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3 OS SENTIDOS DA LIBERDADE

3.2 A LIBERDADE POSITIVA

exercício do poder do soberano, hipótese em que se subentende que todos os atos do soberano são autorizados pelo súdito, através do pacto que renunciou à liberdade em troca da paz. Esse pacto, no entanto, não é absoluto, mas, ao contrário, sofre algumas restrições quanto àqueles direitos que não são transferidos, tais como: o direito de o súdito defender sua própria vida ou o direito à não confissão de crimes. Assim, os súditos têm liberdade em tudo aquilo que não pode ser objeto de renúncia, a saber: recusar-se a si próprio, visto que o pacto é deduzido da autorização expressa combinada com o fim pacificador para o qual concorreram as vontades renunciantes dos súditos. Do exposto, deduz Hobbes que é nula a cláusula contratual em que o súdito se compromete a matar-se. A liberdade em Hobbes pode ser exercida nas seguintes situações: defesa da vida e do direito de não confessar crime; atos permitidos pelo soberano; fatos não previstos na lei (permissão negativa).

Resumindo os pontos principais da teoria hobbesiana, é perceptível que sua teoria mecânica da liberdade fundada na lei da inércia tem como critério de validade o método das ciências da natureza e, por isso, associou a liberdade ao agir desimpedido, como se o ser humano não decidisse antes de agir. Também é importante destacar os resultados desse conceito para o direito, segundo o qual a liberdade se inscreve naquele espaço vazio onde não há lei, porque se o homem tende a se movimentar sem destino até que uma força o detenha, a lei, que representa essa força contrária (mandado ou proibição), é um impedimento.

sentido positivo de liberdade, segundo Berlin, “tem origem no desejo do indivíduo de ser seu próprio amo e senhor”132. De forma enfática manifesta-se o autor:

Quero que minha vida e minhas decisões dependam de mim mesmo e não de forças externas de qualquer tipo. Quero ser instrumento de mim mesmo e não dos atos de vontade de outros homens. Quero ser sujeito e não objeto, ser movido por razões, por propósitos conscientes que sejam meus, não por causas que me afetem, por assim dizer, a partir de fora. Quero ser alguém e não ninguém, alguém capaz de fazer – decidindo, sem que decidam por mim, auto conduzido e não sofrendo influências de natureza externa ou de outros homens como se eu fosse uma coisa, um animal, um escravo incapaz de interpretar o papel humano, isto é, de conceber metas e diretrizes inteiramente minhas, e de concretizá-las.

A liberdade em sentido positivo encarna a autonomia, o poder de fazer escolhas ou de seguir leis para as quais se deu assentimento. Desde os romanos é corrente a noção de liberdade oposta à de escravidão, tendo-se como escravo todo aquele que é dirigido por outrem e, nesse sentido, como escravo o povo que é governado por um tirano. Esse pensamento surgiu, inicialmente, para exigir-se a cumplicidade de interesses entre soberano e povo, partindo-se da premissa de que a vinculação daquele a regras que convergissem para a soberania popular resultaria na verdadeira liberdade.

O homem visto como fim e não como meio é o verdadeiro fundamento desse sentido, vez que, seguindo a trilha do pensamento kantiano, é dotado de razão prática que é a capacidade de a vontade determinar a escolha para a ação133. A doutrina liberal que subjaz ao seu pensamento é deduzida de sua ênfase no indivíduo, mas a noção filosófica de liberdade é perfeita, porque não a distingue entre decisão e ação, antes, porém, as considera como momentos de uma mesma capacidade racional humana. Bobbio circunscreve a liberdade positiva no querer.

Nisso reside uma confusão de ordem empírica que nasce da evidência de que os homens são racionais. Distinguir o querer do agir é o mesmo que considerar que os homens agem, de alguma maneira, sem que escolhas precedam suas atitudes.

132 BERLIN, Isaiah. Quatro Ensaios sobre a Liberdade. Tradução de Wamberto Hudson Ferreira.

Brasília: UnB, 1981, p. 142.

133 KANT, Immanuel. A metafísica dos costumes. Trad. Edson Bini. Bauru: Edipro, 2003, p. 63.

Berlin, associando a liberdade positiva à democracia134 – opinião não de todo acertada já que a democracia é a expressão apenas coletiva da liberdade positiva –, entende que Mill confunde os dois sentidos de liberdade, quando assevera que

“nenhuma sociedade é livre, qualquer que seja a sua forma de governo, se nela não se respeitam, em geral, essas liberdades”135 (aquelas defendidas em sua liberdade, consistente, principalmente na ampla discussão e expressão de pensamento).

Prossegue, dizendo que Mill, ao considerar incompatível a liberdade com regimes nos quais não haja autogoverno exacerba a perspectiva da liberdade sob a óptica da área de controle, ao invés de sua fonte, sentidos que não estão necessariamente implicados, uma vez que, sob o ponto de visto lógico, há compatibilidade entre um regime autocrático e a garantia de certas liberdades individuais.

Decerto que Mill não faz distinção entre fonte de autoridade e área não sujeita a impedimento, o que levou Berlin a sustentar que ele incorreu em confusão quanto aos dois conceitos. Talvez Mill estivesse um passo à frente de Berlin, por considerar que o homem, dotado de racionalidade, deveria ser o próprio autor de suas escolhas naquilo que concernia aos seus interesses, autorizando-se intervenção da sociedade apenas para proteger os demais contra possíveis danos. Ora, essa construção, partindo do homem como ser que se auto governa, não pode ser classificada como liberdade negativa apenas porque Mill era liberal e defendia a preservação de esfera da vida privada isenta de interferências pela sociedade. O que necessário ressaltar é que não é possível, dentro de uma abordagem ética, dissociar ação de escolhas, como pretendem Bobbio e Berlin.

Sendo defensor da diversidade e da individualidade como atributos naturais, Mill não dissocia escolhas de área de atuação, uma vez que a racionalidade, qualidade primeira e última, permeia toda a sua construção. Segundo o autor, a liberdade está visceralmente relacionada a escolhas e, no que concerne ao indivíduo, a escolha cabe a ele, consoante restou evidenciado de forma clara nesta passagem:

134 BERLIN, Isaiah. Quatro Ensaios sobre a Liberdade. Tradução de Wamberto Hudson Ferreira.

Brasília: UnB, 1981, p. 141.

135 MILL, John Stuart. Sobre a Liberdade. Trad. Antônio da Rocha Barros. Petrópolis: Vozes, 1991, p. 56.

Nem apenas as pessoas de decidida superioridade mental possuem justo título a orientarem a vida de uma maneira autônoma. Não há razão para que toda a existência humana se construa por um só modelo, ou por um pequeno número de modelos. Se se possui tolerável soma de senso comum e de experiência, o modo próprio de dispor a existência é o melhor, não porque seja o melhor em si, mas porque é o próprio.136

Por isso, não há contradição na aparente confusão operada por Mill, ao conceber a liberdade dos liberais – para a qual a concepção jusfilosófica acenou com a expressão liberdade negativa ou liberdade dos modernos – como autogoverno, noção que tomou o sentido histórico de escolhas políticas e, mais propriamente, escolhas levadas a cabo pela maioria, essa maioria tão indigesta de que falava Mill, a qual, segundo ele, era responsável pela mediocridade popular e pela imposição de costumes uniformes que transformavam os homens em autômatos.

O fato de ter-se associado historicamente o sentido de liberdade positiva a escolhas coletivas não muda o critério utilizado para distingui-la da liberdade negativa, qual seja, a fonte de autoridade, de forma que, em se tratando de escolhas, pode-se falar de decisões individuais ou coletivas. Se apenas, neste último modelo, foi tomada a liberdade positiva, não se pode concluir que as escolhas individuais estejam inscritas na liberdade negativa, mas podemos deduzir que, nesse âmbito, devemos nos ater aos limites da dogmática jurídica.

De fato, quando falamos de escolhas individuais, entramos no emaranhado das liberdades negativas. Esse é o verdadeiro ponto de divergência política. Não se pode daí deduzir que os sentidos da liberdade engendraram essa fissura, fazendo daí surgir os defensores de uma ou de outra forma de liberdade.

Tal desencontro sempre existiu nas formas dicotômicas sociedade/indivíduo, individual/coletivo, público/privado. Não adianta agora disfarçá-lo, sustentando que existem dois modos de se conceber a liberdade. Existe um apenas e somente assim pode ser concebida como direito fundamental.

136 MILL, John Stuart. Sobre a Liberdade. Trad. Antônio da Rocha Barros. Petrópolis: Vozes, 1991, p. 109.