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A linguagem politicamente correta como ferramenta de reforma de

2 O PROCESSO CONTEMPORÂNEO DE TRANSFORMAÇÃO DA

3.3 O USO DA LÍNGUA PARA A FORMAÇÃO DAS MENTALIDADES E

3.3.1 A linguagem politicamente correta como ferramenta de reforma de

Não somente a raspagem laica, ou descristianização, vem transformando as

possibilidades de uma comunicação adequada e correta entre as pessoas. Uma forma

relativamente nova de fundamentalismo é responsável por esse nó na língua.

Trata-se da intolerância em roupagem politicamente correta. Obsessão da modernidade,

a intolerância vem disfarçada de linguagem politicamente correta, confundindo os desavisados.

O mecanismo de linguagem denominado Politicamente Correto tem origem nos Estados

Unidos, no final dos anos 60 do século xx, mas amadurecido, normalizado e institucionalizado

com a presidência e Bill Clinton. O fenômeno tem como base duas colunas: o problema

conhecido como “multiculturalismo” e o reconhecimento político dos “direitos das minorias”

(BENTO, 2008, p. 2-3).

Como instrumento revolucionário de uma reforma das “mentalidades”, o Politicamente

Correto busca atuar de modo a corrigir as representações da linguagem e o vocabulário,

atuação das mulheres. Em outras palavras, não basta que uma parte das mulheres ocupe posições econômicas, políticas, religiosas etc., tradicionalmente reservadas aos homens. Como já se afirmou, qualquer que seja a profundidade da exploração-dominação da categoria mulheres pela dos homens, a natureza do patriarcado continua a mesma. A contradição não encontra solução neste regime. Ela admite a superação, o que exige transformações radicais no sentido da preservação das diferenças e da eliminação das desigualdades, pelas quais é responsável a sociedade. Já em uma ordem não-patriarcal de gênero, a contradição não está presente” (SAFFIOTI, 2004, p. 107).

48“A ideologia sexista corporifica-se nos agentes sociais tanto de um pólo quanto de outro da relação de dominação-subordinação. […] Não se pode prosseguir sem, pelo menos, dar uma pincelada nunca questão bastante séria e pouco mencionada. Sexismo e racismo são irmãos gêmeos. Na gênese do escravismo constava um tratamento distinto dispensado a homens e a mulheres. Eis porque racismo, base do escravismo, independentemente das características físicas ou culturais do povo conquistado, nasceu no mesmo momento histórico em que nasceu o sexismo. […] Retomando o nó (Saffioti, 1985), difícil é lidar com esta nova realidade, formada pelas três subestruturas: gênero, classe social, raça/etnia, já que é presidida por uma lógica contraditória, distinta das que regem cada contradição em separado” (SAFFIOTI, 2004, p. 124-125)

permitindo um tal acertamento nas mentalidades, que raspe das palavras quaisquer intenções e

“acepções potencialmente discriminatórias que as palavras possam conter ou sugerir” (BENTO,

2008, p. 2-3).

Um dos primeiros resultados da purificação linguística implementada pelos

multiculturalistas e causados pelo politicamente correto foi a transformação do negro em

afro-descendente e do índio em nativo. Outros resultados ocorreram. “Entre o extenso rol dos

eufemismos absurdos e dos neologismos assépticos propostos pelos novos Ayatollahs da

palavra constam prodigiosas criações verbais que configuram uma verdadeira polícia da palavra”

(BENTO, 2008, p. 7-8).

Nesse contexto, nos Estados Unidos, foram originadas diversas expressões com a

intenção substituir seus equivalentes politicamente incorretos, tais como differently hirsute

(penteado diferente) como substituto de careca, custody suite (suíte de custódia) em lugar de

cela de prisão, alternative dentition (dentição alternativa) para dentes postiços, vocally

challenged (vocalmente desafiado) para mudo, developmentally challenged (mentalmente

desafiado; deficiente mental) em substituição de retardado mental, chemically inconvenienced

(quimicamente incomodado) para drogado, involuntarily domiciled (domiciliado

involuntariamente) para sem-abrigo, temporary cessation of hostilities (cessação temporária de

hostilidades) para tréguas, terminological inexactitude (inexatidão terminológica) para mentira,

wildlife management (gestão da vida selvagem) para permissão de caçar ou de matar animais,

além de muitas outras situações (BENTO, 2008, p. 7-8).

Como se vê, chega a ser trágico. Sim, porque um escorregão pode ser imperdoável,

como no caso (hipotético, ficcional) narrado pelo romancista Phillip Roth descreve, no romance

The Human Stain, em que o professor Coleman Silk, após quinze anos, deixa de ser reitor para

voltar à sala de aulas, e uma palavra dita por ele, mal interpretada, casou um incidente

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com

os alunos a que se referiu (BENTO, 2008, p. 7-8)

49 “Exemplo elucidativo do funcionamento do 'politicamente correcto' nas Universidades norte-americanas é aquele que Phillip Roth descreve no seu romance The Human Stain. Coleman Silk, a personagem central da narrativa, fora, durante quinze anos, reitor na Universidade de Athena. Em 1995, tendo deixado de ser reitor para poder terminar a sua longa carreira na sala de aulas, voltou, como era sua vontade, a ensinar a sua especialidade: estudos clássicos. Até que um dia, a meio do seu segundo semestre de novo como professor a tempo inteiro, Coleman faz, uma vez mais, a chamada dos alunos, a fim de decorar os nomes dos seus estudantes. Como na quinta semana do semestre ainda havia dois nomes a que ninguém respondera, na semana seguinte Coleman iniciou a aula fazendo a seguinte pergunta: “Alguém conhece estas pessoas? Existem mesmo ou são spooks?”. É esta a pergunta que dá início ao enredo do livro. Pergunta fatídica, na verdade, pois será ela que levará Coleman Silk a cortar todos os laços com a Universidade. Consultando o Webster’s Encyclopedic Unabridged Dictionary of the English Language, o que encontramos como primeiro significado na entrada “spook”? Como significado principal? “1. Informal. Um fantasma; espectro. 2. Calão. Um escritor fantasma. 3. Calão. Uma pessoa excêntrica. 4. Calão (depreciativo e ofensivo). Um preto (a black person)”. Nesse mesmo dia, Coleman é chamado ao novo reitor, a fim de responder à acusação de racismo entretanto apresentada contra ele pelas duas estudantes faltosas. Ficou, então, a saber que as estudantes em causa eram “afro-americanas” e que, apesar de terem faltado à aula,

A intolerância, marcada pela falta de diálogo, por uma conversa de surdo, tem sido uma

tônica nas relações entre grupos que querem impor suas ideias à força, num exercício de

intolerância, podendo apresentar-se sutilmente disfarçada de tolerância.

Fundamentalismo e integrismo são conceitos que representam duas formas mais notórias

de intolerância. Mas nem todos fundamentalistas são integristas e vice-versa. Historicamente, o

“fundamentalismo” é uma forma de interpretação de um livro sagrado. O fundamentalismo

ocidental nasceu no século XIX nos Estados Unidos, caracterizando-se pela interpretação literal das

Escrituras, “sobretudo no que se refere às noções de cosmologia, cuja veracidade a ciência da época

parecia colocar em dúvida”. No plano hermenêutico, o fundamentalismo é intolerante, mas não

necessariamente no plano político (ECO, 2010, p. 111-112).

O integrismo é posição religiosa e política em que os princípios religiosos devem ser,

simultaneamente, modelo de vida política e fonte para as normas editadas pelo Estado. Mas

nem todo integrismo é conservador. Há integrismos que progressistas e revolucionários, como

movimentos católicos que pugnam por uma sociedade inspirada em princípios religiosos, sem,

contudo, determinar uma interpretação da Bíblia ao pé da letra, a exemplo de Teilhard de

Chardin (ECO, 2010, p. 112-113).

As fronteiras da intolerância são, muitas vezes, sutis, como ocorre no fenômeno do

politicamente correto na América. De um lado, ele surgiu para promover a tolerância e o

haviam já tomado conhecimento da frase com que Coleman questionara publicamente a sua ausência. Uma vez interrogado e confrontado com a palavra auto-incriminadora, eis o que Coleman Silk respondeu ao novo reitor: 'Mas eu estava, porventura, a referir-me à natureza ectoplásmica dos alunos? Não é evidente que não estava?! Essas duas estudantes não tinham comparecido a uma única aula. Isso é tudo o que eu sabia a seu respeito. Usei a palavra no seu significado habitual e principal: «spook» como um espectro ou um fantasma. Não fazia a menor ideia de qual poderia ser a sua cor. Já soube, talvez há uns cinquenta anos atrás, que «spooks» era um termo odioso por vezes aplicado aos negros (to blacks). Caso contrário, como sou absolutamente meticuloso com as susceptibilidades dos estudantes, jamais teria usado essa palavra. Considere o contexto: Elas existem mesmo ou são «spooks»? A acusação de racismo é espúria. É absurda. Os meus colegas sabem que é absurda e os meus alunos sabem que é absurda. A questão, a única questão, é a ausência dessas duas estudantes e a sua flagrante e indesculpável negligência no estudo. O que é exasperante é que a acusação não é apenas falsa – é espectacularmente falsa.' [...] 'Mas, professor Silk', retorquiu o novo reitor, 'não foi com esse sentido que a palavra foi interpretada. Permita que lhe leia o segundo significado do dicionário: «2. Depreciativo. um preto». Foi com esse sentido que foi interpretada, e o senhor também pode ver a lógica da frase: Alguém as conhece, ou são pretas (blacks) que vocês não conhecem?'. 'Se a minha intenção', objecta Coleman, 'fosse dizer: «Alguém as conhece, ou não as conhecem porque são pretas (blacks)?», seria isso que eu teria dito. «Alguém as conhece, ou nenhum de vocês as conhece por se tratar de duas estudantes pretas? Alguém as conhece, ou elas são pretas (blacks) que ninguém conhece?» Se eu tivesse querido dizer isso, tê-lo-ia dito exactamente assim. Mas como é que eu poderia saber que eram estudantes pretas (blacks) se jamais lhes pus os olhos em cima, e se, tirando os seus nomes, nada sabia a seu respeito? O que sabia, incontestavelmente, é que eram estudantes invisíveis – e a palavra para invisível, para um fantasma, para um espectro, é a palavra que eu usei no seu significado principal: spook.' [...] Tendo dito o estritamente suficiente em sua defesa, considerando o assunto encerrado, o ex-reitor Coleman Silk foi para casa'.

O emblemático exemplo de The Human Stain, com o trágico destino de Coleman Silk, é sumamente eloquente quando se trata de perscrutar os meandros obscuros do “politicamente correcto” e de avaliar a sanha persecutória que, não raras vezes, motiva os seus acólitos universitários. Como uma palavra involuntária, dita espontaneamente, sem, aparentemente, se precisar sequer de pensar, pode, afinal, trair ou perder para sempre aquele que inadvertidamente a profere...!” (BENTO, 2008, p. 4-6).

discernimento de diferenças, a exemplo da racial, sexual e religiosa. Paradoxalmente, se

transformando numa nova forma de fundamentalismo que ataca sistematicamente a linguagem

cotidiana e que promove a interpretação literal, em detrimento da intenção e do sentido, de

modo que se pode discriminar alguém desde que com palavras gentis, em conformidade com a

linguagem politicamente correta (ECO, 2010, p. 113).

A intolerância está na raiz das diversas formas de fundamentalismo que, a exemplo do

racismo pseudocientífico, têm raízes biológicas, porque não aturamos os diferentes, porque sua

pele é de cor diferente, falam idiomas estranhos, comem animais exóticos etc. (ECO, 2010, p.

113-114).

A intolerância irracional, selvagem, está fundada numa dinâmica que pode ser emprestada

a qualquer doutrina preconceituosa. A violência da intolerância selvagem intimida os intelectuais.

Se de um lado, isso indica que eles não devem perder tempo tentando reeducar os adultos, por

outro lado, aponta para a necessidade de uma educação constante, iniciada na mais tenra infância,

para que possa forjar o caráter dos futuros adultos (ECO, 2010, p. 114-117).

António Bento (2008, p. 8) identifica em outra obra de Umberto Eco

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a irresignação

deste perante uma manobra que apelida furor higiênico e inquisitorial, e cujas características

declinadas evidenciam tratar-se do fundamentalismo feminista, no início do movimento do

politicamente correto, como taxar mankind de expressão sexista, substituindo-a por humanity,

porque o prefixo man excluiria as mulheres da humanidade. Depois disso, o prefixo man foi

removido de vários outros termos comuns, como as mudanças de manhole para femhole,

menstruate para femstruate e manipulate para personipulate, a tal ponto que o feminismo mais

radical chegou a sugerir a substituição de history por herstory (BENTO, 2008, p. 8).

As ideologias que se manifestam de forma de intolerante precisam aprender a respeitar

as diferenças, a pautar-se dentro dos limites da boa convivência, o que talvez signifique que

devam dar lugar a uma nova atitude, para o bem de todos, independentemente das opções

pessoais de vida.