PARTE I O VÔO E A VALIDADE
2. POSTURA METODOLÓGICA
2.2 A metáfora como caminho do dizer múltiplo
Desde que Charles Taylor e Alvin Gouldner, conforme Habermas (1983, p. 44),
posicionam-se contra a possibilidade de linguagens axiologicamente neutras no domínio das
ciências compreensivas, tem sido obrigatória a discussão sobre as características, limites e,
sobretudo, as condições de possibilidade do discurso científico. O interesse, neste ponto, é o
de defender uma maior abertura no aproveitamento das oportunidades do dizer, a fim de não
apenas embelezar, tornando mais palatável, como também ampliar as possibilidades de
significação, a partir da interação que se cria, embora de modo mais elitizado, entre o texto do
pesquisador e o trabalho de leitura. Por tal razão, a segunda questão que julgamos
fundamental discutir, e que reservamos para este capítulo, é a da validade da metáfora no
Observamos quatro características do discurso acadêmico, em sua herança fortemente
iluminista e, em muitos dos casos, positivista: a exigência de fala na terceira pessoa, a
exigência da semântica literal, a exigência de referencialidade em fatos e a exigência de
referencialidade em autores relevantes. A primeira exigência expressa uma pretensão de
universalidade: o discurso na terceira pessoa pretende sempre deslocar o proferimento para o
mais distante possível da subjetividade do pesquisador (falante) e da do leitor (ouvinte),
resultando na impressão de que se trata de conteúdos cujas validade e verdade independem de
contextos não objetivados. A segunda exigência prende-se à pretensão de domínio da
interlocução: a literalidade semântica objetivista — ou a sua tentativa — pretende restringir
ao máximo a plurissemia das interpretações pelos interlocutores, resultando na impressão de
que o texto versa sobre assuntos “exatos”, utilizando, para isso, palavras e expressões igualmente “exatas”. A terceira exigência vincula-se, mais diretamente, à pretensão de objetividade, isto é, a categoria “fatos” pretende uma vez mais remeter o lugar de fala para o mundo objetivo, conferindo a impressão de que são as coisas que estão a falar, sendo o
cientista apenas aquele que constata a verdade inserida e transparente na realidade. E, por fim,
a quarta exigência remete-nos à pretensão de continuidade e de autoridade, ou seja, pretende
dotar o argumento do saber à tradição do próprio saber e, além disso, reforçar os ditos pela
cumplicidade intertextual de autoridades, o que constitui, sem dúvida, um tipo de argumento
ad hominem.
Sem, evidentemente, qualquer pretensão de completude, este trabalho procura operar
alguns rompimentos (parciais) nesse modo de ver e tratar o conhecimento: Primeiramente,
contra a pretensão de universalidade, já foi proposta uma epistemologia da incompletude; em
seguida, contra a pretensão de objetividade, a opção se deu pelo tratamento pragmático
intersubjetivista; terceiro, contra os regimes de autoridade e continuidade, admitiu-se a noção
através da literalidade, a proposta, para a qual foi reservado este capítulo, é a incorporação
(embora obviamente não exclusiva) da metáfora e de suas incertezas e jogos, no interior do
texto científico. E esse procedimento é a alternativa para as diferentes conceituações do objeto
empírico central desta Dissertação: as programações de rádio e televisão.
A metáfora é, talvez, a figura de linguagem que, paradoxalmente, maior fascínio e
mais intensa rejeição tem causado a filósofos e cientistas, ao longo da história, especialmente
no período moderno. Aliás, a relevância desse tema surge não apenas do fato de, conforme
confessa Jorge Campos (1996, p. 9), a metáfora ser “... absolutamente problemática para a ampla comunidade de interessados em esclarecê-la teoricamente”, mas sobretudo porque suas
sentenças,
“... se não esclarecidas, podem constituir-se em ameaças de obscuridade à suposta clareza e objetividade de suas investigações. De fato, presente nas mais diversas áreas do conhecimento, o paradoxal contraste entre a simplicidade das intuições para identificar a metáfora e produzi-la e a absoluta complexidade para explicá-la caracteriza um verdadeiro desafio à racionalidade do uso da linguagem”.
Há, basicamente, três formas de abordar a metáfora, no campo da semântica: a
figurativista ou desviante, que busca estudá-la na perspectiva da distinção entre significado
literal e significado figurativo, interpretando-a, destarte, como um desvio da linguagem literal;
a interacionista, que propõe que a metáfora realiza uma interação, comparação ou
similaridade entre dois objetos; e a pragmática, cujo fundamento é o estudo da distinção entre
o significado das palavras e sentenças e o significado do falante, ou o que o falante quer dizer
com o uso que faz delas. A primeira abordagem é amplamente contestada hoje pelos
lingüistas, como Davidson (apud Finger, 1996), para quem não há um significado metafórico
além do literal e a idéia de desvio não é suficiente para explicar como as metáforas
Finger, 1996), segundo o qual as metáforas não produzem qualquer interação entre conteúdos
semânticos. E, por fim, a apreensão pragmatista tem sido a que tem convergido os estudiosos,
a partir da proposta de Grice (apud Finger, 1996), cujo enfoque fundamental está na distinção
entre o significado das palavras e o do falante, tomando como pista para o seu desvelamento o
estudo da falsidade óbvia, isto é, o fato de uma metáfora, tomada em seu sentido literal, ser
falsa e, entretanto, isso ser inteiramente perceptível ao interlocutor, sem que por isso ocorra
qualquer quebra na confiança da interlocução ou no valor de verdade das proposições.
Não há, neste capítulo metodológico, espaço nem utilidade em tratar com
profundidade e detalhe dessas diferentes abordagens, suas possibilidades e limites. O interesse
neste momento é tão somente salientar algumas características que tais estudos têm
apresentado, objetivando justificar o proveito do uso da metáfora neste trabalho e a coerência
que tal uso tem com a proposta epistemológica aqui apresentada.
Nesse sentido, tomamos por base a atualização operada por De Almeida e Finger
(1996) à compreensão semântica dessa figura de linguagem. Esses autores partem de uma
abordagem pragmática, por ser uma condição básica para a compreensão da metáfora o fato
de ser seu entendimento inteiramente vinculado ao contexto da interação social. Assumem,
assim, de partida, a idéia griciana básica, de procurar conhecer como o falante se compromete
com a proposição subjacente à óbvia falsidade que a metáfora enuncia. E, dessa perspectiva,
propõem um princípio de caridade, definido pelo axioma de que os ouvintes tentam
maximizar a coerência na atribuição de crenças aos falantes de que sejam interlocutores, e
que, conforme esses autores (1996, p. 88), “governa todo e qualquer ato de atribuição racional
de crenças, não sendo, portanto, um princípio específico da interpretação do discurso não-
literal”. Assim, através de um processo de inferência pragmática, o ouvinte deve levar em consideração todas as crenças que possui em seu sistema doxástico sobre o falante, a fim de
caso, o contexto pode ser favorável, contribuindo para a escolha da crença que melhor
maximize a coerência, ou hostil, como no caso dos proferimentos vagos, para os quais não há
como ser caridoso. No entanto, De Almeida e Finger afirmam que (1996, p. 88)
“é justamente a ‘hostilidade’ do contexto – a impossibilidade de obter-se um único conteúdo proposicional, como resultado do processo inferencial de interpretação da metáfora que maximiza a coerência no sistema doxástico atribuído ao falante – que produz aquilo que chamamos a ‘riqueza’ da metáfora”.
Esse movimento pragmático, de deslocar o significado do ato de fala para o contexto
em que se fala, ou seja, fora do universo do texto, e de admitir a inserção necessária do
interlocutor no processo semântico, é, a nosso ver, extremamente coerente com a proposta
epistemológica delineada nesta Dissertação. É coerente com uma teoria argumentativa da
ciência, pois, ao inserir o ouvinte de forma radical na construção do significado, vincula as
possibilidades de realização do sentido às características performáticas da interação entre os
interlocutores, isto é, não apenas ao sistema de crenças que está em jogo, mas também ao
como tal interlocução se dá, o que chama a atenção para as pretensões habermasianas de
validade da interação comunicativa. E é coerente com uma proposta epistemológica de
incompletude, vez que a possibilidade da riqueza interpretativa, anexada por De Almeida e
Finger à “hostilidade” do contexto em fornecer background interpretativo de crenças, é, nesse ponto de vista, claramente uma abertura polissêmica para a relação de conhecimento.
Com base nessas coerências, acrescenta-se, num enviesamento proposital rumo à
discussão epistêmico-metodológica, algumas proposições a essa visão intersubjetivista e
semântico-pragmática da metáfora, que concluem por uma abordagem comunicacional dessa
figura de linguagem e, por conseguinte, do dizer acadêmico.
(a) O falante não controla o ouvinte. As pretensões de poder entranhadas no ato
metafórica. Reconhecendo, como postulamos no início, que a literalidade
semântica no discurso científico está associada a uma pretensão de controle
performático dos significados no âmbito da interpretação, propõe-se a
desvinculação possível da ciência de suas históricas características estratégico-
instrumentais. É claro que não se pretende, com isso, reduzir toda a literalidade à
racionalidade orientada ao poder, por reconhecer sua utilidade como conferente de
precisão semântica e inteligibilidade às proposições do saber sistematizado.
Considera-se, porém, que tal pretensão igualmente não pode subsumir todo o dizer
científico, sob pena de, como menciona Boaventura Santos (1989, p. 129), sua
ausência ser apenas “o efeito ilusório da sua presença dormente”. Afinal, como afirma este autor (1989, p. 130), “... expressões lingüísticas usadas
recorrentemente pelos cientistas podem parecer a estes expressões normais,
literais, e a um observador estranho expressões metafóricas”.
(b) O interlocutor, contudo, não interpreta como quer. Não cabe, portanto, uma
abordagem voluntarista da interpretação, como muitas vezes se caracterizou a
pesquisa de recepção no Brasil, especialmente durante a década de 80. Nem para o
falante, nem para o ouvinte, a metáfora tem conteúdo ilimitado, mas a postulação
inserta neste trabalho é em favor de uma negociação dos sentidos. O que se
pretende, neste caso, é prioritariamente a inserção, julgada evidente, do outro no
processo de construção do significado, ou, no dizer de Habermas (1983, p. 43), os
intérpretes, “... eles próprios se vêem envolvidos nas negociações sobre o sentido e a validez dos proferimentos”, sendo que, conforme esse mesmo autor, numa proposição que é vital para este trabalho e que se procurará desenvolver melhor
adiante, “ ‘compreender o que é dito’ exige a participação e não mera
(c) A metáfora possui, portanto, um precioso potencial comunicativo, que, nesse caso,
está localizado em sua interessante ambigüidade: de um lado, constitui, como faz
ver Ingrid Finger (1996, p. 67), um caso típico de asserção, ou seja, “... uma
sentença que é usada metaforicamente possui exatamente as mesmas condições-
de-verdade que teria se fosse usada literalmente pelo falante, e que, portanto, (...)
expressam enunciados que são verdadeiros ou falsos”, sendo possível ao interlocutor posicionar-se diante de suas implicações semânticas; e, por outro lado,
a metáfora possibilita um nível mais livre de interpretação e, mesmo, a
possibilidade de expressar insights. Como afirma MacCormac (apud Campos,
1996, p. 12), “a metáfora é praticamente inevitável na tradução do que se desconhece para o que se sabe”, ou, como reconhece Bergmann (apud Finger, 1996, p. 63), “existem coisas que podem ser ditas por metáforas para as quais não temos palavras literais4”.
(d) Tais características possibilitam o desenvolvimento de condições de operar a dupla
ruptura, postulada por Boaventura Santos (1989), vez que a utilização da metáfora
(e, conforme esse autor, também a analogia) promovem uma aproximação da
linguagem cotidiana, que é onde essa figura de linguagem viceja em sua maior
riqueza, construindo ditos populares, exprimindo interpretações, mitos e crenças.
Anexado, de forma parcimoniosa, ao discurso científico, como pretendemos ter
feito nesta Dissertação, o argumento metafórico possibilita ainda considerar o
entendimento não apenas em seu valor de verdade, mas, analisando-o de forma
4 Merrie Bergmann assume essa proposição enquanto possibilidade, conforme menciona Ingrid Finger, segundo
a qual (1996, p. 63), “essa citação pode ser considerada correta se for interpretada como uma afirmação de
que a linguagem não dispõe de recursos que possibilitem a re-enunciação, numa paráfrase, de determinadas proposições. Bergmann alega que, embora seja possível que esse tipo de lacuna realmente exista na linguagem, não se conhece nenhum caso convincente em que tenha sido preenchida por uma metáfora. Por outro lado, defende que é correto dizer que existam certos significados não-proposicionais que não são parafraseáveis precisamente por qualquer expressão literal, se contarmos somente com os recursos disponíveis na linguagem”.
comunicativa, incluir nas relações eventuais que desencadeie, a discussão sobre
suas pretensões de validade, enquanto discurso racionalmente orientado.
(e) Por fim, parece-nos que a metáfora possibilita também a introdução da figura do
evento, qua deriva derridiana do texto, de forma explícita, no trabalho com
pretensões científicas. Com a sua comunicação ou publicação, enriquecido das
metáforas que, reconhecemos, são mais demonstrativas do que explicativas de seus
conteúdos, as relações que venha a criar ganham em possibilidades criativas de
novos sentidos, não pensados pelo autor.
Por tais razões e, talvez por outras ainda não percebidas, temos buscado na
metaforização uma forma cientificamente válida de produzir conhecimento, ao menos nas
ciências humanas. Por isso, a propusemos como método, na redação desse trabalho
dissertativo, embora a tenhamos usado da forma mais parcimoniosa possível.