2 O PROCESSO CONTEMPORÂNEO DE TRANSFORMAÇÃO DA
2.1 EM BUSCA DE UM CONCEITO DA FAMÍLIA OCIDENTAL
A definição do que é uma família tem sido transformada ao longo da história da
humanidade, e com maior velocidade nas ultimas três ou quatro décadas. Definir com
objetividade o que seja uma família contemporânea não é tarefa simples.
Logo no início do capítulo introdutório da versão pública em Portugal da 2ª edição de
sua obra Sociologia da Família Contemporânea, François de Singly (2011, p. 7) afasta qualquer
expectativa do leitor encontrar nela “uma resposta clara à pergunta 'o que é uma família?' […],
visto que uma das especificidades das famílias contemporâneas é a 'fluidez' desta definição.”
Não é diferente, numa primeira vista, a posição de Pierpaolo Donati (2008, p. 49), sobre
a dificuldade em definir o que seja a família, defini-la sempre foi algo complexo como
quebra-cabeça, porque o termo abarca uma ampla variedade de “formas sociais primárias que apresentam
estruturas relacionais bastante diversificadas e com limites variáveis de cultura a cultura,” o que
dificulta mas não inviabiliza a conceituação da família (DONATI, 2008, p. 49).
As conceituações da família contemporânea em Pierpaolo Donati e em François de
Singly encontram alguns pontos em comum. Não se pode afirmar que uma seja concreta e a
outra seja volátil. Mas para melhor compreender suas diferenças e complementaridades, não
seria errado afirmar que a conceituação de Donati é, senão mais concreta, ao menos mais
palpável, enquanto a de Singly é, senão mais volátil, por certo mais fluida.
Para Donati (2008, p. 48), se de um lado as diferenças culturais criavam certa
dificuldade para uma representação universal da família, por outro, tais diferenças parecem
minimizar-se, indicando não o desaparecimento da família, mas evidenciando um processo
sociocultural de uma nova modificação da família.
Nesse contexto, é necessário adotar um olhar que não encare a família como ‘coisa’,
porque equivocada, mas antes como relações, ora com a prevalência de alguma característica,
ora uma mescla entre elas. A visão relacional da família alberga quatro noções: a primeira
corresponde à casa, como lugar-espaço; a segunda refere-se à analogia orgânica com o
organismo biológico, como célula da sociedade; a terceira enquadra-se como padrão simbólico,
isto é, como modelo; e, por último, mas não menos importante, as interações recíprocas
intersubjetivas entre seus membros, no âmbito, pois, das relações sociais. As diferentes teorias
revelam a prevalência de uma destas abordagens. “Mas de qualquer forma, é possível dizer que,
à medida que a sociedade se articula, torna-se complexa e se diferencia, devemos nos afastar
de analogias espaciais e biológicas para assumir um ponto de vista relacional” (DONATI, 2008,
p. 49).
É também um grupo social humano primário, bastante específico, não de mera
convivência, mas de relações intersubjetivas entre sexos e gerações, cujos limites não devem
ser compreendidos como barreira de ordem biológica ou material, “mas como modalidades
culturais para considerar as relações sociais esperadas estáveis entre sexos e gerações, as quais
podem se acrescentar relações de parentesco e/ou de serviços relativas às funções que são
inerentes às primeiras.”
(DONATI, 2008, p. 50-51)Pierpaolo Donati (2008, p. 51) sintetiza tal ideia como um “'sistema social vivente' que
preside a reprodução primária da sociedade”, alertando para o fato de que também deve ser
compreendido o “como” (método) a família é construída socialmente. Mas esta noção do
construcionismo epistemológico deve ser adicionada, e não substituir a noção da família como
grupo/instituição social, porque esta não depende de convenções sociais.
A ideia abarca natureza (um grupo de pessoas ligadas por distintos sexos e gerações) e
cultura (as relações sociais entre as pessoas que compõem o grupo). Nesse aspecto, ela é a
passagem da natureza à cultura. Primeiro, porque é regulada sobre vínculos e proibições.
Segundo, porque como relação, é modelada pelo contexto histórico e sociocultural. Por último,
e mais importante porque, como relação autônoma, “tem sua própria distinção mestra que
constitui a sua razão de ser social: o ser-dever-ser uma relação de plena reciprocidade entre
sexos e gerações” (DONATI, 2008, p. 52).
Exsurge daí a variabilidade das formas representadas por dois eixos que constituem a
família nuclear: a relação conjugal, ou do casal, que, em síntese, pode ser monogâmico,
poligâmico ou poligínico, baseada no matrimônio, ou não, conforme o ponto de vista adotado;
e as relações entre pais e filhos, que pode ser definida a partir das relações de filiação como
patrilinear ou matrilinear, das relações segundo o número de gerações presentes, como
pais/filhos, netos/avós etc (DONATI, 2008, p. 52-53).
Para a classificação para a família europeia, inserida, portanto, no contexto da
ocidentalidade do presente trabalho, Pierpaolo Donati (2008, p. 53-54) adotou o modelo de
Peter Laslett, o qual é orientado pelos dois eixos casal/gerações, em que relaciona cinco tipos
de família, ora resumidamente apresentados: o primeiro, da famílias nucleares ou simples
(completa: casal com ou sem filhos; ou incompleta: mãe viúva ou pai viúvo, com filhos); o
segundo sem estrutura (irmãos ou amigos); o terceiro, dos solitários; o quarto, as extensas,
vertical ou horizontalmente (uma unidade conjugal e um ou mais parentes conviventes); e, em
quinto, as múltiplas, vertical ou horizontalmente (contêm duas ou mais unidades conjugais.
Complexas são as famílias extensas e múltiplas, em contraposição à família simples.
Ainda assim, tais considerações talvez não sejam satisfatórias. Donati reconhece as
dificuldades, que parecem ser finalmente suplantadas com o olhar sobre a família como uma
relação social plena, fenômeno observável mesmo em sociedades como as da Europa ocidental,
muitíssimo diferenciadas e funcionalmente especializadas. Em parte, a dificuldade de definição
de família deve-se ao seu caráter suprafuncional, pois ela não existe para satisfazer apenas uma
ou algumas funções sociais, mas por possibilitar uma gama variada delas, porque ela consiste
numa relação social plena, correspondendo a “um 'fenômeno social total' que direta ou
indiretamente, explícita ou implicitamente – implica implica todas as dimensões da existência
humana, desde as biológicas, às psicológicas, econômicas, sociais, jurídicas, políticas e
religiosas” (DONATI, 2008, p. 55).
Em razão da característica suprafuncional, “o símbolo da família é um dos mais fortes,
estáveis e relevantes ao longo da vida social, desde o início da história humana até hoje”
(DONATI, 2008, p. 55).
Num panorama histórico de longa duração, percebe-se que o sentido, as estruturas e as
funções empíricas da família são diversificados, de acordo com o tipo da sociedade em que é
observada. Assim, embora em determinados momentos a família tenha tido ora cariz mais
público, ora privado, sempre houve uma variedade bem diversificada das formas familiares,
matizada por diferentes fatores, como estratificação social ou força do poder político, dentre
outros, porém sempre como uma relação, não sujeita a uma rigorosa lei histórica evolucionista.
Portanto, a família não perde progressivamente funções no decorrer da história. Vai-se
transformando, perdendo algumas e adquirindo outras, reformulando “seu significado social
original” (DONATI, 2008, p. 55-59).
Os mesmos sentidos de persistência e variabilidade, e de continuidade e descontinuidade,
no âmbito da família são observados por François de Singly na Introdução da edição brasileira
da 1ª edição de sua obra Sociologia da Família Contemporânea (2007, p. 29), ao sublinhar que
sua análise sociológica segue os princípios que orientaram as ideias que Émile Durkheim
anunciou numa aula em 1892, segundo os quais os mesmos aspectos que a caracterizavam no
final do século XIX, são os mesmos 100 anos depois, isso em contraposição aos discursos e
escritos que consideram que a família viveria em permanente revolução (SINGLY, 2007, p. 29).
Na edição portuguesa, esta circunstância é posta mais claramente. De acordo com a aula
de Durkheim em 1892, a família contemporânea é a família conjugal posterior à família paternal
do Antigo regime, caracterizada a mudança pela primazia atribuída à pessoa, aos laços pessoais,
sem, contudo, prever todas as consequências desta relevância relacional. A importância da análise
de Durkheim está em situar a família da primeira modernidade no centro de um movimento com
duas características: uma, de privatização, com ênfase à qualidade das relações interpessoais; e
uma de socialização, em razão de uma maior intervenção pelo Estado. A partir do fim do século
XIX, a família tem-se tornado mais e mais um espaço no qual os indivíduos aspiram ao
desenvolvimento e à proteção da sua individualidade, que é valorizada. Nesse contexto, a família
é, ao mesmo tempo, “um 'órgão secundário do Estado' que, através das normas, controla, mantém
e regula as relações dos membros da família” (SINGLY, 2011, p. 11-12).
E conclui esta parte, na tradução portucalense, com um texto também presente na edição
brasileira, sintetizando que “[h]omens e mulheres, adultos e crianças organizam a vida privada
no quadro desta dualidade: uma reivindicação de independência coletiva e individual[;] e uma
dependência acrescida em relação à esfera pública” (SINGLY, 2011, p. 12; SINGLY, 2007, p. 30).
Esta noção de entrelaçamento entre o privado e o público já remete a uma das principais
características da família moderna, dentre as que serão examinadas no tópico seguinte.
No documento
REFLEXOS JURÍDICOS DO PROCESSO DE SECULARIZAÇÃO DA FAMÍLIA CONTEMPORÂNEA OCIDENTAL
(páginas 29-33)