2 O PROCESSO CONTEMPORÂNEO DE TRANSFORMAÇÃO DA
4.5 DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA COMO NORMA DE DIREITOS
Impõe-se recordar que a dignidade da pessoa humana corresponde “a via sem fim”,
porque é, ao mesmo tempo, fonte e finalidade da pessoa humana (MAURER, 2009, p. 131). A
realimentação de ordem prática, ou retroatividade, é o que propicia a expansão do conceito.
A positivação da dignidade da pessoa humana como norma jurídica exige uma
conceituação clara. Mas a ambiguidade e a polissemia da expressão dificultam sua conceituação.
Compreendida como uma qualidade atribuída a qualquer ser humano, “passou a ser
habitualmente definida como constituindo o valor próprio que identifica o ser humano como
tal”. Esta definição não contribui para a positivação de uma norma jurídica de proteção da
dignidade. Devido à imprecisão do conceito, a dignidade da pessoa humana “não poderá ser
conceituada de maneira fixista” (SARLET, 2012b, p. 49-52).
Um conceito jurídico de dignidade exige recordar que a dignidade, como qualidade inerente
da pessoa humana, é irrenunciável e inafastável. Por isso, deve “ser reconhecida, respeitada,
promovida e protegida, não podendo, contudo […] ser criada, concedida ou retirada”, pois sempre
está ligada de modo indissociável a cada ser humano. Mais importante do que conceituar é impedir
eventuais violações. Também deve-se notar que as dimensões natural e cultura da dignidade são
complementares e modeladas historicamente (SARLET, 2012b, p. 52-57).
Numa perspectiva negativa, a dignidade da pessoa humana funciona como um “sinal de
pare”, como uma barreira intransponível. Numa perspectiva assistencial, os incapazes, inaptos
a decidir autonomamente de modo responsável, têm assegurado o direito de ser tratados com
dignidade compatível com a condição humana, não podendo ser coisificados. Numa perspectiva
intersubjetiva e relacional, “se um sujeito é um fim em sei mesmo, os seus fins têm de ser quanto
possível os meus”, noção que impõe uma obrigação geral de respeito pela pessoa,
correspondente a um feixe de deveres e diretos. Numa perspectiva comunitária, apenas no
contexto do espaço público da comunidade é que o ser natural é tornado indivíduo e pessoa
dotada de racionalidade. Numa perspectiva relacional e comunicativa, a estima recíproca no
âmbito de uma comunidade funciona como uma ponte a ligar os indivíduos entre si (SARLET,
2012b, p. 57-68).
Não é possível uma conceituação fixista da dignidade da pessoa humana, pois a
compreensão do que seja esta é por demais variada num ambiente multicultural. Do contrário,
qualquer conceituação positiva seria reducionista e restringiria a largueza da noção de dignidade.
Mas é perfeitamente viável considerar que a coisificação da pessoa humana corresponde a um
tratamento indigno. A tarefa fica facilitada se a perspectiva que estabeleça o contexto da
proteção partir de hipóteses concretas de violações. A objetificação, ou coisificação, da pessoa
humana com todas as consequências decorrentes, corresponde à antítese da noção de dignidade
da pessoa (SARLET, 2012b, p. 68-72).
Ante tais considerações, Ingo Wolfgang Sarlet (2012b, p. 73) oferece um conceito em
construção, atualmente com o seguinte conteúdo:
Assim sendo, temos por dignidade da pessoa humana a qualidade intrínseca e distintiva reconhecida em cada ser humano que o faz merecedor do mesmo respeito e consideração por parte do Estado e da comunidade, implicando, neste sentido, um complexo de direitos e deveres fundamentais que assegurem a pessoa tanto contra todo e qualquer ato de cunho degradante e desumano, como venham a lhe garantir as condições existenciais mínimas para uma vida saudável, além de propiciar e promover sua participação ativa e co-responsável nos destinos da própria existência e da vida em comunhão dos demais seres humanos, mediante o devido respeito aos demais seres que integram a rede da vida (SARLET, 2012b, p. 73) itálicos no original
Num Estado democrático de direito, O Estado existe em razão da pessoa humana, não o
contrário. É que a pessoa humana consiste na finalidade essencial, e não meio, da atividade
estatal. Neste ponto, é possível afirmar que a dignidade da pessoa humana existe,
independentemente de seu reconhecimento pelo Direito, muito embora sua efetiva realização e
promoção (dimensões atuadas) dependam do grau de reconhecimento e proteção, como norma,
num dado ordenamento jurídico, desde a norma fundamental. Assim, o direito à dignidade é,
em verdade, “o direito a reconhecimento, respeito, proteção e promoção da dignidade”
(SARLET, 2012b, p. 75-82).
Norma de direitos humanos há que ser compreendida de acordo com a concepção de
Robert Alexy, como um modelo combinado, misto, entre regras e princípios, isso devido à
insuficiência que representam quando tomados isoladamente, de modo que seja possível
traduzir princípios em regras, e vice-versa (ALEXY, 2008, p. 135-144), como também é
possível transformar enunciados sobre valores em enunciados sobre princípios, e, da mesma
forma, o contrário também é exequível, num encadeamento em que, como faces da mesma
moeda, os princípios representam a face deontológica da norma e os valores a face axiológica
(ALEXY, 2008, p. 144-153).
A localização do direito à dignidade da pessoa humana na constituição alemã induz à
impressão de tratar-se de um direito absoluto. Esta impressão reside na circunstância de a norma
da dignidade ser tratada “em parte como regra e em parte como princípio”, além da existência
de um conjunto de condições de precedência que estabelecem a certeza, em elevado grau, de
que, em caso de colisão de princípios, o princípio da dignidade humana há que prevalecer
(ALEXY, 2008, p. 111-112).
Da mesma forma, a positivação da dignidade da pessoa humana no art. 1º, inciso III da
Constituição Federal de 1988 implica não apenas em uma declaração de conteúdo ético, mas
“constitui uma norma jurídico-positiva dotada, em sua plenitude, de status constitucional
formal e material […], carregado de eficácia”. Ai localiza-se o caráter jurídico-normativo da
dignidade da pessoa humana. Ante a sua largueza, os princípios, como mandados de otimização,
não podem ser reduzidos a meras regras de direitos subjetivos individuais (SARLET, 2012b, p.
84-89). Nesse passo, a condição de princípio da dignidade da pessoa humana “é integralmente
compatível com o reconhecimento da plenitude eficacial e, portanto, da plena vinculatividade”
no âmbito jurídico-normativo (SARLET, 2012b, p. 90).
Nesse contexto, não seria errado afirmar que a dignidade da pessoa humana é a base de
todo o ordenamento jurídico, e fundamentos de todos os demais direitos.
4.5.1 A dignidade como requisito para o desenvolvimento da personalidade
O livre desenvolvimento da personalidade é uma cláusula de proteção geral que irradia
por todos os campos da vida, que dá grande uma força expansiva, que só encontra limitações
ante os direitos dos demais (VÁZQUEZ DE CASTRO, 2010, p. 17).
Um dos significados de livre desenvolvimento da personalidade é a “faculdade natural
de que gozam os homens para atuar, conforme seu modo próprio se ser, objetivando aumentar,
ou simplesmente para implementar, suas qualidades diferenciais de ordem física, intelectual ou
moral” (VÁZQUEZ DE CASTRO, 2010, p. 18, tradução nossa).
Mais completo e evidenciando uma dinâmica progressiva, pode ser definida como a
“faculdade natural de que gozam os homens para realizar sem obstáculos, ações ou omissões
que lhes permitam expressar; e aumentar progressivamente, aquelas qualidades de capacidade,
disposição, virtudes e prudência que devem distinguir a pessoa” (VÁZQUEZ DE CASTRO,
2010, p. 18, tradução nossa).
O princípio da autonomia da vontade no âmbito privado integra o princípio do livre
desenvolvimento da personalidade, como princípio geral de liberdade, quer dizer, o poder
de autodeterminação da pessoa, que é uma das espécies do livre desenvolvimento da
personalidade, possui íntima relação com a esfera de liberdade pessoal (VÁZQUEZ DE
CASTRO, 2010, p. 203-204).
No âmbito da família, se acentua a função do casamento como meio de desenvolvimento
da personalidade, em detrimento do seu caráter de instituição social, cuja estabilidade sempre
foi considerada um valor social, em estreita relação com a procriação e a educação dos filhos
(VÁZQUEZ DE CASTRO, 2010, p. 209).
As novas leis que permitem o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a exemplo da
espanhola, se proclamam fundadas no princípio do livre desenvolvimento da personalidade,
com o fim de justificar a supressão do requisito de heterossexualidade (VÁZQUEZ DE
CASTRO, 2010, p. 209-210).
Também o divórcio decorre do princípio do livre desenvolvimento da personalidade.
Mas como o livre desenvolvimento da personalidade encontra limites nos direitos dos demais,
é difícil justificar o divórcio expresso
56, decorrente da vontade unilateral de qualquer dos
cônjuges, quando há filhos pequenos em jogo, assim como em relação aos direitos do outro
cônjuge. É preciso examiná-lo em relação ao direito de procriação e ao direito de fundar uma
família (VÁZQUEZ DE CASTRO, 2010, p. 211-212).
O direito à procriação tem uma característica claramente instrumental, porque dirigido
à perpetuação da espécie, correspondendo este ao seu sentido moral. Em última análise, o
direito à procriação é a família, através do significado que possui a expressão “proteção integral
dos filhos”, a qual, em regra, é assegurada pelas legislações. As crianças devem nascer no seio
de uma família, que lhes acolherá delas cuidará, que deverá observar o princípio do melhor
interesse da criança (VÁZQUEZ DE CASTRO, 2010, p. 213-214).
56“Na Espanha, a Lei 15/2005, de 8 de julho, modificou o Código Civil em matéria de casamento e sua dissolução, permitindo que os casais possam se divorciar diretamente sem ter de passar pelo período de separação, tornando mais ágil, rápido e menos traumático o processo de divórcio, um serviço express. Pela legislação precedente, o divórcio era concebido como o último recurso a que podiam acorrer os cônjuges e só quando era evidente que, depois de um dilatado tempo de separação, a reconciliação já não mais era possível. Em caso algum, porém, o casamento podia ser dissolvido por mútuo acordo dos cônjuges. A nova lei, além de eliminar a exigência obrigatória de se apontar uma causa legal e a conseqüente declaração de culpa pelo fim da união, também diminuiu de um ano para três meses o período mínimo que se deve respeitar, desde a celebração do casamento, para pedir o divórcio, evitando a perpetuação do conflito entre partes que não mais desejam seguir vinculadas. Com isso, a lei evitou um duplo procedimento à dissolução do casamento sem a necessidade de prévia separação de fato ou judicial” (GRISARD FILHO, 2010).