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PARTE I O VÔO E A VALIDADE

2. POSTURA METODOLÓGICA

2.1 O duplo objeto: um modo de conexão entre teoria e prática

O procedimento usual em metodologia é a escolha do objeto, que pode ser teórico ou

sentido de revisar-lhe a bibliografia e proceder à investigação empírica. Os relatórios de

pesquisa, ao final desse procedimento, são constituídos pela exposição do “estado da arte” do conhecimento a respeito do objeto e, depois, pela exposição e a análise dos dados. Não é

incomum, contudo, nesses casos, ocorrer pelo menos um, de dois equívocos: primeiro, a

leitura empírica ser condicionada pelo modelo teórico, de forma que o pesquisador faça

escolhas tais que os critérios de relevância obriguem ao objeto “vestir” o modelo. Essa prática é típica no âmbito das ciências naturais, especialmente nas replicações quantitativistas de

experiências em laboratório, quando praticamente desaparece toda e qualquer discussão sobre

a validade e as possibilidades do método, que é tido como dado, pelo pesquisador. Nas

ciências humanas e sociais, esse problema aparece na forma das crenças do pesquisador, que

condicionam de forma irremediável a escolha dos dados considerados relevantes para a

produção do conhecimento a respeito do objeto. E, o segundo equívoco é o da construção da

teoria desconectada com a apropriação empírica, procedimento compreensivelmente usual nas

dissertações filosóficas, dentro das quais os textos são produzidos na perspectiva de diálogos

intertextuais. O primeiro equívoco revela uma pretensão totalizante do discurso teórico, ao se

buscar uma adequação forçada ou o que, num olhar a partir de Alain Badiou, um forçamento

excessivo, cujo caráter dogmático engendra o fracasso da jornada científica. E, o segundo

equívoco, revela uma apropriação elitista e elocubradora da argumentação científica — que,

no entanto, não deixa de ter seu valor, desde que não desvalorize as condições empíricas

(sociais, culturais, etc.) de produção do discurso sobre o objeto.

Tais distorções são comumente discutidas por metodólogos e epistemólogos, os quais,

não raro, propõem o exercício da reflexividade ou da auto-reflexão do cientista, como forma,

senão de anular o problema, ao menos de amainá-lo ou, ainda, torná-lo tão explícito quanto

possível. Tal é, por exemplo, o sentido da “vigilância epistemológica” de que fala Bachelard. Esse, também, é o propósito da defesa de uma “sociologia da sociologia”, por Pierre

Bourdieu. A postura reflexiva do pesquisador é bem aquela, revelada por Boaventura Santos,

de que (1989, p. 84) “num mundo sem heróis, declarar a fraqueza não é sinal de fraqueza”. Entretanto, é o próprio Boaventura quem faz duras críticas à reflexividade.

Segundo este autor, há duas orientações reflexivas: a subjetivista, que questiona o

sujeito epistêmico em confronto com o sujeito empírico; e a objetivista, que questiona o

sujeito epistêmico na sua prática científica e os instrumentos metodológicos e analíticos. A

linha subjetivista tem o defeito de pressupor que o cientista tem uma capacidade de auto-

transparência, de auto-conhecimento, de auto-desvelamento, e que, a tarefa de explicitação de

valores e premissas ideológicas constitui um acréscimo de objetividade. Boaventura

argumenta que tais pressupostos são idealistas, pois o treino profissional não dá aptidão para o

auto-desvelamento e a explicitação constitui um comportamento estratégico (é sempre feita

contra a implicitação de outrem) e tem sempre como premissa (não explicitada) o

desvelamento que se pretende suscitar nos outros. Segundo o autor português, a reflexividade

não produziu impacto na investigação, servindo apenas para a pacificação de consciências, a

catarse, e só.

Já a linha objetivista questiona instrumentos teóricos e metodológicos, reconhece os

limites à aspiração profética do sociólogo, critica o contexto institucional da sociologia e

propõe a reflexividade como uma espécie de profissão de fé na ciência, numa sociedade que

nunca produz ignorância ao acaso. “A ambição de fazer uma ciência da crença pressupõe uma crença na ciência”, afirma Boaventura Santos (1989, p. 93). Segundo ele, o problema desse modelo de reflexividade está na sua circularidade, isto é, no fato de esperar que a crítica dos

instrumentos seja possível apesar de estar sendo feita com esses mesmos instrumentos, usados

acriticamente.

A postura de Boaventura Santos é razoável. Para ele, a limitação das linhas objetivista

não na ciência, enquanto prática social privilegiada, produtora de conhecimentos socialmente

privilegiados. Nesse sentido, a reflexividade seria uma expressão teórica da ambigüidade que

representa o fim do consenso positivista e sua principal conseqüência epistemológica, que foi

criar um campo para a obsessão do método. A vantagem da reflexividade foi, nesse caso, ter

humanizado o processo científico, isto é, tornado claro que os cientistas são seres humanos, e

tão seres humanos quanto são aqueles sobre os quais eles refletem, o que revela um dos

aspectos mais interessantes da complexidade da ciência.

O que Boaventura Santos faz, no entanto, não é outra coisa, senão reflexividade. O

debate epistemológico, indiscutivelmente, é um debate tipicamente reflexivo, pelo seu teor

metateórico. É útil chamar a atenção, neste ponto, para a questão da reflexividade, a fim de

apresentar, ainda que en passant, um terceiro sentido para este conceito, importante para o

posicionamento metodológico adotado neste trabalho. Trata-se do conceito de reflexividade

trabalhado por Anthony Giddens, Ulrich Beck e Scoth Lash, em Modernização Reflexiva, e

que supera esse conceito de reflexividade como reflexão, passando a considerá-la como o

movimento cotidiano de desdobramento da realidade sobre si mesma, no processo gerador do

novo, do evento.

Aplicado ao debate metodológico, a proposição deste trabalho é de que a pesquisa se

vincule sempre a um duplo objeto, fazendo convergir reflexivamente um sobre o outro, numa

abordagem fundada na consciência prévia de sua incompletude irremediável. Dentro de nossa

proposição, seriam dois objetos, sendo sempre um marcadamente teórico e outro, empírico.

Assim, o trabalho sobre o objeto teórico seria a busca da rediscussão contínua da teoria, e não

apenas a ratificação de escolhas do pesquisador (numa visão voluntarista), em função das

necessidades interpretativas do objeto empírico. Isso traria a vantagem de conferir a

necessária dignidade à construção teórica, à intertextualidade dos textos científicos. E, por

construtora do conhecimento, junto daqueles cuja atividade não está prioritária ou

sistematicamente voltada para esse sentido. O elo de ligação entre os dois objetos seria,

justamente, o movimento reflexivo capaz de fazer um dobrar-se ante o outro, resultando daí

no evento científico, o conhecimento novo.

A principal vantagem desse procedimento seria a de conectar de maneira interna e

intensa os saberes teórico e prático, dando-lhes consistência metodológica, por meio da

transformação das categorias da teoria e da prática, elas próprias, até então foi consideradas

meros aspectos de abordagem, em objetos de pesquisa.

Esta Dissertação trabalha dentro dessa perspectiva. Dois são os objetos deste trabalho:

um objeto teórico, consubstanciado na busca por uma teoria intersubjetivista e

fenomenológica da comunicação; e um objeto empírico, representado pela busca do

entendimento das políticas de programação de rádio e televisão. Os resultados desse

tentâmen, no entanto, sofrem os problemas da natureza transitória de uma Dissertação de

Mestrado, preparada como um encaminhamento para a continuidade dos estudos em uma

futura Tese de Doutorado. Tal é a razão fundamental pela qual o objetivo teórico esboçado

apenas se inicia e a avaliação empírica se apresenta na ausência de seu mais complexo agente:

o público “receptor”.

O estudo teórico se concentra nos conceitos de esfera pública e ação comunicativa em

Habermas, em meio a algumas propostas ainda hipotéticas de ampliação conceitual, a fim de

buscar solução a problemas empiricamente percebidos nas programações estudadas. E, a

abordagem do objeto empírico se dá dentro dessas condições de juízo teórico, movimentando-

se no sentido de superar, o quanto possível e, quase sempre, de forma parcial, isto é, adotando

parcialmente as abordagens tradicionais acerca das programações, e sempre buscando

combinar um olhar intersubjetivista, que as perceba como relações sociais de construção de

perspectiva de incompletude, que implique a desistência de qualquer pretensão totalizante ou

definitiva para o(s) modelo(s) apresentado(s). Dentro desse modo de pensar, a Dissertação

procurará apresentar, a todo tempo, uma discussão teórica que se debruce sobre o empírico, e

um debate empírico que ressalte o seu valor teórico, rompendo, nesse sentido, com a divisão

positivista de uns capítulos ou lugares para a revisão da teoria e outros, para os relatos de

pesquisa. A proposta é combinar ambos os aspectos numa apropriação de sentidos que

possibilite o permanente diálogo, uma vez que o trabalho, durante todo o tempo, está centrado

em dois objetos distintos, porém inter-relacionados e, mais ainda, reflexivos, isto é,

interatuantes.