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A maior liberdade de alteração da causa de pedir

3.3. Estabilidade na fase de conhecimento da demanda

3.3.2. Causa de pedir e pedido nas ações coletivas: as

3.3.2.2. A maior liberdade de alteração da causa de pedir

Além dessa maior fluidez na exposição da causa de pedir remota, nas ações coletivas deve ser permitida maior flexibilidade na alteração da causa de pedir e no pedido, o que significa dizer que há atenuação da regra da estabilidade da demanda.

Vale registrar que o Anteprojeto do Código Brasileiro de Processos Coletivos pretende tornar referidas características em normas positivas. É o que se depreende da redação proposta para o art. 4º: Nas ações coletivas, a causa de pedir e o pedido serão

interpretados extensivamente, em conformidade com o bem jurídico a ser protegido. Parágrafo único. A requerimento da parte interessada, até a prolação da sentença, o juiz permitirá a

alteração do pedido ou da causa de pedir, desde que seja realizada de boa-fé, não represente prejuízo injustificado para a parte contrária e o contraditório seja preservado, mediante possibilidade de nova manifestação de quem figure no pólo passivo da demanda, no prazo de cinco dias.

Louvável a relativização da regra da estabilidade, assim como a preocupação em que seja respeitada a garantia do contraditório.

Para que a análise não fique restrita a aspectos teóricos, importante citar o caso particular da ação de improbidade, regida pela Lei n. 8.429/92.

A ação de improbidade tem por objetivo a aplicação de sanções aos atos de improbidade praticados por qualquer agente público, sendo que pode ser proposta pelo Ministério Público ou pela pessoa jurídica interessada e lesada. Se o Ministério Público não for o autor da ação, atuará, obrigatoriamente, como fiscal da lei, sob pena de nulidade.

Além dos agentes aos quais são atribuídos os atos de improbidade, também será citada a pessoa jurídica de direito público interessada.

Como restou consignado no julgamento do recurso especial

n. 526.982/MG136, em que relatora a Ministra Denise Arruda,

“quando a ação civil pública por ato de improbidade for promovida pelo Ministério Público, o ente público interessado, eventualmente prejudicado pelo suposto ato de improbidade, deverá ser citado

para integrar o feito na qualidade de litisconsorte”.

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O litisconsórcio, nesse caso, é facultativo, como decidido no

recurso especial n. 737.972/PR137, em que foi relatora a Ministra

Eliana Calmon: “Na ação civil por ato de improbidade, quando o autor é o Ministério Público, pode o município figurar, no pólo ativo, como litisconsorte facultativo (art. 17, § 3ª, da Lei 8.429/92, com a redação da Lei 9.366/96), não sendo o caso de litisconsórcio

necessário”.

Registre-se que a pessoa jurídica de direito público, na qualidade de litisconsorte e em função do interesse público da demanda, pode tomar diversas atitudes: contestar a ação, deixar de contestar o pedido ou, ainda, tornar-se autora, ao lado do Ministério Público. Isso ocorre porque o art. 17, § 3º, da Lei de Improbidade, mandar aplicar à ação judicial o disposto no § 3º do art. 6º da Lei 4.717/65 (Lei da Ação Popular), no seguinte sentido:

A pessoa jurídica de direito privado, cujo ato seja objeto de impugnação, poderá abster-se de contestar o pedido, ou poderá atuar ao lado do autor, desde que isso se afigure útil ao interesse público, a juízo do respectivo representante legal ou dirigente.

Portanto, além da interessante relativização da estabilidade subjetiva, decorrente da possibilidade de mudança de pólo no curso da demanda, importante observar que a pessoa jurídica de direito público, ao integrar a lide, pode formular pedido superveniente contra o réu, uma vez que integrará a lide na qualidade de litisconsorte, devendo suprir as omissões e falhas da inicial e apresentar ou indicar os meios de prova de que disponha, como dizia, originariamente, o artigo 17, § 3º da Lei de Improbidade.

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Correto, pois, Rogério Pacheco Alves138 ao considerar

possível, mesmo à falta de norma expressa, “em virtude do

princípio informativo da obrigatoriedade, a atuação supletiva dos demais legitimados sempre que verificada alguma omissão, subjetiva ou objetiva, por parte do Ministério Público. Assim, nada impede, antes recomenda, que, omissa a inicial do Parquet, possam eles aditá-la com o escopo de suprir a falta, buscando, desta forma, a total reparação do dano ao patrimônio público, com a conseqüente aplicação das sanções a todos aqueles que tenham concorrido para o evento. Velando, no final das contas, pelo princípio reitor da obrigatoriedade.

É certo que, em hipóteses tais, nada impediria o ajuizamento de ação autônoma com relação ao aspecto omitido. Não obstante, a fim de que se possibilite ao magistrado uma visão unitária da prova, evitando-se, com isso, a prolação de sentenças contraditórias, melhor será que se adite a inicial do Parquet, procedimento muito mais célere e econômico que o ajuizamento de uma outra ação civil pública. Aplicável, neste passo, a regra de que “quem pode o mais (ajuizar a ação) pode o menos (aditar a inicial)”.

O pedido, inclusive, pode ser diverso do que consta na inicial.

Conforme Rogério Pacheco Alves139, “em qualquer momento,

mesmo depois de realizada a citação do réu ou saneado o processo, desde que antes da sentença, será possível o aditamento objetivo/subjetivo da inicial, não incidindo as restrições contidas no art. 264 do Código de Processo Civil em razão da natureza indisponível do interesse em jogo e da posição de substituto

138

Improbidade administrativa, Rio de Janeiro: Lúmen Juris, 2002, p. 552.

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processual assumida pelo autor, parte meramente ideológica. Solução contrária colocaria nas mãos do legitimado e do réu a possibilidade de fixação definitiva dos contornos da lide em detrimento do interesse maior dos substitutos, esmaecendo o princípio da obrigatoriedade”.

Portanto, além de ser cabível o aditamento da inicial, pode ser formulado pedido diverso do que consta da inicial, o que demonstra flagrante relativização da regra da estabilidade, em seu aspecto objetivo.