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PARTE I O VÔO E A VALIDADE

3. OS CONCEITOS DE PROGRAMAÇÃO

3.1 As grades

O conceito mais simples e corrente é o que define programação a partir de metáforas

espaciais ou utilitárias, como mapa ou a grade de previsão ou planejamento dos programas que

serão emitidos num determinado tempo em uma emissora de rádio, a partir de critérios como a

época ou temporada, os horários, os gêneros, a estrutura, o destinatário, a freqüência e a área de

difusão. Dentro desse vínculo metafórico, encontramos também a figura do palimpsesto

(Simonelli-Taggi, conf. Martí i Martí, 1990, p. 55), que vem a ser o pergaminho que, na

antigüidade, era utilizado diversas vezes para a escrita, após a raspagem da tinta anterior.

Este grupo conceitual acentua algumas características formais, que podem ser resumidas

numa concepção estrutural-funcionalista da comunicação social. Segundo Mauro Wolf (1985, p.

55), essa postura se inscreve numa lógica constituída por relações de funcionalidade sistêmica

que presidem a solução de quatro problemas fundamentais, ou imperativos funcionais: a

manutenção do modelo e o controle das tensões; a adaptação ao ambiente; a perseguição do

objetivo; e a integração ou a fidelidade dos elementos ou partes ao sistema em seu conjunto.

Explica Wolf que (1985, p. 56)

“Quando se afirma que a estrutura social resolve as questões relativas aos imperativos funcionais, pretende dizer-se que a acção social conforme às normas e aos valores sociais contribui para a satisfação das necessidades do sistema.”

Se tomados os imperativos funcionais como critério metodológico para a identificação

conceitual, torna-se simples verificar que a programação definida como mapa ou grade inscreve-

se claramente nessa linha teórica.

A metáfora da grade refere-se, com certeza, à forma tabular como se costuma distribuir

os conteúdos e/ou programas planejados, em relação com os divisores de tempo (horários e dias

da semana), emprestando ao planejamento de veiculação uma visualidade extremamente

funcional. É dentro dessa visão que a programação é definida, por exemplo, por Martí i Martí

(1990, p. 55) como “... la suma de los programas que emite una emisora”, ou como “... conjunto de programas de una determinada emisora en una unidad de tiempo”, ou, de modo idêntico, por Muñoz y Gil (conf. Martí i Martí, 1990, p. 56), referindo-se especificamente ao rádio, como “...

la previsión de los programas que van ser emitidos durante un tiempo determinado a través de

una emisora de radio”. No primeiro caso, encontramos a idéia de compartimentalização de conteúdos vinculados a um conjunto (a programação, como grade); no segundo, a inserção do

elemento tempo como fundamento material dessa compartimentalização; e, no terceiro, a

assunção clara da noção de planejamento, conferindo caráter administrativo ao conceito de

programação. Os imperativos funcionais de manutenção, adaptação e integração aparecem

claramente. Tais características irão se repetir com a afirmação do componente teleológico

(busca de objetivos), em definições como a de Simonelli-Taggi (conf. Martí i Martí, 1990, p. 55):

“... organización de una série de programas en el interior de un cadro de referencia más o menos homogéneo, segun las exigencias de cada red, circuito o simples emisoria radiotelevisiva”.

A metáfora do mapa refere-se a outro referencial, o ouvinte ou telespectador, para o qual

essa concepção de programação atribui o sentido de guia da rede de conteúdos. O conceito

anterior, de Simonelli-Taggi, já menciona algum sinal desse tipo, ao referir-se a um certo quadro

de referência, o que diz respeito também à estratégia discursiva do emissor, como menciona

“... la colocación de un programa y su importancia en el palinsesto pueden considerarse elementos contextuales del género, funcionan para el receptor como instrucciones sobre el modo de usar el texto, como principio de orden para orientarse dentro del conjunto de discursos”.

Uma conceituação estrutural-funcionalista mais completa, no entanto, pode ser

encontrada em Cébrian Herreros (conf. Martí i Martí, 1990, p. 56), para o qual programação é

“... la planificación y ordenación de mensages elaboradas en forma de programas en un conjunto armónico conforme a los objetivos de la emisora, sociologia de al audiencia y relevancia del mensage”.

Essa idéia de grade ou mapa, característica de uma visão estrutural-funcionalista da

programação, comparece também em Domenique Wolton, na recente querela levantada por ele

contra as programações especializadas de televisão, que têm marcado especialmente os sistemas

de TVs a cabo. Ele opõe o modelo de televisão “fragmentada” ao de televisão “geralista”, lançando mão de metáforas muito semelhantes às constantes nesse grupo: o que Wolton (1990,

p. 100) denomina programação é vinculado à idéia de menu e caracteriza a televisão geralista,

isto é, aquela que “constrói uma grade de ofertas suscetível de gerar múltiplas expectativas” (grifo nosso); e o que ele chama edição define-se como o à la carte, e, segundo ele, remete à

idéia da “unidade do produto, ou seja, ao programa singular que cada espectador escolhe assistir, sem que tenham qualquer ligação uns com os outros”. A análise de Wolton e o seu desdobramento propositivo dizem respeito à questão da segmentação e à especialização das

programações de televisão, assunto que será tratado em outro capítulo. Sua base conceitual,

contudo, é, indiscutivelmente, estrutural-funcionalista.

Dentro da perspectiva dos autores citados, a programação é um instrumento de

planejamento, cuja característica essencial seria a de prever a inserção de conteúdos dentro do

tempo, com base em critérios técnicos, de natureza mercadológica. Uma programação seria, por

essa ótica, um plano de ação, com a função de racionalizar a distribuição de conteúdos. No

âmbito da pesquisa, estudar a programação de uma emissora passaria a ser apenas investigar a

distribuição desses conteúdos dentro do tempo, indagando pela lógica através da qual as partes se

harmonizam com o todo e pelos mecanismos de controle e eficiência das ações programadoras

das emissoras. É por aí que segue praticamente toda a pequena bibliografia sobre o assunto, a

maioria versando sobre o rádio.

Este trabalho busca superar essa conceituação, por considerar o modo funcionalista

insuficiente para compreender a realidade, sendo, por conseguinte, também insuficiente

identificar na programação um mero planejamento de conteúdos. Primeiro, porque os

planejamentos são formas culturais e políticas de racionalidade que não podem ser ingenuamente

observadas à parte dos contextos e da lógica em que estão inseridas. Segundo, porque os

conteúdos veiculados pelas emissoras de rádio e televisão constituem expressões de complexas

relações sociais, que é necessário estudar, para perceber o que significam. E terceiro, porque a

mera justaposição de nomes de programas e inserções num papel não é ainda o ato da

comunicação em si, este sim, expresso pela veiculação propriamente dita, cuja característica

fundamental é a natureza discursiva, processual e vivencial da própria emissora em

funcionamento, impossível de ser expressa na grade programática.

A superação do funcionalismo aqui referida, entretanto, não pretende negar que a

programação, no seu aspecto formal, seja vista e utilizada pelos profissionais de comunicação

como instrumental básico de planejamento e organização dos conteúdos a serem veiculados. A

lógica empresarial e profissional é funcionalista por natureza, e, assim, não possui o interesse

imediato de ser diferente, pelas vinculações ideológicas do modo capitalista de produção,

ocasionando uma submissão do público ao privado. Por tal caminho, cria-se a fantasia de que a

programação é apenas um plano administrativo de veiculações, abandonando-se,

deliberadamente ou não, o interesse pelo conhecimento e a discussão das lógicas, estratégias e

negociações políticas que redundam no que consiste a programação de fato: os conteúdos e

formas efetivamente transmitidos e ressignificados na veiculação periódica das emissoras.

O primeiro e principal desafio teórico, portanto, passa a ser o de superar o conceito

funcionalista, e, em seguida, construir um outro capaz de trabalhar o objeto sem o reducionismo

que o caracteriza, compreender a sua posição dentro do contexto social e político e possibilitar

uma postura crítica diante dele. Eis o esforço que se busca desenvolver nesta Dissertação.