Capítulo I – Conceitos introdutórios: a comunidade, o local e a região
3. A região
3.1. A mídia regional
A Cátedra Unesco/Umesp de Comunicação para o Desenvolvimento Regional é uma das instituições brasileiras que procurou oferecer um suporte conceitual sobre região midiática. Para isso, José Marques de Melo (2006a, p. 13-35) procurou considerar a complexidade do conceito, levando em conta fatores políticos, culturais, econômicos e se baseando em métodos empíricos e comparativos.
Tratamos de construir o conceito midiático de Região, definindo categorias metodologicamente balizadas pela correlação saussurreana [...]: numa perspectiva diacrônica, consideramos o espaço político-cultural brasileiro; numa visão sincrônica, focalizamos os sistemas midiáticos nele operantes ou dele integrantes. Por mais que tenhamos concentrado o foco de análise nas peculiaridades comunicacionais do fenômeno, nunca deixamos de considerar sua complexidade orgânica, resultante de injunções de ordem política, cultural ou econômica (MARQUES DE MELO, 2006a, p. 17).
As categorias conceituais podem ser assim resumidas (MARQUES DE MELO, 2006a, p. 17-21): 1. Regiões supranacionais: compostas por nações que possuem identidades comuns; Megarregião: determinado por variáveis políticas, em função da localidade geográfica. Ex: Região Pan-americana, que compreende todas as nações do continente americano; Multirregião: constituída por um agrupamento determinado por variáveis culturais, independente da proximidade geográfica. Ex: Região Lusófona, que reúne nações que têm a língua portuguesa como idioma oficial e como matriz histórica a cultura lusitana; Meso-região: agrupamento determinado pela contiguidade geográfica, constituindo um espaço fragmentado, composto pelas parcelas dos territórios nacionais que possuem identidade comum. Ex: Região Gaúcha, que congrega parcelas do território brasileiro-uruguaio-argentino e que possui como referente ecológico a pecuária e como referente cultural o legado castelhano dos tempos coloniais.
2. Regiões infranacionais: divisão do território nacional, conforme critérios político-
administrativos; Macrorregião: resultante da divisão territorial estabelecida pelo Estado. São compostas pelas unidades da Federação – os Estados: Região Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste, Sul; Maxirregião: agrupamento determinado por fatores de natureza político-cultural. 10
Ideias apresentadas em sala de aula, por Cicília Peruzzo, durante a disciplina “Mídia regional e local”, do Programa em Pós-Graduação em Comunicação Social, da Universidade Metodista de São Paulo, em 2007, baseadas em autores como Santos (2006), Richardson (1975) e outros.
Ex: Região Gaúcha, que assume os contornos das tradições autonomistas que formam o imaginário gauchesco; Midirregião: formado por municípios ou trechos contíguos, dentro da mesma unidade federativa ou adjacentes. Ex: Região do Grande ABC, constituída originalmente como um polo da indústria automobilística; Minirregião: agrupamento correspondente à menor unidade político-administrativa do território nacional. Ex: Região Paulistana, isto é, a capital do Estado de São Paulo; Microrregião: fragmento do território municipal, constituído por questões administrativas ou habitacionais. Ex: Região da Liberdade, bairro central de São Paulo (MARQUES DE MELO, 2006a, p. 17-21).
Diante disso, como se caracteriza a mídia regional?
Para Camponez (2002, p. 107), “basta ver a que região se reporta a maioria dos textos nele publicados, para rapidamente se constatar que é aquela em que está instalada a sede do respectivo órgão de informação”. Como, em geral, possui pequena infraestrutura de produção, com quadro reduzido de profissionais11, muitos dos quais autodidatas, sem formação específica na área, a mídia regional não consegue cobrir jornalisticamente uma região. Os textos são, na maioria, da cidade-sede do veículo.
Nessa perspectiva, a comunicação regional se constrói na inter-relação entre o veículo e os públicos da sua região de abrangência e está intimamente ligada ao compromisso que o veículo assume em dar voz às especificidades locais, ou seja, as características da mídia regional devem levar em conta, além dos aspectos geográficos, a sede territorial da publicação, o seu âmbito de difusão e cobertura, a vocação e intencionalidade da publicação, o tratamento dado aos conteúdos, a percepção do jornal sobre o leitor e a relação com as fontes de informação institucionais (CAMPONEZ, 2002, p. 109).
Assim como a mídia local, a imprensa regional também se insere na lógica mercadológica, fazendo do lucro sua razão principal de trabalho. Prestam algum serviço de utilidade pública para a localidade, mas isso é algo que se dá a posteriori. A bem da verdade, exploram esse tipo de conteúdo para promover a credibilidade, como forma de angariar maiores fatias do bolo publicitário regional. Não o fazem com a intenção de criar processos de mobilização e de cidadania. Essa é uma característica particular da mídia comunitária, apesar do termo “comunitário” muitas vezes ser utilizado pelas mídias local e regional.
11 O jornalista regional tem a vantagem de viver entre os seus públicos, o que gera uma maior proximidade para a captação de informação e uma melhor compreensão do meio que pretende cobrir jornalisticamente. Na expressão de Jean Tibi (apud CAMPONEZ, 2002, p. 127), o jornalista regional é um “músico sentado frente a grandes órgãos para aí tocar valsas populares”.
Como se configura como empresa, a mídia regional12 estabelece também relações com a esfera do mercado da região em que se insere. Procura, assim como a mídia local, construir um bloco geoestratégico para dele captar recursos publicitários.
Como forma de melhor caracterizar a mídia regional, retiramos de Peruzzo (2005, p. 78-83) algumas tendências, a saber: a importância dada às fontes oficiais em detrimento do “homem comum”, a reprodução integral de releases de assessorias e a grande incidência de “matérias frias”.
Outra problemática que pode evidenciar os vínculos políticos dessas mídias é a publicação de várias páginas de editais públicos e documentos oficiais das instâncias do poder local e regional, que devem divulgá-los em jornais próprios, conhecidos por “Diário Oficial”, ou em jornais instituídos legalmente na própria municipalidade ou adjacentes.
Vângela Morais (2005), ao estudar a cobertura jornalística de um grande incêndio de campos e florestas de Roraima, em 1998, pelos jornais “Folha de Boa Vista” e “Brasil Norte”, ambos de Boa Vista/RR, pôde apreender como jornais regionais operam. Segundo a autora (2005, p. 95), quanto às fontes, “os políticos tiveram o maior espaço de interlocução no episódio [...]. A confluência das fontes utilizadas pelos dois jornais se revela ainda na adoção de manchetes/títulos similares, ou seja, elementos gráficos e editoriais que sinalizam a explícita partilha de fontes”. Morais (2005, p. 95) ainda destaca outras particularidades, como “presença das assessorias de comunicação como agentes diretos da notícia; a ausência dos protagonistas sociais anônimos; e o silêncio da chamada categoria dos especialistas”, além de falta de postura investigativa na cobertura jornalística.
A tendência de reprodução de releases de assessorias de imprensa foi também diagnosticada por Costa (2005), ao pesquisar o jornal “A Voz do Vale do Paraíba”, de Taubaté/SP, que destaca ainda: a dificuldade de as empresas manterem sua periodicidade e, por isso, por vezes, adotarem edições semanais, quinzenais e até mensais; a utilização dos jornais impressos, por parte das instâncias públicas, para publicação de editais; o quadro de profissionais geralmente não possui formação especializada, além de ser reduzido; o comprometimento político e econômico da mídia regional é mais explícito em comparação à grande mídia; propensão a enfocar “ângulos negativos” dos fatos, que possam gerar escândalos e aumentar a venda de exemplares.
12 Como exemplo, poder-se-ia citar o “Jornal da Cidade” (www.jcnet.com.br), com sede em Bauru/SP; o jornal “Valeparaibano” (www.valeparaibano.com.br), com sede em São José dos Campos/SP; a rede “TV Tem” (www.temmais.com), com sede em Bauru/SP, São José do Rio Preto/SP, Sorocaba/SP e Itapetininga/SP; EPTV (eptv.globo.com), com sedes em Campinas/SP, Ribeirão Preto/SP, São Carlos/SP e Varginha/MG.
Pode-se dizer que se perde, assim, “uma oportunidade de mercado, a de trabalhar com competência a informação de proximidade, que é razão de ser da imprensa local” (PERUZZO, 2005, p. 81). Complementando, Carlos Alberto Di Franco (1995, p. 76) ressalta que jornalismo competente resulta em informação de qualidade:
Ganhar dinheiro com a informação não é um delito. É um dever ético. A afirmação pode parecer utilitária, mas não é. Na verdade, o lucro decorre da credibilidade, da qualidade do produto. E a qualidade é a primeira exigência ética. [...] Trabalhar pouco, trabalhar mal, trabalhar sem a técnica e a qualidade exigidas pela informação é um ataque aos princípios da ética.
Nas palavras de Costa (2005, p. 107),
é nesse cenário que se inicia a presente discussão, pois começa, a partir daí, a influência do poder público em quase tudo o que é veiculado pelos jornais de pequeno porte em cidades do interior. Ora, se esses veículos necessitam de verbas publicitárias dessas instituições, como poderão tratar de assuntos que vão contra os interesses de seus maiores e mais importantes anunciantes (isso, quando não são os únicos), quando for o caso?
Os jornais regionais tendem a veicular um discurso comunitário e a ideia de que são ligados aos interesses da população local, mas, certamente o fazem com interesses mercadológicos, procurando explorar o mercado local, como também apontou Peruzzo (2006, p. 159):
[Alguns meios de comunicação] se autodenominam de comunitários, como forma de angariar a imagem de “ligado à comunidade” ou de estar prestando “serviços de interesse da comunidade” (e às vezes o fazem) e assim obter credibilidade local e consequentemente o apoio na forma de audiência, participação na programação, anúncios publicitários ou votos quando em época de eleições para cargos de representação política.
A mídia local e a regional apresentam características e tendências muito parecidas. Contudo, a nosso ver, ao menos em tese, há que se estabelecerem algumas diferenciações, mesmo que essa distinção torne-se visível somente quando comparadas as duas mídias. Poder-se-ia dizer que a mídia local possui uma abrangência mais reduzida que a mídia regional e, por conseguinte, uma abordagem de conteúdos mais específicos à população. Talvez, esta diferença possa se aplicar apenas em alguns casos específicos, pois, na prática, a mídia local e a regional são muito parecidas, tratadas até como sinônimo por alguns estudiosos.
Por fim, cabe registrar que ao mesmo passo em que parece ser coerente e apropriado partir dos conceitos de comunidade, local e regional para entender as comunicações comunitárias, locais e regionais no mundo atual, poucas são as pesquisas de pós-graduação, em nível de mestrado e doutorado, que se dedicaram a fazê-lo, conforme pudemos constatar
em pesquisa bibliográfica realizada para este trabalho. As que se propuseram, fizeram-no de forma bastante incipiente. Por mais que os conceitos estejam envoltos em certa complexidade e subjetividade, configuram-se como embasamento teórico fundamental para a compreensão dessas comunicações, no atual contexto social.