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Questões metafísicas na fenomenologia de Husserl

Martina Korelc1

Resumo: A partir da consciência da crise das ciências no início do século XX, Husserl se

preocupou em renovar as ciências, de modo que estas pudessem novamente possibilitar aos homens o acesso ao sentido do ser. Fenomenologia assim deve ser em primeiro lugar um método de acesso “às coisas mesmas”, e este método implica a suspensão de todo saber não esclarecido e a elucidação do que é dado com evidência; isto significa a análise daquilo que é dado enquanto pensado na consciência da subjetividade transcendental. Com isto a subjetividade transcendental é compreendida como um primeiro absoluto necessariamente pressuposto em todo o sentido do ser do mundo, e o ser da subjetividade na sua relação essencial ao mundo é o campo de todo o interesse fenomenológico. Ao analisar o ser da subjetividade, Husserl descobre uma orientação para um telos final, uma teleologia, que ele descreve como a forma do ser da subjetividade ou intersubjetividade na sua totalidade. Como origem desta teleologia pode ser pensado Deus. De fato Husserl afirmou que a fenomenologia é um caminho não confessional a Deus. Mas, no interior do campo originário da fenomenologia, a transcendência de Deus pode ser analisada unicamente na sua relação necessária com a subjetividade transcendental; isto é: Deus se mostra na subjetividade como a ideia da perfeição absoluta, à qual todo o devir histórico do mundo e da humanidade aspira e que permanece de algum modo transcendente a todas as realizações históricas, com pólo ideal idealmente transcendente à consciência fática. Ora, a sua transcendência não convence, por permanecer essencialmente dependente da subjetividade transcendental; este Deus é um Deus pensado, isto em, um Deus filosófico, racional. Seria possível fenomenologicamente esclarecer o ser de Deus enquanto fundamentando o próprio ser fático da subjetividade? Husserl pensou que a fenomenologia como ciência das essências deveria ser uma propedêutica para a metafísica científica, isto é, uma ciência primeira do ser fático. A ela Husserl apenas indica como a meta última das suas investigações, sem contudo conseguir a desenvolver. Seria possível por esta metafísica fenomenológica esclarecer suficientemente o ser não apenas enquanto sentido, mas enquanto ser, e com isto esclarecer também Deus como origem do ser? A presente comunicação pretende levantar estas questões, isto é, apresentar brevemente como Husserl pensa Deus e metafísica e refletir sobre as possibilidades e os limites do seu pensamento.

I.

No pensamento de Husserl é possível relacionar a metafísica e a questão de Deus; é o que pretendo fazer brevemente nesta palestra. Em primeiro lugar é preciso esclarecer o que seria metafísica para Husserl. Na obra Meditações cartesianas, Husserl afirma que a fenomenologia pretende eliminar ou pôr em questão apenas uma metafísica ingênua, um saber suposto, mas não esclarecido, e não a metafísica em si, que abordaria as “últimas e mais elevadas questões” postas à razão humana (HUSSERL, s.d., p. 196-197), entre elas, a do ser, da possibilidade da vida autenticamente humana, do sentido da existência e da história, da morte e destino, problemas éticos e religiosos... A metafísica

Questões metafísicas na fenomenologia de Husserl 49 seria para Husserl uma ciência rigorosa e fundamentada, universal, a primeira entre as ciências que tratam a realidade fatual. Ora, a fenomenologia tal como Husserl a desenvolveu, não é ainda esta metafísica; Husserl ocupou-se por toda a vida com aquela ciência fundamental que seria preparatória para a ciência universal dos fatos; a ela ele chamou de filosofia primeira, por ser a primeira a ser elaborada e neste sentido fundamental. Preocupou-se com o método e com o conhecimento eidético, isto é, das essências a priori de todo o ser possível, não real. Pretendeu esclarecer assim o único caminho possível para qualquer ciência ou saber fundamentado; este caminho é a radical tomada de consciência de si mesmo. Neste sentido, Husserl renova a convicção que animou Santo Agostinho, citado por ele várias vezes: “Não queiras ir para fora, volta em ti, no interior do homem habita a verdade” (De vera religione, 39, 72). Penso que seja ainda necessário refletir sobre o que isto significa, para não cairmos no idealismo com o qual fenomenologia de Husserl constantemente é tentada; e sobretudo, talvez não seja ainda claro como seria a metafísica que Husserl pretendeu desenvolver. O que apresento aqui, portanto, não é definitivo, não são teses da metafísica, são apenas questões metafísicas a partir de escritos de Husserl.

II.

Segundo as palavras de Husserl numa carta, a leitura do Novo Testamento teve um enorme efeito sobre ele, quando jovem de 23 anos, efeito que resultou na aspiração de encontrar o caminho para Deus e para uma vida autêntica por meio da rigorosa ciência filosófica.2 A procura da fundamentação ou justificação absoluta, última, do saber, a meta que move toda a sua rica e árdua pesquisa filosófica, é concebida por ele também como a meta de toda a vida humana autêntica e encerra em si o ideal de ser humano verdadeiro, da razão definitivamente autônoma e da liberdade plenamente responsável, capaz de responder por si. Neste contexto, a pergunta sobre Deus para Husserl não é uma pergunta lateral, mas muito importante, ou até a pergunta mais importante da filosofia. Segundo as suas palavras, “toda a filosofia autônoma, como foi a aristotélica e como ela permanece uma exigência eterna, chega necessariamente a uma teleologia e a uma teologia filosófica – como o caminho (não-confessional) para Deus” (E III 10, 14a). Husserl mesmo compreendeu como a sua missão pessoal a de levar os homens, que não têm o consolo e a

Martina Korelc 50 segurança da fé religiosa, a Deus – pretendeu “chegar a Deus sem Deus”3. O fato de não obstante disso Husserl não ter dedicado a esta questão nenhum estudo sistemático, mas apenas apontou para este problema em vários escritos, deixa se explicar pela convicção de Husserl, de não ter ainda desenvolvido suficientemente a fenomenologia como ciência fundamental.

A tomada radical de consciência de si significa para Husserl em primeiro lugar suspender a validade de tudo o que presumimos saber, todos os pressupostos, entre eles o pressuposto mais natural da transcendência do mundo em relação à consciência que o pensa, e até do meu ser psicofísico no mundo, para poder obter o acesso ao domínio mais originário da realidade, onde a realidade se dá a pensar originariamente; este domínio originário é a minha subjetividade transcendental e na compreensão do seu ser e operar é possível recuperar o sentido do ser, que nas ciências e na filosofia se perdeu. A atitude fenomenológica significa reorientar o olhar, do mundo para a própria subjetividade. A subjetividade transcendental é portanto o absoluto a partir do qual todo o ser do mundo – o objeto das ciências empíricas – pode ser explicado. A fenomenologia pretende descrever e explicar como o mundo, e tudo o que este implica, vem a ser pensado originariamente, com sentido, pela subjetividade, na consciência transcendental.

A subjetividade transcendental, ou seja, o meu próprio ser transcendental com a sua extraordinária ordem imanente, é contudo também um fato, um fato último, implicando com isto uma ineliminável contingência. Uma pergunta ulterior é, portanto, ainda possível e até necessária a partir da procura pela fundamentação radical: esta facticidade da subjetividade transcendental não exige ainda uma ulterior justificação ou fundamentação? Nas Ideias I, Husserl levanta tal questão, sublinhando que é sobretudo a ordem encontrada na consciência, a teleologia, que exige a pergunta pelo fundamento. Como fundamento da ordem ou racionalidade encontrada na consciência, e da teleologia que explica esta ordem, deve ser suposto um princípio teológico, um princípio ordenador do absoluto; deste modo Husserl introduz claramente a questão de Deus na pergunta fenomenológica sobre o fundamento da facticidade da subjetividade transcendental. Como Deus é pensado? Nos parágrafos 51 e 58 das Ideias I, mencionados aqui, Husserl traz

3 “A vida do homem não é nada outro do que um caminho para Deus. Eu procuro alcançar esta meta

sem as provas, método e pontos de apoio teológicos, nomeadamente, chegar a Deus sem Deus. Eu devo, por assim dizer, até eliminar Deus da minha existência científica, para preparar um caminho até Deus para os homens que não têm a certeza da fé através da Igreja, assim como a possui a senhora. Eu sei que este meu procedimento poderia ser perigoso para mim mesmo, se eu mesmo não fosse um homem profundamente ligado com Deus e profundamente crente em Cristo” (JÄGERSCHMIDT, 1981, p. 56).

Questões metafísicas na fenomenologia de Husserl 51 alguns elementos importantes, essenciais, para a compreensão da questão de Deus. O “princípio teológico” que deve ser suposto implica uma transcendência de tipo novo em relação à transcendência do mundo, cujo sentido e validade natural foram suspendidas precisamente por precisarem da fundamentação. E, Deus não é apenas transcendente de modo diferente do mundo e em relação ao mundo, mas também em relação à consciência absoluta, afirma Husserl enfaticamente no mesmo texto. A transcendência de Deus se anuncia na consciência de modo diferente também da do próprio Eu, cuja transcendência em relação à corrente de vivências é chamada de “transcendência imanente”; esta diferença, segundo Husserl nas Ideias, implica que ele, Deus, não é dado de modo imediato à consciência, mas é conhecido de modo mediato, precisamente através da pergunta pelo fundamento da facticidade da ordem teleológica na consciência. A conclusão importante de Husserl é: “Ele seria, portanto, um ‘absoluto’ num sentido totalmente diferente do

absoluto da consciência, assim como, por outro lado, um transcendente num sentido totalmente diferente do transcendente no sentido do mundo” (Hua III, p. 140; 134).

Antes de tentar iluminar esta problemática a partir de outros textos de Husserl e de seus comentadores, deve contudo ser pontuada a decisão metodológica que guia as pesquisas de Husserl e que é anunciada um pouco adiante do texto citado: por ser Deus uma transcendência em relação à subjetividade transcendental, embora radicalmente diferente da transcendência do mundo, ele deve ser posto entre parênteses para se poder manter o estatuto absoluto da subjetividade transcendental e a partir dela esclarecer o ser do mundo.

“Naturalmente nossa redução fenomenológica é extensiva a esse ‘absoluto’ e a esse ‘transcendente’. Ele deve permanecer fora de circuito no novo campo de investigação a ser estabelecido, uma vez que este deve ser um campo da própria consciência pura” (Hua III, p. 140; 134). Por princípio, portanto, a fenomenologia não pode sem mais – sem a devida clarificação e justificação a partir da subjetividade transcendental absoluta – manter a validade de nenhuma transcendência, nem sequer da transcendência de um fundamento último que suporta o próprio ser da subjetividade. Mas, é a partir do ser da subjetividade transcendental enquanto absoluto que será possível voltar à pergunta sobre Deus como o princípio ordenador do absoluto, numa consideração absoluta, como lemos, isto é, submetida ao rigor da redução transcendental. Se contudo nos deparamos com a sua

Martina Korelc 52 transcendência, diz Husserl, e se o seu ser não é simplesmente o ser do vivido, já que ele é diferente da consciência, isto significa que

“tem de haver no fluxo absoluto da consciência e em suas infinitudes outros modos de anunciar transcendências, diferentes da constituição de realidades de coisas [...]; e, finalmente, é preciso que haja também modos intuitivos de anunciar transcendências aos quais o pensamento teórico se amolde e possa, seguindo-o racionalmente, trazer à compreensão a atuação coerente do suposto princípio teológico” (Hua III, p. 121- 122;119).

Esclarecer como na imanência da consciência se anuncia e manifesta a transcendência de Deus, e por meio disso esclarecer racionalmente a própria ideia de Deus, é talvez aquele saber final ao qual toda a filosofia autônoma e consistente deve conduzir, como afirma Husserl, mas para o qual talvez ele mesmo se reconhecia ainda não suficientemente preparado, ainda a caminho. Contudo, é possível a partir de poucas afirmações nos escritos publicados e nos manuscritos de pesquisa compreender algo do seu pensamento a respeito.

A meu ver, contudo esta redução da transcendência de Deus é problemática, não poderá ser recuperada racionalmente, porque implica uma decisão, uma posição diante deste problema. Husserl decidiu pessoalmente não considerar previamente a existência de Deus, embora tivesse fé, e não considerar aquilo que sabia sobre Deus pela fé. Isto o distingue de Santo Agostinho.

III.

O ser do mundo é relativo ao ser da consciência transcendental, onde ele é dado, constituído enquanto válido para mim – e isto significa, no pensamento de Husserl, válido para a humanidade, já que o sentido objetivo e verdadeiro, do ser do mundo implica confirmação intersubjetiva. Ora, que a consciência transcendental constitui de fato o mundo com sentido, isto é, um mundo que pode ser racionalmente compreendido, que segue leis que podem por sua vez ser estudadas pelas ciências naturais... – isto é um fato que não pode ser explicado unicamente pela própria subjetividade transcendental. Pois, já nas Ideias I é claro para Husserl que do fato da existência do mundo tal como é constituído pela consciência transcendental, do fato da própria constituição, não se conclui nenhuma necessidade desta constituição. Pode, pois, ser pensada também a possibilidade de o

Questões metafísicas na fenomenologia de Husserl 53 mundo não ser constituído, isto é, de não haver nenhuma coerência nas vivências que nos fazem perceber o mundo enquanto realmente existente.

Esta facticidade da constituição do mundo é, portanto, em si surpreendente, “milagre”, nas palavras de Husserl, ou um fato transcendental “irracional” que está nos limites da explicação da fenomenologia.

Esta facticidade não é o campo da fenomenologia e da lógica, mas o da metafísica. O milagre [Wunder] é aqui a racionalidade, que se mostra na consciência absoluta, não por nela se constituir qualquer coisa em geral, mas por se constituir uma natureza que é o correlato das ciências naturais exatas. Que racionalidade é esta? Ela consiste, poderíamos dizer, [...] no existir de uma correlação entre a consciência fática e ciência empírica (Hua VII, p. 394). Por trás abre-se uma problemática que não pode mais ser interpretada adiante no solo fenomenológico: a da irracionalidade do fato transcendental, que se pronuncia na constituição do mundo fático e da vida espiritual fática: portanto, a metafísica num sentido novo (Hua VII, p. 188, nota 1).

Uma entre as perguntas últimas ou definitivas no aspirar à clarificação e fundamentação da ciência, para Husserl parece ser a facticidade da racionalidade do mundo para a consciência, o fato de o mundo poder ser compreendido cientificamente, de ter portanto nele uma ordem sensata, um sentido. Este fato não tem fundamento suficiente ou justificação última no interior da consciência ou em geral no próprio fato absoluto de haver consciência constituinte. Ou seja, a constituição, através de atos e operações que são a própria vida da subjetividade na qual o mundo é produzido, não significa “criação” do mundo. Para a própria subjetividade transcendental, esta constituição é algo radicalmente dado, ou seja recebido, um fato admirável, uma “graça”, que pode porém também ser retirada, pois a subjetividade não garante a partir de si que o mundo ordenado não se desfaça em caos de sensações e o Eu unitário, enquanto possuindo o mundo, não se dissolva. O mundo mantém, portanto, por causa disso um caráter de estranheza, de alteridade – assim como o próprio Eu permanece no seu núcleo mais originário obscuro para si mesmo, anônimo. A subjetividade transcendental, se quer esclarecer a sua própria vida constitutiva, deve voltar-se reflexivamente sobre si mesma, debruçar-se na medida do possível para o que está “escondido”, “anônimo” na sua própria vida do Eu, e perguntar pelo princípio ordenador diferente dela mesma, que Husserl sem escrúpulos nomeia de Deus.

Antes de passar para as considerações de Husserl sobre Deus, é preciso elucidar ainda o segundo elemento da facticidade, mencionado por Husserl na passagem

Martina Korelc 54 das Ideias I citada acima, nomeadamente a questão da teleologia. Pois não é o mero fato da constituição de qualquer coisa – não o mero fato de haver qualquer coisa, poderíamos dizer – que exige a pergunta por um fundamento transcendente à subjetividade transcendental, mas o fato de ser constituído o mundo com sentido, o fato de haver racionalidade, lemos; talvez se possa dizer que é a questão da origem do sentido que abre Husserl ulteriormente às questões metafísicas, e certamente a pergunta sobre Deus está ligada para Husserl estreitamente ao esclarecimento da teleologia. Na Erste Philosophie Husserl afirma a respeito do fato do ser do mundo: “Já o ser do mundo enquanto fato encerra uma teleologia” (Hua VIII, p. 258). O sentido do mundo, a sua verdade e a ciência na qual ele se exprime, são o telos que Husserl descobre no fato do ser do mundo. Mas a teleologia não diz respeito em primeiro lugar e originariamente ao ser do mundo, mas ao ser da subjetividade transcendental, a partir da qual o sentido do mundo se explica, como sabemos. É, pois, voltando-se na consideração fenomenológica transcendental radical sobre o ser da subjetividade transcendental, que no seu próprio caráter absoluto não deixa de ser um fato, um fato último e absoluto, como diz Husserl, que o fenomenólogo desencobre uma aspiração necessária ao sentido, isto é, uma teleologia escondida.

Husserl descobre a teleologia, isto é, a aspiração a uma meta, em todos os níveis da vida da subjetividade, ele a chama de forma ontológica do ser da subjetividade transcendental (Hua XV, p. 378). Em primeiro lugar, para Husserl, o ser da subjetividade transcendental é um devir constante, o ser está num processo temporal de constituição que é orientado para uma meta. Num primeiro nível de reflexão, Husserl analisa a consciência cognitiva; a característica essencial da consciência é a intencionalidade, que significa o ser orientado da consciência para um objeto intencional e por si já é um processo teleológico. Neste sentido, Husserl descobre na consciência uma aspiração ao conhecimento, ao ser auto-dado, à verificação e à realização da posse intencional sempre mais perfeita do ser do objeto; em última instância, trata-se da aspiração à evidência, à verdade e à autonomia da subjetividade através da ciência. Esta aspiração, contudo, – que se realiza plenamente na decisão e na realização do conhecimento científico, na ciência definitivamente justificada, que pode ser por um lado chamada o telos da vida da subjetividade – é detectada por Husserl já na passividade da consciência, na dimensão anterior à atividade de conhecimento, por exemplo na consciência do tempo. Segundo ele, também os instintos, as

kinestesias, os sentimentos, as tendências mais primitivas no ser da subjetividade, que lhe

Questões metafísicas na fenomenologia de Husserl 55 base irracional da atividade racional, porque os atos livres e conscientes do conhecimento se constroem sobre elas e há nelas e em toda a vida da consciência um entrelaçamento de todos os níveis. Que na subjetividade se deva constituir o mundo cientificamente conhecível na sua verdade, está portanto escrito de algum modo na estrutura da consciência como o seu telos, como a orientação do seu devir, e que a subjetividade realize a ciência é o telos escondido que aponta a vocação da humanidade enquanto racional. Isto não pode ser compreendido no sentido de que a realização da constituição e ulteriormente da ciência seja algo instintivo; antes, a estrutura da consciência, já a partir dos seus níveis mais elementares, nos quais ainda não se pode sequer falar da consciência intencional e objetivante, é tal que torna possível a realização da meta mais alta, o conhecimento, o esclarecimento do sentido do mundo, que é a vocação do homem. E isto é algo que pode causar admiração e que precisa ser filosoficamente elucidado, fundamentado.

A orientação para a constituição do mundo, e para a ciência sempre mais certa, contudo, ainda não é todo o sentido da teleologia do ser; ou seja, a meta para a qual todo o processo do ser da subjetividade, como telos, é orientado, não se compreende unicamente pela aspiração ao ser verdadeiro do mundo, embora isto seja importante. A subjetividade, pela sua operação constitutiva, não constitui apenas o mundo, mas sobretudo a si mesma, e o processo do devir é o processo da formação do ser da própria subjetividade, do seu ser verdadeiro. Para compreender isto, devemos levar em consideração que a vida da consciência, para Husserl, não é apenas teórica, mas sempre também prática; o conceito da vontade por causa disto se torna fundamental também para compreender a noção do ser da subjetividade e a sua teleologia. A vontade é principalmente a faculdade da subjetividade de pôr as metas e se orientar conscientemente para elas; ela é criativa, porque abre a subjetividade para o futuro ao antecipar as metas, mas sobretudo porque cada decisão determina o próprio ser do Eu, pelo que o Eu se torna pessoal, ganha habitualidades que ulteriormente orientam o seu ser. A escolha e a decisão pelas metas autênticas, que