A televisão não pode deixar de ser considerada como o meio de comunicação de uso doméstico por excelência, uma vez que é o espaço doméstico que lhe fornece o ambiente físico privilegiado de visionamento. Faz parte do conjunto das práticas privadas comuns aos membros da família e a presença física do aparelho televisivo é tão familiar como qualquer outra peça do recheio doméstico (Mehl,1992). Há, portanto, que pensar a família como a unidade social na qual se desenvolvem grande parte dos primeiros consumos televisivos das crianças (Pinto, 1985, 2000; Pereira, 1999).
A televisão no contexto familiar
A televisão constitui um pilar da cultura doméstica das famílias dos nossos dias, fornecendo, por meio dos conteúdos da sua programação e horários de transmissão, importantes segmentos estruturadores da vida doméstica que integram simultaneamente os membros dos agregados
familiares numa cultura de consumo por meio da qual a lógica de entendimento da vida doméstica é também construída e posta em prática (Silverstone, 1994).
A televisão pode ser também pensada como elo de ligação entre o espaço privado e o espaço público, o interior e o exterior dos lares. É o meio de comunicação que transporta o ‘mundo’ para a privacidade dos espaços domésticos. Através dela, os membros das famílias estabelecem laços com a realidade social que os rodeia, laços esses que são mediados pelo modo particular como a televisão selecciona, transforma e transmite as informações. Deste modo, o espaço doméstico torna-se o principal lugar e fonte das actividades de consumo de um conjunto muito significativo de actores sociais, no conjunto dos quais se incluem as crianças como público significativo (Gunter e McAleer: 1990; Gunter, 1997).
As transformações operadas nas sociedades actuais com o advento da televisão como tecnologia doméstica, conduziram a que a sociabilidade, em tempos anteriores centrada sobre o espaço público, se deslocasse para o espaço doméstico. Alguns críticos relativamente à influencia da televisão sobre as faixas etárias mais jovens apontam frequentemente a substituição de actividades ao ar livre, envolvendo exercício físico, pela excessiva dependência sedentária dos aparelhos televisivos e a substituição empobrecedora dos períodos dedicados à leitura pelos tempos despendidos em frente ao ecrã da televisão (ver sobre o assunto Ferrés,1994; Casmore,1994; Gunter e McAleer, 1990; Gunter, 1997; Pinto, 1995, 2000 e Pereira, 1999 e 2000).
A televisão participa no modo de construção e entendimento das realidades sociais pelos sujeitos e até no modo de representação e apropriação do próprio espaço doméstico, podendo ser mesmo pensada como um membro metafórico da família (Saramago, 2000b).
Quando o consumo televisivo toma lugar nos contextos familiares, este desenvolve-se num complexo ambiente social, no qual diferentes padrões de autoridade, submissão, autonomia e afectividade se interligam
nos diversos cenários das relações entre pais e filhos que se desenrolam no interior dos contextos familiares e nas suas ligações com o mundo exterior. Estes relacionamentos tomam lugar em espaços domésticos diferenciados ou indiferenciados, através de diversos graus de organização, desorganização ou rotina que marcam as variadas realidades domésticas. Os padrões do consumo televisivo são portanto desenvolvidos no contexto destas relações domésticas sociais, espaciais e temporais.
A questão coloca-se então em entender a televisão como componente de um sistema familiar específico, onde os padrões da sua utilização no seio de uma família determinada vão exercer influências no modo como essa mesma família se constrói e se mantém como unidade social no tempo e no espaço. Mas simultaneamente é a família que constrói os seus próprios parâmetros de consumo televisivo e o lugar e o peso específicos da televisão no seio do seu espaço doméstico, por meio de competências diferenciais enquanto consumidores mediáticos e através dos diversos graus de conhecimento e níveis de apreciação dos conteúdos dos programas televisivos e dos vários aparelhos e utensílios electrónicos e tecnológicos associados à televisão (Silverstone e Hirsh, 1992). Assim, a televisão torna-se membro constituinte da família não apenas em sentido metafórico mas também em sentido literal na medida em que é parte constituinte dos padrões diários das relações sociais domésticas (Mehl,1992; Silverstone, 1994).
Um mercado de tecnologias domésticas em constante mudança e expansão pode exercer influência sobre o contexto das opções familiares nos campos de negociação das suas relações e práticas domésticas. Há algumas décadas atrás, quando a maioria dos espaços domésticos possuía apenas uma televisão colocada na sala de estar, esta divisão da casa concentrava uma carga simbólica significativa como espaço de vida familiar comum. Actualmente, a proliferação dos receptores televisivos pelos diversos compartimentos das habitações estimulam os membros do agregado familiar a dispersarem-se consoante os seus interesses. Assim,
a televisão pode ser pensada em termos do seu papel na coesão ou desagregação dos contextos quotidianos de relações e práticas familiares comuns e na relação com as transformações que têm vindo a ocorrer ao longo dos tempos nas interacções familiares, entre pais e filhos, irmãos, conjugues e todos os eventuais restantes membros da família que partilham quotidianamente o mesmo espaço físico doméstico (Silverstone e Hirsh, 1992).
As interacções televisivas
“A televisão substitui, de alguma maneira, a função materna”, refere Ferrés (1994:13). A televisão é um interlocutor constantemente disponível que oferece a sua presença e companhia em qualquer momento desejado, podendo mesmo ser considerado como um refúgio nos momentos de tédio, frustração ou angústia e aparentemente, tal como faria uma mãe bondosa no imaginário social, jamais exige alguma coisa em troca. Esta comparação, para além de ser baseada numa representação idílica da figura materna, hiperboliza de forma demasiado dramática a dependência das crianças e dos agentes sociais em geral face à televisão. A mesma autora faz equivaler a televisão ao “totem sagrado das tribos modernas ao qual estas sacrificam o seu tempo” (Ferrés, 1994:13). É facto, no entanto, que a recorrência ao exagero das situações tem por vezes como função tão somente atribuir-lhes uma maior visibilidade social.
Já se discutiu em que moldes parte significativa da vida doméstica dos agentes sociais, e particularmente das crianças, é organizada em torno dos espaços e dos tempos televisivos. A televisão constitui também uma forma específica de relacionar os agentes com a realidade social, actuando como fonte produtora de identidades, como meio gerador de dependências mas também como meio fomentador de exigências. A multiplicidade de termos mais ou menos vulgarmente conhecidos para designar a televisão, como “escola paralela, caixa mágica ou ama
electrónica”, por exemplo, permitem desenhar em seu torno uma certa ambivalência afectiva (Mehl, 1992).
A natureza dos conteúdos televisivos, privilegiando a percepção sobre a abstracção e o sensitivo sobre o conceptual, estimula um tipo de respostas, reacções e comportamentos que se localizam mais nas esferas do intuitivo e do emocional de que nas esferas do racional e do intelectual (Ferrés, 1994).
Boa parte do estímulo que leva o telespectador a deixar-se fascinar tão frequente e demoradamente pelos conteúdos televisivos prende-se com o facto da televisão funcionar em certa medida como uma plena gratificação sensorial, mental e psíquica.
Gratifica sensorialmente porque fornece um grande número de estímulos visuais e auditivos que sugerem ao interlocutor situações de bem-estar físico, psicológico e material; gratifica mentalmente porque possibilita deambular por mundos paralelos de imaginário, sonho e fantasia, que, permitindo uma evasão momentânea do quotidiano, permite aos agentes edificar as suas representações sobre o mundo social com base em valores idílicos e utópicos; gratifica psicologicamente uma vez que por meio de processos de “catarsis”, possibilita os seus interlocutores novos posicionamentos e atitudes face a alguns conflitos e problemas pessoais, por meio da identificação e integração emocional no espectáculo a que assistem (Ferrés, 1994).
Não raras vezes, a realidade construída pela televisão afigura-se mais gratificante do que a realidade quotidiana experimentada. Mediante isto desenvolvem-se fenómenos de dependência televisiva tais como aqueles sujeitos para quem a televisão se torna no lugar central do espaço doméstico, que por sua vez se converte numa espécie de casulo que os protege do mundo exterior; ou os indivíduos que passam grande parte do seu tempo quotidiano instalados à frente da televisão com o telecomando convertido numa “espécie de prótese adicionada ao braço” (Ferrés, 1994: 72-73).
O modelo comunicacional que norteia as mensagens televisivas estimula o interlocutor a tecer um juízo valorativo e afectivo sobre os seus conteúdos, uma vez que a natureza da televisão faz despertar no destinatário uma reacção emotiva quase instantânea (Mehl, 1992). Um estudo realizado no Reino Unido pela equipa de pesquisa orientada por Himmelveit e cujas conclusões foram publicadas em 1958, acerca das crianças que se revelaram grandes consumidoras de televisão mostrou que, na retaguarda de um elevado consumo televisivo podiam ser detectados frequentemente problemas de natureza socio-emocional (Pinto, 2000:125) e familiar, entre outros, que conduziam as crianças a encontrar no universo da televisão um refúgio gratificante do ponto de vista afectivo.
Através da televisão, os espectadores têm oportunidade de acesso visual e sonoro instantâneo, o que de algum modo rompe com a lógica tradicional de entendimento do tempo e do espaço. Esta possibilidade tecnológica vai-se progressivamente tornando numa necessidade crescente do interlocutor e numa característica imprescindível deste meio de comunicação (Ferrés, 1994). No entanto, uma lógica construída sobre uma base de espectacularidade visual e sonora coloca alguns problemas complexos, uma vez que frequentemente o aspecto visível dos acontecimentos não ilustra nem explica a sua verdadeira essência e complexidade. A servidão à lógica do espectáculo conduz inevitavelmente a uma trivialização e a uma descontextualização simplista da realidade construída pela televisão.
Na opinião de autores como Ferrés (1994), por exemplo, a profusão de recursos técnicos visuais e sonoros, os efeitos especiais e as ofertas de constante novidade e multiplicidade de informações, funcionam de certo modo para ocultar um enorme vazio de conteúdos substantivos que frequentemente dá forma à maioria dos programas televisivos destinados a grandes audiências. No entanto, a televisão é talvez o meio de comunicação de massas mais facilmente credível para o interlocutor. As imagens televisivas estimulam uma sensação de objectividade já que
transmitem, aparentemente com uma fidelidade total, os acontecimentos e as informações (Mehl, 1992).
Esta falsa objectividade e neutralidade são estimuladas pelo facto de ser permitida ao interlocutor a oportunidade de testemunhar com os seus próprios olhos por meio do “écran fidedigno da televisão” (Ferrés, 1994).
A natureza da imagem televisiva conduz a que frequentemente seja interpretada como não produzindo mediação da realidade, partindo- se do falso princípio de que se o discurso transforma, a imagem reproduz. Esta ilusão de verosimilhança acentua a ideia da televisão como uma tecnologia neutra e transparente que se limita a mostrar a realidade na sua verdadeira essência. Deste modo, a objectividade televisiva é um mito falacioso, uma vez que toda a informação transmitida é indissociável de uma opinião, de uma perspectiva de análise, de uma ideologia.
Símbolo da actualidade, do ritmo alucinante das sensações da vida quotidiana, a televisão representa um meio de aceder ao desconhecido, ao longínquo e à alteridade; funciona como registo de evasão e de exploração de novos contextos e desempenha um papel importante na construção do imaginário social colectivo. Todas estas características fazem do espectáculo televisivo uma constante no dia-à-dia de um número esmagadoramente elevado de crianças. Pela relativa facilidade de acesso a este meio de comunicação e pelas características apelativas abordadas, pode dizer-se que a interacção televisiva se tornou actualmente numa das práticas quotidianas transversais a este grupo social (Pinto, 1995, 2000; Saramago, 2000b).
Os interlocutores da televisão
Houve já oportunidade de relacionar a vida doméstica e quotidiana com a presença da tecnologia televisiva. As relações sociais dos agentes, tanto na privacidade dos seus lares como no exterior, têm presentes as influências das mensagens televisivas, publicamente construídas e
privadamente consumidas. Falar em consumo de tecnologia sugere a enunciação de duas vertentes contraditórias. Por um lado, têm-se a imagem da televisão sendo ávida e profusamente utilizada nos contextos domésticos das nossas vidas quotidianas. Por outro lado, temos a noção de que de certa forma a tecnologia também consome os seus interlocutores (Silverstone e Hirsch,1992).
O significado das tecnologias de informação nas sociedades modernas implica que estas sejam vistas simultaneamente como referentes sociais, simbólicos e materiais e como intrinsecamente envolvidas nas estruturas e nas dinâmicas da actual cultura de consumo.
Entender o lugar das modernas tecnologias de informação e sobretudo o lugar da televisão nas existências quotidianas, implica analisar os contornos e a natureza do consumo actual. Em questão encontra-se o estudo da cultura do consumo, com as suas facetas complexas, contraditórias, fragmentadas, homogeneizadas e aleatórias. No que se refere à televisão, o consumo implica um processo transformador de apropriação e conversão de sentido. O consumo é assim um trabalho de construção cognitiva que implica a atribuição de um sentido social aos significantes consumidos. Consumindo, os agentes manifestam simultaneamente a sua extrema dependência e a sua liberdade criativa enquanto participantes nas lógicas da cultura do consumo. A televisão fornece ambos os modelos e os meios que possibilitam esta participação.
Enquanto tecnologia, a televisão estabelece a ponte entre a cultura doméstica e a cultura do consumo no contexto da cultura contemporânea. Produzindo e reproduzindo de variadas formas as relações entre consumidor e objecto de consumo, define as regras e os moldes em que se processa toda a lógica do sistema. Deste modo os espectadores consomem televisão e consomem através da televisão.
O consumo é então uma actividade transformadora, fornecendo constantes coordenadas em termos de novas representações e símbolos identitários e podendo assim entender-se como um estádio no processo
de comunicação que implica descodificação e construção de sentido. O consumo, apelando a determinadas competências culturais e implicando o conhecimento dos seus referentes de codificação, classifica e distingue o consumidor. Emerge assim uma possibilidade de entendimento das práticas do consumo como sendo a criação e expressão de segmentos importantes das identidades dos agentes consumidores, baseada na construção de códigos particulares, integrados numa complexa e específica lógica de comunicação que é accionada em cada actividade particular de consumo (Silverstone, 1994). Em causa encontram-se os factores envolvidos nos diferenciais padrões de consumo televisivo.
Enquanto objecto investido de sentido pessoal e familiar, a televisão pode ser entendida como uma extensão das identidades particulares e familiares, uma vez que participa no processo de construção das identidades dos sujeitos, fornecendo coordenadas acerca das suas formas de interpretar a realidade social e das suas relações com os parceiros de interacção. Silverstone e Hirsch referem-se à questão do género e da idade como factores determinantes nas diferentes apropriações domésticas dos conteúdos televisivos (Silverstone e Hirsch, 1992).
Logicamente que o trabalho de consumo não se restringe ao plano físico do consumo do objecto material ou simbólico, representando uma construção mais complexa, enraizada nos padrões culturais que fornecem ao referente em questão o seu significado social. Deste modo, o consumo implica um trabalho de recontextualização do objecto de consumo de acordo com os padrões orientadores do consumidor. Assim, pode-se dizer que o processo de consumo é algo dificilmente determinável, em virtude do vasto leque de possibilidades de recontextualização ao dispor dos potenciais consumidores e também por que os agentes e os grupos sociais possuem recursos económicos e culturais diferenciais nos quais baseiam os seus trabalhos de recontextualização empregues nestas actividades.
Abordar a questão da cultura do consumo televisivo implica sobretudo procurar de uma vez por todas desautorizar o mito da passividade dos consumidores. O tradicional e frequentemente simplista discurso crítico sobre a televisão tinha como conceitos de suporte a manipulação e a passividade, como se o telespectador não fosse mais do que uma mera ‘esponja’ ou ‘recipiente vazio’ que absorve e guarda tudo aquilo que lhe é exposto. A questão dos consumos televisivos é bastante mais complexa e multifacetada. Argumento que consolida o conceito de que os espectadores são muito mais do que simples ‘recipientes’ é o facto de que o estímulo de uma mesma mensagem televisiva produz diferentes reacções em diferentes espectadores. Neste contexto a autora Aimée Dorr observa: «”as crianças podem parecer passivas, enquanto vêem
televisão, mas corpos inactivos não significam necessariamente mentes inactivas. (...) as mensagens transmitidas pela televisão não são as mensagens que os telespectadores recebem mas antes as que estes interpretam”» (citação feita por Pereira, 2000:307, aspas e itálico como na
fonte)
Para que se visualize a amplitude da questão das relações entre os agentes sociais e o modelo comunicacional da televisão na sua multiplicidade, é necessário entender que tão importantes como as influências que a televisão produz nos telespectadores, são os modos diferenciais de apropriação e decifração das mensagens televisivas postos em prática pelos primeiros.
A recepção televisiva é assim antes de mais uma experiência que implica o estabelecimento de relações de interacção entre os sujeitos e a televisão. A própria essência das relações sociais de interacção não é então consentânea com a alegada passividade a que os termos mais frequentemente utilizados para designar os utilizadores da tecnologia televisiva como ‘consumidores’, ‘espectadores’, ‘receptores’ ou ‘destinatários’ parecem fazer referência. Com efeito, a experiência de contactar com a televisão implica alguma passividade física e a descodificação das mensagens audiovisuais não exige constantemente
um esforço acrescido em termos de raciocínio lógico de análise. No entanto, tal não significa que a experiência televisiva implique passividade por parte do protagonista.
Há que ter em conta o facto de que a percepção feita pelos agentes sociais dos códigos e das mensagens televisivas é selectiva, uma vez que estes intervêm de forma activa no processo, por meio da decifração e da interpretação que é orientada pelos seus núcleos e focos de interesse. É lógico que, do vasto leque de géneros de programas televisivos que os interlocutores têm ao seu dispor, nem todos interessam de igual modo a este conjunto e mesmo em torno de cada programa específico, no seio das suas audiências, surgirão por certo alteridades significativas nas formas de descodificação e interpretação das mesmas mensagens televisivas.
Na década de 1960, os pesquisadores norte-americanos Schram, Lyle e Parker procuraram redimensionar as abordagens tradicionais acerca das relações entre telespectadores e televisão, sobretudo no que respeita ao grupo social da infância. Esta equipa sublinhou entre outros factores a necessidade de rompimento com o conceito de ‘o que a televisão faz às crianças’ para substituí-lo por um outro mais adequado à compreensão sociológica desta questão que é ‘o que as crianças fazem com a televisão’ (ver Pereira, 2000 páginas 305 e 306).
Nas suas interacções com a televisão, cada agente social selecciona aquilo que para si produz mais significado, ou seja, aquilo se reveste mais interesse e sentido, interpretando-o de acordo com os seus esquemas mentais específicos. Por outro lado, as ideias, valores e convicções, ou seja, o conjunto dos referentes que orientam os padrões de conduta social dos agentes, actuam como mecanismos de defesa contra todas aquelas mensagens televisivas que possam entrar em linha de colisão com as normas que servem de referência aos interlocutores. Os próprios têm mesmo a possibilidade de distorcer a mensagem televisiva decifrada, adaptando-a aos seus interesses e expectativas (Buckingham, 2000).
19 Se as mensagens televisivas constróem o interlocutor, este também constrói as mensagens televisivas. Deste modo, há que procurar dimensionar a relação dos agentes com a televisão na esfera da comunicação activa e interaccional. Assim, aos termos ‘consumidor’, ‘espectador’ e ‘telespectador’, que atribuem, como já se viu, uma conotação passiva aos utilizadores da televisão, poderá contrapor-se a designação interlocutor televisivo que permite dimensionar de forma mais aproximada as potencialidades multidireccionais presentes nos relacionamentos entre os agentes sociais e a televisão. Neste jogo complexo e multifacetado em que se baseia a relação dos interlocutores com a televisão, há que ter em conta o lugar e o alcance do protagonismo de cada sujeito social.
As crianças como interlocutores televisivos
Procuremos então entender que motivos estimulam as crianças a assistir à televisão e segundo que modos específicos se apropriam desta e descodificam as suas mensagens. Na década de 1960 Wilbur Schramm e a sua equipa apuraram três motivos principais que conduziam as crianças a interagir com a televisão (ver Gunter,1997:19). O primeiro dizia respeito ao prazer do entretenimento, uma vez que a televisão oferecia às crianças um mundo paralelo de fantasia, que lhes permitia efectuar uma evasão dos problemas e da rotina do dia-à-dia. O segundo motivo