2 A BOBAGEM NA ARTE: ANÁLISE CRITICA DOS BOBOS EM
2.3 O Jester: o coroamento do Bobo
2.3.1 A Inversão
A temática da Inversão aparece em ―Noite de Reis‖ e em ―Rei Lear‖. A inversão entre o Bobo e Lear acontece a partir do declínio do Rei. Quanto mais este se afunda na sua loucura, mais o Bobo nos traz a questão da inversão. Lear é uma figura gigantesca, mas as suas dimensões não são as de um rei ou de um herói: são as de um Bobo, as de um ser humano que sofre e entende a sua afinidade com os
outros que também sofrem. Notamos que Lear no início da peça é teoricamente uma pessoa sã, equilibrada, mas tudo o que ele diz nos soa absurdo. Quando o Rei começa a ―vestir a roupagem‖ do Bobo, quando a loucura o domina, suas falas tornam-se muitas vezes difíceis de serem acompanhadas, mas o sentido geral do que diz é completamente claro. ―A linguagem é o oposto do absurdo: isso é o que fica da peça, uma noção do que poderíamos liberar, se pudéssemos dizer o que sentimos‖ (FRYE, 1992:152).
Exemplo em ―Rei Lear‖:
BOBO – Conheces a diferença, meu rapaz, entre um bobo amargo e um bobo doce?
LEAR – Não, rapaz, ensina-me. BOBO –
Quem a ti persuadiu A tuas terras doar, A meu lado se coloque Ou vem tu em seu lugar. O bobo doce e o amargoso Aqui logo surgirão:
Um de roupa mosqueada, O outro aí nesse roupão.
LEAR – Tu me chamas de bobo, rapaz?
BOBO – Abandonaste todos os teus outros títulos, mas esse, nasceste com ele. (Ato I, Cena IV)111
Quando o Bobo diz que Lear nasceu com o título de Bobo, na verdade mostra-nos a todos como ―bobos‖:
Sendo, ao mesmo tempo, a menos secular e a menos cristã das peças shakespearianas, a tragédia de Lear mostra-nos a todos como ‗bobos‘, no sentido shakespeariano, exceto aqueles dentre nós que são inveterados vilões. Em Shakespeare, ‗bobo‘ quer dizer ‗tolo‘, ‗louco‘, ‗bobo da corte‘, ou, principalmente, ‗vítima‘ (BLOOM, 2000:606, 607).
A inversão também acontece entre o Bobo e Kent:
KENT – Onde aprendeste isto, bobo?
BOBO – Não foi no tronco, bobo. (Ato II, Cena IV)112
111 FOOL: Dost thou know the difference, my boy, between a bitter fool and a sweet one? LEAR: No, lad; teach me.
FOOL: That lord that counsell'd thee To give away thy land,
Come place him here by me,— Do thou for him stand:
The sweet and bitter fool Will presently appear; The one in motley here, The other found out there.
LEAR: Dost thou call me fool, boy?
Como o Bobo da Corte veio do povo, das classes populares, ele conhece bem os desejos desse povo, e torna-se um ótimo conselheiro para o Rei nesses assuntos. Ao mesmo tempo em que aparenta ser uma figura despreocupada, é considerado o mais corajoso. Possui a alegria e a liberdade de enfrentamento e, em troca do risco que correu, recebe admiração e reconhecimentos. Ousa realizar aquilo que todos tiveram a vontade de fazer, mas não podiam. É um herói ou um anti- herói? Para Martin (1985:18, tradução nossa), ―o indiferente não será glorificado da mesma forma, pois o subestimamos. Zombamos deles algumas vezes. Quanto ao corajoso, se ele se tornasse herói, a bobagem se transformaria em seriedade, e o sorriso ir-se-ia embora‖.
A concepção da sociedade sobre o herói e o anti-herói tem mudado ao longo do tempo. Talvez seja mais coerente relacionar o Bobo com a imagem do anti-herói pelo fato de suas falhas serem mais visíveis do que as suas qualidades heróicas. O anti-herói não é inerentemente mau e até mesmo pode praticar atos moralmente aceitáveis:
Há mais de um tipo de anti-herói. Além dos que buscam satisfazer seus próprios interesses, há também os que sofrem desapontamentos em suas vidas, mas persistem até alcançar o a(c)to heróico. Existem também anti-heróis que têm atitudes morais suficientes para serem um herói, mas não têm o condicionamento físico e/ou intelectual suficientes, só que não percebem ou se preocupam com esse facto. 113
Mas o que faz com que ele seja um anti-herói e não um vilão? É que o anti- herói é aceito pelos outros, enquanto o vilão não conquista o carisma ou a compaixão do público. Os atos do anti-herói são realizados por meios de objetivos justos ou ao menos compreensíveis. O Bobo, por causa de suas ―falhas‖ (loucura, deformações, etc.), torna-se um ser inferior perante a sociedade; é motivo de compaixão. Portanto, quando o Bobo ―apronta‖, ele não se torna o vilão, mas um anti-herói, porque ao invés das pessoas desaprovarem seus atos, eles riem e se divertem.
112 KENT: Where learn'd you this, fool?
FOOL: Not i' the stocks, fool.
O sofrimento de Lear cala fundo em quase todos nós. Quando o Bobo critica Lear e insiste em lhe mostrar sua fraqueza e sua tolice, poderíamos criar certa antipatia pelo Bobo. Ele poderia se tornar o vilão da historia por rir do sofrimento do Rei, pelo qual sentimos compaixão. Mas o Bobo não se torna vilão, ele torna-se um anti-herói. Nós não construímos uma imagem ruim do Bobo porque ele dá claras demonstrações de afeto pelo seu Rei, seu amor é incondicional. O próprio Rei sabe disso: ―Pobre bobo! Tenho no coração um lugarzinho que se apieda de ti‖. Acabamos sentindo piedade tanto do Rei quanto do próprio Bobo. Justamente pelo amor que sente por Lear, o Bobo, com seus trocadilhos e improvisos, procura aliviar o espírito do ancião. E ao mesmo tempo alertá-lo, profetizando as tolices em que Lear iria se afundar. O Bobo de Lear é também profeta:
BOBO – Aqui está uma maravilhosa noite para esfriar uma cortesã. Farei uma profecia, antes de ir-me embora:
Quando os padres forem mais virtuosos que sapientes; Quando os cervejeiros colocarem água na cerveja; Quando os nobres forem os mestres de seus alfaiates; Quando as leis deixarem os heréticos em paz
Para em lugar deles queimar os galanteadores de rameiras, Quando não mais houver processos mal julgados,
Escudeiros individuais, nem qualquer cavaleiro pobre; Quando as calúnias não viverem nas línguas,
Nem os batedores de carteira se misturarem com a multidão; Quando os usuários contarem o ouro em pleno campo, E alcoviteiras e prostitutas construírem igrejas;
Então o reino de Álbion Cairá em grande confusão,
Virá, então, o tempo, quem viver verá, Em que para andar, os pés serão usados.
Esta profecia será feita por Merlino, pois vivo antes do tempo dele. (Sai.) (Ato III, Cena II)114
Ressaltemos um pouco mais a questão da inversão. Encontramo-la também em ―Noite de Reis‖. Feste não tem medo de lançar palavras amargas para aqueles
114 FOOL: This is a brave night to cool a courtezan.
— I'll speak a prophecy ere I go:— When priests are more in word than matter;
When brewers mar their malt with water; When nobles are their tailors' tutors; No heretics burn'd, but wenches' suitors; When every case in law is right;
No squire in debt nor no poor knight; When slanders do not live in tongues; Nor cutpurses come not to throngs; When usurers tell their gold i' the field; And bawds and whores do churches build;— Then shall the realm of Albion
Come to great confusion:
Then comes the time, who lives to see't, That going shall be us'd with feet.
cujo espírito vive em amargura, mas logo sua sabedoria de Bobo lhe revela uma essência comum e uma disposição para a bondade:
Exemplo em ―Noite de Reis‖:
OLÍVIA – Levem embora o bobo.
BOBO – Não ouviram, camaradas? Levem embora a senhora. (Ato I, Cena V)115
Para Bloom (2000:290) Feste é o único que possui um cérebro nessa peça, mas todos os personagens pulsam de vitalidade. Mais adiante, Feste ainda se utiliza de suas habilidades de persuasão para convencer Olívia de que ela é a Boba:
BOBO – [...] A senhora pediu que levassem embora quem é bobo; portanto, eu repito, levem-na embora.
OLÍVIA – Senhor, eu pedi-lhes que o levassem.
BOBO – Erro de apreensão do mais alto grau. Senhora, cucullus non facit monachum. O que quer dizer que não uso roupa de bobo no meu cérebro. Madona, deixe-me provar-lhe que é boba.
OLÍVIA – E pode fazê-lo?
BOBO – Com a maior facilidade, madona. OLÍVIA – Apresente suas provas.
BOBO – Tenho de tomar-lhe o catecismo para isso, madona. Minha boa ratinha, responda-me.
OLÍVIA – Na falta de outra tolice qualquer, ouvirei suas provas. BOBO – Boa madona, por quem chora?
OLÍVIA – Bom bobo, pela morte de meu irmão.
BOBO – Creio que a alma dele está no inferno, madona. OLÍVIA – Eu sei que a alma dele está no céu, bobo.
BOBO – Então é boba, madona, por chorar pela alma de seu irmão, que está no céu. Levem embora a boba, cavalheiros. (Ato I, Cena V)116
E quando Malvólio recrimina o Bobo por sua insolência, este é defendido por Olívia: ―Não há calúnia em bobo da casa, mesmo quando só faz deblaterar; nem ofensa em homem sabidamente sério, mesmo quando só faz recriminar‖. Olívia sabe que o Bobo tem permissão para chegar até esse grau de intimidade: ela reconhece
115 CLOWN: Do you not hear, fellows? Take away the lady.
116
CLOWN: [...] Good madonna, give me leave to prove you a fool. OLIVIA: Can you do it?
CLOWN: Dexterously, good madonna. OLIVIA: Make your proof.
CLOWN: I must catechise you for it, madonna: good my mouse of virtue, answer me. OLIVIA: Well, sir, for want of other idleness, I'll bide your proof.
CLOWN: Good madonna, why mournest thou? OLIVIA: Good fool, for my brother's death. CLOWN: I think his soul is in hell, madonna. OLIVIA: I know his soul is in heaven, fool.
CLOWN: The more fool, madonna, to mourn for your brother's soul being in heaven. Take away the fool, gentlemen.
o que há por trás do tema da inversão. Olívia sabe que não é por maldade ou por presunção que o Bobo a chama de Boba. Ela compreende que nessa brincadeira estão as verdades que os outros não se atrevem a dizer: somente ao Bobo é permitida tal intimidade. Ela ainda demonstra interesse em ter a opinião do seu Bobo, pois sabe que ele não irá mentir. E a verdade é dita com todas as letras: ela é uma Boba por chorar a morte do irmão. Isso porque o Bobo possui a visão carnavalesca sobre a morte ― ele vê a morte em toda a sua força positiva como um novo começo:
Tudo dá às comédias de Shakespeare um ar de festa, sobretudo se acrescentarmos o lirismo das canções pastorais, os movimentos de dança, a música de acompanhamento com a flauta ou com o tamborim. Desde então a comédia aparece bem como uma vitória sobre a morte, significativa vitalidade e renovação de uma exaltação mítica das forças da primavera. A catarse cômica redime da aflita graça a ―alegria e a felicidade que previne mil maus e prolonga a vida‖ (A megera domada). Shakespeare não procura fazer rir do ridículo ou do odioso; a sátira não é seu domínio (CORVIN, 1994:62,63, tradução nossa).
Para Bakhtin (2002), a morte e a ressurreição, a alternância e a renovação compunham os aspectos marcantes da festa117. Em oposição à ideia de imutabilidade e eternidade advinda da Igreja, a linguagem carnavalesca manifesta- se por meio de expressões dinâmicas e mutáveis. Assim, suas formas e símbolos são formados a partir da ideia de ―relatividade das verdades‖. O poder é posto em xeque por meio de uma lógica ―ao avesso‖, que irá ter por consequência na lógica utilizada pelo Bobo da Corte com relação à autoridade do Rei.