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4 CONHECENDO A LIBERDADE

4.1 A LIBERDADE EM KANT

aliado à defesa da liberdade como espontaneidade o insere no pensamento liberal, mas não se pode olvidar que ele erigiu o conceito de liberdade, sob influência do pensamento rousseauniano acerca do autogoverno. Esta conclusão é extraída de seus escritos quando sustentou que “uma pessoa não está sujeita a outras leis senão àquelas que atribui a si mesma (ou isoladamente ou, ao menos, juntamente com outros)”150.

Kant elaborou um conceito de liberdade distinto daquele até então exposto pelo pensamento filosófico que o antecedeu, exceção feita à noção construída por Rousseau que a concebeu enquanto “dar-se leis”151. Na verdade, a idéia de lei permeia todo o pensamento kantiano152, cujas críticas buscam as leis do conhecimento teórico e as leis da ação prática, tendo a primeira abordado a falibilidade da razão pura quando intenta conhecer sem o uso das formas da sensibilidade; e a segunda demonstrado que a razão pura é a única a informar a ação, já que o homem age sem submissão às leis da natureza e, portanto, sob leis da liberdade.

Na visão de Kant, o homem é dotado de três faculdades: a sensibilidade, o entendimento e a razão (em sentido estrito), extraindo-se através delas a intuição, os conceitos puros e as idéias. Desta forma, para conhecer os objetos, é necessário intuí-los pelas formas puras da sensibilidade (espaço e tempo) e organizá-los sob as categorias do entendimento (conceitos). Sem a intuição, segundo kant, não é possível conhecer. Para além da sensibilidade, a razão pode compreender os conceitos, mas nunca os objetos. Esses postulados, expostos na grande crítica (Crítica da razão pura), são preparatórios da crítica da razão prática, que apresenta a razão como informadora das leis da ação apenas, porque, enquanto razão pura, destituída de qualquer interferência da sensibilidade, nada se conhece sobre os objetos, mas apenas se ordena através da vontade. O homem, que integra, ao

150 KANT, Immanuel. A metafísica dos costumes. Trad. Edson Bini. Bauru: Edipro, 2003, p. 66.

151 SALGADO, Joaquim Carlos. A idéia de justiça em Kant. 2. ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1995, p. 226.

152 “Cada coisa na natureza atua segundo certas leis. Só um ser racional possui a capacidade de agir segundo a representação das leis, isto é, por princípios, ou, só ele possui uma vontade. Como para derivar as ações das leis se exige a razão, a vontade outra coisa não é senão a razão prática.”

(KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes e outros escritos. Tradução de Leopoldo Holzbach. São Paulo: Martin Claret, 2003, p. 43)

mesmo tempo o mundo fenomênico e o numênico, submete-se às leis da natureza quando age por inclinação e pelas leis da razão pura quando age pela vontade.

Essa conclusão decorre, necessariamente, da liberdade, pois se todas as ações humanas estivessem reguladas pelas leis da causalidade, os comportamentos que a elas correspondem seriam previsíveis153. Além do mais, estariam também sempre relacionados a uma causa e sabe-se que a razão prática que informa a ação é determinada pela vontade de cada indivíduo. Nisso reside a distinção dos sentidos da liberdade em Kant154:

A vontade é uma espécie de causalidade dos seres vivos, enquanto racionais, e liberdade seria a propriedade dessa causalidade, pela qual ela pode ser eficiente, não obstante as causas estranhas que possam determiná-la; assim como a necessidade natural é a propriedade da causalidade de todos os seres irracionais de serem determinados à atividade pela influência de causas estranhas.

A definição da liberdade acima proposta é negativa e, portanto, estéril para conhecer a sua essência; mas dela decorre um conceito positivo dessa mesma liberdade que já é bastante rico e fecundo.

Kant associa a liberdade negativa àquelas ações humanas desvinculadas de submissão às leis da natureza. Assim, o homem é livre enquanto o seu agir não é determinado pelas inclinações. O dualismo natureza/razão é explicado pela dicotomia causalidade/liberdade (em sentido negativo). Quanto ao autogoverno, no sentido de autoria das leis da vontade, que é a própria razão pura prática, a liberdade se manifesta positivamente. Na Metafísica dos costumes, esclarece os dois conceitos, distinguindo a liberdade negativa, como “independência do ser

153 “Pode-se, pois, admitir que se nos fosse possível ter, quanto ao modo de pensar de um homem, tal como ele se mostra por ações interiores e exteriores, uma visão tão profunda a ponto de que mesmo o mais insignificante de seus motivos, nos fosse conhecido e, do mesmo modo, todas as circunstâncias exteriores atuantes sobre ele, então se poderia calcular com segurança a conduta de um homem no futuro, como os eclipses do sol ou da lua e, malgrado isso, sustentar que o homem é livre.” (KANT, Immanuel. Crítica da Razão Prática. Trad. Rodolfo Schaefer. São Paulo: Martin Claret, 2004, p. 109)

154 KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes e outros escritos. Tradução de Leopoldo Holzbach. São Paulo: Martin Claret, 2003, p. 79.

determinado por impulsos sensíveis” da liberdade positiva que constitui a

“capacidade da razão pura de ser, por si mesma, prática”155.

Num primeiro lance de olhos, somos tentados a relacionar as duas liberdades, consideradas por Kant como interdependentes, às liberdades positiva e negativa, dicotomizada por Berlin e Bobbio, tendo em vista a aparente relação da espontaneidade com a ação desimpedida e da autonomia com o “dar-se leis”, mas, na verdade, Kant chama negativa a liberdade pressuposta em virtude da racionalidade, legitimadora e fundante do direito e da moral (espontaneidade), e de positiva a autonomia de realização prática da própria vontade. Na definição kantiana, as duas dimensões da liberdade se interconectam e não se excluem como sói acontecer com aquela dicotomia protagonizada por Berlin. Não se submetendo às leis da natureza, o homem é negativamente livre e, ao ser o autor das leis que dirigem sua ação, ele detém a liberdade, de forma positiva.

É certo que, na distinção kantiana, a liberdade negativa é concebida na dimensão da ação e a positiva na escolha, mas ambas são momentos distintos de uma condição humana que não se quebranta: a racionalidade, que, por sua vez, determina a dimensão teleológica do agir humano156. A impossibilidade de fragmentação entre uma e outra é sustentada por ele quando diz que “a vontade dirige com absoluta necessidade e não é ela mesma sujeita a nenhum constrangimento. Somente a escolha pode, no entanto, ser chamada livre”157.

Diferentemente desta concepção, a liberdade negativa, enquanto agir sem impedimentos, em que impedimento também pode significar a lei, é inspirada em um tipo de liberdade chamada psicológica por Kant, que a despreza, porquanto erigida com fundamento no mundo empírico. Para ele, a explicação de alguns filósofos, quando intentam situar o homem livre no mundo físico através de um conceito de

155 KANT, Immanuel. A metafísica dos costumes. Trad. Edson Bini. Bauru: Edipro, 2003, p. 63.

156 “Um ser racional pertence ao reino dos fins na condição de membro quando nele é legislador universal, ainda que igualmente submetido a essas leis. Pertence-lhe na condição de chefe quando, como legislador, não está submetido à vontade de um outro. O ser racional tem de se considerar sempre como legislador em um reino de fins possível pela liberdade da vontade, seja como membro, seja como chefe.” (KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes e outros escritos. Tradução de Leopoldo Holzbach. São Paulo: Martin Claret, 2003, p. 64)

157 KANT, Immanuel. Op. Cit., 2003, p. 69, nota 155.

liberdade natural, tal qual se chama “movimento livre ao movimento de um relógio porque ele próprio move os seus ponteiros, sem que seja movido por nada de fora”158, é um engano. Esta crítica se dirige a Hobbes, que formulou um conceito mecanicista de liberdade, tendo sua doutrina obtido inúmeros séquitos.

Dito isto, obrigatoriamente teremos que admitir que não existe uma ação racional livre de impedimentos que não esteja fundada na razão e que não pressuponha escolhas. Assim, há que se investigar se a ação decorre de uma livre escolha, sendo necessária, quando do afastamento dos obstáculos para a garantia de um número máximo de opções, a referência aos valores que a sociedade deseja realizar, para, em seguida, assegurar-se uma ação desimpedida. Na construção do conceito filosófico de liberdade, abordaremos esses pontos importantes, antes, porém, de chegarmos a ele, necessário se torna emitir nosso posicionamento acerca dos fundamentos da liberdade.