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A Liturgia como Epifania do Mistério Trirrelacional

Pe. Joaquim Cavalcante1

Introdução

Gostaria de iniciar minha fala agradecendo a Equipe Organizadora desta Semana Acadêmica, pela delicadeza do convite que me oferece a oportunidade deste fidalgo e fraterno convívio. Promover eventos como este enobrece, fecunda e agiganta este Instituto, cujo nome é uma perene proclamação da vitória de Cristo que por amor nos salvou na cruz do Calvário. Os protagonistas não são os que sabem mais, são os que mais se empenham por isso eles marcam a história por onde passam. Foi me pedido que falasse algo sobre a Divina Liturgia. E, sem nenhuma pretensão, eu aceitei expor algo sobre “A liturgia como epifania do mistério trirrelacional”. Falo sobre a liturgia em um lugar privilegiado e em um momento especial, pois estamos celebrando os 50 anos da

Sacrosanctum Concilium, o maior documento da história sobre a liturgia. Falo em um

momento singular da minha vida, pois este ano, estou celebrando meus 25 anos de ministério sacerdotal. Boa parte desse tempo foi dedicada ao estudo e ao ensino da liturgia.

Desenvolvimento

Para entrar no assunto, tomo a compreensão teológica arquetípica da liturgia como mistério. Isto é, a liturgia, antes de tudo, é uma ação teândrica-eclesio-trinitária. Por isso mesmo pode ser pensada como epifania do mistério trirrelacional. O mistério trirrelacional é o mistério trinitário, é o mistério de Deus, Pai, Filho e Espírito Santo. É o mistério da fé que professamos como mistério trinitário e celebramos como mistério trirrelacional.

A Trindade é a íntima constituição de Deus em si mesmo. Deus é absolutamente Uno e relacionalmente trino. Isto é em uma só natureza ou essência subsistem três Pessoas distintas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo. O mistério trirrelacional é o mistério da Trindade pensada na teologia como Trindade imanente e econômica e celebrado, na liturgia, como Trindade litúrgica. A trirrelacionalidade se afirma na

A Liturgia como Epifania do Mistério Trirrelacional 31 indivisível consubstancialidade e a distinção de pessoas e se dá na mais absoluta e

indivisível comunhão.

Reportemo-nos para o Monte Tabor. Tomo o evento da transfiguração para pensar a liturgia na perspectiva da fenomenologia do mistério. A celebração litúrgica é

locus fenomenológico da economia do mistério. Nesse sentido a liturgia é uma realidade

que pode ser pensada também na ótica da metafísica. Antes de tudo, a liturgia é uma ação simbólica apontando para além de. E na economia liturtico-sacramental o simbólico fala, comunica e remete para outra realidade sempre maior do o que vemos e tocamos.

O símbolo quer sempre unir o real ao que lhe transcende. A simbologia é a gramática da celebração. É, também, a linguagem do amor. A linguagem do amor tem necessidade da ritualidade simbólica para que o amante expresse à amada seu real sentimento e vice e versa. Por meio da fenomenologia da linguagem dos signos o amado se dá, se explica e se comunica com a sua amada e a amada com seu amado. Cada elemento e gesto simbólico traz, em si, a força do fascínio que transcende o efêmero e enche o transitório de sentido infinito. É nesse sentido que entendo a divina liturgia como evento metafísico e mistagógico2.

Enquanto a semiótica “é ciência que investiga os mecanismos mentais que conduzem ao entendimento dos signos e sua significação”, a liturgia é ciência que, por meio da ritualidade, signos e linguagem introduz no mistério e expressa o mistério. Essa ação é fenomenológica físico-real marcada pela ótica dos sinais e da significação da linguagem da transcendência. Celebrar é transcender. É pregustar na terra o sabor do céu. Celebrar é mergulhar no transcendente fascinante presente na imanência transitória.

Com essas premissas, pode-se entender melhor o ser humano na sua multidimensionalidade. Pois, enquanto celebra, ele vai se afirmando, também, como ser lúdico, religioso, pensante e transcendente.

O homem não nasceu para ser enquadrado em nenhum esquema porque, ele transcende todas as estruturas. Custei compreender o significado do verbo transcender. Foi o grande baluarte do martírio moral, Cardeal François van Tuan, em meio às atrocidades do comunismo selvagem do Vietnã, a quem tive a graça de ouvi-lo algumas vezes na cidade de Pedro, que me fez compreender melhor o que quer dizer transcender. Para mim, ele foi o ícone do homem que soube transcender estruturas de confinamento. Pela força da

2 Mistagogia é uma palavra composta de duas partes: mist’ + agogia. Mist’ vem de mistério e

agogia tem a ver com ‘conduzir’, ‘guiar’... Podemos traduzir mistagogia como a ação de guiar para dentro do

Pe. Joaquim Cavalcante 32 fé, ele transcendia as paredes gélidas daquela cela escura e, por mais de nove anos, com um fragmento de pão e umas gotas de vinho, ele fazia da sua mão trêmula o altar, a patena e o cálice da oblação. E aquele cárcere, palco de tortura, enchia-se daquela glória do Tabor. Por isso transcender é ir além de todos os limites.

O homem, animado pelo fenômeno da fé, irrompe todas as grades e experimenta na história e no mundo o que ele espera em definitivo. Tomemos outro exemplo simples que emana da celebração eucarística. No diálogo inicial da proclamação da Anáfora, o Hierarca (para ser fiel à linguagem de Dionísio Areopagita), nos convida a elevar o nosso coração ao alto. Segundo Cirilo de Jerusalém, elevar o coração ao alto é ter o coração em Deus3. Pergunto: pode haver experiência de transcendência maior e melhor

que essa, está na terra com o coração em Deus?

Também na celebração eucarística somos convidados a unir nossa voz à voz dos anjos e dos santos e na intimidade de filhos e filhas entoamos com as cortes celestes, sem diafonia, o triaghion dos anjos narrado por Isaias 6,3. Cantar a sinfonia dos anjos já é uma grande coisa. Cantar com os anjos e santos, não é uma esplêndida experiência de transcendência? Qual outra ciência possibilita tamanha experiência metafísica?

A liturgia como epifania do mistério de Deus nos faz sair do íntimo e secreto invólucro útero da história e nos insere no sacrário do amor que é o coração de Deus. Ao mesmo tempo, “o poder transformador do Espírito Santo na liturgia apressa a vinda do reino e a consumação do mistério da salvação4”.

Liturgia, epifania do mistério de Deus. Deus, palavra que evoca adoração na experiência da fé e negação frequente no palco dos ditadores do império relativista e agnóstico. Com frequência, proclamam, sem escrúpulo, em muitas universidades e centros acadêmicos que Deus não existe. Outros ridicularizam a Igreja numa orquestra de ruídos estridentes com a intenção de torná-la refém de um silêncio obsequioso e covarde. Para isso, alguns se referem à Igreja de Cristo como uma simples instituição responsável pelo atraso histórico e as tragédias da humanidade. Tal discurso é falso e injusto.

Penso que, tais vozes usam essa orquestra dissonante, para afirmar duas coisas: que o mundo criado por Deus não tem mais lugar para ele e que a Igreja de Deus não é lugar para o homem. Tais afirmações parecem-me carentes de sentido histórico e espiritual. Por isso celebrar é afirmar a primazia de Deus no mundo. A liturgia como epifania do

3 Cirilo de Jerusalém, quinta catequese mistagógica, 4. 4 Catecismo da Igreja Católica, n° 1107.

A Liturgia como Epifania do Mistério Trirrelacional 33 mistério, é o momento singular da afirmação da fé eclesial no Deus Uno e trirrelacional. É

nesse sentido que a Igreja opera com a Trindade, na liturgia, atualizando a mistério da salvação.

Por esse razão, Andronikof, um grande teólogo oriental, fala da liturgia como evento teofânico. Para ele “a vida litúrgica transfigura o mundo em reino de Deus por antecipação profética” (ANDRONIKOF apud MALDONADO, 1997, p. 46). Sim, a liturgia é epifania porque por meio dela “realiza-se a cooperação mais íntima entre o Espírito Santo e a Igreja”. A celebração litúrgica revela e presentifica a vida eclesial e faz nela aparecer a epifania do reino e o sabor de Deus. Até o pão singelo fala do inefável é mistério. Como diz o poeta italiano Bruno Ferrero: “o pão é um mistério. Comer o pão é degustar Deus, é saborear Deus, o pão não é só pão, ele tem o gosto de Deus”.

A liturgia é a hora tabórica da Igreja. Celebrar é subir ao Monte Tabor e, por força da grave responsabilidade do oficio de pastor, devemos também, descer entre as palafitas e subir os morros dos favelados. Quando entramos nos presídios, asilos e assentamentos. Também quando celebramos nas casas de formação. Qualquer lugar onde celebramos, seja um leprosário ou uma majestosa catedral, ali é a hora tabórica da Igreja, porque ali se dá a teofania de Deus.

Assim, podemos dizer que o evento do Tabor é o paradigma da liturgia da Igreja. Por isso nossas celebrações devem suscitar o desejo de prolongar o tempo na presença do cordeiro ressuscitando e glorificado. Nossa liturgia deve levar à participação ativa e frutuosa, não ao ruído dispersivo e irritante. A epifania do mistério é alteridade que evoca continuidade, intimidade e intensidade na contemplação.

O Tabor e o paradigma da transfiguração devem ser refigurados nas nossas celebrações. Pedro e seus companheiros nos ensinam que diante da epifania do mistério devemos construir tendas. As tendas expressam o desejo de intensificar a experiência e eternizar o tempo diante da epifania do mistério.

Compreendemos, assim, que o tempo não se conta, quando somos envolvidos e tocados pelo esplendor da glória. A liturgia não é o Sinai da Torá, é o Tabor, onde o Verbo que se fez homem fala pelo esplendor da sua glória. Da nuvem a voz retumbante do Pai proclama na ação do Paráclito, o principio sem princípio daquela divina filiação. Em meio às tendas que Pedro idealizava, o Filho, Shekinah de Deus, se manifestou como o Senhor daquela glória da qual estão cheios o céu e a terra. Que estupendo convívio!

Pe. Joaquim Cavalcante 34 É nesse sentido que entendemos a liturgia como epifania do mistério, porque compreendemos que a liturgia é o mistério em ação. Que mistério? O mistério trinitário, o mistério pascal e eclesial, o mistério da fé.

A celebração litúrgica não pode não ser compreendida senão como iconografia do mistério. Mistério que se dá na economia da ritualidade, na sinfonia das vozes e no silêncio apofático da contemplação. O silêncio pode ser paradoxalmente compreendido, como o estrondo do mistério.

Quando falo mistério eclesial, estou proclamando que a Igreja é mistério de fé. Assim professamos na Regula Fidei: “creio na Igreja una, santa, católica e apostólica”. Tudo isso constitui o arsenal basilar das verdades da nossa fé. Fé professada no rito batismal, no testemunho dos santos e mártires, pensada pela teologia, sistematizada no dogma e celebrada na liturgia. A fé vê além do que não se ver. Como diz Adélia Prado: “ninguém vê o cordeiro degolado na mesa, o sangue sobre as toalhas, seu lancinante grito, ninguém”.

Mas é ao redor da mesa do Cordeiro que a Igreja dança na liturgia. Também Santo Atanásio, Patriarca de Alexandria, falava sobre o mistério da liturgia como a dança da Igreja ao redor do seu Senhor.

Todo o mistério da fé aparece no mistério da transfiguração. O Pai proclama a primazia do seu amor para com o seu unigênito Filho. A nuvem é configuração da presença do próprio Deus. E sobre aquele monte, a Igreja, no Espírito, contempla por Cristo, a glória escatológica. Pois, na pessoa dos discípulos estava toda a comunidade eclesial. O mistério da transfiguração é o paradigma antecipado da liturgia compreendida como graça concedida aos descendentes de Abraão (C. Andronikof, 47). O evento do Tabor congregou os filhos do antigo pacto (Moises e Elias) e evidencia as testemunhas da nova e eterna aliança, Pedro, Tiago e João.

A glória do Tabor é teofania da tríade divina. Glória manifestada aos discípulos que espasmodicamente, ali queriam permanecer. “Eles experimentaram, assim, a parusia antecipada; eles são, dessa forma, lentamente introduzidos em toda a profundidade do mistério de Jesus” (BENTO XIV, 2007, p. 270). O mistério de Jesus é o mistério de Deus é o mistério de amor. O amor pede aproximação e continuidade até chegar à plenitude da comunhão. A comunhão é o êxtase da fé que nos faz cantar como os bizantinos cantam no tropário das vésperas de Pentecostes e depois do rito da comunhão: “vimos a luz

A Liturgia como Epifania do Mistério Trirrelacional 35 verdadeira, recebemos o Espírito celeste, encontramos a verdadeira fé, adoramos a

Trindade indivisível, que nos salvou”.

Conclusão

Gostaria de concluir esta reflexão com três provocações:

1. Pensar a liturgia como epifania do mistério trirrelacional, impõe-se a necessidade de aprofundar a semiótica litúrgica para favorecer o desvelamento reflexivo da ontologia trinitária.

2. Nosso modo de celebrar o mistério da fé que é o mistério trirrelacional, ou seja, o mistério de Deus em si mesmo, nos leva à contemplação ou à dispersão? Certamente urge resgatar o verdadeiro sentido do mistério da liturgia para que nossas missas não sejam nem ritos frios, nem diversão religiosa?

3. Que o primado do mistério trirrelacional, mistério indivisível e consubstancial, que opera com a Igreja na divina liturgia possa ser adorado e glorificado como Trindade que nos salvou. Tudo isso seja para glória do Pai que nos criou, para o louvor do Filho que nos redimiu e a adoração do Santo Paráclito que nos santifica com o Pai e o Filho na santa Igreja, tabernáculo e santuário de Deus.

Muito obrigado!

Referências Bibliográficas