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A intericonicidade: uma memória das imagens

CAPÍTULO II – ANÁLISE DO DISCURSO E SEMIOLOGIA HISTÓRICA:

2.2 A intericonicidade: uma memória das imagens

Despois de alguns estabelecimentos teóricos como o conceito de interdiscurso, mobilizado pelo grupo de Pêcheux em Paris, e do conceito de enunciado, no viés foucaultiano, Courtine funda a noção de memória discursiva a partir desses alicerces. Nesse novo momento, vão se estabelecer as bases para o estudo do funcionamento discursivo das imagens para além do modelo de língua outrora apresentado.

Courtine deixa a França em 1980 e afasta-se das discussões francesas em torno do discurso e passa 20 anos pesquisando e ensinando nos Estados Unidos; ao retornar à França, em 2003, na Sorbonne Nouvelle, Paris III, ele se declara não mais analista do discurso, distanciando-se daquilo que fazia nos anos 1980 e focaliza suas preocupações acerca da historicidade das imagens.

Por conseguinte, Courtine parte de uma crítica à semiologia da imagem, da forma como ela era considerada em Barthes e em outros, cuja compreensão do signo icônico era vista como algo da ordem da linguagem, ou, muitas vezes, como algo da ordem da língua, no sentido saussuriano. Sua crítica incide justamente porque essa semiologia se distanciou demais da compreensão do que é imagem. A partir disso, ele desenvolve a intericonicidade, considerada, por ele próprio, complexa, retomando o conceito de memória discursiva para que pudesse dar conta, concomitantemente, dos conceitos e da metodologia no campo da análise das imagens.

Segundo Courtine (2013), “a ideia de memória discursiva implica em não haver discursos que não sejam interpretáveis sem referência a uma tal memória”. Isso também caberia na compreensão da imagem, isto é, “toda imagem se inscreve no interior de uma cultura visual e essa cultura visual supõe a existência de uma memória visual no indivíduo, de uma memória das imagens na qual toda imagem tem um eco”.67

O interesse de Courtine é justamente fazer funcionar a arqueologia foucaultiana que o leva, dentre outras categorias, à intericonicidade: “A questão posta aqui é dar formas materiais de uma cultura visual de massa.” (COURTINE, 2008, p. 280).

A noção de intericonicidade68 decorre do conceito de memória discursiva, atrelado à

sua leitura em M. Foucault “[...] a noção de memória discursiva diz respeito à existência histórica do enunciado no interior das práticas discursivas regradas por aparelhos ideológicos”. (COURTINE, 2009, p. 105-106).

Considerando, portanto, a natureza semiológica do enunciado, Courtine formula seu conceito de memória discursiva69, na qual apresenta-se tanto no interior de práticas verbais, quanto no interior de práticas não-verbais. Então, ao introduzir a noção de intericonicidade, Courtine buscava destacar o caráter discursivo da iconicidade, uma vez que “mais do que a um modelo de língua, era a um modelo do discurso que a imagem precisava se referir”. (COURTINE, 2013, p. 45).

Desse modo, Courtine chega à conclusão de que analisar os discursos não poderia mais se limitar a caracterizar um corpus a diferentes níveis de funcionamento linguístico, mas a “pensar e a descrever a maneira com a qual se entrecruzam – na materialidade do arquivo quanto

67 Foucault e a história da análise do discurso, olhares e objetos. Entrevista com Jean-Jacques Courtine. MILANEZ,

Nilton. Foucault e a história da análise do discurso, olhares e objetos. Entrevista com Jean-Jacques Courtine. In: MARQUES, Welisson; CONTI, Aparecida; FERNANDES, Cleudemar Alves. (Org.). Michel Foucault e o discurso: aportes teóricos e metodológicos. 1ed.Uberlândia: Edufu, 2013, v. 1, p. 37-63.

68 Essa noção proposta por Courtine foi introduzida no Brasil a partir dos trabalhos desenvolvidos por Milanez (2006a, 2006b).

69 A noção de memória discursiva concerne à existência histórica do enunciado no interior de práticas discursivas (COURTINE, 1981, p. 52).

no suporte “psíquico” das memórias individuais e coletivas – regimes de práticas, séries de enunciados, redes de imagens” (COURTINE, 2013, p. 31). E para isso, retomou a leitura de A arqueologia do saber (1969), permanecendo mais próximo à Foucault:

Quanto a mim não vejo obstáculo algum diante do fato da perspectiva arqueológica poder assumir as imagens como objeto. Vejo nisso, inclusive, uma vantagem maior, enquanto ela permite abandonar de vez o paradigma semiológico de tratamento das imagens sobre o modelo de língua, para inscrevê-las, ao lado dos discursos e ligados a estes, na análise histórica da materialidade de saberes. (COURTINE, 2013, p. 155).

O autor (2013, p. 155) levanta duas questões ainda junto a Foucault, dois elementos que são considerados por ele essenciais na compreensão da dimensão antropológica e histórica das imagens: “a noção de “domínio de memória”, condição de possibilidade de saberes; e, novamente, do “dispositivo”, que pode esclarecer os poderes inéditos que se advinham no processo tecnológico de produção e disseminação das imagens (...)”.

A intericonicidade pressupõe, desta maneira, o estabelecimento de relação de imagens. Como o próprio Courtine defendia “não há imagens que não nos faça ressurgir outras imagens, tenham essas imagens sido vistas antes, ou simplesmente imaginadas”. (COURTINE, 2013, p. 45). A imagem, então, seria um operador de memória social, comportando no interior dela mesma um programa de leitura, conforme nos alertou Pêcheux.

Percebemos que ao olhar para as imagens, veremos discursos que preexistem nelas; isso nos mostra que a produção dos discursos das imagens enquanto domínio da memória são efeitos de definição, transformação, apagamento, rupturas com um já dito. Assim, “o domínio da memória focaliza encadeamentos que indicam a referência do lugar de um objeto em certo ângulo da história”. A memória, nesse sentido, exerce o papel de regulador das imagens em circulação. (MILANEZ, 2013, p. 353).

A partir dessa noção, Courtine (2005, 2008) aponta para uma questão fundamental - resgatar a dimensão histórica das imagens. O conceito de intericonicidade vem para isso, coloca em jogo a relação entre imagens internas e externas ao sujeito: “[...] as imagens de lembranças, as imagens de memórias, as imagens de impressão visual armazenadas pelo indivíduo. Imagens que nos façam ressurgir outras imagens, mesmo que essas imagens fossem apenas vistas ou simplesmente imaginadas.” (COURTINE, 2005).

Assim, a intericonicidade propõe dar um tratamento discursivo às imagens, particularmente, à “memória das imagens”:

Supõe, considerar as relações entre imagens que produzem os sentidos: imagens exteriores ao sujeito, como quando uma imagem pode ser inscrita em uma série de imagens, uma arqueologia, de modo semelhante ao enunciado em uma rede de formulações, em Foucault; mas também imagens internas, que supõem a consideração de todo conjunto da memória da imagem no indivíduo, e talvez também os sonhos, as imagens vistas, esquecidas, ressurgidas ou fantasiadas que frequentam o imaginário. (COURTINE, 2011, p. 160)

Nesse viés, como se nota, o princípio da intericonicidade acompanha a mesma orientação que o de interdiscursividade70, uma vez que

busca historicamente outro texto que já está ali presente e não em outro lugar, que aparece de forma apagada, mas que precisa de um mecanismo material para ser decifrado, seja pelas similitudes das imagens, pela repetição de sua historicidade ou pela recuperação do arquivo memorial coletivo” (MILANEZ, 2013, p. 350).

As imagens são constituídas de memória, elas carregam memórias de histórias de outras imagens que são recuperadas por meio de repetições, retomadas e/ou esquecimentos. Na ótica de Courtine (2006), o conceito de intericonicidade concerne às imagens que são lembradas, evocadas, ressurgidas quando vemos ou simplesmente imaginamos uma imagem. Essa noção refere-se, então, ao diálogo de uma imagem com outras exteriores a ela, pois como se percebe, toda imagem tem um eco, e isso concerne à historicidade da imagem.

Considerando, assim, a natureza do enunciado exposto na Arqueologia foucaultiana, ou seja, sua “natureza semiológica”, como vislumbra Gregolin (2008, p. 29), a memória discursiva, tal qual formulada por Courtine, conforme já dissemos, pode apresentar-se tanto no interior de práticas verbais, quanto no interior de práticas não verbais, “permitindo a circulação e tornando possível a articulação tanto entre um já-dito e um dizer quanto entre um enunciado e sua formulação” (MILANEZ, 2006, p. 78). É, pois, dessa configuração que se processa a noção de intericonicidade.

Nesse sentido, há uma necessidade de atualização da abordagem teórica para os estudos de uma memória do não-verbal, deslocando o conceito de interdiscurso e apresentando aquilo que se estabelece como intericonicidade, isto é, a memória do icônico. “A memória do icônico pressupõe uma dupla história: uma interior, relacionada com o próprio sujeito e suas produções mentais, e outra exterior, que se estabelece na materialidade (por meio de um suporte – médium) externa ao indivíduo. ” (Sá et al., 2012, p. 283). É, então, nesse sentido interdiscursivo que se

70 Em Décifrar o corpo: pensar com Foucault (2012), Courtine estabelece a relação de intericonicidade com o interdiscurso.

compreende a intericonicidade. Para Sá et al., a memória do icônico se estabelece a partir de uma memória interior e outra exterior.

Ainda, sobre as imagens e memórias, Braga reflete sobre o papel exercido pelas mídias digitais no processo de produção e circulação de textos sincréticos, e seu funcionamento na contemporaneidade:

Através da circulação dessas memórias imagéticas, ou dessas intericonicidades, a grande mídia brinca com a memória, construindo identidades mediante um jogo que parte da tradição e faz irromper novos discursos. Vicissitudes da mídia, sentidos da história, identidades que se cruzam: entre o dado e o novo, a intericonicidade aparece como um lampejo, como diria Gregolin (2008), um clarão, lançando luz sobre a produção de sentidos e identidades no interior de uma cultura visual. Seus frutos estão produzidos na instantaneidade de um acontecimento discursivo. (BRAGA, 2012, p. 179).

Diferentemente das práticas de leitura proporcionadas pela mídia tradicional (televisão, jornais), as quais oferecem uma memória horizontal, os sites e as redes sociais possibilitam uma nova forma de leitura, caracterizada pela não-linearidade, descontinuidade e fragmentação, oferecendo uma gama de recursos que podem ser tomados pelos interlocutores, uma vez que podem navegar no sistema.

O discurso tradicional ao migrar para a internet adquiriu um novo espaço de enunciação, proporcionando novas possibilidade de construção e apreensão dos discursos. Constroem-se efeitos de proximidade, além de criar diversas ferramentas de interatividade. As postagens sofrem constantes alterações e substituições, típicas dos discursos líquidos, da volatilidade e da fluidez.

A política online é a arena da visibilidade incessante através, principalmente, da imagetização do discurso. Nesse “espaço do visível”, da exposição em seu grau mais elevado, o discurso político se espetaculariza, se midiatiza e se constitui pela materialidade sincrética. Nesse sentido, a utilização de recursos imagéticos é preponderante nas postagens dos candidatos analisado. Há sempre uma fotografia, uma selfie, uma imagem em movimento, um vídeo. Os textos escritos são geralmente curtos e fragmentados e servem como forma de legenda da imagem, na maioria das vezes. Vejamos as análises das Sequências Enunciativas71 (SE) a seguir, nas quais poderemos observar como são operados esses conceitos:

71 Empregaremos o conceito “Sequência Enunciativa” (SE) para analisar o corpus desta pesquisa. Como sabemos, se no primeiro momento da AD o arquivo era composto por documentos, quase sempre de cunho oficial, impressos e já analisados por historiadores, cuja materialidade, quando referida, era tomada como evidência, em momentos seguintes, em especial após os anos 1980, o arquivo é problematizado concernindo às diferentes linguagens, reestabelecendo seus diferentes aspectos semiológicos e, levando em conta as diferentes materialidades nas quais

Seq. Enunciativa 1: A memória da imagem: ACM Neto e a referência política de seu avô, ACM

Fonte: desciclopedia.org/ACM

As imagens operam memórias. Conforme o princípio da intericonicidade, a imagem resgata historicamente outro texto que já está ali presente, e que são recuperadas por meio de retomadas, repetições e/ou esquecimentos.

Ao lermos Milanez (2013), que empreende suas análises considerando o enunciado em sua espessura histórica de natureza semiológica, compreendemos a ideia de intericonicidade

os discursos emergem. J. Guilhaumou e D. Maldidier, ao ponderarem sobre a “configuração metodológica” da AD, apontam mudanças na constituição da teoria. A AD passa de uma disciplina de programas e métodos para uma disciplina interpretativa, e nisso está envolvida, consequentemente, a mudança no tratamento do objeto de análise – passa-se da análise das sequências discursivas presentes em um corpus para a operação de leitura do arquivo. Essa preocupação também é expressa por Pêcheux, em um artigo publicado na revista Buscila, em 1984: “Ela [a AD] partilha com a tradição lexicométrica a prática de construção de corpus e o recuso eventual a algoritmo informatizados, mas ela não se interdita de supor estruturas sintáticas sob a sucessão das unidades lexicais. Ela partilha, por outro lado, com as tradições semiológicas e semióticas (que, aliás, designam seus trabalhos como análises de discurso) o cuidado de apreender e de descrever as condições estruturais da existência do sentido, mas sem autorizar a supor estruturas lógico-semânticas subjacentes às sequências discursivas. Ela partilha, enfim, com a perspectiva arqueológica foucaultiana, o cuidado de considerar as condições históricas de existência dos discursos na sua heterogeneidade, mas ela visa a reintroduzir explicitamente no campo a problemática da língua (PÊCHEUX, ([1984] 2011, p. 100). Assim, considerando a noção de enunciado à luz foucaultiana, que é de natureza semiológica, isto é, não implica um caráter sígnico da língua apenas, pode ser linguístico, mas é mais que isso porque é da natureza do acontecimento que se materializa nas semiologias, nos diversos sistemas de signos. Por isso, adotamos o emprego da Sequência Enunciativa; a análise enunciativa deve ser feita por meio do empreendimento da história, porque é através dela que se pode retomar enunciados que foram ditos e permanecem “conservados ao longo do tempo e dispersos no espaço”. (FOUCAULT [1969] 2007, P. 137). Ler o arquivo hoje significa “ler a circulação de sentidos”, articulando os princípios da de dizibilidade, conservação, memória, reativação e apropriação àquele de circulação no qual estão envolvidos o gênero e o tipo de suporte, a quantidade, a intensidade, a velocidade e a materialidade. (SARGENTINI; SÁ; SANTOS, 2011, p. 45).

quando no tratamento discursivo das imagens, pois segundo ele, esta noção consiste num processo de recuperação de outras imagens e dos saberes que elas fazem aparecer, não para considerá-la com o sentido que tinham no momento, no qual estão sendo contemplados, mas para (re)situá-los enquanto forma de conhecimento, mecanismo largamente conhecido durante o funcionamento discursivo (MILANEZ, 2013, p. 353).

Partindo dessa assertiva, considerando as postagens no perfil do Facebook do candidato Antônio Carlos Magalhães Neto, mais comumente conhecido por ACM Neto, as imagens recuperam uma memória, resgata tradição política familiar, uma ligação com seu avô ACM, figura de bastante representatividade na história da política baiana. As imagens inscritas na postagem do candidato retomam uma memória de uma prática muito comum de seu avó, a popularidade que ele tinha com as baianas, a tradição de fazer a procissão todos os anos, e o espírito de baianidade em seus gestos e discursos.

As fotografias foram feitas na tradicional Lavagem do Bonfim, uma data festiva do calendário baiano, uma celebração inter-religiosa que acontece todos os anos em Salvador, cuja tradição é vestir-se de branco, a cor do orixá, e percorrer 8 km em procissão, desde o largo da Conceição até o largo do Bonfim. A festa tem-se tornado cada vez mais palco para o desfile de representantes políticos.

O candidato ACM Neto, desse modo, retoma uma historicidade da imagem, e vincula- se à imagem de seu avô, amparando-se na imagem socialmente construída de seu avó, a qual a política era caracterizadas pela popularidade, pelo carisma, pela baianidade e pela sua visibilidade no quadro político nacional72.

Nas reflexões de Navarro (2008, p. 155), a fotografia veiculada na mídia é uma prática discursiva que, “ao abarcar o histórico, faz dele matéria-prima para a constituição de seu universo interno, promovendo a interação do discurso do passado, aquele que narra o acontecido, com o discurso do presente, aquele que relata os fatos, criando o efeito de ‘acontecência’ ”. O autor reitera que da conjugação dessas práticas resulta uma produção discursiva que reestabelece o passado para restaurá-lo no presente e é nesse viés que podemos aproximar o discurso da mídia ao da história.

72 Filiado ao Democratas (PFL/DEM) foi um dos políticos de maior visibilidade no cenário da política baiana e,

posteriormente, no quadro da política nacional. Foi governador da Bahia por três vezes (duas vezes foi nomeado pelo Regime Militar Brasileiro), além de ter sido eleito senador em 1994 e em 2002, assumindo a presidência do Senado em 1997 até 2001.

ACM Neto, também filiado ao DEM (antigo PFL), seguiu os passos do avô na carreira política. Foi eleito deputado federal nas eleições de 2002, 2006 e 2010. Posteriormente foi candidato e eleito prefeito de Salvador no pleito de 2012, sendo reeleito em 2016. O Partido Democratas é um partido de centro-direita que possui uma filosofia política conservadora- liberal de bastante expressão no país. Possui raízes na política nordestina, com representantes como Sarney e ACM.

Seq. Enunciativa 2: A memória da imagem: Alice Portugal e sua trajetória política

Do mesmo modo, a candidata Alice Portugal aciona a fotografia como operadora de memória. Ela recorre, através das materialidades discursivas, verbal e visual, a construção de sua trajetória política no movimento estudantil da UFBA, manifestando coragem e determinação ensinadas pelo pai. A imagem apresenta elementos que colocam em cena sua posição de liderança no movimento de greve e ocupação da UFBA no ano de 1991, na qual ela está de posse de um microfone e fala para um grupo de ouvintes-estudantes.

O PCdoB, ao qual a candidata é filiada desde 1979, é um partido de inclinação ideológica de esquerda e tem, como formação ideológica, os princípios da teoria científica do marxismo, tendo forte acesso nos meios sindicais e estudantis. Alice Portugal tem um histórico de militância política que começou na luta contra a ditadura militar, no seio do movimento estudantil73.

Notamos que a composição da fotografia, em preto e branco, resgata um passado, e colabora para reforçar uma legitimidade de vida política antiga, apresentando-se como candidata experiente: “iniciei minha trajetória política no movimento estudantil”. Assim, 73 Sobre a biografia da candidata Alice Portugal, disponível em: < https://www.aliceportugal.org.br/conheca-um- pouco-da-historia-da-lider-alice-portugal/> acesso em: dez. 2018.

verificamos efeitos de verdade sendo fabricados. As imagens trazem memórias de histórias de outras imagens que são recuperadas por meio de repetições, retomadas ou esquecimentos.

Em um outro paradigma de leitura, que nomeamos de a “construção discursiva da mulher militante/atuante na política”, podemos recuperar a narrativização da inserção da mulher no meio político. A mulher à frente, de posse de um microfone, mostra-se como líder, representante. A imagem fortalece a construção da representatividade da mulher na política, da qual Alice busca fortalecer em todo seu percurso enunciativo, devido ao fato de as mulheres terem sido alijadas da vida política e da ocupação de cargos públicos.

Na segunda postagem da sequência, a imagem atualiza uma memória. O post foi realizado em 2019, na 11ª Bienal da UNE, realizado na UFBA, em que Alice Portugal, agora Deputada Federal, reeleita nas eleições de 2018 para o seu quinto mandato, palestra aos estudantes, e reitera seu compromisso em barrar o novo projeto do chamado “Escola sem Partido”.

Como vimos, “as imagens, também elas, produzem uma memória do icônico, que nos remetem a outros discursos” (KOGAWA, 2012, p.288). Há nas sequências de imagens da candidata Alice Portugal essa recuperação de uma construção discursiva através da imagem que instaura a força da mulher na política, uma política combativa e de oposição.

Compreendemos, dessa forma, que Courtine propõe discutir que há uma dimensão semiológica nessa antropologia histórica, pois, desde então, seu trabalho interroga sobre o que produz o signo e o sentido no campo do olhar para os indivíduos, num momento histórico determinado, a cada vez que tentamos reconstruir o que eles interpretam daquilo que percebem, mais ainda, o que lhes permanece invisível.

Ademais, a proposta semiológica histórica, primeiramente baseou-se em perspectivas históricas e antropológicas, e posteriormente, em discussões acerca do rosto e do corpo, “a fim de pensar discursivamente as redes de imagens que constituem a cultura e o imaginário de uma sociedade” (GREGOLIN, 2008, p. 21).

Courtine interroga a memória dessas imagens:

Como articular estas imagens umas com as outras, como reconstituir estes vínculos que dão seu sentido aos ícones de uma cultura para os indivíduos que compartilham