CAPÍTULO II OS DESAFIOS CIENTÍFICOS COM A IMAGEM
2.1 Composição Discursivo/Plástica
2.1.1 A Linguagem da Imagem Fixa
2.1.1.4 A louca da casa
É desta forma que Villafañe (2000, p. 11) refere-se e classifica o elemento plástico cor, devido à sua complexidade morfológica, pois pode assumir o papel de vários outros elementos plásticos. A cor domina a composição do espaço telejornalístico montando os ícones de identificação explícitos e implícitos de enunciadores e enunciatários envolvidos naquele programa. Guimarães (2003, p. 21), que analisa a cor usada no jornalismo, a considera um dos mediadores sígnicos de recepção mais instantânea.
A cor é o resultado da luz refletida sobre uma superfície, atingindo as células fotoreceptoras da retina. Deste modo, um emissor ‒ que pode ser o sol ou uma lâmpada ‒ irradia energia em forma de luz, em seguida esta energia é modulada por um meio ‒ uma fotografia, um set de gravação ‒ se transformando em cor e finalmente percebida por um receptor. O estímulo externo gera uma reação orgânica que é projetada a uma dimensão subjetiva do ser, para produzir um sentido. As variáveis envolvidas neste processo podem intensificar ou amenizar o papel da cor nesta experiência.
Vale lembrar que no caso da televisão, a tela projeta a imagem em forma de luz com o fenômeno já pronto, ou seja, a cor já foi construída e está sendo projetada com fonte de luz própria, por isso é possível assistir televisão numa sala escura. O fenômeno natural da transição da luz em cor já ocorreu lá no estúdio de gravação da emissora, onde o iluminador acertou o tom da luz para que ele produzisse o efeito esperado sobre o cenário e os apresentadores.
Na classificação feita por Villafañe (2000), a cor se destaca por duas propriedades gerais em sua atuação na composição plástica, a espacial e a dinâmica. Tanto consegue delimitar espaços de representação quanto pode marcar o tempo de leitura da imagem. Estes aspectos serão abordados mais adiante, quando tratar do tempo e espaço no audiovisual.
Outra característica da cor é que ela ajuda na articulação da composição no plano representacional. Os planos cromáticos estão ligados por relações cromáticas que mantêm entre si, estabelecendo assim direções de cena, ritmos, etc. Dondis (1997, p. 125) mostra que, por exemplo, a proximidade ou distância podem ser relacionadas com a cor azul e verde, por sua vez, o amarelo e o vermelho podem denotar expansividade. Tais cores ajudam na elaboração da perspectiva no plano plástico da representação visual e têm seu uso justificado pela lógica de que, quanto mais próximo, mais quente ou mais luminoso um objeto pode parecer.
As propriedades intensivas e qualitativas da cor agem na plasticidade ditando o ritmo do tempo da imagem. Tal tempo tem relação direta com o tempo de leitura da imagem e pode ser melhor percebido nas imagens fixas em que a cor aprofunda o olhar na imagem pelo efeito da perspectiva.
Além de usar sua propriedade dinâmica para promover a interação entre os planos plásticos, a cor tem propriedades sinestésicas que podem gerar sensações percebidas por outros sentidos humanos. Kandinsky (1996) em sua obra “Do
espiritual na arte e na pintura em particular” associa a cor à música, à poesia e acredita num sincretismo das artes com a pintura para que a alma do homem seja atinginda pela arte. Dondis (1997, p. 64) afirma que a cor tem afinidades com as emoções humanas, o vermelho tendo significado de perigo, amor, calor, vida e outras tantas significações, enquanto o amarelo é a cor mais ligada à luz e ao calor, e o azul à passividade e suavidade.
Heller (2013, p. 17) afirma que cada cor pode produzir efeitos distintos e muitas vezes contraditórios. O mesmo vermelho, diz ela, pode parecer erótico ou brutal, inoportuno ou nobre. Um mesmo verde pode parecer saudável, venenoso ou tranquilizante. A autora faz uma análise interessante da atuação das cores nas emoções humanas quando argumenta que nenhuma cor atua sozinha, está sempre cercada de outras cores que, em conjunto atuam sobre um efeito.
Isso significa dizer que são os acordes cromáticos formados por diversas cores com afinidades que produzem um efeito de sentido, considerando que um acorde cromático é composto por cores que frequentemente se associam a um efeito em particular. Por exemplo, para os sentidos de algazarra e animação se associam as mesmas cores que para os sentidos de atividade e energia.
A cor também pode assumir a função da forma, onde delimita espaços na imagem sem necessitar o uso da linha. A margem da cor divide elementos e sua tonalidade determina o grau de separação ou suavidade existente entre tais elementos da imagem. Porém, para conservar as estruturas de uma imagem, um contorno rigoroso é necessário, o que pode ser conseguido com o delineamento de uma linha, onde as cores ficam "compartimentadas" pelos espaços determinados pelas linhas. Tal fato ordena o olhar e cria certa hierarquia no espaço gráfico. As cores são mais anárquicas neste ponto, permitindo fusões e gradientes de separação entre elementos da imagem.
Na mídia, as cores assumem o papel de cor-informação, mesclando-se com a própria notícia. Guimarães (2003, p. 41), que usa o termo cor-informação, acredita que a cor pode informar sobre vários fatos, e que a precisão desta informação dependerá de fatores históricos ligados a tal cor. Também, por parte do leitor, dependerá de seu conhecimento da informação atrelada a tal cor. E isso tudo está imerso em um contexto criado pela mídia para expressar a informação por meio de
cores determinadas, buscando estratégias cromáticas aliadas a notícias que encantem e persuadam o receptor16.
Interessante que o mesmo autor sugere que a profusão em larga escala das cores na mídia tem levado a uma saturação, encarada com um excesso prejudicial à comunicação. Tal aumento nas imagens coloridas nos meios de comunição não reflete, necessariamente, um aumento na qualidade das informações elaboradas por elas.
A causa desta saturação é atribuída por Guimarães (2003) a fatores que se aproximam aos de Villafañe e Mínguez (2002, p. 17) quando estes explicam que existe uma verdadeira saturação audiovisual em um mundo onde a imagem continua sendo uma desconhecida. Tais fatores envolvem o desconhecimento por parte do produtor da imagem das possibilidades da cor-informação, e a crença de que a saturação cromática satisfaz a certos públicos consumidores de imagem, como o segmento do público jovem e o popular. Indissociável, a cor é um dos elementos mais importantes na Teoria da Imagem e que merece conhecimento em seu uso e consumo.
Sem dúvida um dos papéis fundamentais da cor na mídia, seja ela impressa ou audiovisual, é do efeito de dinamicidade. Villafañe e Mínguez (2002, p. 122) ressaltam que o efeito dinamizador mais simples produzido pela cor é o contraste. Onde as cores frias e quentes são as que mais contrastam, ou seja, azul e amarelo são o par mais ativo em contraste depois do preto com branco. Se forem consideradas as diferenças de iluminação e a pureza espectral de uma luz, o contraste de uma cor aumenta de acordo com sua saturação, nas zonas azuis do espectro, com a proximidade de outras cores e com a eliminação dos contornos da figura representada17.
16
Em suas análises do uso de cores na construção da informação na mídia, o autor afirma que, por intencionalidade ou não, as repetições de combinações de cores são vinculadas ou incorporadas a certos textos com mensagens de abordagem positiva ou negativa do campo político. Tais ações fazem a cor participar ativamente como elemento de linguagem, da formação do repertório e do imaginário de leitores/eleitores (GUIMARÃES, 2003, p. 54).
17
Villafañe e Mínguez (2002, p. 122) ainda destacam um aspecto importante sobre a aproximação de duas cores, que para o modo de iluminação da televisão, surte em uma riqueza de efeitos. Dizem eles que "Ao falar de contraste cromático não se pode esquecer de uma propriedade como a interação cromática, que afeta tanto a seu aspecto qualitativo como quantitativo, e deve ser muito considerada na hora de compor uma imagem ou uma cenografia. Na justaposição de duas cores, uma delas tenderá a atura como fundo, sob muitas variáveis, assumindo desta forma uma cor como complementária de outra, onde esta se torna figura".