3. A EXPOSIÇÃO DO PATRIMÔNIO URBANO
3.1. O processo de midiatização do patrimônio urbano
3.1.2 A mise en exposition do objeto patrimonializado
No curso das últimas décadas, a paisagem urbana tem sido marcada por diferentes estratégias de ordem estética. Ocorre, sobretudo, pela reconstituição da paisagem remanescente, acentuando alguns aspectos julgados relevantes visando principalmente a se apresentarem mais atraentes. Nos centros históricos o ato de patrimonializar coloca em destaque a construção social do patrimônio urbano, expondo as marcas de sua história através de novas formas de valorização evocadas pela apropriação e consumo. Por essa perspectiva, o patrimônio urbano não é apenas um conjunto de objetos que compõem seu quadro edificado, mas é também um conjunto de ícones postos no cenário urbano que durante muito tempo esteve encoberto pelo descaso e pelo esquecimento.
Com base em Davallon (2000), entendemos que o processo de mise en exposition é a operação de criar um espaço de midiatização entre o visitante e os objetos, de modo a constituir um ambiente cognitivo organizado. Encontra-se acompanhada de uma intencionalidade de entendimento, descoberta e
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conhecimento. Não se limita à apresentação de um objeto semiótico estandardizado, resultado de um conjunto de operações técnicas. Segundo Davallon (2006, p. 38), deve-se levar em conta que:
Tandis que la mise en communication traduit la volonté d’offre un service de visite, la mise en exposition propose au visiteur un dispositif de présentation destiné à régler sa relation à l’objet, à régler la visite.
La stratégie communicationnelle vise à optimiser la présentation de l’objet: le site ou le monument devient un lieu ‘aménagé’ pour le visiteur’, un espace pensé, traité et construit en vue d’une visite et non plus un lieu visitable ‘naturellement’.
Sob esse enfoque, a mise en exposition envolve vários processos na apresentação do objeto patrimonial no intuito de torná-lo (re)conhecível, pois, embora vistos por muitos, nem sempre são percebidos. A transformação do espaço urbano em patrimônio supõe a articulação entre a mise en scène de um passado e a produção de uma identificação urbana de centro histórico, em termos de localização, delimitação, qualificação, etc. Nessa perspectiva, a patrimonialização revela uma organização de iconografias cuja tônica recai sobre a recriação do ambiente histórico. Segundo Davallon (2006, p. 39), a mise en exposition compreende:
[...] une réhabilitation, un traitement architectural ou urbanistique différent, la mise en place de panneaux de présentation suffisent à introduire une séparation entre ce qui est ‘mise en valeur’ et ce qui ne l’est pas, ce qui est patrimoine et ce qui reste le tissu urbain ou passager ordinaire.
Essa definição coloca em destaque as particularidades do patrimônio urbano pertencente a um universo em particular. Uma realidade sígnica na qual a mise en scène é resultado de uma construção semiótica daquilo que se percebe como pertencente ao mundo de origem do objeto patrimonial. Dessa forma, estamos diante da estetização do espaço urbano, contexto em que a exposição como veículo de comunicação transmite o significado do objeto por meio de um estilismo deliberado do lugar, e passa por uma reinterpretação
acompanhada do processo de valorização. Segundo Gravari-Barbas (2000), essa estetização tende a priorizar excessivamente a qualidade formal, abrangendo processos de patrimonialização dos menos ambiciosos até os mais espetaculares. Com efeito, segundo a autora, o termo estetização corresponde:
[...] d’une part des actions de mise en valeur de la ville, actions qui visent à la rendre plus attrayante, moins agressive au regard, plus
« conforme »; d’autre part des actions qui visent à lui donner une certaine lisibilité, de la rendre plus « facile » à aborder et à comprendre (Gravari-Barbas, 2000, p. 225).
O acesso ao passado pelos dispositivos de mise en exposition procura manter a coerência e a legibilidade do espaço urbano patrimonial, atribuindo ao mesmo tempo um valor de uso e um valor museal. Nota-se, assim, que a implantação de um percurso de visita representa um modo de atrelar espaço e tempo, objetos e visitantes. A construção da significação se apoia sobre a visita ao espaço sintético que parece conservar experiências que ali se passaram (Flon, 2012). Enquanto isso, sendo a comunicação fundamental para viabilizar a construção simbólica e a troca de experiência, impactou a abordagem midiática sobre a questão patrimonial. Como uma ação estratégica, Davallon (2006, p. 40) atribuiu a designação concept de médiatisation:
[...] ce concept incorpore les différentes contraintes, sert de fil conducteur aux actions, assure l’unité du projet comme celle des outils dans l’objetif de produire un certain effet sur le visiteur au cours de la visite et de lui offrir une certaine image du site ou du monument.
Dessa forma, o processo de patrimonialização procura validar a identidade do lugar destacando características específicas. Ao procurar readaptar o espaço urbano a novas situações, recorre-se muitas vezes à adoção de efeitos estéticos como o design e a iluminação. Dessa maneira, busca-se a diferenciação, mesmo incorrendo no risco da monumentalização excessiva, na crença de que a visibilidade seja garantia de sucesso do marketing urbano.
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Com efeito, a midiatização consiste em conceder visibilidade à readaptação de núcleos urbanos antigos aos indivíduos no cotidiano. Apoia a criação de novas identidades relacionadas ao mercado de consumo, algo que deve compor-se como um atrativo. Nesse sentido, Davallon (2006) reconhece a existência de um tipo de présentation-média, que, primeiramente, concentra-se em uma ordem de temporalidade entre o passado do objeto patrimonial e o público no presente. Propõe trazer o passado de volta à vida de modo espetacular, como se fosse um déjà vu, que se caracteriza por uma autêntica estratégia de apresentação do objeto patrimonial. Conforme o autor, as transformações pela présentation-média conferem singularidade ao objeto patrimonial como detentor de intensa carga simbólica. A experiência comunicativa pelos dispositivos midiáticos permite a proliferação de imagens, tendo sido sua dimensão simbólica potencializada pela espetacularização.
Com frequência a midiatização é utilizada na atração de público para as áreas históricas no intuito de estimular a visitação e consumo do espaço.
Segundo Peixoto (2006), procura-se fazer transparecer uma imagem de lugares exemplares que fazem parte dos interesses da comunidade. “Ou seja, a capacidade em criar e manter lugares de centralidade que possam ser propostos aos locais e aos estranhos como lugares a admirar e a venerar” (p. 253). Por sua vez, a crítica à espetacularização do real diz que esta não oblitera o mundo vivido, pois ele se encontra para além do espetáculo.
Todavia, cumpre lembrar que a exposição do patrimônio compreende uma experiência de tempo relativa ao passado (Flon, 2012), a partir da sistematização das principais variáveis de sua imagem. De acordo com Greffe, a mise en scène do patrimônio toma corpo a partir daquilo que “[...] Riegl qualifiait de passage du culte ancien au culte moderne: dans le premier cas c’est le monument qui donne son sens au monde; dans le second cas c’est le monde qui donne un sens au monument” (2014, p. 9). Por esse direcionamento, a mise en exposition do patrimônio urbano não trata da simples conservação dos traços do passado, mas de seu funcionamento como dispositivo simbólico. Compreendendo que a patrimonialização do espaço urbano não é fruto de uma transformação que se processa de modo gradual, sua comunicação é conduzida pela tradução do discurso técnico-científico ao qual o espaço foi submetido.
Como tem sido argumentado por Jeudy (2005, pp. 19-20), “o processo de reflexividade que incita toda estratégia patrimonial consiste em promover a visibilidade pública dos objetos, dos locais, dos relatos fundadores da estrutura simbólica de uma sociedade”. Independentemente dos interesses que há por trás da preservação da herança do passado, a midiatização e a exploração comercial são atividades que, por uma aproximação singular, são utilizadas para comunicar o patrimônio urbano. Na construção de uma relação individual e coletiva com os públicos, a midiatização e a comercialização se encontram implícitas nos discursos dos especialistas.