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A Influência do Ambiente Físico e Social das Moradias

3. ESTUDOS SOBRE A INFLUÊNCIA DA MORADIA ESTUDANTIL

3.2. MORADIAS ESTUDANTIS: CONTRIBUIÇÕES DA

3.2.1. A Influência do Ambiente Físico e Social das Moradias

A partir das declarações de profissionais envolvidos no projeto de concepção e construção da UNB, Vilela Jr. (2003) relata que fatores políticos e arquitetônicos estiveram presentes na construção dos alojamentos daquela universidade. O autor concluiu que o projeto original foi modificado, uma vez que previa professores e estudantes residindo no

campus. O autor também ouviu os moradores dos alojamentos no período em que a

pesquisa foi efetuada e constatou que a principal dificuldade no dia a dia dos estudantes é a ausência de uma área comum que propicie o convívio social entre os residentes, pois tal condição favoreceria a interação entre estes. Ademais, as áreas destinadas aos serviços, tais como cozinha e lavanderia, não se apresentam de forma satisfatória, dificultando a vida de seus moradores.

Numa interface entre aspectos arquitetônicos e ambiente social, encontram-se os estudos de Mendes e Carvalho (2007) e Paiva e Mendes (2002). Na perspectiva da psicologia ambiental, Mendes e Carvalho (2007) buscam levantar a opinião dos estudantes moradores sobre satisfação e nível de privacidade da moradia estudantil da USP, no campus de Ribeirão Preto. Participaram do estudo 52 moradores de ambos os sexos, o que correspondeu a 32% da população residente na época, respondendo a um questionário com perguntas fechadas. Em resposta ao nível de satisfação, 92% dos estudantes referiram-se à gratuidade como causa, seguida por 65% em favor da amizade entre os moradores, 65% pela localização e 62% a relacionaram com a comodidade do local. Entre os aspectos que desagradam os estudantes estão a falta de privacidade (58%), o barulho (52%) e a inexistência de quartos privativos (50%). O estudo indica ainda que 62% desconhecem a existência de regras elaboradas pela prefeitura do campus para garantir a privacidade na moradia. Para melhoria na vivência da moradia, os estudantes sugerem a construção de mais blocos (75%), seguida de local para lazer (73%) e telefone para cada apartamento (69%). As autoras atribuem a sugestão do primeiro item à elevada demanda por uma vaga na moradia estudantil daquele campus.

Também na vertente da psicologia ambiental, o estudo de Paiva e Mendes (2002) teve como propósito verificar os comportamentos e as percepções de privacidade e

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territorialidade entre estudantes residentes nos alojamentos da UNB, considerando os diferentes arranjos de apartamento por sexo: masculino, feminino e misto. Foram levadas em conta a convivência grupal e a arquitetura do espaço. Responderam a um questionário 87 moradores de ambos os sexos, cada um deles representando um apartamento dos 97 existentes. Esses apartamentos têm capacidade para quatro moradores. Os resultados demonstraram que a maioria dos estudantes residentes deseja ter maior grau de privacidade que o vivenciado na CEU, sendo que essa preferência é maior nos apartamentos mistos e menor nos apartamentos femininos. A invasão do espaço alheio e a utilização de pertences são mais frequentes nos apartamentos mistos e masculinos; o maior nível de conflito ocorre nos apartamentos masculinos. Também foi verificado que nos apartamentos mistos há maior utilização de barreiras, tais como: cortinas, armários, estantes e outros, para delimitar espaço e assegurar maior privacidade. A exposição do ambiente interno a partir de amplas janelas envidraçadas é motivo de insatisfação em 77,7% dos estudantes. Segundo os autores, esse resultado sugere medidas institucionais que alterem essa característica do espaço físico para assegurar a privacidade dos moradores. Os resultados dessa investigação mostraram convergência com a revisão da literatura feita pelos autores, quanto à associação entre controle de espaço e nível de conflito, uma vez que estudos revelam que quanto maior o controle sobre a utilização do espaço e dos objetos, menor é o nível de conflito. Isso ficou evidente no elevado nível de controle nos apartamentos femininos e menor índice de conflitos. O oposto ocorreu nos apartamentos masculinos.

Araújo (2003) descreve uma série de obstáculos enfrentados pelos residentes das moradias na Universidade Federal de Alagoas (UFAL). A precariedade na estrutura física do local apareceu como a principal causa para dificuldades de diversas naturezas apontadas por seus moradores. A autora faz uma análise sobre o nível de satisfação dos estudantes em relação à estrutura do ambiente físico, isolando aspectos distintos: iluminação, aeração, quartos, banheiros, sala de estudo, espaço de lazer, sala de reunião, refeitório, alojamento e localização da moradia. Os estudantes identificaram como problemas a falta de manutenção tanto na iluminação quanto nos banheiros e a interdição de alguns deles, a falta de ventilação nos quartos e na sala de estudo, a superpopulação nos quartos; a necessidade de mais aparelhos de TV, de colchões, de mesas e cadeiras para a sala de estudo e para o refeitório. Os respondentes da pesquisa alertaram que, em função da incapacidade do

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refeitório em atender à demanda estudantil, essa condição estaria contribuindo para um maior isolamento entre os estudantes, uma vez que eles passaram a fazer as refeições nos quartos. Por último, alegaram a distância da moradia em relação à universidade. A pesquisadora informa que a Pró-Reitoria Estudantil da instituição tinha conhecimento sobre os problemas existentes, mas, na ocasião em que a pesquisa foi conduzida, a escassez de recursos foi a justificativa para o adiamento das reformas necessárias.

A contribuição de Berlatto e Sallas (2008) se dá na vertente antropológica, tendo como instrumento de análise o registro fotográfico do ambiente ocupado, sua dimensão simbólica e suas interações sociais. O estudo apresentado retrata a dinâmica da CEUC, com capacidade para atender 108 moradoras do sexo feminino e sob a responsabilidade da UFPR. As pesquisadoras comparam a estrutura, a clientela e o funcionamento da casa nas duas primeiras décadas de funcionamento com o período em que a pesquisa foi realizada48.

Segundo divulgam as autoras, mudanças no perfil da clientela acarretaram alterações significativas no ambiente físico que, por sua vez, contribuíram para modificar expressivamente a ocupação dos espaços e a dinâmica das interações. Enquanto, nos anos 50 e 60 do século passado, a CEUC atraía a sociedade curitibana com bailes e outros eventos importantes para a cidade, na atualidade, suas ocupantes se acomodam numa espécie de alojamento, com diversos problemas de natureza estrutural do ambiente físico. Se, no passado, a CEUC contava com salão de bailes, biblioteca, lavanderia, refeitório, cozinha e outros ambientes coletivos, nos dias atuais, a ação do tempo e a precariedade na preservação e manutenção desses espaços fizeram com que os aposentos ampliassem sua função, fossem equipados com eletrodomésticos, computadores e outros móveis e utensílios necessários ao cotidiano de suas moradoras, sem a devida adequação para tais mudanças. Demais ambientes da CEUC, por sua vez, passaram a ter funcionalidades distintas daquelas previstas originalmente. O perfil de sua clientela também se alterou, como evidencia o trecho destacado a seguir:

[...] em sua origem a Casa tinha sido concebida como uma espécie de hotel (com serviços de alimentação, lavanderia etc.) para filhas de fazendeiros e comerciantes do interior do Paraná. Os espaços e o

48 A exposição sobre o funcionamento da CEUC em décadas anteriores foi apresentada no Capitulo 2

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mobiliário do edifício foram projetados para abrigar estudantes que trouxessem consigo roupas, pequenos objetos pessoais e materiais de estudo. Com a mudança na origem social de suas inquilinas, que passaram a ser meninas pobres, sem condições de alugar um imóvel na cidade ou formar “repúblicas” por conta própria, a Casa assumiu, em razão de seu novo papel, um aspecto de alojamento (BERLATTO; SALLAS, 2008, p.6).

A díade individual-coletiva é também foco de análise das autoras. Conforme explicam, as marcas da identidade pessoal de cada moradora são expressas a partir das intervenções no ambiente físico, que traz uma “[...] razão mais subjetiva que é dar uma visão mais individual ao ambiente” (Ibidem, p.6). Nesse sentido, os espaços são organizados com as marcas de suas moradoras. No entanto,

Devido ao arranjo espacial e social da Casa, é de se esperar que o privado e o público se confundam e o segundo acabe superando e impondo-se ao primeiro. A privacidade implicada nos atos mais simples como tomar banho, fazer à toalete, dormir ou trocar-se é violada e exposta bruscamente e, na prática, oprimida pelo comunitarismo que torna a existência um exercício de representação – ou de construção de uma persona – pública. (Ibidem, p.11).

As interações sociais são apresentadas como dinâmicas, com pontos de convergência e conflitos e por sua fluidez. A dinâmica se dá pela rede de relações, que se constroem e se desfazem, reorganizando-se em grupos por afinidades, denominados pelas autoras como “panelinhas”. Os conflitos ocorrem a partir dessas interações, mas a disputa pelo ambiente físico também é vista como sua causadora, a exemplo da existência de um único chuveiro para atendimento de 18 moradoras, o pouco espaço para a lavagem e secagem das roupas e o tamanho reduzido dos quartos para acolher três moradoras. Já a fluidez nas interações é explicada a partir da elevada rotatividade de suas ocupantes, seja porque concluíram a graduação, seja porque houve melhoria na condição financeira, possibilitando o aluguel de outro local para morar.

As autoras concluem seu texto enfatizando aspectos enriquecedores da experiência das moradoras da CEUC: transformação da convivência involuntária inicial em redes de solidariedade, propiciadas pela convivência no espaço coletivo; a construção de laços

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sociais e afetivos mais duradouros e a possibilidade de transformar um ambiente transitório em lar.

Os estudos apresentados neste tópico enfatizam como o ambiente físico e as condições de interação que ele propicia repercutem em diferentes aspectos da vida do estudante morador. Foi visto ainda que a qualidade desses espaços e suas características podem trazer consequências tanto desejáveis quanto indesejáveis, o que leva, por vezes, ao bem-estar ou ao sofrimento de seus moradores.