” (Saramago, 1999b:43).

Nas situações onde se registaram condições menos propícias ao desenvolvimento das entrevistas em casa das crianças, tal como hesitações por parte dos pais, por exemplo, considerei de todo mais sensato procurar uma alternativa num local exterior. Os jardins públicos e sobretudo as zonas equipadas para as actividades lúdicas ao ar livre constituíram excelentes locais para a realização de entrevistas-conversa. Os recintos de recreio das escolas ou as pastelarias, onde a entrevista decorre em simultâneo com um lanche, são também locais que podem proporcionar óptimos locais para desenvolvimento de entrevistas- conversa. Nestes casos a preparação do guião tinha previamente em conta as eventuais interferências externas que um local público poderia eventualmente suscitar. Assim, um guião de entrevista-conversa elaborada para se realizar num local público dificilmente poderia ter como objectivo central o desenvolvimento de temas do foro mais pessoal e/ou delicado.

No decurso do processo de recolha de informações, considerei não apenas necessários, como também proveitosos, alguns cuidados na apresentação escrita dos guiões das entrevistas-conversa. A sua apelatividade para as crianças constituiu factor de incentivo a um eficaz desenrolar do contexto da entrevista. Assim, os guiões das entrevistas- conversa que utilizei foram registados em folhas de papel A4 nas quais imprimi ilustrações que funcionavam como caixilho, tais como balões, figuras geométricas, bolas de futebol ou flores, por exemplo. A selecção das ilustrações foi feita de acordo com os destinatários dos guiões em causa. Considerei também a caligrafia a utilizar, tendo escrito sempre com a chamada ‘letra de mão’ ou ‘caligrafia de 1º ciclo’, que conferiam aos apontamentos um aspecto familiar para as crianças. Obviamente que o suporte escrito da entrevista-conversa não se destinava propriamente a ser lido pelos entrevistados; tratava-se apenas de mais um detalhe na

procura de conceder a todo o processo um carácter de transparência e familiaridade.

Sabemos que a utilização do gravador se torna um recurso dificilmente prescindível numa situação de entrevista, (Garbarino e Stott, 1992; Graue e Walsh, 1998). Contudo, nas entrevistas–conversa procedi a uma utilização deste recurso com alguns cuidados particulares. Em primeiro lugar considerei importante justificar e desmistificar a utilização do gravador perante as crianças. Dei início às abordagens neste sentido desenvolvendo os argumentos seguintes: “O gravador serve para registar as nossas vozes porque é difícil depois lembrar aquilo que dissermos durante a conversa e porque é muito importante que toda a conversa possa ser recordada”. Esta estratégia mostrou-se eficaz já que não apenas tornava secundária a presença do gravador como valorizava de modo especial a conversa seguinte.

Como modo de familiarizar as crianças que demonstraram menos contacto com o gravador, procedi a uma pequena sessão inicial de questões mais simples, logo seguida por um período de audição das mesmas, onde as crianças se divertiam bastante a ouvir o registo magnético das suas próprias vozes. Em situações de entrevistas de grupo, chegou mesmo a ser motivo de jogo a identificação da pertença das vozes.

Após os minutos iniciais da entrevista-conversa, e assegurando que o gravador não produzia nenhum ruído que identificasse o seu funcionamento, as crianças tendiam a esquecer-se de que a entrevista estava a ser gravada. Evitei sempre a necessidade de manter o gravador no campo directo de visão das crianças e nunca utilizei microfone.

As entrevistas-conversa adaptam-se a um número flexível de entrevistados. Fui procedendo à selecção dos interlocutores a entrevistar tendo em linha de conta a natureza das relações estabelecidas entre os mesmos, de modo a que tal factor constituísse uma mais valia para a pesquisa. Podem definir-se três modalidades de entrevista-conversa: a entrevista-conversa com uma criança denominada entrevista-conversa

singular; a entrevista-conversa com dois ou três elementos, chamada entrevista-conversa relacional e a entrevista-conversa com um grupo de

crianças, de preferência não superior a cinco, designada entrevista-

conversa de grupo.

A opção por um dos três tipos de entrevista-conversa foi orientada pelos objectivos estabelecidos por meio da construção dos núcleos temáticos. Por vezes, foi também o contacto com situações concretas de interacções entre pares que considerei importantes aprofundar pela via da técnica da entrevista, a indicar qual das três modalidades de entrevista- conversa se mostrava mais adequada.

Na opinião de Donna Eder e Laura Fingerson (2002) a utilização de entrevistas individuais e de grupo com crianças constitui um dos métodos mais eficazes na decifração das interpretações e perspectivas das crianças das crianças sobre as existências sociais. As autoras consideram que através da utilização de entrevistas, os investigadores têm oportunidade de estudar tópicos relevantes da vida social das crianças que raramente são abordados nas interacções quotidianas que estas estabelecem mais vulgar e abertamente, tais como o divórcio, os relacionamentos familiares, a violência e outros assuntos delicados (Eder e Fingerson, 2002).

No âmbito da presente pesquisa, a entrevista-conversa singular foi desenvolvida para o aprofundamento de assuntos de carácter pessoal, que se entendiam particularmente melindrosos e/ou delicados para a criança e sobre os quais esta não se sentiria confortável para falar na presença de pares, ainda que estes fossem muito próximos em termos de laços familiares e/ou de afectividade. Nestes casos tornou-se importante a existência de situações de interacção prévias entre mim e os entrevistados, por forma a se ter estabelecido um determinado grau de conhecimento. O excerto seguinte ilustra o conteúdo de uma entrevista- conversa singular onde foi abordado um assunto particularmente delicado para a criança em causa.

“Não sei, não sei muito bem explicar... mas acho que foi o juiz que decidiu que a minha irmã ia com a mãe e que eu fico com o pai.

Eu. Hum... e o que é que tu achaste dessa decisão?

Achei que foi bem, porque a minha irmã andava desde pequenina num colégio e ainda não conseguia bem... pronto, perceber e pensava ´Pronto eu vou para outro colégio se calhar ainda melhor do que este`, mas agora eu... foi muito difícil habituar-me à escola primária, então achei que isso foi uma decisão certa, porque eu já estava na primária... custou-me muito a entrar.... a... custou-me mesmo muito.

Eu. Por que é que achas que te custou muito... a entrar?

Foi a mudança. Só conhecia lá uma menina e tudo... e então foi um bocado difícil, perdi quase todos os meus amigos lá da escola, só encontrei ainda quatro... e isso tudo foi muito difícil para mim e então não podia passar outra vez aquela dificuldade.

(...) Não... isso eu... quando estão a conversar comigo sobre isso eu... desvio a conversa.

Eu. É?

É. Porque não gosto que me lembrem que os meus pais estão divorciados... não gosto... que me lembrem... (...) não gosto de falar com outras pessoas, nem gosto de desabafar com ninguém... nem nada... .”

(Excerto entrevista-conversa singular, elemento do género feminino, 8 anos de idade, Fevereiro de 2000)

Por seu lado, a entrevista-conversa relacional, destinada a grupos de duas até quatro crianças relacionadas entre si por laços significativos de amizade e/ou parentesco, adapta-se a assuntos directamente relacionados com situações de interacção relevante desenvolvidas entre pares, conforme se ilustra através do exemplo seguinte.

“Eu: Então e digam-me uma coisa, vocês gozam muito com os vossos

colegas? Grupo: Sim!

Eu: E eles gozam com vocês? Todas: Gozam...

Eu: Com o que ‚ que eles gozam?

Joana: A gente às vezes 'tamos a fazer uma brincadeira e eles gozam logo.

Olga: Às vezes nós estamos a fazer figuras e eles começam a fazer troça de nós

Joana: Pois é! E um dia a Carina lá da escola, eu 'tava a dizer uma coisa à professora e ela repetiu...

Eu: Por que é‚ que vocês gozam com um colega? É para o chatear ou porque é engraçado gozar com os colegas?

Olga: É 'pa brincar...

Eu: É 'pa brincar? Mas eles ficam chateados, ou não...? De vocês gozarem?

Dora: Ficam.

Eu: Ficam? Então e isso é engraçado? Todas: É! (risos)

Mária: A Carina quando a gente às vezes goza com ela e ela tem que ir logo contar à professora...

Olga: E depois a gente chama-lhe a queixinhas (risos).»

(Excerto do relatório de pesquisa empírica do Projecto Brincar, entrevista- conversa relacional com raparigas entre os 7 e os 9 anos de idade, 1993)

A terceira modalidade de entrevista-conversa, denominada

entrevista-conversa de grupo, permite abordar temas mais abrangentes

em situações onde se considera importante estimular a troca de opiniões e a discussão partilhada entre crianças. Nestes casos, planeei a estrutura dos guiões de entrevista de forma a permitir que cada interveniente tivesse a possibilidade de introduzir novas pistas de debate, o que tornou, por vezes, mais complexa a tarefa de orientar o grupo. Nas minhas experiências com este tipo de modalidade de entrevista-conversa

verifiquei que os grupos com mais de seis elementos tendem a não permitir o desenrolar da situação de entrevista em moldes proveitosos para a pesquisa. Este tipo de entrevista-conversa revelou-se particularmente adequado às fases exploratórias dos trabalhos de pesquisa com crianças. Seguidamente apresenta-se um exemplo desta modalidade de entrevista-conversa. Trata-se de uma situação de entrevista conduzida com um grupo homogéneo do ponto de vista do género, o que constituiu apenas uma particularidade deste exemplo concreto, onde o objectivo principal consistia no levantamento e enunciação de pistas de análises acerca das representações dos rapazes sobre as raparigas.

“Eu: Então digam lá o que é que pensam das raparigas… …? Digam, podem dizer… não tenham medo de falar…

Rapaz: Eu gosto de brincar com as raparigas porque elas gostam mais da gente do que a gente gosta dos rapazes e porque elas têm brincadeiras mais engraçadas que os rapazes.

Eu: (Dirigindo-me a outro rapaz do grupo) E tu? Concordas com ele ou não? Achas que as raparigas têm brincadeiras mais giras que vocês? Rapaz: Os rapazes às vezes… é sempre porrada.

Eu: É…? Então e as raparigas?

Rapaz: As raparigas arranjam jogos “´pá “ gente brincar. Eu: Então e vocês?

Rapaz: A gente arranjamos alguns… às vezes a gente brinca assim aos polícias…

Rapaz: As brincadeiras dos rapazes não prestam para nada…

Eu: Não prestam para nada? (Risos) Quantos é que são os rapazes aqui? Rapaz: São nove.

Eu: Então e vocês costumam brincar todos juntos, ou brincam os mais velhos separados dos mais novos?

Rapaz: Todos juntos. E as raparigas agora estão a brincar com os rapazes aos polícias.

Eu: Brincam sempre? A vossa brincadeira é essa? Então e quem são os polícias e quem são os ladrões?

Rapaz: Os polícias é a gente e os ladrões são as raparigas. Rapaz: A gente faz o barulho dos polícias e elas são os fugitivos. Rapaz: E depois a gente corre atrás delas. (...)

Rapaz: A gente mete-as em cima da casa da bomba. [pequena construção em cimento que possui uma bomba artesanal que extrai água de um poço subterrâneo]

Rapaz: A gente mete-as lá e depois ficava lá um a guardar para elas não fugirem.

Rapaz: E no fim da gente as apanhar todas deixávamo-las fugir. Eu: E é sempre a isso que vocês brincam?

Rapaz: Não, às vezes é ao "pisa"...

[Entretanto, um outro rapaz que também não queria escrever juntou-se ao grupo] .”

(Excerto do relatório de pesquisa empírica do Projecto Brincar, 1993, entrevista-conversa de grupo com cinco rapazes entre os 7 e os 10 anos)

Conforme referi no início deste ponto, a entrevista-conversa consiste numa técnica de recolha de informações de carácter intensivo. De seguida vou caracterizar a técnica extensiva de produção de informações empíricas utilizada nesta pesquisa.

Os textos com ilustrações legendadas

Os textos com ilustrações legendadas constituem uma técnica de pesquisa empírica de carácter sistemático extensivo, que tenho procurado aperfeiçoar ao longo deste percurso de investigação. Esta metodologia está adaptada a turmas do 1º ciclo do ensino básico, tem como espaço físico de desenvolvimento as respectivas salas de aulas e a duração aproximada de 90 minutos. O docente da turma não participa de forma directa nesta actividade. Apenas orienta os pedidos das crianças para se

ausentarem da sala47 e indica uma tarefa escolar às crianças que vão

terminando a actividade. Assumi, portanto, a orientação do grupo, iniciando com a distribuição, a cada participante, de uma folha de papel previamente preparada para a elaboração do trabalho. Segue-se a comunicação do tema ao grupo, e o seu registo escrito no quadro preto, que ali permanece até ao final da actividade. Este procedimento dirige-se sobretudo às crianças que eventualmente se dispersam com maior facilidade e/ou que manifestam necessidades educativas especiais,

No documento O protagonismo das crianças (páginas 144-163)