Ueslei Vaz Aredes1
Resumo: O homem moderno apresenta fortes desconfianças em relação ao conhecimento
simbólico. Inconscientemente, é levado a relegá-lo ao mundo de mentalidade pré-lógica, considerando incapaz de rigor suficiente para fundamentar o autentico conhecimento. Destarte, o uso dos símbolos é elemento constitutivo da economia bíblico-cristã e a liturgia representa este simbolismo à luz da fase atual da historia salutis. Deste modo, os sacramentos são sinais. Sinais do amor de Deus para com a humanidade. No entanto, Cristo é o sacramento do Pai. A Igreja instituída e desejada pelo Pai e concretizada por Cristo, é sacramento de Cristo. Pertencer a Igreja é pertencer a Cristo. E Jesus se faz presente na Igreja através dos sacramentos, que é seu: e a Igreja apenas os administram. Assim através dos sacramentos revelam os sinais do seu amor.
Entretanto, o sacramento não é apenas sinal, é uma realidade, é o próprio Cristo. Diante dessa realidade ao mesmo tempo cognoscível e incognoscível entra o dado da fé, pois podemos perder seu sentido, e cair num mero ritualismo. Porventura, os ritos pouco falam por si mesmo. Precisam ser explicados. Destarte, o sinal que precisar ser explicado, não é sinal. O que deve ser explicado não é o sinal, mas o mistério contido no sinal. Caso não seja cognoscível e ao mesmo tempo incognoscível pode ser tentado em cortar toda a relação com o simbólico religioso. E ao fazer isso, não corta apenas uma riqueza importante da religião: fecha-se a janela de sua própria alma, porque o simbólico e o sacramental constituem dimensões profundas da realidade humana.
Deste modo, no presente monólogo, trataremos da realidade transcendental do sacramento/símbolo/sinal na vida do homem que esta em comunhão com a Igreja e com os homens. Desta comunhão os sinais remetem um caráter ao mesmo tempo imanente que remete imediatamente ao transcendente/scalon.
Palavras-chaves: antropologia, eclesiologia, fenomenologia, símbolos/sinais e scatolon
Introdução
Atualmente os sacramentos são questionados e até mesmo negados. Para recuperarmos o sentido originário do sacramento precisamos descer a um nível mais profundo da reflexão e da realidade. Nesse nível, o sacramento aparece como a corporificação de um modo de pensar numa unidade tensa, entre as realidades que tomadas em si parecem se contraporem: o divino e o humano, o invisível e o visível, o eterno e o temporal. O sacramento traduz a comunhão destas realidades polares; faz uma presente na outra; encarna o divino e transfigura o humano. Neste nível, o sacramento não emerge tanto como gestos e coisas sagradas da religião, mas como o modo pelo qual Deus se
1 Aluno do 3º ano do curso de Teologia no Instituto de Filosofia e Teologia Santa Cruz. E-mail:
Os Sacramentos da Vida através dos Mistérios 107 comunica e se faz presente no mundo. O sacramento é a mediação pela qual e na qual Deus, Jesus Cristo, sua Graça, a Igreja... atingem os homens.
Sacramento como mistério, mysterion do plano de salvação
Devemos iniciar nossa pesquisa com as seguintes perguntas: O que significa
sacramentum e mysterion? De que modo se terá feito a passagem de mysterion para sacramentum? Um sentido básico de sacramentum é mysterion. 1º) Mysterion no AT tem o
seu significado com a conotação cúltica. 2º) No entanto, os mistérios cultuais, de acordo com Odo Casel, são uma ação sagrada e cultual em que, sob o véu de um rito, um fato salvífico se torna presente; enquanto realiza este rito, a comunidade cultual participa do fato salvífico e desta forma adquire a salvação para si. 3º) Este significado original de
mysterion desenvolveu-se aos poucos numa concepção mais abstrata e teológica do mysterion. Assim os mistérios foram despojados de seu caráter sacral, enquanto os cultos
foram considerados como mistérios. De acordo com Casel: Mysterion são ritos e celebrações secretas dos mistérios; as diversas partes e elementos dos mistérios, como
symbola (fórmula) e os objetos (alimento, imagens) são visíveis e per si compreendidos,
vedados aos profanos e incompreensíveis a eles; os mistérios aparecem como os profundos ensinamentos dos filósofos sobre o divino, ensinamentos comunicados somente a pessoas iniciadas, pois, são inatingíveis pela pura razão. É o mistério fontal que se oculta no silêncio; esse silenciar místico chega-se por um desvelar através dos símbolos. Deste modo, os ritos e o culto divino são considerados como símbolos da misteriosodade divina e de verdades ocultas: sua explicação é mística porque desvela o sentido oculto. Cabe, então, a teológica mistagógica explicar e interpretar estes símbolos. Pois, para a teologia,
mysterion é o próprio divino e tudo quando se pode conhecer simbolicamente do divino.
Somente a partir dessas considerações pode se resultar o termo sacramentum: onde o divino, o oculto está sempre ligado com algo visível, que é tomado como símbolo; este por sua vez revela, comunica e conserva o mysterion.
No AT, na literatura apocalíptica e nos profetas, mysterion designa um segredo escatológico, i.e., um anúncio revelador dos acontecimentos futuros determinados por Deus, cuja revelação e interpretação são reservadas aos que foram por Deus inspirados. Daí conclui-se que, o mysterion são os desígnios e decretos ocultos da vontade divina. Revelados por Deus, estão contidos nas palavras dos profetas; são comunicados aos que promovem a justiça. Por isso, a comunidade é a fonte do segredo guardando-o com todo
Ueslei Vaz Aredes 108 cuidado. Agora, no NT, Deus age na história e sua ação manifesta-se no fim dos tempos messiânicos para realizar definitivamente seu eterno desígnio.
O que caracteriza o mysterion como segredo, está no fato do mysterion ser inatingível e incompreensível à razão, mas que ele consiste na sua não-revelação, que está no segredo de Deus; mas que ele vai se revelando aos poucos através da palavra e da ação, através de órgãos humanos (Ef 3,5), pela Igreja (Ef 3,10) que destina o segredo a todos os homens. Por isso, o plano da salvação e sua realização constituem o único mistério, a encarnação do Verbo. Deste modo, mysterion pode significar ao mesmo tempo mysterion de Cristo e mysterion do plano de salvação.
Mysterion de Cristo como realização do mysterion do plano da salvação
A realização do mistério, realiza-se através de Cristo, que forma o centro do
mysterion. No mysterion de Deus em Cristo são abrangidos criação e consumação, início e
fim do mundo, tirando-os do âmbito de seu próprio poder e conhecimento. Pois na revelação do mistério divino os tempos atingem o seu fim (Ef 1,10). Em seguida, ele aparece como o Cristo cósmico que consuma todas as coisas, sendo ele a cabeça da totalidade; na Igreja, seu corpo e seu pléroma, ele governa de modo visível, realizando a salvação; mostra o que significa sua condição de ser cabeça de todas as coisas. A fórmula
in christo mostra claramente que Ele é o centro do mysterion que realiza na unidade entre
cristãos, ateus, judeus e gentios. Portanto, segue que o mysterion possui uma dimensão intra-terrestre. No mysterion uma realidade celeste invade a esfera do antigo aion. Apresentam-se sempre uma faceta humana e outra divina. A história da salvação acontece dentro da história no mundo. Então, o mysterion constitui a conjunção de um acontecimento terrestre e uma ação divina.
Mysterium-sacramentum
A palavra sacramento é originariamente cristã. Descreve a palavra sacrum, linguagem sacral, sinal sagrado. Isso explica pelo fato dos cristãos primórdios evitarem palavras que estabelecessem uma conexão entre culto cristão e os mistérios pagãos. Por isso foram eliminadas não só a palavra mysterion, mas as palavras correspondentes latinas como, sacra, arcana, initia. Deste modo, sacramentum aparece como um elemento que já pudemos constatar no mysterion, ou seja, na unidade do humano e do divino que nele se
Os Sacramentos da Vida através dos Mistérios 109 expressa. O sacramentum contém sempre um componente humano (juramento, consagrado, rito) e um divino (o próprio sagrado).
Mysterium-sacramentum como fases do plano da salvação
Mysterium-sacramentum indica as diversas fases da economia da salvação: o
tempo antes de Cristo, o tempo de Jesus, da Igreja e as realidades escatológicas; o
sacramentum significa as relações entre essas fases. Para o tempo antes de Cristo, significa
a praeparatio, figura, typus, simbolum, parábola, species, praeformatio; para o tempo de Jesus, a realização das promessas, a manifestação do próprio Deus em forma humana; para o tempo depois de Cristo, a Igreja, sacramentum que expressa participação e realização sacramental dos mistérios de Jesus na Liturgia.
O AT deve ser considerado como um mysterion voltado para Cristom i.é, uma profecia dada de modo velado sobre Cristo. A vida de Jesus constitui um prelúdio, exemplo e símbolo de uma vida que ainda há de continuar, a saber, a do Corpo Místico de Cristo para dentro da história no mundo. A Igreja por sua vez é símbolo da realização antecipada da Igreja na glória. Seu mysterion está aberto para o futuro; contudo, ele não é consumado, i.e., o já e o ainda não. Deste modo, a Igreja vive do novo céu irrompido pela ressurreição de Jesus e da nova terra; mas por enquanto esta realidade escatológica manifesta-se apenas por sinais, símbolos e sacramentos.
Mysterium-sacramentum como signum sacrum: sacramentum mysterii – mysterium sacramenti
Definimos então que, de um lado, o mysterrium-sacramentum é aquilo que visível e palpável, por outro lado, o signum sacrum como aquilo que é misterioso ou oculto. Destarte, sacramentum mysteri indica o visível, o tocável, o histórico do mysterium e o mysterium sacramentui, por sua vez, mostra o secreto, o divino, o intocável, o sobrenatural do sacramentum.
Santo Agostinho faz a distinção entre sacramentum de mysterium.
Sacramentum significa o sinal sagrado e religioso do mysterium como tal. Apenas
posteriormente, a Agostinho, o mysterion grego é traduzido pela palavra latina: mysterium e concorre com a palavra sacramentum. Daí em diante sacramentum assume um significado sacramental no sentido dos nossos sete sacramentos ou em forma de ações litúrgicas como res sacra, signum sacrum; em conseqüência disso, o mysterum adquire um
Ueslei Vaz Aredes 110 significado mais abstrato com res arcana divina salutaris. Deste modo, coloca-se o acento sobre o visível, qualifica-se o mysterium como sacramentum; descolocando o acento sobre o invisível e o divino, designa-se o sacramentum de mysterium. Assim, a ideia fundamental subjacente ao mysterium e sacramentum é que Deus se comunica, tornando-se presente e age espiritualmente sobre aos homens através dos elementos materiais.
Mysterium-sacramentum como os mistérios litúrgicos
Entre os signa sacra que os Padres da Igreja qualificavam de mysterium e
sacramentum encontram-se, sobretudo, os mistérios do culto e toda a Liturgia da Igreja.
Pois, de fato, o primeiro emprego de sacramentum com versão de mysterium se deu no contexto do batismo, portanto, no contexto de uma ação litúrgica. Este conceito doutrinal foi promulgado novamente pela Constituição Vaticano II (SC), onde Cristo é o principal e o máximo sacramento, como ponto focal do plano salvífico de Deus que já estava oculto nas revelações do AT, reveladas nas ações, pessoas, ritos e palavras; manifestou-se no sacramento da sua encarnação e nas ações e palavras de sua vida (sacramenta carnis
Christi) e que agora continua vivo agindo na Igreja, visto que a Ecclesis est totus adventus Filli Dei. Assim, deste sacramento primário origina-se Totius Ecclesiae admirabile sacramentum. Qualquer ação da Igreja é por isso mesmo sacramental, sacramento. A Igreja
se entende como personificação de Cristo na terra, de tal sorte que qualquer ação de Cristo significa uma ação de seu corpo. Entre todas as suas ações sacramentais algumas são qualificadas de sacramenta e de mysteria; através deles a Igreja celebra a presença do plano da salvação, dos mysteria carnis Christi e precisamente nas ações litúrgicas. Estes ritos litúrgicos contêm de alguma forma a res arcana, a salvação messiânica.
Portanto, o mysterium do culto aparece como uma ação sacra, que prolonga a ação de Deus; é realidade espiritual, que se realiza sob o véu de sinais e gestos perceptíveis, tornando a salvação presente aos fieis. Então, passado, presente e futuro são abrangidos na Liturgia, porque o mysterion de Cristo e sua salvação abarcam toda a amplitude da história.
Até Agostinho os sacramentos e os mistérios (Mistério Eucarístico e as ações litúrgicas) eram considerados como prolongamento da existência de Cristo. Sinal sacramental e seu significado eram concebidos de tal forma que estivessem intimamente relacionados entre si. O signum sacrum não era uma cópia fiel de Cristo, mas um reflexo de Cristo presente no sacramentum, o aparecimento de uma realidade sagrado através do
Os Sacramentos da Vida através dos Mistérios 111 sinal visível. Então, a fórmula o sacramento é um sinal visível da graça invisível expressa de maneira lapidar a mais intima união dos dois elementos, compreensível aos fieis e incompreensível aos que não creem. Na escolástica, devida muitas controvérsias entre o
sacramentum e res sacramenti, chegam a conclusão que: o visibile signum produz um invisibili signum, chamado sacramentum manens que por sua vez produz a graça
sacramental. No entanto, todos os sacramentos conferem um sacramentum manens (a graça sacramental), seja um caráter sacramental indelével no Batismo, na Confirmação, e na Ordenação, seja um ornatus animae, um adorno da alma, nos outros sacramentos.
Sob o aspecto teológico, os sacramentos significam, principalmente no Batismo e a Eucaristia, a presença do plano salvífico de Deus e da ação salvadora de Cristo em favor de cada indivíduo. Neles se atualiza a vontade misericordiosa de Deus instaurada definitivamente no mundo em Cristo, na corporiedade de um sinal, o encontro com Deus, o encontro velado no nosso caminho de Emaús para o eschatolon, a pátria definitiva.
Os sacramentos constituem corporificações encarnatórias e eclesiais da graça, que, de acordo com a natureza humana, i.e., a graça mais o esforço humano, se cristaliza e se manifesta em sua ação. O símbolo é como que a face visível do mistério da comunicação do próprio Deus aos homens. Nesta economia da salvação, faz parte do evento da graça que ela seja comunicada de modo sacramental pelo fato de o destinatário, o homem, o constituir um ser sacramental. Em suma, o mysterium-sacramentum se revela através do signum. Ele é a conjunção do divino e do humano, do sacramental (sinal) e do misterioso (mistério), de tal maneira que um se torna presente no outro e se manifesta no agir. Por isso, o determinante do sinal não é o conceito do visível, mas o sensível, que pertence ao campo de nossas experiências e observações, entre as quais se encontra o ouvir. Neste âmbito, o sinal nunca foi tomado como sinal vazio, mas já como participação daquilo que ele indica. Porém, tudo é transparente diante o sagrado. E o sinal deve falar per si, quando o sinal necessita de ser explicado deixar de ser sinal. Deste modo, diante do
sacramentum-misterium-signum deve-se silenciar os sentidos e a razão, pois, onde razão
não consegue chegar ela se cega e deve ser guiada pela voz do coração, a fé. O finito diante do infinito, o temporal diante do eterno, o humano diante do divino, não o conhece, mas o sente e o experimenta. Por isso, ambos se tornam dois mistérios e dois sacramentos de salvação, na qual e da qual transcende o humano no divino, o temporal no eterno, o finito no infinito, o início no fim.
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Considerações Finais
Por fim, tentei demonstrar que o homem não é só manipulador do seu mundo. É alguém capaz de ler a mensagem que o mundo carrega em si. Estas mensagens estão escritas em todas as coisas que formam o mundo. Pois, as coisas constituem um sistema de signos. São silabas de um grande alfabeto. E o alfabeto está a serviço de uma mensagem escrita nas coisas, mensagens que pode ser descrita e decifradas para quem possui os olhos abertos. Assim, o homem é o ser no mundo que é capaz de ler a mensagem do mundo. É sempre aquele que na multiplicidade de linguagens, pode ler e interpretar. Viver, no entanto, é ler e interpretar. No efêmero pode ler o Permanente, no temporal; o Eterno, no mundo. Então o efêmero se transfigura em sinal da presença do Permanente; o temporal em símbolo da realidade; o mundo em grande sacramento de Deus.
Com o pensamento sacramental quer-se expressar a convicção de que a história de Deus com os homens acontece em eventos, em atos e encontros historicamente constatáveis: esses se tornam sinais da proximidade de Deus. Neles Deus se mostra: aos homens, e neles se aproxima deles, transformando-os.
A estrutura dupla (mostrar e dar-se) determina o conceito da revelação como auto comunicação: Deus se doa a si mesmo e mostra como ele é. Pensamento sacramental significa: Deus se comunica aos homens corporalmente, se torna experimentável corporalmente. Todavia, o fato de ser realmente Deus que age e é experimentado não se pode comprovar independentemente da fé: pois da experiência sempre se faz parte não apenas o evento, mas também da sua interpretação.
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