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Capítulo 1 – Substância, atributos e modos ou da consistência da ontologia de Spinoza

1.3. Modos – imediatos / mediatos / finitos

1.3.6. A mente humana na EII

O que é a mente humana para Spinoza? Para ele, a mente humana é modificação ou

produção de ideias internas “porque é uma coisa pensante [res est cogitans]” (EIIDef.III; SO2, p.84). E o que são essas ideias que se seguem desta modificação [produção] mental? São conceitos continuamente advindos da própria “mente” (EIIDef.IIIexplic.). Nesse sentido, a mente é produção ininterrupta de ideias ou conceitos internos, sem depender de qualquer percepção dos sentidos, já que a percepção indica “que a mente humana é passiva relativamente ao objeto” exterior (Ibidem.).

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Observação e grifo nossos. 45

Grifo nosso. 46

Grifo nosso. Tratar-se-á da questão da beatitude apenas no segundo capítulo deste trabalho, já que tal problema filosófico está totalmente correlacionado com a concepção de intuição [terceiro gênero de conhecimento]. Aqui, portanto, há uma atenção especial à mente e o corpo humano, dois elementos essenciais que auxiliam à pesquisa sobre o

que são modos humanos finitos.

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Nessa parte da obra Spinoza não trata apenas da mente e do corpo intrínsecos aos modos finitos, mas também busca enfatizar toda uma teoria do conhecimento que é destinada a abordar a imaginação, a razão e a intuição [os três gêneros do conhecimento] mentais. Não se pretende aqui neste capítulo tratar desta teoria do conhecimento de Spinoza, justamente porque ela levaria a caminhos distintos relativamente ao itinerário que vem sendo construído até aqui, o qual empreende uma espécie investigação das provas acerca dos elementos fundamentais que constituem a ontologia do autor, isto é, substância, atributos e modos. Contudo, mais adiante [segundo capítulo] a questão da teoria do conhecimento será aprofundada a partir do escopo da razão e, por conseguinte [terceiro capítulo], haverá a exposição acerca da noção de intuição. É nesse sentido que se permitirá posteriormente a retomada da EII na esteira da teoria do conhecimento de Spinoza.

47 Desse modo, a produção intelectiva ou mente humana não pressupõe uma passividade relativa ao exterior para agir, ou melhor, não pressupõe a dependência dos órgãos dos sentidos relativamente à matéria externa em captação. Então, a mente de um homem é, de outro modo, uma ação viva que exprime por si ideias ou conceitos em si mesma. É exatamente desta maneira que o “homem pensa [homo cogitat]” (EIIAx.II.; SO2, p.85)48 para Spinoza.

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No último capítulo [os modos de percepção na estrutura da Ética] de A doutrina dos modos de percepção e o

conceito de abstração na filosofia de Espinosa Lívio Teixeira atenta constantemente para o problema de se considerar a

mente humana em Spinoza como sendo uma coisa fechada em si mesma, a qual constitui ideias a partir de sua substância. Segundo o comentador, esse tipo de interpretação deve ser sempre evitada quando se trata da concepção de mente em Spinoza, mesmo e apesar do autor tê-la denominado [a mente] na EIIDef.III de “coisa pensante”: “É verdade que já na Definição III encontramos algo que parece coincidir com a concepção tradicional de alma substancial [...] Essa expressão, contudo, deve ser entendida, de acordo com a analogia dos textos, como simples cogitatio, simples modo não substancial de perceber as coisas [...] Na verdade, a definição de alma não se encontra nesta Definição III, que é a definição da ideia, mas na proposição XI: “O que constitui, primeiramente, a alma [mente] humana não é nada senão a ideia de uma coisa singular que existe em ato” ”[TEIXEIRA, 2001, p.172]. É em sentido muito similar a este de Lívio Teixeira que, no artigo O problema do desinteresse na filosofia de Spinoza [2009], Marcos Ferreira da Paula intui que a mente ou ideia não é certamente uma substância, mas é um processo ou “o resultado imanente da atividade produtora [advinda] do atributo pensamento”, sendo ela [mente ou ideia] própria “um grau de potência da potência infinita” do intelecto que advém do “atributo” pensamento “e, portanto, é também uma ação que exprime de maneira certa e determinada a ação da Natureza sob o atributo pensamento [...]” [PAULA, in O mais potente dos afetos: Spinoza

e Nietzsche, 2009, p.236-237]. Isso também é defendido por Ivan Domingues em O grau zero do conhecimento: o problema da fundamentação das ciências humanas [1991]. Para ele não há verdade mental dada por meio de um sujeito

hermeticamente fechado em si mesmo, mas há uma verdade de produção ideal que está incutida no indivíduo o qual contém em si a universalidade de um intelecto que se segue do atributo pensamento de Deus, ou seja, o próprio processo de criação de ideias universal e que está para além do indivíduo enquanto sujeito hermético. É por isso que “o ponto de partida do conhecimento não pode ser a ideia do eu (alma) [...] mas a ideia [advinda do atributo pensamento] de Deus [...] Ora, ao contrário do que diz Descartes, na espontaneidade de seu funcionamento, o elemento do espírito não é a dúvida ou o erro, mas a verdade, e sendo o que é, uma potência produtora da verdade, ele vai de verdade em verdade, se sabe em cada instante como verdade e encontra no interior de si mesmo o index da verdade ou sua medida” como já dizia Gueroult [DOMINGUES, 1991, p. 98-99]. É por isso que também, segundo José Ezcurdia [Imanência e

amor na filosofia de Espinosa – 2008], a mente “o sujeito é uma modificação do atributo pensamento, quer dizer, uma

ideia pela qual é possível o conhecimento, em termos de princípio [...] Nesse sentido, o próprio sujeito, justamente enquanto modo do atributo pensante, não pode conhecer mais que ideias”. É isso que faz com que este intérprete conclua que a ideia em Spinoza não é realizada a partir dos dados sensíveis exteriores remanescentes da matéria, como se a mente ou intelecto do indivíduo se resumisse a se constituir a partir da recepção passiva das impressões dos sentidos: “Spinoza não vê no intelecto uma prancha de cera, na qual se imprimam as formas provenientes da sensibilidade e se articulariam em imagens sensíveis e conceitos universais, mas vê nele uma força pensante, um pensamento vivo e ativo como o atributo do qual é modificação e expressão, capaz de criar seus próprios objetos”. E assim “o sujeito determina-se como ideia que atualiza sua forma na produção de conceitos, que são objeto de seu conhecimento”. É aqui então que se encontra a veia idealista de Spinoza, diz Ezcurdia, já que, para o comentador, a demarcação epistemológica spinoziana “cai dentro de um enfoque idealista em que o objeto de conhecimento do sujeito são seus próprios conceitos ou representações e ele não precisa mais do que destes para determinar a verdade”. Mas há algo a mais nesse sentido, que faz com que o filósofo distoe da tradição filosófica da adequatio externa. Para se validar como verdadeira, a ideia da mente em Spinoza não tem necessidade de adequar-se à objetos exteriores, ou seja, transcendentes, já que é totalmente adequada a si em si mesma, não precisando fazer remissão a objetos outros que a validem enquanto verdade: “Assim, a tradicional definição de verdade como a adequação ou correspondência do intelecto à coisa [transcendente] é deslocada pela coerência entre as ideias e a noção de ideia adequada. Para Espinosa o conceito de adequação assinala a certeza interna e a verdade intrínseca da ideia”. Por quê? Porque diferentemente da tradição da adequatio externa à coisa transcendente, é possível apontar com Spinoza que o indivíduo já contém imediatamente em si a força ou potência da verdade intelectiva universal do atributo pensamento de Deus, não precisando, portanto, “pedir autorização” a objetos transcendentes para se afirmar enquanto verdade. Assim, finaliza Ezcurdia, “O autor vê no sujeito uma potência de pensamento capaz de criar ideias que são objetos de seu conhecimento. Na medida em que essas ideias tenham os traços próprios da ideia adequada serão verdadeiras e não requererão uma correspondência com uma forma transcendente para determinarem-se como tais [...] É aqui que Espinosa utiliza os conceitos cartesianos de clareza e distinção como critério fundamental para determinar a verdade intrínseca ou o caráter adequado das ideias. Toda ideia que seja simples, que se conheça em si mesma e se distinga de todas aquelas com as quais guarda relação, em suma, toda ideia que seja clara e distinta, é objeto de uma conhecimento

48 Todavia, se os homens não param de produzir suas próprias ideias por meio das suas mentes

a priori não-passionais, isto só pode se dar porque as mentes finitas dos modos humanos estão

antecipada e internamente inseridas num outro “âmbito”, em outra coisa que não elas mesmas, e que, portanto, dependem diretamente. Nesse sentido e de acordo com Spinoza, sempre é preciso, para se entender a mente do homem, levar em consideração o seguinte: para agir tal como age, a mente humana deve anteriormente estar incutida [como já foi parcialmente anunciado nos tópicos anteriores] em uma modificação infinita ativa [modo infinito mediato advindo identicamente de todos os atributos] a qual modifica as leis estáticas do entendimento do universo [modo infinito imediato que se segue do atributo pensamento]. Aqui, há uma modificação infinita que é produção infinita do entendimento universal, a qual é a priori ou anterior ao homem. Como consequência, há a ação mental interna ao homem [contínua produção ou modificação ideal-conceitual], que ocorre porque ela pressupõe a dimensão anterior na qual está inserida, a saber, a própria modificação

produtiva universal de ideia ou entendimento49. Assim, Spinoza conclui na demonstração da EIIPIV que o entendimento ou intelecto infinito em modificação infinita deve conter em si as mentes dos modos finitos (EIIPIVd.), já que “a essência do homem é constituída por modificações definidas dos atributos de Deus” (EIIPXc.). O mesmo pode se dizer para o corpo humano, como se verá adiante.

Cabe ainda reiterar que esta “produção ou modificação intelectiva infinita” é um ser que se

segue e que permanece no atributo pensamento de Deus, já que o “ser formal [esse formale]50 das ideias reconhece Deus como sua causa, enquanto Deus é considerado apenas como coisa pensante, e não enquanto é explicado por outro atributo” (EIIPV; SO2, p. 88). Se é assim, pensa o autor, o intelecto em modificação [produção] de ideias ou mente humana [que é coparticipante de um intelecto infinito em modificação/produção] também se segue e está presente no pensamento de imediato e, por isso, fonte de verdade. [...] A análise das ideias, sua redução aos elementos simples em que se compõem e a determinação de seu caráter claro e distinto, são o princípio para satisfazer cabalmente a forma ativa do intelecto e produzir ideias adequadas, ideias que possuem a verdade como forma intrínseca” [EZCURDIA, in Cadernos

Espinosanos, nº. XIX, Jul-Dez, 2008, p.26-27].

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É justamente essa percepção que leva Emanuel Fragoso, em As definições de causa sui, substância e atributo na

Ética de Benedictus de Spinoza, a estabelecer que entre o intelecto infinito do pensamento de Deus e o intelecto humano

há apenas uma diferença de intensidade ou de grau quantitativo e não uma distinção de qualidade, como era o caso de Descartes: “a distinção entre o entendimento humano e o entendimento infinito ocorre apenas no aspecto quantitativo, não havendo distinções no aspecto qualitativo como ocorre no cartesianismo. Essa semelhança qualitativa entre os entendimentos é devida às diferentes considerações acerca da natureza da causa: Deus é transcendente na filosofia de Descartes e imanente na filosofia de Spinoza. Por ser causa imanente, no spinozismo o entendimento humano é uma parte do entendimento divino, ainda que se mantenha a distinção quantitativa entre os entendimentos: o entendimento divino (que tudo entende) tudo conhece e o entendimento humano (que recai apenas sobre as coisas e os eventos que lhe são dados) não pode e nunca poderá conhecer tudo o que Deus conhece; ou seja, a distinção no aspecto quantitativo é apenas na capacidade de possuir ideias adequadas, que é limitada no homem e infinita em Deus. Se consideramos o entendimento infinito “enquanto se explica [explicatur] pela natureza da alma” (II, proposição 11, corolário e II, proposição 43, demonstração), o entendimento humano (enquanto percebe as coisas verdadeiramente) é uma parte do entendimento infinito de Deus, sendo idêntico a ele e conhecendo as coisas como Deus conhece (GUEROULT, 1997, v.1, p.32)” [FRAGOSO, in UNOPAR Cient., Ciênc. Hum. Educ., v. 2, nº1, 2001, p.84).

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49 Deus, pois “o seu ser objetivo – ou seja, as ideias – não existem a não ser enquanto existe a ideia

infinita” (EIIPVIIIc.) que está compreendida no atributo pensamento divino. Portanto, as ideias que

se seguem tanto do atributo pensamento de Deus quanto das mentes das coisas singulares, reconhecem que estão em Deus enquanto ele é coisa pensante, pois, como já dizia Spinoza na demonstração EIPXXXI:

por intelecto [...] não compreendemos um pensamento absoluto, mas apenas um modo definido do pensar [...] Portanto (pela def.5), ele deve ser concebido por meio do pensamento absoluto, isto é [...], por um atributo de Deus que exprima a essência eterna e infinita do pensamento, de maneira tal que sem esse último ele não pode existir nem ser concebido. Por isso (pelo esc. da prop. 29), ele deve estar referido à natureza naturada e não à natureza naturante, o mesmo ocorrendo com os demais modos de pensar (EIPXXXI).

Ora, é especificamente por isso que ao final da demonstração da terceira proposição da EII o filósofo argumenta que toda ideia ou conceito em produção pela mente de um modo finito “não existe senão em Deus” (EIIPIIId.), ou melhor, no intelecto infinito em modificação que se segue e que se encontra no atributo pensamento de Deus. Assim, a mente humana é coisa pensante em ato (EIIPIX) a qual produz, por isso, ideias, já que é coparticipante de um entendimento ou intelecto infinito em modificação [autoprodução], o qual recria-se eternamente no âmago do pensamento de Deus. Neste itinerário, infere Spinoza que as ideias em produção [modificação] pela mente são “um modo singular do pensar [...]”, ainda acrescentando no escólio da proposição XXI da EII que

a ideia da mente humana e a própria mente são uma só e mesma coisa, concebida, neste caso, sob um só e mesmo atributo, a saber, o do pensamento. Afirmo que o existir da ideia da mente e o existir da mente seguem-se, ambos, em Deus, da mesma potência do pensar, e com a mesma necessidade (EIIPXXIs.).

Esse fragmento de texto oferece uma nova informação acerca da natureza da mente humana: a homologia entre ideia e mente. Por que apontar que há uma homologia entre ideia e mente a partir do que Spinoza diz no escólio da proposição acima? Ora, porque a ideia a qual Spinoza se refere neste escólio não é algo estático, mas sim aquilo que está se recriando a si mesmo, incessantemente em modificação. Assim, para o filósofo é exatamente isso que é a mente: ideia que se recria continuamente a si mesma. Contudo, ainda há algo mais. Cada ideia produzida representa aquilo que ele chama na EIIPXI de o ser atual da própria mente: “o que, primeiramente, constitui o ser atual da mente humana [actuale mentis humanae esse] não é senão a ideia [...]” (EIIPXI; SO2, p. 94). Ou seja, cada ideia desvela a existência atual da própria mente. Neste escopo, a mente não é ideia estática, mas é ideia em recriação ou modificação contínua de ideias. É possível aqui então afirmar que, a partir do que foi dito, a própria mente parece ser regida por uma espécie de

50 necessidade “incontrolável” de desvelar suas modificações vitais enquanto ideias em modificação.

Para Spinoza essa modificação contínua de ideias ou mente em mudança afirmativa faz surgir como consequência uma ordem interna de apresentação das ideias, intitulada por Spinoza na EIIPVII de ordem e conexão das ideias [ordo & connexio idearum]. Portanto, esta ordem e conexão é uma sequência de ideias que se desvela ao passo em que a mente não para de se apresentar sob forma de ideias diferenciais. Assim, a contínua modificação [produção] de ideias ou a mente humana anuncia-se em modificação, a qual faz surgir uma ordem sequencial de ideias [ordem e conexão das ideias] que se seguem ininterruptamente umas das outras. Para explicar melhor isso, escolhe-se aqui um exemplo: a mente, primeiramente, apresenta seu estado atual de vida sob a forma de uma ideia 'x', logo após sob o estatuto de uma ideia 'y', que é seguida da representação de uma ideia 'w', e assim por diante. O que há aqui nesse exemplo requisitado é a formulação da sequência ou ordem de criação de ideias xyw. Todavia, essa ordem não é uma simples sequência de efetuação de ideias. E por que ela não é uma simples ordem de exposição de ideias internas? Ora, porque ela é uma sequência que anuncia a continuidade ou o “histórico de vida” da mente humana enquanto ideia em modificação. Nesse sentido, Spinoza também permite mostrar aos seus leitores que uma ideia é produzida por uma ideia, esta a qual também havia sido produzida por outra ideia, e assim sucessivamente até o infinito51. É estritamente a isto que o autor denomina de ideia da ideia ou a própria forma da ideia.

[...] a ideia da ideia [idea ideae], não é senão a forma da ideia [forma ideae], enquanto esta última é considerada como um modo de pensar, sem relação com o objeto [objectum - corpo]52. Com efeito, quando alguém sabe algo, sabe, por isso mesmo, que o sabe, e sabe, ao mesmo tempo, que sabe o que sabe, e assim até o infinito (EIIPXXIs.; SO2, p.109).