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2.2 MEU DIÁLOGO COM PAUL RICOEUR: HERMENÊUTICA, NARRATIVA

2.2.2. HERMENÊUTICA DO RECONHECIMENTO

2.2.2.3 RECONHECIMENTO MÚTUO

2.2.2.3.2 A luta pelo reconhecimento e o estado de paz

A partir da aproximação de Ricoeur (2009) com as ideias de Honneth, nosso filósofo vai continuar seu percurso em direção ao reconhecimento mútuo ao refigurar aspectos realçados pelo autor indo pouco a pouco para o conceito de reconhecimento mútuo, a partir de mediações simbólicas que marcam a luta, mas que possibilita a restauração para um estado de paz:

A alternativa à ideia de luta no processo de reconhecimento mútuo tem de ser procurada nas experiências pacificadas de reconhecimento mútuo, que se baseiam em mediações simbólicas subtraídas tanto na ordem jurídica como da ordem das trocas mercantis; (RICOEUR, 2006, p. 233).

O percurso que Ricoeur propôs estabelecer antes da chegada ao tema do reconhecimento mútuo enfatizando em primeiro lugar o dom, em segundo, o contra dom, perpassando pela questão do ‗ágape‘ como figura central do primeiro momento, pois concentra sua força na generosidade do dom, em contraponto com as regras de

retribuição da justiça. A princípio o reconhecimento procura garantir o vínculo entre a reflexão de si e a orientação para o outro. Nesse sentido, há méritos nesta regra da reciprocidade. Em primeiro lugar o mérito consiste em abarcar três categorias: a vingança, o dom e o mercado, enquanto figuras elementares da reciprocidade. Em segundo lugar, estas categorias se integram a partir de um círculo, que tanto pode ser vicioso quanto virtuoso. Trata-se de um olhar atento relacionado ao conhecimento do outro(a) como agente, que ainda não é igual ao reconhecimento mútuo.

Portanto, a chave de solução para o enigma da mutualidade consiste na troca entre os atores, a qual é denominada de ‗reconhecimento mútuo‘. O filósofo considera que a grande figura do reconhecimento mútuo se constitui no ápice de seu entrelaçamento com a alteridade em direção à gratidão:

Por convenção de linguagem, reservo o termo ‗mutualidade‘ para as trocas entre indivíduos e o termo ‗reciprocidade‘ para as relações sistemáticas em que os vínculos da mutualidade não constituiriam senão uma das ‗figuras elementares‘ da reciprocidade. Esse contraste entre reciprocidade e mutualidade é de agora em diante considerado um pressuposto fundamental da tese centrada na ideia de reconhecimento mútuo simbólico. (RICOEUR, P. 246)

Ricoeur (2006) propõe o reconhecimento pela ideia de dom, com base no trabalho do sociólogo-etnólogo Marcel Mauss por meio de seus estudos sobre as sociedades arcaicas. Mauss descreve a existência de sistemas de troca entre os nativos tribais, como os maoris, que não é a obrigação de dar e de receber mais de retribuir. Para Mauss, a questão não era porque se dá algo a outrem, mas porque era preciso retribuir o dom recebido. A explicação estava no fato de acreditar na existência de uma força mágica que fazia com que os nativos cumprissem a tradição de retribuir, pois esse dom da retribuição fazia retornar à sua origem. O sentido latente do dom de retribuição mantinha a tradição dos nativos. Para Ricoeur (2006) a obra de Mauss, tem uma contribuição para perceber que o valor dessa tradição não sendo relevante que aquele que recebeu o dom que seja obrigado a restitui-lo. O que importa é que na atitude de dar o dom, aquele que da reconhece quem o recebe. A questão do dom não está na coisa dada, mas na relação doador-recebedor, cujo reconhecimento é simbolicamente figurado pelo dom. O gestual do reconhecimento é que marca o sentido do dom construtivo de reconhecimento através de uma coisa que é simbólica representando pelo doador e o recebedor. ―O dom recíproco cerimonial não é nem um ancestral, nem um concorrente,

nem um substituto da troca mercantil; ele se situa em um outro plano, precisamente no plano do sem-preço (RICOEUR, 2996, p. 248).

Para o autor, o bom receber distingue a boa da má reciprocidade e estando fundamentado na gratidão dos pares dar-receber e receber-retribuir, perpassa a boa façanha e, portanto registro de boa ação. Disso, resulta uma dupla afirmação da dissimetria que em contrapartida, resguarda a alteridade. Essa é a marca do sem preço sobre a troca de dons. O dar e receber não tem uma media exata: ―essa é a marca da ágape‖ (RICOEUR, 2006, p. 256) Desse modo o nosso filósofo salienta que os presentes trocados jamais podem ser considerados como bens mercantis, pois a garantia de reconhecimento mútuo não se encaixa na dinâmica da compra e da venda:

Esse caráter cerimonial mantém uma relação complexa com o caráter simbólico de um reconhecimento sobre o qual corre o risco de dizer que ignora a si mesmo, na medida em que ele se disfarça e se significa na gestualidade da troca. Mas há mais que isso: o caráter cerimonial, enfatizado por uma disposição ritual assumida pelos parceiros, tendo em vista separar a troca de dons das trocas de todos os tipos que ocorre na vida cotidiana, visa sublinhar e proteger o caráter ‗festivo‘ da troca (RICOEUR, 2006, p. 256. Grifo do autor).

Neste contexto, o reconhecimento é tomado pelo sentido do ‗entre‘ na condução da mutualidade no plano das relações entre protagonistas na troca de reciprocidade na circulação de bens ou valores: ―‗Entre‘ ‗protagonistas da troca‘ que se concentra a dialética da dissimetria entre mim e outrem e a mutualidade de suas relações‖ (RICOEUR, 2009, p. 272. Grifo do autor).

O que realmente fica como ponto de reflexão é o esforço do filósofo em insistir na organização de instituições justas a partir do desejo de uma vida realizada com e para os outros, só assim é possível conseguir alcançar ‗uma vida boa‘, cujas pessoas conduzidas pela mutualidade desenvolvem a estima pelo outro e não a estima de si de forma egoísta. O reconhecimento mútuo pretendido pelo filósofo se pauta no caminho para ser garantida a manutenção da promessa para o avanço da história rumo a estado de paz.

Com base na concepção de reconhecimento mútuo apresentado no último percurso da obra de Ricoeur (2009), a questão da mutualidade e a reciprocidade assumem um papel central no desenvolvimento da hermenêutica voltada para identificar como as pessoas foram se percebendo e percebendo o outro no desfecho da trama. Até

onde houve mutualidade para a concretização dos trabalhos? As comissões cumpriram a função de mediação entre as vozes dos agentes (professores e alunos do curso)?